Esta semana, o presidente do Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES), desembargador Pedro Valls Feu Rosa, devolveu uma denúncia ao Ministério Público Estadual (MPES) sobre o escândalo desbaratado a partir de Presidente Kennedy (litoral sul do Estado) e que tem abrangência estadual. Os membros do MPES preferiram restringir a situação ao município, o que não foi aceito pela Corte. Entre os desembargadores, a decisão do presidente do Tribunal causou uma grande repercussão. Aqueles que não fazem parte de um sistema de poder que guindou o Tribunal ao arranjo institucional do governo passado, sentiram-se de alma lavada. É o que dizem. Natural. Afinal de contas, durante uma década a Corte teve que se submeter aos desígnios do Palácio Anchieta ou a um sistema de corrupção que imperava dentro do Tribunal. Os desembargadores ficaram entre a cruz e a espada durante muito tempo e não havia quem salvasse a Justiça. Pelo jeito, a coisa mudou. A democracia garante para o bom funcionamento do Estado a independência entre os poderes. A Justiça deve fazer seu papel doa a quem doer, do mais humilde trabalhador da cadeia produtiva ao governador do Estado, se preciso. Dentro do arranjo que imperou no Estado, o que o Ministério Público denunciava era o que deveria ser julgado e ponto. Foi assim que o então vice-governador Ricardo Ferraço (PMDB) foi excluído do processo que apurava fraudes no contrato do seguro predial da Assembleia Legislativa, que começou com Valci Ferreira, foi prorrogado por Marcos Madureira e ganhou um aditivo na gestão de Ricardo Ferraço. Mas o Ministério Público ignorou o fato de ele ter sido presidente da Assembleia antes de José Carlos Gratz. Mas esse foi só um episódio. De um outro jeito, com outros interesses e de uma forma nada jeitosa, o presidente da Assembleia Legislativa, Theodorico Ferraço (DEM), também tirou a Casa do arranjo. Defendendo seus interesses futuros, enfrentou o governo e criou condições para que os deputados estaduais levantassem a cabeça e pudessem negociar com o governo em um outro nível. Faltam algumas peças desse arranjo entenderem que os tempos são outros e que proteger um castelo de cartas que está caindo não é uma boa ideia.
Mondragón ???comprou??? ONG com 10 cheques sem fundos
Desde que largou a batina de frei, e junto com ela os juramentos religiosos – sobretudo o voto de pobreza -, o diretor-executivo da Associação Capixaba de Desenvolvimento e Inclusão Social (Acadis), Gerardo Mondragón, provou que a ambição humana, muitas vezes, não tem limite. Após deixar a carreira religiosa, em 2006, o ex-frei passou a ser tentado pelos pecados da carne. Na vida entre os homens, o colombiano mostrou que estava disposto a fazer qualquer coisa para conquistar fama, poder e dinheiro. Com a ajuda de Silvana Gallina conseguiu os três, mas queria mais. Há pouco mais de uma semana, porém, ele viu seus planos ruírem. Mondragón foi preso, junto com mais 12 pessoas, suspeito de envolvimento num esquema de corrupção nos contratos firmados entre a Acadis e o Instituto de Atendimento Socioeducativo do Espírito Santo, comandado por Silvana Gallina, que também continua detida. Na esteira das irregularidades que cometeu para se tornar um homem poderoso e rico, Mondrágon “comprou” uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip), o Inbradese – Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Social e Educacional. A primeira irregularidade cometida por Mondragón nessa transação está no fato de ser ilegal comprar ou vender uma organização sem fins lucrativos, como ele mesmo explica. A segunda é que o colombiano “pagou” o “dono” da organização com dez cheques sem fundos. Insatisfeito com o “calote”, um conhecido de Mondragón, que intermediava a negociação, exige o pagamento da dívida. Acompanhe as mensagens de e-mail, de setembro de 2009, trocadas entre os dois. Omitimos os nomes dos personagens que aparecem nas mensagens. Intermediador: “Gerardo, imagine um brasileiro ir a colombia e sacanear os colombianos??? Imaginou?? Conheci um colombiano que vive fazendo isso com os brasileiros O (…) tem 10 cheques que vc deu pra pagar os ativos do INBRADESE que hoje vc usa como sendo sua.. e nenhum cheque que voce deu compensou… o pior que depois de varios anos esse seu rolo sobra pra eu pagar.. como seu eu tivesse alguma coisa com vc. Gostaria de saber como o (…) faz para receber o que vc deve a ele com os juros que o cara ta cobrando que é o minimo que um homem de PALAVRA pode fazer. Me revolta em saber que vc adora sacanear a galera tanto do Brasil como seus compatriotas. Acredito eu que a propria congregação [Amigonianos] tenha sofrido com a sua falta de caráter… Mais pode ter certeza que esse mundo da muitas voltas. Segue meus telefones de contato caso vc não se manifeste para o pagamento dos 10 cheques dado por você para o Daniel todos sem fundo.. Aqui no Brasil chamamos isso de estelionato a emissão premeditada de cheques sem provisão de fundos…não sei como vc chama em seu país”, finaliza o intermediador. Mondragón se irrita com a cobrança, e alega que teve muitos gastos com o Inbradese. Ironicamente, ele lembra ao cobrador que é ilegal vender uma organização sem fins lucrativos, dando a entender que não vai saldar a dívida. Mondragón: “Eu paguei o que deveria ter pago, estou pagando juros de algo que não estou utilizando e ainda mais deve estar fechada porque não fiz nenhum negocio com ela. Quando vcs passaram estava com muitas dividas de juros ale´m dos juros que (…) pagou, neste momento ainda devo pagar mais. Não estou sacaneando a ninguem, nem a (…). e muito menos a (…), dei trabalho para eles e vc vai ver quem são os sacanas. Depois de 5 anos vc vem a encher meu saco, porque? ta pensando que trabalho com essa ong. Estou mais para que vcs me deem trabalho cara, meu slario da só para pagar meu aluguel. Entra na justiça, por acaso vc não sabe que ongs não se vendem? elas são sem fins lucrativos. Nenhuma ONG é de propriedade privada de uma pessoa, ela esta cosntituida segundo estatuto social por membros e estes membros não tem poder sobre a mesma”, explicou o ex-frei. Apesar do currículo pouco confiável da Oscip, o Iases promoveu, inclusive com dinheiro público, uma série de eventos em parceria com o Inbradese. Veja uma das chamadas publicadas no Diário Oficial do Estado em 2011: “O Instituto de Atendimento Sócio-Educativo do Espírito Santo (Iases) está apoiando a realização do II Seminário Estadual do Projeto “Adolescência Sem Grades” (Niñez Sin Rejas), sobre o tema “Justiça Restaurativa’” que será realizado nos dias 18 e 19 de novembro, pelo Instituto de Desenvolvimento Social e Educacional (Inbradese). O evento acontecerá no auditório da ArcelorMittal Tubarão, no município da Serra, e já está com as inscrições abertas, que podem ser realizadas gratuitamente no site da Inbradese (www.inbradese.org.br)”. Na última terça-feira (21), quando a reportagens estava trabalhando nas informações finais desta matéria, ainda era possível navegar no sítio do Inbradese (acima). Havia muitas informações e fotos de Gerardo Mondragón e Silvana Gallina provendo eventos em nome da organização comprada com cheques sem fundos. Estranhamente, não sabemos por que motivo, o site foi retirado do ar. Inclusive todos os links que davam acesso às informações relativas a Mondragón e Gallina foram “quebrados”. Para conferir, basta colocar o nome de Silvana Gallina ou Mondragón e Inbradese. As matérias aparecem no “cash” do Google, mas não podem ser mais acessadas. Isto nos faz suspeitar que há pessoas incumbidas de “apagar” indícios que comprovem a ligação entre Silvana Gallina e Gerardo Mondragón. Isso tudo em pleno curso da Operação Pixote, que investiga o escândalo no Iases. O delegado Rodolfo Laterza, que comanda a operação, pediu a prisão preventiva dos dois justamente para que as investigações não sofressem interferência.
