Categoria paralisou as atividades na Grande Vitória nesta segunda-feira e realizou protesto na Capital Profissionais da limpeza pública e asseio de conservação de empresas da Grande Vitória paralisaram suas atividades nesta segunda-feira (19), para reivindicar a inclusão da categoria entre os grupos prioritários para vacinação contra a Covid-19. Os trabalhadores se concentraram às 8h30 na Praça do Papa, na Enseada do Suá, na Capital, e caminharam até a Secretaria Estadual de Saúde (Sesa), onde seus representantes se reúnem com o secretário estadual de Saúde, Nésio Fernandes. Foto: Divulgação A mobilização foi liderada pelo Sindicato das Trabalhadoras e Trabalhadores em Empresas Prestadoras de Serviços de Asseio, Conservação, Limpeza Pública Urbana e Privada, Conservação de Áreas Verdes, Aterros Sanitários e Transbordo e de Prestação de Serviços em Portarias e Recepções do Estado (Sindilimpe – ES). Presidente do sindicato, Evani dos Santos Reis explica que o sindicato já protocolou dois ofícios direcionados ao Governo do Estado solicitando vacina para a categoria, mas não obteve retorno. “Nossa categoria está na lista de serviços essenciais, trabalhando corajosamente na linha de frente da pandemia, desde o começo da quarentena. Mães e pais, avós e avôs garantindo a higiene de espaços públicos e privados, para proteger a sociedade capixaba. Se somos prioridade para trabalhar, temos que ser para vacinar!”, ressaltou Evani. A diretora do Sindilimpe-ES, Rutilene Rodrigues Nicolau, relata que a entidade tenta fazer um levantamento de quantas pessoas da categoria já contraíram a Covid-19 e, também quantas faleceram, mas as empresas não respondem aos ofícios enviados pelo sindicato. Entre as muitas indicações dos deputados estaduais para inclusão de categorias profissionais em grupos prioritários, está a de Bruno Lamas (PSB), que defende que os trabalhadores da limpeza também tenham prioridade na imunização. A proposta foi aprovada na Assembleia Legislativa na última terça-feira (13). “Os garis, ao lado dos profissionais de Segurança e da Educação, prestam serviços essenciais à população. A paralisação dos serviços de varrição e coleta pública de dejetos são capazes de gerar graves problemas sanitários, além daqueles decorrentes da pandemia. Desse modo, há uma urgência, de primeira ordem, na vacinação desses profissionais, como forma de evitar a paralisação de seus serviços”, justificou o deputado.
Contarato no governo do PT?
A conversa com o senador tomou impulso depois da anulação das condenações do ex-presidente Lula A filiação do senador Fabiano Contarato ao Partido dos Trabalhadores (PT), apontada por lideranças do partido até agora como “uma boa conversa”, poderá ser confirmada ainda nesta semana. O avanço dos entendimentos tomou novo impulso depois da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de liberar o ex-presidente Lula para disputar eleição, no último dia 15, que mexeu no cenário político nacional, antecipando a campanha eleitoral de 2022. Com as articulações voltadas para um projeto nacional, tendo Lula ou Fernando Haddad na disputa à Presidência da República, o PT constrói estratégias para alcançar fortalecimento nos estados, a mais importante a eleição de governadores. Consumada a filiação de Contarato, como ele próprio já comentou e lideranças petistas já admitem como certa, o senador seria o candidato natural ao governo do Estado, para concorrer com o governador Renato Casagrande (PSB), que busca a reeleição. Eleito em 2018 para o Senado Federal pela Rede, com 1,1 milhão de votos (31,15%), concorrendo pela primeira vez, Contarato bateu os favoritos nas pesquisas de opinião, os então senadores Magno Malta (PL) e Ricardo Ferraço (então PSDB), e vem se caracterizando por sua atuação de perfil progressista, de oposição ao governo do presidente Jair Bolsonaro. Há um ano, em 24 de abril de 2020, ele deu entrada em um pedido de impeachment do presidente, juntamente com o senador Randolfe Rodrigues, da Rede (AP), iniciando uma série de ações contrárias ao atual governo, conquistando espaço no âmbito nacional. Nesse quadro, o PT no Espírito Santo tenta resgatar o poder político perdido depois das movimentações jurídico-midiáticas-políticas