Jogos do Japão merecem toda nossa atenção, respeito e acompanhamento Vimos os principais trechos da abertura da Olimpíada no Japão. Essa abertura talvez tenha sido uma das mais emocionantes de toda história da Olimpíada. Não tinha público para aplaudir a todos aqueles que estavam no Estádio Nacional do Japão (Estádio Olimpico) e para que pudessem sentir o calor dos aplausos e dos flashes das fotos vindos da arquibancada. Justamente pela falta de público, a troca de tochas, até chegar à atleta Naomi Osaka, tenista famosa, que acenderia a Pira, foi tudo no escuro, apenas com focos de luz nos movimentos principais. E em cada participante deste momento, a emoção e o orgulho eram visíveis. Quando foi escolhido sede para a Trigésima Segunda Olimpíada da história moderna, o mundo não sabia que iria enfrenta uma pandemia, muito menos eles. Por isso que esses jogos do Japão merecem toda nossa atenção, respeito e acompanhamento, pois todos nós, fora do Japão, é que seremos os torcedores, principalmente por aqueles que gostam de esportes. O Japão atravessa mais um momento delicado da pandemia e as autoridades tomam todo cuidado para que a Olimpíada aconteça. Os jogos não podem parar, não podem sofrer descontinuidade. A tocha olímpica representa isso, ela nunca se apaga, por nada. Todos os atletas dos países participantes vieram. Alguns contraíram o vírus e não puderam competir. Muito triste, anos de preparo. Mas os jogos continuam e os atletas honrando cada participação, mesmo sem público nos estádios, nas ruas, enfim, nos locais das provas. Sobre os atletas brasileiros, a gente sabe das dificuldades de estarem lá e espera que eles honrem nossas cores e tragam medalhas, e também boas lembranças dessa que está sendo a Olimpíada da coragem, do destemor, da emoção e do amor ao esporte. Você, amigo leitor, espero que torça, se divirta e se emocione, pois essa Olimpíada era para não ter acontecido. PARABÓLICAS O governo do ES não deixou de dar atenção ao esporte nesta pandemia. Parabéns e nosso reconhecimento. Rossini Macedo, o Tonho dos Couros, inaugura uma casa de shows, desta feita no Centro de Vitória. As rádios de Kazinho (Super e Clock) estão em novas instalações e funcionando a pleno vapor no Shopping Vila Velha. A Rádio ES transmitindo jogo dos times do ES, mantendo com isso a tradição, que nunca morre. De parabéns. ACESSE:http://jrm50anos.blogspot.com.br/O rádio do ES na visão de JRM ACESSE TRADUÇÃO JRM YOUTUBE https://www.youtube.com/watch?v=0EYbd-WPigsNeil Diamond – He aint heavy he’s my brother MENSAGEM FINALNo Brasil o fundo do poço é apenas uma etapa. Luis Fernando Veríssimo.
No meio da rua tinha uma flor
Nesses tempos em que a vida balança sobre fios tênues, uma flor exibe sua persistência Os carros passando, pedestres desviando, e a flor se formando – primeiro uma tênue folhinha, duas, três…depois um botão, minúsculo, ninguém percebeu que ali, na rachadura do asfalto quase imperceptível, algo de belo e inusitado poderia nascer. Chuva, sol, ventos brandos e vendavais, monóxido de carbono. Exércitos de formigas. Pés apressados – Olha o sinal, vai abrir! Uma freada brusca, um grito – o quinto acidente de hoje nesta rua. * Senhora, vou ajudá-la a atravessar essa avenida perigosa. A jovem bem-intencionada pega-lhe o braço, Vamos! Com um safanão, Florbela afasta a mão protetora: Obrigada, não preciso. Sinal verde – Florbela vai adiante, a jovem bem-intencionada fica para trás. Passos apressados, pés desviando – a flor se formando, se abrindo devagar, na busca atávica pela luz do sol. Ao chegar em casa, Florbela desinfeta o braço: em tempos de pandemia não há tempo para gentilezas. * O medidor de poluição que a prefeitura instalou em cada esquina – RESPIRAR / RESPIRAR COM CAUTELA / NÃO RESPIRAR – está sempre no vermelho: não respirar é fundamental. Em vez das máscaras contra o vírus a que já nos acostumamos, vem aí a máscara-escafandro – estamos afogando no ar poluído. Enquanto isso, no meio do caminho tinha uma flor, uma flor brotou solitária-solitária no meio do caminho. * A flor abrindo seu leque de pétalas coloridas perfeitamente iguais, gloriosa, vencedora. Florbela viu a flor, fotografou e mandou para o jornal – Com tanta poluição, com tanta pressa e descaso pelo meio ambiente, ainda há esperança para um mundo melhor. No entanto, tal como aconteceu com a jovem bem-intencionada, a mensagem de Florbela foi mal interpretada. Choveram protestos. Uma flor no meio do caminho é um perigo para os motoristas, uma ameaça aos pedestres incautos! Um risco a mais para a vida dos cidadãos que pagam os impostos. Deixam de ser cidadãos se não pagam? *Nesses tempos em que a vida balança sobre fios tênues, uma flor brotou no meio do caminho, exibindo ao sol e aos transeuntes sua persistência. Os grupos de vigilância rodoviária conclamam às autoridades: Removam a flor! Florbela manda recado: Removam os carros, que flor não polui nem mata. Carros não matam, rebatem os primeiros, Quem mata é o motorista. Mas se os pedestres não se intrometessem na frente deles, também não morreriam. * Indiferente aos embates acirrados na TV e nos jornais, nas mesas de botecos e nas redes sociais, a flor continuou exibindo sua beleza colorida aos passantes – consequentemente engarrafando o trânsito. Tempos de eleição, e o debate chegou ao vale-tudo dos palanques – Se for eleito mandarei retirar a flor! grita um. Se for eleito protegerei a flor! grita Florêncio, o candidato da oposição, prometendo criar leis que defendam as flores, onde quer que nasçam. * O do-contra zomba do adversário: Na sua gestão as ruas vão virar jardins. E os carros, onde vão circular? Florêncio: Que circulem pelas fazendas que o ilustríssimo adquiriu com o dinheiro de propinas. No meio do caminho, a flor se diverte com os debates, e decide não morrer. Defendendo a flor Florêncio ganhou a eleição e mandou desviar o trânsito. A flor continua no meio do caminho – um sorriso gentil amenizando a indiferença do asfalto. E nenhum outro acidente foi registrado nessa rua desde que a flor surgiu. Cuidando da flor, Florbela viu Florêncio – e seu coração floriu…