Papo de RepórterApesar de resistências, arranjo de Hartung começa a ruir
José Rabelo e Renata Oliveira A rejeição do presidente do Tribunal de Justiça, Pedro Valls Feu Rosa, a uma ação do Ministério Público, teve um peso simbólico muito forte: foi um golpe mortal no arranjo institucional que blindou o governo Paulo Hartung. José Rabelo – Nessa quarta-feira (22), o presidente do Tribunal de Justiça, desembargador Pedro Valls Feu Rosa, protagonizou um episódio histórico. Devolveu ao Ministério Público a ação relativa à “Operação Lee Oswald”. O que nacionalmente parece ser uma ação corriqueira, para o Espírito Santo tem um simbolismo muito grande. Mais uma vez, o Ministério Público atuou no sentido de proteger algumas figuras envolvidas no escândalo e tentou restringir a ação aos acontecimentos em Presidente Kennedy (litoral sul do Estado), envolvendo apenas os chamados peixes pequenos. Mas o desembargador não aceitou essas manobra e pediu a lista completa. Ou seja, ele queria o nome dos chefões do esquema de corrupção, que na verdade foi montado a partir de Kennedy, mas tem abrangência estadual. Renata – Em outras palavras, mais uma vez, como fez durante a última década, o Ministério Público tentou blindar o grupo do ex-governador Paulo Hartung (PMDB). Durante seu governo, Hartung criou o nefasto arranjo institucional, que colocou sob sua bota todas as instituições do Estado, protegendo os seus e perseguindo os adversários. O governo mudou, Casagrande estabeleceu um novo jeito de dialogar com as instituições, mas parece que alguns braços desse arranjo insistem em manter o modelo antigo. José Rabelo – O grande simbolismo desse episódio residiu no fato de o ex-chefe do Ministério Público Fernando Zardini e atual procurador especial estar na sessão representando o órgão. Zardini, como todos sabem, foi um dos principais aliados de Hartung dentro desse arranjo. E foi logo ele que recebeu o duro golpe do desembargador. À medida que Pedro Valls listava os argumentos para justificar a recusa da ação, Zardini, provavelmente, devia estar se encolhendo na cadeira. Desnorteado, após tudo que ouviu, ele ainda tentou, numa atitude desesperada, alegar que as investigações ainda não estavam concluídas e que a lista dos denunciados poderia ser ampliada. Mas nada disso convenceu o desembargador, que no linguajar popular, deu o chamado “prá trás” no ex-chefe do MPES. Renata – O que fica claro nessa história é que Pedro Valls chega à presidência do Tribunal de Justiça com a meta de reerguer aquela Corte. O TJES, todo mundo lembra, foi alvo de um duro golpe em uma imagem que conservava de integridade e idoneidade, que caíram por terra após a “Operação Naufrágio”. Mas o esquema de corrupção e nepotismo desbaratados pela Polícia Federal, mostrou apenas uma das faces podres do Judiciário. Dentro daquela Corte, um sistema de poder muito forte colocou parte dos desembargadores a serviço de um sistema político cruel. A medida de Pedro Valls fez com que alguns de seus colegas, aqueles que não participavam do esquema, mas que não tinham condições de lutar contra ele, pudessem levantar a cabeça. Fez também com que a sociedade começasse a acreditar que as coisas estão mudando. Que hoje não há medo ou subserviência. José Rabelo – Pelos comentários dos leitores de Século Diário que acompanharam a cobertura do episódio, deu para perceber exatamente isso. O sentimento das pessoas era de que o Tribunal de Justiça voltava a exercer o papel à altura de sua importância. Ou seja, de defender os interesses da sociedade. Aos poucos, porque já se passaram quase dois anos do final do governo anterior, algumas partes desse arranjo começam a demonstrar fadiga… Renata – Mas isso se deu apenas porque em algumas dessas instituições personagens fortes assumiram o comando e, evidentemente, porque o cérebro desse arranjo já não detém o poder. Mesmo nas partes do arranjo em que a influência do ex-governador ainda é forte, pela presença de seus emissários, esses agentes não têm mais a força de antes para manter o sistema vivo, sem o respaldo palaciano. Na planície, Hartung não tem condições de orquestrar seu sistema. Isso é evidente quando o presidente do Tribunal de Contas, Sebastião Carlos Ranna, é questionado sobre as contas do Instituto de Atendimento Socioeducativo do Estado (Iases). Ele traz uma justificativa evasiva para a paralisação da análise dos exercícios da gestão desde 2008. Em outro ambiente político, talvez Ranna sequer fosse questionado ou teria um outro nível de justificativa. É um sinal claro de que o sistema passava por todas as entidades ligadas ao poder e que o elo está sendo rompido. Bastou um dessas peças ser mexida, o TJ, para que o arranjo fosse desfeito. Isso mostra a fragilidade desse sistema. José Rabelo – Não é que o sistema seja frágil, mas Hartung criou um sistema personalista. Tudo estava centralizado na sua figura. Esse arranjo também dependia do poder que ele detinha como chefe do Executivo estadual. Quando perdeu o poder e voltou à planície, a influência diminuiu significativamente. Até os aliados de Hartung já perceberam isso. Outra coisa, esse arranjo não é transferível. É só dele. Mesmo que Casagrande se submetesse a isso, não teria condições de mantê-lo. Mesmo porque ele também não tem esse perfil. Acredito que o ex-governador tenha se surpreendido com isso, porque criou um arranjo que parecia tão sólido e que funcionaria à distância, o que não aconteceu. Deteriorou muito rápido. Renata – Daí essa movimentação dele na eleição deste ano. Estando no jogo político, Hartung tem como criar mecanismos de proteção, serve como um preventivo ao que pode estar por vir. Quando poderíamos imaginar Hartung caminhando com um candidato que está em desvantagem na disputa eleitoral e pendido votos, enfrentando questionamentos sobre ter isolado um determinado político, como o que vem acontecendo em Vila Velha? Ele assume um risco muito grande ao subir no palanque de Roney Miranda (DEM), porque será questionado sobre o ponto mais frágil de seu governo, do ponto de vista administrativo, que é a segurança. José Rabelo – Uma coisa é certa. Com o iminente esvaziamento do arranjo, além do enfraquecimento político
Programa eleitoral contradiz falta de dinheiro em Vitória
No início deste mês, Século Diário publicou uma reportagem mostrando que as candidaturas, um mês depois do lançamento, ainda não tinham decolado. Isso porque os candidatos estavam tendo dificuldades em captar recursos de campanha. Com o início da propaganda eleitoral no rádio, e sobretudo na TV, dá para perceber que os candidatos devem ter encontrado mecanismos para captar esses recursos ou aumentar as dívidas apresentadas na primeira parcial da prestação de contas. A queda na arrecadação dos candidatos se deu porque as antigas financiadoras não estariam mais atuando no Estado e por isso não havia interesse em financiar as campanhas para prefeito e vereador este ano. Nas eleições da última década (as estaduais de 2002, 2006 e 2010 e as municipais de 2004 e 2008) estabeleceu-se uma estreita relação entre o governo estadual e as transnacionais fixadas em solo capixaba. Estas são sempre as mesmas: Vale, ArcelorMittal, Aracruz Celulose (Fibria) e Samarco Mineração. Outra leitura que se faz nos meios políticos é que o aumento da fiscalização da Justiça Eleitoral em relação ao uso dos recursos de campanha, fez com que os candidatos tomassem mais cuidado com os gastos. Mas a contratação das empresas de marketing eleitoral que trabalham com campanhas milionárias, a consulta do eleitorado com institutos de pesquisa de fora do Estado e a alta qualidade das produções mostram que dinheiro não está sendo problema nesta eleição, pelo menos na Capital. Financiamento público Enquanto os candidatos do chamado primeiro pelotão gastam fortunas em campanhas milionárias, outros amargam a falta de recursos. É o que acontece, por exemplo, dentro do PT, que em Vitória aposta suas fichas em uma propaganda muito bem produzida para a candidata Iriny Lopes, enquanto o candidato do partido em Vila Velha, o vereador João Batista Babá, sofre com a falta de recursos. Para tentar equilibrar a situação dos candidatos Brasil afora, o Senado discute desde o início da atual legislatura, em fevereiro de 2011, a adoção do financiamento exclusivamente público para as campanhas. A proposta faz parte da reforma política, que continua parada no Congresso Nacional. Seus defensores argumentam que, além de assegurar equilíbrio econômico entre os candidatos, o financiamento público servirá para deixar claro quem paga a conta, ou seja, tira os agentes políticos do controle das grandes empresas. Há também a crença de que o modelo de financiamento apenas público poderá ser um golpe no uso de “caixa dois” nas campanhas, mecanismo pelo qual contribuintes privados, normalmente empresas, fazem doações não registradas e com recursos de fontes muitas vezes não declaradas à própria Receita Federal. Fala-se de financiamento exclusivo porque o atual modelo já é parcialmente financiado com recursos públicos, com dinheiro do fundo partidário e, ainda, pela garantia de horário eleitoral gratuito nas emissoras privadas de rádio e televisão. O PLS 268/2011 proíbe os partidos políticos e candidatos de receberem doações em dinheiro ou estimáveis em dinheiro oriundas de pessoas físicas e jurídicas. Os recursos para as campanhas sairiam de fundo administrado pela Justiça Eleitoral, que para isso deverá receber em ano de campanha transferência orçamentária à base de R$ 7,00 por eleitor inscrito.