de 2016, que resultaram no impeachment golpista da presidenta Dilma Rousseff e na prisão, em 2018, do ex-presidente Lula, cujas condenações sem provas, que lhe valeram 580 dias na prisão, foram anuladas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no último dia 15. O antipetismo massificado via mídia convencional e por meio de fake news provocou pesadas perdas nas duas últimas disputas eleitorais. Fabiano Contarato e Renato Casagrande são dois nomes de peso na cena política, com todos os ingredientes para uma disputa polarizada, caso haja condições de acomodar alianças entre o PT e o PSB, partido de Casagrande, no campo nacional. Por enquanto, os contatos caminham nesse sentido, visando ainda neutralizar investidas de opositores, uma do ex-prefeito da Serra, Audifax Barcelos, comandante da Rede no Espírito Santo e potencial candidato ao governo. Essa articulação envolve o ex-governador Paulo Hartung, que já se movimenta no Estado e estica outra ponta junto ao prefeito de Linhares, Guerino Zanon, do MDB, outro provável concorrente ao governo. O ex-prefeito da Serra amplia a movimentação e se articula com pelo menos oito vereadores na Câmara de seu município, a fim de minimizar eventuais ataques à sua gestão. O apoio do ex-governador a Audifax e ou a Guerino passa por quem apresentar um melhor resultado junto ao eleitorado, via pesquisa de opinião, segundo os bastidores políticos. Com os nomes de Contarato e Casagrande na disputa, mais Audifax como terceira via, a pretendida candidatura do ex-deputado federal Carlos Manato (sem partido) tende a derreter, seguindo o caminho de Bolsonaro, em queda vertiginosa e ameaçada por um impedimento que poderá sair da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid. É a conta pelos quase 400 mil mortos registrados na contabilidade macabra do descaso e do deboche construída no mais desastrado governo da história do País.
Vida longa ao Rei
Roberto Carlos faz 80 anos. Seu sucesso não vai ter fim Roberto Carlos faz 80 anos. Assim como ele se lembra do seu acidente, em Cachoeiro, de quem ajudou, do que sentiu, e que é descrito na música O Divã, eu lembro agora de detalhes de seu aparecimento na música, de seus pais, da Rádio Cachoeiro e da sua vida vitoriosa como cantor nesses seus 80 anos de vida, neste 19 de abril. Para mim, Roberto Carlos sempre teve duas virtudes: ser comedido ao falar e zoar a cara dos mais chegados. Meu tio Zé Américo era companheiro escolar de Carlinhos, irmão mais velho. Então eu sabia um pouco de como era dona Laura e seu Robertino, a família, etc… Quando fui ter certeza da dimensão do seu sucesso no início, foi chegar seu LP à Rádio Cachoeiro. O sucesso era “A história de um homem Mau”. Depois tive momentos distintos pessoalmente com ele. Fui um dos escalados para fazer “guarda” a ele, como Cachoeirense Ausente em 1969. Eu fazia o Tiro de Guerra. Depois eu, Jairo Maia e Ismael Bezerra (in memorian) e ele, só nos quatro em sua suíte no então Cannes Palace Hotel, gravando umas coisas em voz, quando sua moeda da sorte caiu e sumiu embaixo do armário. Paramos tudo até encontrar a tal moeda. Muito supersticioso. Também pude acompanhar seu primeiro lugar no Festival e San Remo (grande feito), e nos seus especiais de fim de ano, além das notícias sobre ele. Seu sucesso não vai ter fim. Foi baluarte do movimento Jovem Guarda, mas suas marcas musicais foram as músicas românticas: Detalhes, Outra Vez, Como Grande Meu amor por Você, Cavalgada, O Portão, É Preciso saber Viver, Rotina, Falando Serio, Moço Velho, Força Estranha, Amor Perfeito. A maioria dos grandes intérpretes deste Brasil o reverenciou ou enalteceu o Rei, gravando suas músicas. Nunca cantor nenhum teve esse privilégio. Agora, mesmo recluso pela pandemia, comemora 80 anos de vida. E eu pensava que estava mais ao sossego, que nada, vai fazer inúmeras turnês ano que vem na Europa, Estados Unidos e América latina. Se der, ainda vem cantar em Cachoeiro no aniversário de 81 anos. Ao fazer 80 anos, é um Moço Velho, talvez a música que o retrata de verdade, mas a música não é sua, e sim de Silvio Cesar. Mas isso não tem importância. Dia 19 comemora-se Também Santo Expedito, o santo legionário romano, que lutava