Crislayne Zeferina: ‘A insegurança pública permeia nossos corpos’
[Podcast] Liderança da juventude negra capixaba fala sobre representatividade e desafios políticos e sociais Liderança do Território do Bem, conjunto de bairros periféricos em Vitória, Crislayne Zeferina é uma jovem ativista que tem sido importante figura na denúncia contra a violência policial, racismo, machismo e desigualdades sociais. Formada e pós-graduada em Pedagogia, ela é integrante do Coletivo Beco e do projeto Conexão Perifa, que tem atuando especialmente com mulheres e jovens nos territórios. Confira a seguir um resumo em texto da entrevista concedida ao Século Diário, que você pode ouvir na íntegra em podcast pelo SoundCloud, no Spotify ou em seu agregador de podcast favorito. O que é o Território do Bem? Eu sempre falo que o Território do Bem é uma chave de potencialidades que precisam ser abertas e exploradas de uma maneira boa, com as potências que já existem nesse território, porque aqui é um novo quilombo, que pensa a partir das suas próprias narrativas, que constrói saberes populares, narrativas periféricas, banco comunitário e várias ações que são referência para todo o Brasil. Ele é composto por nove bairros que são: Bairro da Penha, Itararé, Engenharia, Gurigica, Bonfim, Floresta, São Benedito, Jaburu, Consolação, esses bairros todos adjacentes, um do ladinho do outro. E esse nome foi implementado a partir de discussões com moradores sobre o nosso território, porque a mídia traz algo negativo, marginal, traz como Complexo da Penha. E aí quando você fala em complexo, se pensa o Complexo do Alemão, você pensa as negatividades. Foto: Facebook Numa reunião do Fórum Bem Maior, que agrega todos os líderes comunitários de nosso território, a gente construiu esse nome Território do Bem, como uma alternativa para dizer para essa mídia violenta que nós somos um território do bem, que estamos cercados de potencialidades. O que nós precisamos é de um empurrão, do investimento público, da ação das políticas públicas que não chegam até a gente. Quais as dificuldades e potenciais desse território? O que mudou com a pandemia do coronavírus? Hoje temos diversas dificuldades que permeiam esse território. Colocamos como elemento principal a falta de água. A gente tem uma luta muito grande com a Cesan [Companhia Espírito-Santense de Saneamento] e a Prefeitura Municipal de Vitória sobre a falta de água nas comunidades, um direito básico, constitucional. Estamos na Capital do Estado, com escassez de água. Você começa a perceber que Vitória não é tudo isso. Fora a acessibilidade, há cadeirantes idosos que moram no alto do morro, não conseguem subir e descer. O adoecimento acontece junto com envelhecimento, quando você envelhece dentro da sua casa e não consegue fazer uma caminhada, descer para fazer compras. A insegurança pública que permeia nossos corpos. Precisamos ter segurança pública, mas temos a insegurança pública. Além de todas essas dificuldades, temos as potências que são os coletivos. A gente se organiza em coletivos e pensa como destruir essa estrutura que não nos quer dentro dela, para pensar uma estrutura aquilombada, do povo para o povo, não estruturas que vêm de uma hierarquia dizendo que é uma democracia, mas essa democracia nunca entra na favela. Uma coisa que eu destaco sempre é que esses coletivos pensam num ideal para a comunidade. Acho que é isso que nos faz fortes dentro de nossa comunidade. A gente quer sempre um bem comum, não importa quem esteja fazendo, mas que se faça, que as as políticas públicas de ações afirmativas que não chegam na nossa comunidade por parte do poder público, cheguem pelos coletivos. A gente debate muito a desigualdade e, para muitas pessoas, esse olhar para a desigualdade é uma olhar que a pandemia trouxe, mas a gente percebe que a desigualdade é um problema estrutural. Foto: Leonardo Sá Você tem denunciado casos de violência policial nos territórios. Consegue enxergar uma outra política de segurança possível? Como poderia ser? Eu sempre acredito que existe um modelo possível quando a gente fala sobre violência policial e é perceptível para quem acompanha minhas redes sociais as inúmeras denúncias que eu faço, os coletivos e organizações não governamentais também fazem. Como dói ver as famílias perderem seus entes queridos de forma truculenta, e o pior, pelas mãos do Estado. A violência do Estado se dá com a permissão do governador. Quem está ali para governar pelas nossas vidas está tirando as nossas vidas, quando policiais sobem os morros caçando os mesmos corpos, se impondo como autoridade máxima e esquecendo da democracia. É notório que precisamos de um outro modelo de segurança pública, que ao menos assegure a vida dos moradores de periferia e não tire a vida deles. E esse sistema prisional está ultrapassado, esse sistema policial está ultrapassado. E quando digo que sou a favor da desmilitarização, não estou falando de acabar com a polícia. Estou dizendo que não quero mais coronéis matando pretos, quero segurança para nós e para a polícia. Uma polícia capacitada, que seja bem remunerada, que não trace o corpo, a pele e o endereço como elementos principais. É isso que a gente tem que dialogar. Não adianta eu chegar para ele e falar de gênero, raça e sexualidade, e no outro dia o sargento mandar ele para rua e fazer tudo ao contrário. Precisa haver uma fiscalização. E para isso, o governo tem que sentar com as lideranças, com os movimentos sociais e discutir um plano, um programa para esses policiais e para essas comunidades. Qual a importância da construção de políticas públicas para a juventude? Como analisa a atual situação delas em Vitória e no Espírito Santo? As Políticas Públicas para a Juventude (PPJ) são algo primordial para construir um caminho alternativo para os jovens. São elas que garantem para essa juventude ter acesso e permanência em diversos espaços. O Plano Municipal de Juventude é um elemento precioso que temos em nossa Capital. Muitos municípios não têm esse plano. Ele precisa urgentemente ser seguido pelas secretarias. Não existe construir política pública sem pensar nas juventudes, porque nós somos passado, presente e futuro. Não tem essa de dizer que somos só futuro. Será que é interessante para o prefeito ter