Assembleia Legislativa continua sendo patinho feio do arranjo institucional
Embora o governo do Estado pregue a ideia de que nunca houve um rompimento no diálogo entre o Executivo e a Assembleia, há uma evidente diferença no tratamento das demais instituições para com o Legislativo. A insistência do governo do Estado em não pagar a dívida de R$ 120 milhões, relativa ao retroativo dos 11.98% com os servidores da Casa, é um exemplo de que a Assembleia continua sendo o patinho feio do arranjo institucional do Estado. O valor é alto, mas os servidores em vários momentos já afirmaram que aceitariam negociar a dívida. A solução poderia vir em forma de suplementações orçamentárias, uma prática que o governo do Estado mantém com os demais poderes. Em 2011, por exemplo, o Tribunal de Justiça do Estado (TJES) conseguiu R$ 19 milhões extras no orçamento de R$ 686 milhões. Já o Ministério Público Estadual (MPES) conseguiu R$ 4,9 milhões a mais. A Assembleia Legislativa, que solicitou uma suplementação para reformar a fachada do prédio que está com várias pastilhas soltas há anos, não conseguiu os recursos e a reforma foi adiada. Para os servidores a transformação da dívida em precatório é um calote que trará um prejuízo enorme para quem luta pelo pagamento de um direito que os demais poderes do Estado já receberam. Isso porque, pela Emenda Constitucional 62/2009, o governo tem o direito de na negociação do pagamento abater 50% da dívida, o que para os servidores não é interessante. Para alguns servidores, a falta de isonomia no tratamento entre os poderes vem do fato do desgaste deste poder no início do governo passado. O que foi mantido por todo o governo Paulo Hartung (PMDB) e que cria na opinião pública uma ideia de que os servidores da Casa não merecem o pagamento do direito. Na Assembleia, porém, com exceção dos procuradores, que têm carreira jurídica, os demais não recebem altos salários. Nos bastidores da Casa, o comentário é de que o atual presidente, Theodorico Ferraço (DEM), já teria em caixa cerca de R$ 5 milhões que pretende usar para abater da dívida. O problema é que a Assembleia sofre com a falta de estrutura desgastada nas últimas gestões. Paralelo aos esforços da Mesa para tentar honrar uma proposta de campanha do presidente Theodorico, uma comissão de deputados vai tentar buscar com o governo do Estado uma saída negociada para a dívida.
O valor da instrução
No último final de semana, a exemplo do lenhador da fábula canadense (nunca soube se é verdadeira, mas a fábula é boa para a vida), parei tudo e voei para Florianópolis, a bela capital catarinense, em busca de instrução. Tem gente que pensa que ser instruído é ter muitos títulos acadêmicos. Isso é importante, mas não é tudo e nem é essencial, perdoem-me os partidários desse tipo de vida. Conheço muita gente bem formada que é, pessimamente, instruída. Por exemplo, no campo financeiro. O que nos ensinam desde cedo? A estudar, conseguir um diploma e um emprego. Isso é bom para os controladores do capital, nunca para quem almeja a prosperidade. E quando falo de prosperidade não falo somente, mas também do progresso econômico e financeiro. Porém, a ele se associam progressos intelectual, social-familiar, moral, físico, espiritual, emocional, dentre outras áreas da vida. Dizem que um sábio oriental filosofou (outros atribuem isso a um líder indígena): o homem ocidental passa a metade da vida gastando saúde para ganhar dinheiro e a outra metade gastando dinheiro para tentar recuperar a saúde. Evitar esse desequilíbrio na vida é o objetivo da boa instrução. Quando nos ensinaram a estudar para conseguir um diploma e um bom emprego, a sociedade reproduzia apenas um modelo que interessava muito a setores econômicos da sociedade. Hoje é muito comum encontrarmos jovens, que não se envergonham de ser chamados de concurseiros. Vivem fazendo um concurso para um cargo menor visando a continuar em busca do cargo acima até atingir o que chamam “topo da carreira”. Não se objetiva a função pública pelo que ela comporta: servir ao público. Não raro, visa-se a servir-se a si mesmo e se incluir no sistema de produção-consumo. Stephen Covey ensina que ganha mais dinheiro quem serve a mais pessoas. No serviço público, eu