em nome de Cristo, como Roberto Carlos cantando Jesus Cristo, seu símbolo religioso. Vida longa ao Rei!!!! PARABÓLICAS Dia desses, Ferreira Neto me enviou um áudio de mais de 60 minutos com o melhor de Helio Ribeiro, quem foi o norte de nossas carreiras no rádio. Há muito que não temos notícias de Alonso “Xeréreu” Ronconi. Mas ele continua morando em São Mateus e fazendo política. O futebol capixaba da época de Pedro Soares como dirigente, era mais forte e havia disputa sadia entre os clubes do Espírito Santo. Amaro Neto deve sentir muita falta de fazer seu programa de TV. Hoje anda afastado do público, e isso é ruim. ACESSE http://jrm50anos.blogspot.com.br/ACESSE TRADUÇÃO JRM YOUTUBE Roberto Carlos – Moço Velhohttps://www.youtube.com/watch?v=QuFSmCa2jRM MENSAGEM FINALPois todo homem que se eleva será rebaixado, mas quem se rebaixa será elevado. São Lucas
‘Não é doce morrer no mar de lama’
Três pescadoras atingidas falam por todos que tiveram o lucro cessante suspenso: “queremos reparação de verdade!” Arquivo pessoal Ainda é difícil de acreditar na mais recente ação de violência da Fundação Renova contra os atingidos e atingidas pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana/MG, de propriedade da Samarco/Vale-BHP, ocorrido em cinco de novembro de 2015, considerado o maior crime socioambiental da história do país. Apesar de criada em 2016 para executar os programas de compensação e reparação dos danos advindos do desastre, sob fiscalização do Comitê Interfederativo (CIF) e suas câmaras técnicas, e mediante os acordos extrajudiciais firmados entre as empresas criminosas, o Ministério Público Federal e outros entes públicos, a Renova tem se mostrado um grande engodo, desrespeitando os acordos e metas de reparação e compensação, se negando a contratar as assessorias técnicas escolhidas pelos atingidos – prontamente contratadas no caso de Brumadinho – rescindindo contrato coma a Rede Rio Doce Mar, disseminando a discórdia entre as comunidades atingidas, e tudo isso pagando salários altíssimos a seus empregados, e mantendo contratos caríssimos com agências de publicidade e escritório de advocacia, e com aumento de seus lucros anuais. Nos últimos dias de março, a Renova decidiu não pagar o lucro-cessante referente ao ano de 2020 aos atingidos do litoral norte do Estado, sem qualquer embasamento técnico, visto que a região é reconhecida pela Deliberação nº 58/2017 do CIF e que os impactos da lama de rejeitos, passados mais de cinco anos, continuam ativos e com mais gravidade, em relação a alguns parâmetros medidos. Eliane Balke Pegos de surpresa, os atingidos ainda não sabem sequer como e a quem recorrer para receberem o pouco que vinha sendo pago, dentro de um espectro muito maior de prejuízos, ainda não medidos e que lhes é devido pelas mineradoras. “Essa estratégia de cortar o lucro-cessante é igual às cartas que a Fundação Renova mandou em 2020, cancelando o AFE [Auxílio Financeiro Emergencial] porque não éramos impactados. Esse ano nem carta ela mandou. Nem apresentou os laudos comprovando. Esse mecanismo da Fundação Renova é para obrigar o pescador a aderir a quitação geral. É um momento muito confuso a judicialização das questões, retirando autonomia dos territórios de decidirem sobre a resolução dos problemas causados pelo crime da Samarco, Vale e BHP”, explana a pescadora Eliane Balke, moradora de região do Nativo, em São Mateus. Arquivo pessoal A consciência sobre as estratégias que a Renova vem adotando, contrariamente a todos os termos de ajustamento de conduta (TACs) assinados por ela e suas empresas mantenedoras, Eliane vem iluminando a partir da vivência como atingida, participando das reuniões das organizações que apoiam a luta dos atingidos, como o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e a Pastoral da Pesca, os órgãos de justiça MPF e Defensorias Públicas, e diversos coletivos de pesquisadores, militantes, artistas, estudantes, que vêm realizado atividades de apoio à saúde financeira, física, emocional e psicológica dos atingidos. Filmagem de documentário com Dona Creuza, catadora de caranguejo em São Mateus. Foto: Eliane Balke Não é doce morrer no mar de lama “Não é doce morrer no mar”, poetiza