Atropelamento de morcegos na BR que corta reserva é o maior do mundo
Estudo reforça campanha pelo desvio da BR-101 a oeste da Reserva Biológica de Sooretama O trecho de 25 km da BR-101 que corta ilegalmente a Reserva Biológica de Sooretama, no norte do Espírito Santo, concentra a maior diversidade mundial de morcegos atropelados. A conclusão é de um estudo realizado por pesquisadores brasileiros e publicado na última quarta-feira (21) em uma edição especial da revista científica Diversity, dedicada aos Impactos da Infraestrutura de Transporte na Biodiversidade em Economias Emergentes. “A quantidade de atropelamentos nesse trecho de 25 km é enorme, não se conhece nenhum estudo com número tão elevado em indivíduos atropelados, mas especialmente de espécies. Não por acaso estamos numa luta enorme pra que a duplicação não passe por ali, mas que seja direcionada para oeste da reserva”, expõe a pesquisadora Helena Godoy Bergallo, do Instituto de Biologia Roberto Alcântara Gomes, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Foto: Lucas Damasio A pesquisadora fluminense destaca que “a retirada da estrada dali é crucial”, pois “o atropelamento é só um dos impactos”, afirma, citando outras ameaças constantes, apesar de invisíveis aos transeuntes, como os poluentes que saem dos automóveis e os resíduos que se soltam da estrada e caem nos cursos de água, na floresta e no solo, além do favorecimento para entrada de espécies invasoras, que acabam competindo com as espécies nativas. “Cães, gatos, bois, cavalos…animais domésticos em geral, predam espécies nativas e podem carrear doenças para dentro da mata e trazer da mata doenças para gente. Cães e gatos são relatados no mundo inteiro como um sério problema para áreas naturais”, adiciona a pesquisadora ao rol de impactos. Há ainda o “aumento da área de borda, facilitando entrada de caçadores”, ou seja: a estrada cria um longo perímetro de fronteira com área de uso humano intenso, dificultando o controle a fiscalização. Helena salienta que a Rebio Sooretama, administrada pelo governo federal, por meio do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), compõe o maior remanescente de Mata Atlântica de Tabuleiro de todo o país, e uma das áreas mais ricas em biodiversidade do bioma, um patrimônio natural de relevância mundial. Foto: Leonardo Merçon/Últimos Refúgios “É uma das maiores riquezas de espécies da flora por hectare, uma riqueza de espécies de mamíferos que não existem em outros pontos da Mata Atlântica”, salienta, citando a presença da onça-pintada, de duas espécies de porcos selvagens e duas de veado. “São espécies que não se encontra mais em muitos lugares. O Rio de janeiro, por exemplo, tem uma cobertura florestal maior que o Espírito Santo, mas não tem mais onça-pintada, nem anta. São animais que estão sendo reintroduzidas no Rio de Janeiro”, relata, destacando ainda a harpia, ave “praticamente extinta na Mata Atlântica” e que tem Sooretama um dos seus últimos refúgios no país. Esses e outros elementos da fauna “são ícones de conservação que mostram a importância dessa área para a conservação”. Por isso, proteger a Rebio Sooretama e as demais áreas protegidas contíguas a ela, afirma, “é ‘sine qua non’ para humanidade, para o futuro”. A BR-101, recorda, “foi criada depois da Reserva Biológica – foi um equívoco, pois pela legislação da época, não poderia. E agora, duplicar a estrada é duplicar, quadriplicar o equívoco, ainda mais quando se tem uma solução, que é o desvio a oeste”, argumenta. Controle de velocidade Os dados do estudo foram coletados entre os anos de 2010 e 2015, período em que foram mortos 773 morcegos, de 47 espécies diferentes – número que representa 40% das espécies conhecidas de morcegos na Mata Atlântica e o maior conjunto de espécies de morcegos mortos em uma rodovia já encontrado em todo o mundo. Os insetívoros (25 espécies) formam a maioria dos atropelados (74%) e aqueles que voavam em áreas abertas foram os mais frequentemente atropelados (41,9%). Foto: João Marcos Rosa Experiente pesquisador da biodiversidade da região e outro autor do artigo, o professor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Áureo Banhos ressalta que os morcegos insetívoros fazem um importante controle de pragas da agricultura. Já os nectarívoros realizam a polinização das lavouras e os frugívoros dispersam sementes. Todos eles desempenham um papel ecológico de grande relevância, colaborando especialmente com a manutenção da biodiversidade e com uma maior produtividade agrícola. “A alta mortalidade de morcegos insetívoros é preocupante, porque esses animais são importantes predadores e controladores de populações de pragas agrícolas. Os arredores de Sooretama, por exemplo, são formados por uma matriz agrícola composta por cacau, café, mamão, maracujá, pimenta, eucalipto e outras culturas. Os serviços ecossistêmicos prestados por morcegos na região podem ser afetados devido às altas taxas de atropelamentos observadas”, destaca o professor. Em áreas agrícolas nos Estados Unidos, acrescenta, esses serviços prestados a partir da predação de pragas por morcegos podem atingir um valor aproximado de US$ 23 bilhões anuais. No artigo, os pesquisadores relatam