aviso, você não fica rico. Se ficar, com certeza foi por meios ilegais. No máximo, consegue uma situação confortável. E eu nunca ouvi falar que a zona de conforto seja o melhor lugar para se ficar. Não descarto que existam os que buscam uma situação mais confortável de onde possam servir à humanidade. A esses, louvo, mas não são maioria e nem são valorizados. Pelo contrário, são até chamados de otários pelos espertinhos. Os professores, por exemplo, que abrem as janelas para o conhecimento, deveriam ser a classe mais valorizada da sociedade e, no entanto, o que se vê? A propósito da fábula mencionada na abertura, conta-se que havia no Canadá um senhor já de avançada idade que era imbatível como lenhador. Um dia um jovem, desses marombados em academia, resolveu desafiá-lo. No dia da prova, ao ver o porte físico do velho lenhador, considerou que a competição estava no papo. Quando começou a disputa, o jovem “caiu matando”. Quando olhou, o lenhador estava sentado. Pensou: “já cansou”. Continuou batendo machado, olhou de novo… uma… duas… três… quatro vezes, e o velho lenhador estava sentado. Quando o juiz apitou o final da prova e foram cubar a madeira cortada, o monte do velho lenhador era o dobro do amontoado do jovem marombado. Com a arrogância própria desse tipo de caráter, o jovem esbravejou e logo falou que havia sido roubado. Por que? “Todas as vezes que olhei, ele estava descansando”. Com a sabedoria que somente o tempo confere, o velho lenhador, calmamente, respondeu: “Meu jovem, quando você me viu sentado, eu não estava descansando. Estava afiando o machado”. Devemos cuidar de nossas prioridades. Há tempo para tudo, como diz o Eclesiastes. Tempo de lenhar e tempo de afiar o machado. Em Florianópolis, fui afiar o machado. Ouvir a voz da sabedoria, aprender com a experiência dos outros e, sobretudo, descobrir um pouco mais de que existe sabedoria para além do que os nossos olhos físicos podem ver. Essa sabedoria, entretanto, somente pode ser alcançada com os olhos da mente. E o melhor é quando se pode ir em busca dessa experiência guiando amigos que creem no que não viram, mas que enxergam com os nossos olhos, assim como vemos com os olhos dos que nos ensinam. E, na vida, há sempre alguém disposto a ensinar quando há alguém pronto a aprender. José Caldas da Costa é jornalista, escritor, licenciado em Geografia. Escreve, como colaborador, neste espaço nos finais de semana. Contatos: caldasjornalista@gmail.com
Mais do mesmo
As declarações do procurador geral de Justiça, Eder Pontes (foto), ao jornal A Tribuna, depois do tiroteio do desembargador Pedro Valls Feu Rosa na direção do Ministério Público Estadual (MPES), não amenizam em nada a omissão do órgão no caso da “Operação Lee Oswald”. Eder repetiu o discurso inconsistente de seu antecessor Fernando Zardini, ao tentar justificar a inclusão de apenas peixes pequenos na lista dos denunciados do MPES, mas não passou nem perto de convencer. Falou, falou, e não disse nada. Até mesmo porque é quase impossível argumentar neste caso. Há evidências fortes que chegam ao aliado de primeira hora do Ministério Público, Paulo Hartung (PMDB). Mas Eder, o candidato de Zardini na eleição do MPES, não está interessado em mexer com isso. Há pouco tempo no cargo, já vai deixando a sua marca: o arranjo é o mesmo, só muda o comandante. Mais do mesmo II O problema do Ministério Público agora é ter um Pedro Valls na reta para encarar. E disposto a chegar ao topo da cadeia. Até onde o MPES sustenta sua embromação? Mais do mesmo III O que precisa ficar registrado nessa historia é que só existem duas respostas para a argumentação de Zardini e Eder Pontes, de que no decorrer da investigação o órgão pode arrolar novos nomes (conta outra!). Ou o órgão foi incompetente, ou mal-intencionado. A coluna fica com a segunda opção. Ensaiado Em entrevista esta semana para a TV Gazeta de Colatina, o deputado estadual Da Vitória (PDT) resolveu atacar de Ângelo Roncalli e dizer que recebeu com surpresa a operação policial que desvelou o escândalo no Instituto de Atendimento Socioeducativo do Estado (Iases). E foi ainda mais longe: quer direito de resposta, pois alega que até agora não tem conhecimento dos fatos. Muito