Eliane, inspirada na famosa canção de Dorival Caymmi, abrindo um longo texto que escreveu na véspera, quando agendamos nossa entrevista por telefone, para repercutir o impacto do último golpe da Renova contra as vidas dos atingidos. “Mudou a minha vida após cinco de novembro de 2015. É uma terrível experiencia de vida, com a contaminação pelos rejeitos da Samarco, Vale e BHP”, resume, durante a entrevista, em que convidou outras duas amigas pescadoras para contribuem com seus depoimentos. Carliene dos Santos Tomas Martins conta que, além do lucro-cessante, 2021 lhe trouxe também o corte pela metade do AFE. “Eu não estava esperando. Disseram que uma coisa dessas, caso acontecesse, com alguém, seria avisada três meses antes, mas não me avisaram”, conta. Chefe de família, sustentando a filha e o neto, Carliene diz que, até onde sabe, somente ela teve a redução da AFE em sua região. “Eu sou pescadora de fato, não tenho comprovações, mas me cadastraram como pescadora de subsistência. Comecei a receber em dezembro de 2017. Na época só tinha esse cadastro de subsistência, pra quem não tinha como provar, não tinha pra pescador de fato. Eu sou a chefe da família, fiquei cheia de dívida. Recebo ajuda dos amigos, que estão na mesma situação que eu, e tiram deles pra me ajudar”, diz. Eliane é uma dessas amigas, que compartilha o pouco que tem. Bem como Tania Aparecida Mofardini da Silva de Almeida. “Nossa amiga Carliene sustenta a filha e o neto, a gente se preocupa. Uma ajuda a outra. A comunidade é pequena”, conta. Tania e o marido vieram de Belo Horizonte em busca de mais qualidade de vida. O marido pescava camarão em barcos de amigos. Ela limpava o camarão e às vezes também pescava siri e caranguejo, de linha, no rio. O marido recebe uma pequena aposentadoria, ela tinha apenas a renda da pesca. O quarto de aluguel para turistas completava o faturamento, mas desde o crime contra o Rio Doce, também o turismo foi gravemente afetado. “Agora não dá mais nada. Aqui a gente percebe o impacto ambiental. Minha preocupação, junto com a Eliane e a Carliene, é ver o rio, como está poluído. A plantação também sofreu muito com tudo. O mar a gente percebe que sofre muito as alterações. A gente sabe que vem uma lama quando chove, vem aquele resíduo daquele minério, tem medo de tomar banho no rio, na praia. Sabemos que os peixes de fundo, como peroá, o camarão, estão com muita contaminação”, descreve. Eliane Balke A saúde financeira deprecia junto com a saúde física e mental. “Segundo as reuniões que a gente vai aqui, a contaminação por metais pesados, por consumir o pescado, é gradativa, não percebe na hora. Eu tomo remédio controlado pra ansiedade e antidepressivo. O consumo de peixe a gente diminuiu porque fica com medo. Os metais pesados afetam a mente, neurológico. Eu já tenho ansiedade, fica receosa”, conta. “A gente não
Pandemia pode representar anos de retrocesso para a educação no campo
Famílias como a de Luciene (foto) apontam problemas de falta de estrutura, de proposta curricular específica e de políticas públicas Os avanços conquistados de forma árdua na área da educação do campo estão ameaçados. Esse é o relato e também medo de pais e professores que atuam em escolas da zona rural do Espírito Santo, que denunciam a desigualdade de acesso a equipamentos tecnológicos, a falta de estrutura para as aulas virtuais e ausência de uma proposta curricular específica. Para eles, a pandemia do coronavírus pode retroceder anos de conquistas. Luciene da Silva Rodrigues Erculino, moradora de Água Doce do Norte, noroeste do Estado, é camponesa e mãe de dois filhos em idade escolar, Vitor, de 12 anos, e Julia, de três. Ela afirma que os problemas na área da educação do campo são antigos, mas se acentuaram. “A educação camponesa vem sendo atropelada há muitos e muitos anos. A pandemia só agravou a situação. Estou preocupada de nós, camponeses, termos mais um retrocesso na história”, aponta. Arquivo Pessoal O ensino remoto foi uma das situações impostas pelo mundo pandêmico. A medida, necessária para evitar o contágio do vírus entre alunos e professores, trouxe consigo uma série de obstáculos para quem não tem acesso adequado a equipamentos tecnológicos e a uma rede de