que os radares com limite de velocidade abaixo de 60 km/h reduziram as taxas de atropelamentos. “Eles são atropelados em voo quando se deslocam de um fragmento para outro. São pequenos, os carros em alta velocidade nem se abalam. Os insetívoros, especialmente, voam atrás de invertebrados que são atraídos para a estrada pela luz dos faróis”, explica Aureo Banhos. Considerando as taxas de atropelamentos encontradas no estudo, os autores estimam que dezenas de milhares de morcegos foram mortos ao longo dos 25 km que cruzam as reservas de Sooretama desde a inauguração da rodovia BR-101, o que pode ter reduzido as populações de espécies. “Radares com limite de velocidade abaixo de 60 km/h devem ser considerados em um plano de mitigação. Recomendamos testar a eficácia da redução das taxas de atropelamentos implementando solavancos para reduzir a velocidade dos veículos”, orientam os acadêmicos, acrescentando que “fechar a rodovia BR-101 ou reduzir o tráfego de veículos nas reservas de Sooretama à noite são medidas que podem ser tomadas para evitar a morte veicular desses animais”. Desvio a oeste Áureo também integra a frente de cientistas que reivindicam o desvio da BR-101 a oeste da Rebio de Sooretama, para reparar o erro histórico cometido desde a inauguração da
Milhares protestam por vacina, comida e fim do governo Bolsonaro
Os manifestantes protestaram no Estado contra a corrupção no governo e atuação de militares na política Roberto Junquilho Por vacina, emprego, mais comida e a saída da política de militares da ativa, milhares de pessoas tomaram as ruas neste sábado (24) em mais de 400 cidades brasileiras, incluindo Vitória e outras cidades do Espírito Santo, na quarta manifestação da série de protestos pelo fim do governo Bolsonaro iniciados em todo o país em maio, com número cada vez maior de participantes. O ato trouxe a público também as denúncias de corrupção na compra de vacinas e a ameaça de um golpe contra a democracia, que coloca em risco as eleições de 2022. Professores, estudantes, políticos, empresários, movimentos sociais e religiosos, centrais sindicais e ativistas se unem no grito “Fora Bolsonaro”, que ocorre também em 15 países, no momento em que o Brasil registra mais de 550 mil mortes pela Covid-19. Houve distribuição de máscaras e álcool em gel e frequentes recomendações para o respeito às normas médico-sanitárias de distanciamento. A estimativa é de uma participação entre sete a oito mil pessoas, muito acima do evento de 3 de julho. A concentração foi marcada para as 14 horas nas imediações do Instituto Federal de Educação (Ifes), desde a praça de Jucutuquara até a Avenida Paulino Muller e a rua João Santos Filho. Mas a partir de meio-dia, grupos de manifestantes começaram a se posicionar, a pé, de bicicleta, moto e de carro para a carreata em direção à praça do Papa, na Enseda do Suá, onde ocorreu o encerramento, com uma apresentação relacionada ao Dia Internacional da Mulher. No trajeto entre o local da concentração e a Praça do Papa, centenas de carros tiveram as buzinas acionadas e seus ocupantes faziam gestos de aprovação ao protesto. Das janelas dos apartamentos na avenida César Hilal e em residências localizadas no morro do Jaburu, bandeiras do Brasil e da cor vermelha foram agitadas, enquanto os manifestantes entoavam “Doutor, eu não me engano, o Bolsonaro é miliciano” e “A nossa luta unificou, agora é estudante com trabalhador”. Roberto Junquilho Alguns moradores saíram à calçada em apoio à passeata, animada por bandas de grupos estudantis e movimentos sociais. “As ruas estão mais quentes em todo o país, porque ninguém aguenta mais. Além da falta da vacina e do desemprego e da fome, agora são denúncias de corrupção, de superfaturamento na compra de vacinas, ‘rachadinha’, o governo está fazendo um grande balcão de negócios no Congresso Nacional. Nós precisamos derrubar o governo, que está tirando a vida do nosso povo”, disse o deputado federal Helder Salomão (PT), um dos manifestantes, que projeta as ruas cada vez mais cheias de gente agora que a imunização já alcança parte significativa da população. Sobre a ameaça do general Braga Neto, chefe da Casa Civil, de que não irá ter eleição, o parlamentar afirmou: “Isso tem dois sinais, o primeiro é que o governo está derretendo e, do outro lado, é que eles estão preparando algum tipo de obstáculo ou golpe para evitar que a gente vença as as eleições de 2022. Vamos denunciar o discurso autoritário e continuar organizando o nosso povo, os partidos políticos, para denunciar todo tipo de tentativa como essa”. Fernanda Samoa, bibliotecária residente em Vila Velha, pontuou: “Estou aqui para protestar. Sou servidora pública e com essa Covid, a situação ficou insustentável”. Já Marieta Gonçalves dos Santos, psicóloga, estava no protesto para lutar pelos direitos dos trabalhadores e contra o governo fascista. “A gente quer mais vacina e fora Bolsonaro”. Para José Adílson, presidente do Sindicato dos Estivadores, além das questões da falta de vacina, a manifestação tem a finalidade, também, de protestar contra o programa de privatização do governo, que atinge os portos de todo o Brasil. “Os trabalhadores estão na luta”. Outras lideranças políticas, sindicais e religiosas participaram do evento, com uma duração aproximada de três horas, com organização a cargo da ala estudantil, a fim de não congestionar o trânsito, contando com a colaboração da Polícia Militar e da Guarda Municipal de Vitória. Entre eles, o senador Fabiano Contarato (Rede), o ex-prefeito João Coser (PT) e as vereadoras de Vitória Karla Coser (PT) e Camila Valadão (Psol). Camila fez um discurso contra o fascismo e defendeu a memória do ativista Lula Rocha, falecido recentemente e que teve sua memória agredida na Câmara por um vereador bolsonarista, Gilvan da Federal (Patri), que foi vaiado ao ter o seu nome citado.