convincente, hein? Ensaiado II Aliás, o pedetista, candidato à prefeitura, não arreda o pé de ficar nessa alegação de que a questão é de cunho político. Chega a ser cômico. Nem pro cheiro Durou realmente muito pouco o aceno de paz entre os candidatos a prefeito na Capital do Estado. Embate PSDB x PT promete ser a tônica da campanha. Os tucanos já deram o primeiro passo, daqui a pouco tem réplica, tréplica, e assim por diante. Menos, menos… Que o subsecretário de Estado da Casa Civil, Sargento Valter (PSB), é o prefeito Sérgio Vidigal (PDT) na cabeça todo mundo sabe. Mas daí a falar em nome do governador Renato Casagrande, pedindo votos ao pedetista, já são outros quinhentos. O partido do governador tem candidato na Serra e é Audifax Barcelos. Circulando Ligado aos movimentos sociais de Vila Velha, o candidato a prefeito no município João Batista Babá (PT), participa de seminário com as entidades que deram uma sacudida no Plano Diretor Municipal (PDM). Foco é exatamente o meio ambiente. Sem fim E continuam a pipocar as irregularidades na gestão de Reginaldo Quinta (PTB) em Presidente Kennedy (litoral sul do Estado). Ele já não tem limite, reeleito então, vai fazer ainda mais estragos. Graças ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE-ES). 140 toques “Você pode escolher candidatos comprometidos com uma cidade mais sustentável. Recicle seu voto! #EuVotoSustentável”. (SOS Mata Atlântica – no Twitter). PENSAMENTO: “Talvez a política seja a única profissão para a qual pensem que não é necessário preparo”. Robert Louis Stevenson
Na terra dos anjos
Minha TV entrou em greve, só passa filme preto & branco, com seus muitos tons de cinza. Não que esteja com defeito, ou que ainda existam por aí os antigos aparelhos avessos a cores, extintos nesses tempos de Blu Rays. Apenas cheguei à conclusão de que os melhores filmes foram feitos antes do Technicolor, do Vistavision, do Panavision. Aderi a um canal que só passa filmes sem efeitos especiais e sem Angelina Jolie, filmes alugados por um dólar na máquinas automáticas dos supermercados, mas que em casa se vê de graça. Sem comerciais. Tempos idos, dos galãs esbanjando charme com um cigarro e um copo nas mãos, Quer um drink? Eles sempre queriam. Das divas temperamentais, da mulher fatal, da namoradinha de infância, dos olhos de Bette Davis. Mal a fama lhes bafejava a face, astros e estrelas iam imprimir mãos e pés na calçada da fama do Teatro Chinês em Los Angeles, diante da multidão que se acotovelava para vê-los. Alguns imprimiam a sola dos sapatos. Um ritual ridículo, não fosse pela aura de divindade que lhes pairava sobre os cabelos bem tratados. O máximo da glória para o artista; o máximo da tietagem para os fãs. Muitos desses grandes nomes dos filmes P & B hoje são poeira, mas mãos, pés ou solas ainda estão lá, para gáudio ou execração da leva de turistas que polui a paisagem californiana, generosa em atrações. Turistas vêm e vão, mas as imagens das extremidades desses artistas extintos lá estarão para sempre, ou até que o Big One, o esperado e temido grande terremoto que será o último, os nivele ao cidadão comum. Ver essa fauna hollywoodiana nas telas dos cinemas tupiniquins era um grande avanço tecnológico, mas televisão era um sonho inalcançável. Nos filmes, porém, todas as casas tinham uma, e a gente achava que era truque de filmagem. Nossa única conexão com a vida real desses anjos irreais era através da revista A Cena Muda, que mesmo calada, contava tudo. Hoje os fanzines sabem da vida e dos segredos dos mitos da moda, e vão lá conferir. Fazem parte da paisagem da cidade dos anjos, facilmente reconhecíveis pelas máquinas fotográficas e pelo mapa das mansões dos famosos, vendidos em toda esquina. Aqui morou Mickey Rooney, a mãe localiza no mapa. Quem é Mickey Rooney? pergunta o filho que só quer saber onde moram Dora e Diego. A pé ou de bonde, lá vão eles clicando tudo que veem, na esperança de captar por acaso algum rosto conhecido que distraidamente se revele na janela de uma Ferrari ou de um Rolls Royce parado no sinal. Mesmo com vidros fumê. Se em todo lugar os turistas viraram a esperança de recuperação de glórias extintas, Los Angeles tem cartazes afixados pra todo lado gritando, Turista, vai pra casa!