Prefeitura ordena retirada de faixas ‘Fora, Bolsonaro’ de fachada do ‘Triplex’
Perly Cipriano afirma que atitude da gestão de Lorenzo Pazolini “é um atentado à liberdade de expressão” Faixas pedindo “Fora, Bolsonaro!” tiveram que ser retiradas da fachada do antigo Hotel Imperial, no Centro de Vitória, devido à notificação da gestão de Lorenzo Pazolini (Republicanos). O integrante do conselho gestor do espaço, Perly Cipriano, relata que a Prefeitura de Vitória determinou prazo de 24 horas para que as faixas fossem retiradas, sob multa de R$ 92 mil à proprietária do imóvel, no caso de descumprimento. Foto: Ales A atitude da gestão municipal, para Perly, é um atentado à liberdade de expressão. “É uma visão autoritária, que não leva em consideração que por toda a cidade existem faixas de tudo quanto é tipo, mas notificam somente a gente, como forma de silenciar os movimentos sociais”, ressalta. Segundo ele, o antigo Hotel Imperial, popularmente conhecido como “Triplex do Lula”, tornou-se um ponto de encontro da esquerda e espaço para realização de atividades culturais. Perly informa que estão sendo contatados advogados para que sejam tomadas as medidas judiciais cabíveis. Ele destaca que “a perseguição passa de prefeito para prefeito”, recordando que, em 2019, a gestão do então prefeito, Luciano Rezende (Cidadania), impediu a realização do Festival Lula Livre na praça Costa Pereira, que fica exatamente em frente ao “Triplex do Lula”. Foto: Divulgação Na ocasião, lembra Perly, “foi enviado ofício em tempo hábil para a prefeitura”, mas, ainda assim, no dia do evento, não foi autorizada a montagem do palco e os banheiros químicos foram apreendidos. A solução, relata, foi realizar as apresentações musicais na sacada do antigo Hotel Imperial, que daí em diante virou palco de atividades como cine clubes e clube do vinil. A ideia, como aponta Perly, é estruturar o espaço e denominá-lo de Melpômene Vermelho, em homenagem ao extinto teatro Melpômene, localizado no Centro de Vitória e demolido em 1925. “Queremos fazer dele um centro cultural e de articulação dos movimentos sociais. Vai valorizar o Centro de Vitória, dar espaço e voz para os movimentos”, afirma. Um dos projetos a serem desenvolvidos no prédio é o de uma biblioteca comunitária.
Dia do Manguezal: alunos de Vitória levam filme para festival na Itália
Curta-metragem produzido por alunos da rede de ensino infantil aborda a importância da preservação Divulgação Um curta-metragem protagonizado por alunos de Vitória chegou à Itália. Dia do Manguezal foi exibido no “Cartoon Club – Festival Internacional de Cinema de Animação, Quadrinhos e Games”. O filme, feito por crianças do Centro Municipal de Ensino Infantil (Cmei) Jacyntha Ferreira de Souza Simões, em Goiabeiras, aborda a importância da preservação do manguezal, o berçário da vida marinha. Com produções de várias partes do mundo, o festival recebeu obras do cinema de animação, espetáculos, além de concertos com desenhos e animação ao vivo. O filme levado pelos capixabas se trata de uma animação que defende a consciência ambiental, por meio de expressões artísticas dos próprios alunos. “Dentre as centenas de produções de todo o planeta, Dia do Manguezal foi selecionado para ser exibido no dia 18 de julho. Um júri composto por cineastas e especialistas em animação de diferentes nacionalidades selecionou nosso filme dentre várias obras internacionais”, conta a professora Fabíola Fraga Nunes, uma das responsáveis por conduzir o projeto. Além desse evento na Itália, o filme já foi exibido em festivais em Zanzibar, na África, e na Argentina. No Brasil, o curta foi apresentado pela primeira vez em 2019, no Cine Metrópolis, localizado na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Foto: Gustavo Louzada A arte foi fundamental para a construção da animação. As crianças produziram desenhos, pinturas com tintas naturais do mangue e personagens recortados, e criaram cenários em caixas de papel. A professora explica que a discussão sobre a importância do manguezal já estava nas salas de aula antes mesmo do filme. “O Cmei Jacyntha Ferreira de Souza Simões fica em uma área do entorno do Manguezal. Nesse sentido, esse ecossistema sempre esteve e está presente na práxis pedagógica de toda a escola”, afirma. Em 2012, alunos do Cmei elaboraram uma carta de seis metros contendo fotos e desenhos dos problemas que viram nas visitas que fizeram ao manguezal. O documento foi exposto na conferência das Nações Unidas Rio +20, sendo a única escola capixaba convidada para o evento. “Dirigentes de mais de 295 Países do mundo viram a nossa carta e seu recado representado pelas fotos e desenhos das crianças. Ou seja, nosso manguezal pedia socorro”, ressalta Fabíola. Dia do Manguezal Em Vitória, todo dia 26 de julho é Dia do Manguezal. A professora conta que a definição da data também teve participação dos alunos do Cmei Jacyntha Ferreira de Souza Simões. “Fomos atrás de uma maneira de eternizar essa luta e tentar obter mais visibilidade para o drama do nosso ecossistema. Afinal, Vitória é uma ilha cercada de áreas de manguezal. Com a carta das crianças na mão, peregrinei por todos os gabinetes da Câmara de Vitória contando nossa história e mostrando a carta”, aponta. No fim de 2013, a Câmara de Vitória aprovou a Lei nº 8.606, que estabeleceu a data no município. Fabíola explica que o dia também é marcado por ações pedagógicas e de educação ambiental. “O sonho foi realizado. Conseguimos a nossa lei. Todo ano, no dia 26 de julho, fazemos uma caminhada com toda a escola em direção ao manguezal”, destaca. E foi assim que o curta-metragem surgiu. Em 2019, um grupo de professores do projeto Narradores da Maré, na Ufes, conheceram o projeto no Cmei e fizeram a proposta de parceria para a realização de um filme de animação com os alunos. “Nesse momento, se juntou a nós o Instituto Marlim Azul, que foi o responsável pela realização das oficinas com as crianças e, posteriormente, a parte de confecção da mídia propriamente dita”, aponta.
Websérie conta história de heróis capixabas por meio de animação
Na coluna: Capixabas D’Luta, políticas afirmativas em editais, Slam ES em TV aberta, bailarino capixaba premiado em festival internacional Já estreou no YouTube a websérie Capixabas D´Luta, que fala sobre a trajetória e legado de seis personagens históricos do Espírito Santo, utilizando como recurso o audiovisual, incluindo animações de Luiz Quintanilha e narrações feitas por atores e atrizes capixabas. O primeiro capítulo fala sobre Maria Ortiz (assista abaixo) e ainda virão episódios sobre Chico Prego, Maria Nilce, Afonso Cláudio, Maria Tomba Homem e Paulo Cesar Vinha. Realizado com apoio da Lei Aldir Blanc, projeto é coordenado pela historiadora, professora e cineasta Cintia Braga e o plano é que tenha continuidade com outras temporadas. Ela gravou uma entrevista falando sobre a série. POLÍTICA CULTURAL Lei Aldir Blanc tem complementação sancionada Foi publicado na sexta-feira (23) o decreto que regulamenta a extensão da execução da Lei Aldir Blanc até o final de 2021. Isso coloca fim à espera de artistas, fazedores culturais e gestores públicos da áreas para que possam dar início ao uso dos recursos que haviam sobrado da lei nacional nos cofres de estados e municípios. Nacionalmente serão liberados R$ 800 milhões, sendo que no Espírito Santo, o total ultrapassa R$ 9 milhões que ainda não foram empenhados. A maior quantia não utilizada é da capital Vitória, que terá mais de R$ 1,5 milhão para a área oriundos do governo federal. Já os recursos municipais para a Lei Rubem Braga, que completa 30 anos de história este ano, ainda não se tem notícia… Conselho Estadual de Cultura cria comissão para debater ações afirmativas Foi nomeada uma comissão provisória com oito integrantes para discutir, aprofundar e elaborar propostas para criações de ações afirmativas para os editais de cultura estaduais. O prazo para o trabalho é de 180 dias. Foram nomeadas pelo Conselho Estadual de Cultura (CEC) para compor a comissão Carlos Francisco Ola, que será o coordenador; Cloves Mendes Neto, Leandra Carla Moreira dos Santos, Maria Verônica do Nascimento Gomes, Flávia Cândida Ferreira Santos, Cláudia Prado Pedral Sampaio, Catarina Maria Linhales Baptista e Marianne Malini de Lima. ENTIDADES E COLETIVOS Presidente da ABL participa de evento da Academia Espírito Santense de Letras Como parte da comemoração do centenário de sua fundação, a Academia Espírito-Santense de Letras (AEL) realiza no dia 31 de julho um debate online com o tema “Academias Literárias: Conhecimentos, Ações e Saberes no Século XXI”. A atividade que começa às 19h contará com a presença do presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL), Marco Lucchesi, e da escritora e acadêmica capixaba Bernadette Lyra, num bate-papo transmitido pelo canal do Cine Metrópolis no YouTube, com apresentação da presidente da AEL, Ester Abreu. A academia capixaba foi fundada em 4 de setembro de 1921. Coletivo de São Mateus lança videodança C.R.I.A. é a sigla do Coletivo Regional de Iniciação Artística, que busca democratizar a arte e promover a formação profissionalizante em audiovisual para jovens periféricos de São Mateus, no litoral norte capixaba. O grupo lança nas próximas semanas dois espetáculos de videodança desenvolvidas com colaboração desses jovens capacitados. No dia 25 de julho, próximo domingo, entra no ar “Depois do caos a gente se encontra”, no YouTube do Festival de Cinema de Vitória, e no dia 7 de agosto, “Inspeções ao quarto alheio”, no canal do Ribalta Cine Teatro, dentro da programação do Festival Luzes da Ribalta. Imagem de “Depois do caos a gente se encontra”. Foto: Raphaiane Costa PRÊMIO Bailarino capixaba premiado em festival internacional As duas videodanças que serão lançadas são protagonizadas por Marcelo Oliveira, bailarino capixaba e coordenador das atividades formativas do C.R.I.A., que foi premiado recentemente com o primeiro lugar na categoria Videodança Profissional no Dancine – Festival Internacional de Videodança, onde apresentou a obra Clausura, que você pode assistir abaixo. EVENTOS Slam ES será transmitido em TV aberta A TVE do Espírito Santo transmitirá ao vivo no dia 31 de julho, a partir das 18h, o Slam ES, campeonato de poesia falada que reúne os campeões dos diversos eventos do tipo que ocorrem no Estado. Nos slams, os participantes disputam um campeonato em que apresentam e interpretam suas poesias autorais. O formato tem conquistado jovens principalmente nas periferias e ajudado a formar novos poetas e artistas também no Espírito Santo, sendo que os capixabas tem representado muito bem o Estado nos campeonatos nacionais. Vale a pena conferir! Luedji Luna será atração no Festival Mov.Cidade Facebook Nos dias 19, 20 e 21 de agosto, acontece o Festival Mov.Cidade, que vai ter uma série de atrações musicais. O destaque principal é a cantora baiana Luedji Luna, além de presença de talentos locais como Budah, Gabriela Brown, Marina Sena, Afronta, Pura Vida, Duarte, Julio Secchin, Úrsula Pussynail e a bateria da MUG. A programação vai ser online com transmissão pelo YouTube direto da Casa 7, no Centro de Vitória.
Espírito Santo: um porto a cada 15 km de litoral?