Análise: O Ditador
Produções estadunidenses, mesmo quando querem criticar seus próprios defeitos, criam e repetem outros, entrando assim numa eterna crítica de si mesma (talvez este seja um novo nicho de mercado – a crítica da crítica). Quando o gordinho Michel Moore resolve enfrentar os rifles, o sistema de saúde ou o ex-presidente, cria uma linguagem antipática, própria dos que se definem como donos do mundo, ampliando assim os que estão contra tais táticas. O mesmo se pode dizer dos Simpsons, South Park ou qualquer série nova que usa da ironia (não serão todas as séries atuais?) para criticar o sistema e chamar assim atenção sem propor uma nova fórmula para o problema. General Aladeen (Sacha Baron Cohen) enfrenta uma grande oposição em seu país, a República de Wadiya, que já sensibilizou a ONU para forçar o fim da ditadura no país. Aladeen tem agora que ir à sede da ONU acatar ou propor uma nova constituição. A analogia do Ditador com políticos que não se encontram no mesmo eixo dos EUA é nítida, desde a dedicatória ao presidente Coreano Kim Jong Il às gags dedicadas ao presidente do Irã Mahmoud Ahmadinejad (no cargo há somente sete anos). Mostrando uma extensa pesquisa nos meios de comunicação estadunidense, o filme expõe todas as teorias denigridoras da suposta democracia, contra às visões mais limítrofes da ditadura. Colocando todos os regimes (“dos EUA pra baixo tudo são árabes”) na mesma definição, alinhados com o eixo do terror (definição tão infantil e supérflua quanto à nação que criou a definição) e com as coisas vis do mundo. Sacha Baron Cohen é um ator medíocre que ultrapassa os limites da carreira e assume-se em cada personagem um típico cínico contemporâneo. Sem se importar com definições, valores ou tradições, rompe todas as regras a caminho do sucesso. Um típico Jackass. O filme é um besteirol do começo ao fim. Assim como seus filmes mais famosos (Borat, 2006; Bruno, 2008) utiliza os mesmos clichês cômicos para arrancar algum sorriso. Com tom didático e se necessário explicando as piadas machistas, etnocêntricas e racistas, permanece fiel ao seu estilo Hermes e Renato. A grande produção se vale de vários figurantes, locações esdrúxulas e uma direção de arte no mínimo custosa, tudo para se afogar num roteiro deficiente e com piadas somente baseadas na ironia. O lado visual também falho se enfraquece com uma atuação tão grandiloquente como didática. Uma câmera que insiste em realizar zooms e mover sem necessidade, não encontrando nada interessante ou útil a narrativa. Um filme ruim, mas que, devido ao sucesso sem pé nem cabeça do comediante Sacha, que também assina a direção e o roteiro, anda causando estardalhaço nas bilheterias. Nada como o marketing para vender o que quer que seja. Serviço O Ditador (The Dictator, EUA, 2012, 82 minutos, 14 anos) Cine Kinoplex – Shopping Praia da Costa: Sala 6. 17h, 19h10, 21h20. DUBLADO. Cinemark – Shopping Vitória: Sala 1. 18h10 e 20h20. Sexta e sábado também 23h50. Sábado e domingo também 11h. Terça e quinta 18h10.
TJES examina recurso de Sérgio Borges contra condenação por desvio na Assembleia
A 3ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado (TJES) vai examinar, na próxima terça-feira (28), o recurso do deputado estadual Sérgio Borges (PMDB) contra a condenação por desvios de diárias na Assembleia Legislativa. Na decisão de 1º grau, Borges foi condenado à perda dos direitos políticos por oito anos e obrigado a restituir os cofres públicos em R$ 6,9 mil, valor das diárias recebidas indevidamente. De acordo com informações do TJES, o relator do recurso será o desembargador William Silva, enquanto o desembargador Ronaldo Gonçalves de Souza foi designado revisor do processo. Caso a condenação seja confirmada pelos desembargadores, Borges poderá ser atingido pelos efeitos das limitações da Lei da Ficha Limpa – no caso de decisão de órgão colegiado, apesar da possibilidade de recurso às instâncias superiores. Além do atual líder do governo, os desembargadores vão apreciar o recurso do ex-presidente da Assembleia José Carlos Gratz, e do ex-diretor-geral da Casa na época André Nogueira, que também foram condenados pelo desvio. O trio é acusado de ter participado do batizado “esquema das falsas diárias” durante a chamada Era Gratz, entre os anos de 1999 e 2002. Na decisão de 1º grau, proferida em fevereiro do ano passado, o juiz Ademar João Bermond acolheu os termos da denúncia do Ministério Público Estadual (MPES). O magistrado também condenou Gratz e Nogueira à perda dos direitos políticos por oito anos, à proibição de contratar com o poder público por 10 anos e ao pagamento de multa no valor de R$ 15 mil cada. Nos autos, o Ministério Público sustenta que o esquema funcionava por meio do pagamento de diárias a deputados para a realização de viagens que não teriam ocorrido. Apenas o peemedebista teria se beneficiado com R$ 6.920,00 em diárias pagas para viagens ao Rio de Janeiro e São Paulo. No entanto, o deputado teria participado das sessões plenárias nos dias em que estaria viajando.