Campanha Nem Um Poço a Mais denuncia que empreendimentos podem dizimar praias capixabas *Reportagem publicada em boletim da Campanha Nem Um Poço a Mais Nos últimos anos, nos gabinetes de governo e nas páginas de jornal, têm circulado diversos anúncios de novos projetos portuários no litoral do Espírito Santo. Segundo um levantamento feito pela Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (Fase/ES) em 2019, além de 11 portos operando, seriam 10 novos licenciados ou em processo de licenciamento, e outros oito previstos. Se todos esses processos fossem adiante, o Espírito Santo teria em média um porto para cada menos de 15 km de litoral, com consequências socioambientais graves. De lá pra cá, o número só cresce. Somente o Instituto Estadual de Meio-Ambiente e Recursos Hídricos (Iema) possui, atualmente, 20 processos de licenciamento de portos em curso, sem falar nos que vêm sendo feitos a nível federal. Impulsionados pelo boom da extração de petróleo e gás no Espírito Santo e favorecidos pela Nova Lei dos Portos (12.815/2013), que estimula os investimentos privados no setor portuário, os anúncios ao mesmo tempo acendem um alerta e inspiram desconfiança. “Eu realmente acredito que essa pseudo expansão ou anúncio de expansão da infraestrutura portuária no Espírito Santo atende exclusivamente aos interesses do capital improdutivo. Não tem nada a ver com qualquer lógica de desenvolvimento ou crescimento da economia capixaba”, analisa Arlindo Villaschi, professor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e doutor em Economia pela University of London, na Inglaterra. Para ele, é um grande equívoco que o governo do Estado e as lideranças políticas capixabas não se pronunciem contra essa expansão portuária, que não interessaria nem mesmo ao desenvolvimento do Espírito Santo. “Do ponto de vista do crescimento econômico, têm efeito de curtíssimo prazo, quando são construídos. Depois geram muito pouco emprego. O efeito multiplicador por meio de tributos é muito pequeno, além de promover uma propaganda absolutamente falsa do papel disso no desenvolvimento e crescimento do Estado”, contesta, alegando que há um “oba-oba” das autoridades políticas e empresariais a nível municipal e estadual, como se esses projetos fossem redimir a economia capixaba ou gerar um novo ciclo de desenvolvimento. Ao mesmo tempo em que alguns novos portos privados se preparam para a instalação, outros não saem do papel. É o caso do C-Port, porto de logística anunciado para ser instalado na turística Praia da Gamboa, em Itapemirim, sul do Estado, em que a empresa responsável desistiu do empreendimento para reforçar sua atuação no Rio de Janeiro. Agora, tenta vender o projeto para outros investidores. O caso joga luzes ao possível caráter especulativo de alguns desses anúncios que vêm sendo feitos nos últimos anos. “Pode acontecer de empresas serem criadas e solicitarem licença ambiental sem ter condições financeiras de construir. Depois de conseguir a permissão, abrem capital da empresa, vendem na bolsa de valores. Nesse caso, o que se está vendendo é a licença ambiental, um comércio ‘legalizado’ de licenças”, diz o geógrafo Alessandro Chakal. Os anúncios dos empreendimentos, aponta, também provocam especulação em torno dos terrenos que os rodeiam. As alterações legais em vistas a instalações portuárias abrem caminho para valorizar as áreas que pouco valiam financeiramente por serem antes protegidas, que podem ser liberadas para outros usos, mesmo que os portos prometidos não se realizem. Vista aérea da região em que será construída o Porto Central em Presidente Kennedy, onde há riqueza de patrimônio histórico e natural. Foto: Luciano Cajaíba Zonas sacrifício Em plena pandemia do coronavírus, quando há maior dificuldade de articulação dos grupos sociais atingidos pelas propostas, os projetos caminham a pleno vapor para tentar se consolidar. Um anúncio feito em junho passado é a confirmação de permissão federal para a instalação do porto da Imetame, grupo empresarial que iniciou no ramo da metalmecânica, mas expandiu para áreas como rochas ornamentais, energia e petróleo. O local é Barra do Riacho, uma antiga vila de pescadores em Aracruz, norte do Estado, que talvez seja a melhor expressão no Espírito Santo do que alguns pensadores críticos e movimentos sociais vêm caracterizando como “zonas de sacrifício”. Elas são produzidas pelo capitalismo transnacional, em óbvia aliança com o Estado, quando vários empreendimentos se superpõem num mesmo território, gerando inúmeros impactos socioambientais. Além do monocultivo de eucalipto e seu beneficiamento com a megaindústria da atual Suzano, surgida como Aracruz Celulose da década de 1960 e ex-Fibria, também há o impacto de empreendimentos petroleiros, metalmecânicos e portuários. No entorno está o Portocel, que exporta sobretudo celulose, o estaleiro Jurong, e os projetos portuários da Imetame e Nutripetro. Além da população de pescadores artesanais que vêm perdendo seu território e condições de reprodução da vida, os projetos também impactam o único território indígena do Espírito Santo, que alberga várias aldeias Tupinikim e Guarani. Empresa Imetame prepara a instalação de mais um porto no entorno de Barra do Riacho, vila de pescadores sacrificada pelo desenvolvimento capitalista. Foto: Divulgação A instalação do porto da Imetame também provocou manifestação contrária de surfistas que frequentam o local, já que o empreendimento inviabilizaria a prática do esporte em áreas de ondas privilegiadas. Até Filipe Toledo, o Filipinho, um dos mais destacados surfistas brasileiros, atualmente número 3 no ranking mundial, fez um vídeo sobre a questão (veja aqui). Alessandro Chakal questiona que apesar dos anúncios de “progresso”, riqueza e oportunidades anunciados a cada novo empreendimento, não é bem esse o resultado apresentado após a consolidação destes. A maioria dos empregos divulgados se dá apenas no período de construção e obras, com uso de mão de obra barata e pouco qualificada, que nem sempre fica com a população local, já que centenas ou milhares de pessoas são atraídas pelas oportunidades de trabalho e se instalam na região, aumentando a necessidade de serviços públicos como moradia, educação, saúde, saneamento básico, transporte, assistência social, que ficam a cargo do município e do Estado em geral. Os problemas sociais aparecem durante e depois da instalação dos projetos. Após alguns anos, com o fim das obras, os trabalhadores migrantes ficam desempregados. “Muitas vezes gera-se um caos social, cria-se uma favelização nestas regiões. Aumenta a violência, o tráfico, a prostituição e a exploração de
ES desrespeita educação inclusiva ao tratar deficiência como doença, diz educador
Portaria Sesa/Sedu discrimina pessoas com deficiência e mostra inviabilidade do retorno presencial “O tratamento discriminatório às pessoas com deficiência [PCDs] mostra que o Estado não pratica a educação inclusiva e que as escolas não estão preparadas para o retorno presencial de todos”. A avaliação é do professor do Centro de Educação da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e especialista em Educação Especial, Douglas Ferrari, em relação à portaria conjunta publicada pelas Secretarias de Estado da Saúde e Educação (Sesa e Sedu) na última quarta-feira (21) – nº 6-R/2021 -, estabelecendo a obrigatoriedade do retorno dos estudantes capixabas às aulas presenciais a partir desta segunda-feira (26), numa atitude ainda solitária no contexto nacional. A normativa suspende “todas as restrições sanitárias que subsidiavam a decisão da não-obrigatoriedade do ensino presencial de alunos sem comorbidades ou deficiências”, estabelecendo a obrigatoriedade da frequência presencial em escolas públicas e privadas do Estado, respeitando, porém, “a autonomia do município para dispor sobre o tema”. O problema está no parágrafo 2º do Art. 2º: “O retorno presencial é facultativo para estudantes com comorbidades ou deficiências, que poderão optar pela continuidade das atividades não presenciais”. A base desse erro discriminatório, explica o especialista, é o entendimento da deficiência como uma doença, uma comorbidade. “Deficiência é uma característica, não uma doença. A gente tem trabalhado a deficiência como uma condição social, porque deficiente é a sociedade, que discrimina as pessoas”, aduz, com base na Lei Brasileira de Inclusão, que “tipifica essa discriminação como crime, com pena de reclusão e multa”, salienta. Douglas defende que o momento não é adequado para o retorno das aulas presenciais, considerando o contexto epidemiológico capixaba e brasileiro, de ainda elevada transmissão do vírus, concordando com especialistas como a epidemiologista e também professora da Ufes Ethel Maciel, bem como a falta de investimentos em melhorias das estruturas das escolas públicas ao longo deste um ano e meio de pandemia, conforme denunciam estudantes e também a Associação de Pais de Alunos do Espírito Santo (Assopaes). ‘Ou volta todo mundo ou não volta ninguém’ E o tratamento discriminatório dado às pessoas com deficiência, sublinha, só corrobora essa constatação da inviabilidade da reabertura maciça das escolas no atual momento epidemiológico. “O melhor agora é não voltar, então que a decisão seja facultativa às famílias. Mas ao deixar facultativo apenas às pessoas que têm comorbidades e deficiência, o Estado dá a declaração de que a escola não está preparada pro ensino presencial. Se estivesse preparada para todas e todos, todo mundo poderia voltar”, reafirma. Essa posição, argumenta Douglas, retoma a palavra de ordem levantada há exato um ano: “ou volta todo mundo ou não volta ninguém”. Registrada em Século Diário pela fala da especialista em Educação Especial Sumika Freitas, a reivindicação baseia-se na Lei Brasileira de Inclusão, que estabelece a prioridade das pessoas com deficiência na formulação de políticas públicas. “No trabalho pedagógico, essas crianças têm prioridade de atenção e acompanhamento especializado”, afirmou a educadora na época, enfatizando que elas são o principal parâmetro para definir como e quando voltar com as aulas presenciais para toda a rede de educação do Espírito Santo. ‘Cada um no seu quadradinho de arame farpado’ “Muitas famílias estão precisando que os filhos voltem pra escola. Há crianças que têm muitos surtos, em casa, em distanciamento social, mas elas precisam voltar com segurança. Quando o Estado deixa essa decisão a cargo das famílias, ele se desresponsabiliza e as exclui”, aponta Douglas Ferrari. A conduta do governo de Renato Casagrande (PSB), contextualiza o educador, segue uma prática nacional de exclusão, que foi exaltada em setembro passado, quando o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) publicou o Decreto 10.502/2020, que criou a Política Nacional de Educação Especial (PNEE), estimulando o retorno dos centros especializados em educação para pessoas com deficiência, indo na contramão do processo de anos de inclusão desses estudantes no ensino regular. “Cada um no seu quadradinho, no seu chiqueirinho de arame farpado”, metaforizou, na ocasião, o professor. “Olhar a deficiência como uma doença pressupõe que ela seja tratada nas instituições especializadas e não na escola. E esse erro não está nos pais, nas mães, nem nos cientistas. Está nos gestores que não fazem o dever de casa; e não é só o governo federal”, reforça. O Espírito Santo, acentua, “não fez sequer a avaliação diagnóstica da educação especial”, e tem trabalhado para direcionar as PCD para os “quadradinhos” das instituições especializadas. Esse direcionamento ficou explícito, ressalta Douglas, no final de maio deste ano, quando o secretário Vitor de Angelo permitiu a eleição de duas federações de associações de atendimento a pessoas com deficiência para as cadeiras destinadas à sociedade civil no Conselho de Acompanhamento e Controle Social do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (CACS-Fundeb). Conforme denúncia feita pelo Instituto Raízes e o Comitê Capixaba da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, a Federação das Associações Pestalozzi do Estado e a Federação das Associações de Pais e Amigos dos Excepcionais do Espírito Santo, que representam 55 associações, receberam R$ 64 milhões em recursos oriundos do Fundeb, por meio de contratos firmados com o governo do Estado em 2020. Ainda assim, foram aceitas pela Comissão Eleitoral coordenada pela Sedu para disputar as cadeiras da sociedade civil no conselho que fiscaliza a aplicação dos recursos do Fundo.