internet. Uma das dificuldades apontadas por Luciene é a falta de estrutura das casas para as aulas virtuais. As residências pequenas, muitas vezes sem um espaço separado para o aluno estudar, afetam até a concentração dos estudantes camponeses. “O menino muitas vezes chega da roça, tem que estudar ali no movimento da família, com a mãe fazendo a janta, o irmão menor que tá gritando”, exemplifica. Além disso, pais e responsáveis também se tornaram responsáveis por mediar o conteúdo que os professores passam para os alunos. Os exercícios, enviados pela internet, por vezes também carecem de orientação, o que pode ser um desafio para mães que nem sempre possuem a alfabetização completa. “A gente tenta compreender a dinâmica do professor naquela aula que está no aplicativo, no WhatsApp, ou que vem na apostila, mas muitas de nós não damos conta, é um desafio. A gente se estressa com o menino, o menino estressa com a gente, e nós não desmerecemos o esforço que o professor faz, mas acabamos não dando conta de aplicar a aula como deveria”, declara. Para a mãe, que integra o Comitê de Educação do Campo do Espírito Santo (Comeces), as imposições do novo cenário podem representar um retrocesso de direitos que foram conquistados ao longo dos anos. “Quando começou um processo de educação letrada para o povo, os camponeses ficaram pra trás, por estarem em condição remota, por ser aquele povo que está longe, que tem que ficar na roça mesmo. Nós fomos os últimos a chegar. Nós fomos os últimos a sermos educados. E aí, teve um período em que a gente conseguiu fazer nossas escolinhas aqui perto de nós. Começamos a nos educar, mas com esse novo modelo de educação, é possível que a gente tome outro tombo na história”, enfatiza. Desafios são antigos Os problemas ligados à educação em áreas de zona rural no Espírito Santo não começaram com a pandemia. Para Rogério Cipriano Moreira, diretor da Secretaria de Meio Ambiente e Educação no Campo do Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Espírito Santo (Sindiupes), há uma grande dificuldade de manutenção das escolas do campo nas comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhos por falta de investimentos, recursos materiais e humanos. “Não existe uma proposta curricular específica capaz de tratar das questões locais e da realidade do campo, um currículo próprio, com olhar pedagógico capaz de atender o acesso e permanência dos estudantes, que desenvolva empatia, que ofereça condições necessárias e espaço físico adequado, com disponibilidade de profissionais nas diversas áreas do conhecimento, com conteúdos e práticas de valorização da vida, respeitando valores e costumes do cotidiano próprios dessas realidades”, denuncia. Arquivo Pessoal O professor relata que, em 2019, a comunidade escolar e o sindicato travaram uma batalha para a manutenção nas regiões de Boa Vista e Cachoeirinha, zona rural de Cariacica. “A intenção do governo do Estado era o fechamento e alocar os estudantes numa realidade urbana em descompasso com suas vivências e experiências afetivas e significativas na vida das famílias dessas escolas. Com luta e parceria do Sindiupes, conseguimos sensibilizar o governo municipal numa ação conjunta, conseguimos mantê-las funcionando”, aponta. Com a pandemia, os desafios se intensificaram. Rogério lembra que os educadores precisam utilizar recursos próprios para a garantia do próprio trabalho, adaptando o espaço da casa, os gastos de energia, o planejamento extensivo de aulas e as mudanças na rotina familiar. “Estamos cansados, um trabalho invisível, que exige muita dedicação e pouco reconhecido pelos órgãos oficiais e parte considerável da sociedade”, enfatiza. Na última quinta-feira (15), o Governo do Estado encaminhou à Assembleia Legislativa um projeto de lei que autoriza a concessão do benefício de R$ 5 mil para aquisição de computadores para os professores da Rede Estadual. Caso seja aprovado, os educadores também devem receber uma ajuda de custo mensal de R$ 70 para apoio à contratação do plano de internet. Rogério, que também é professor em uma escola na comunidade de Novo Horizonte, em Cariacica, acredita que os esforços da sociedade civil organizada têm gerado avanços, mas ainda pequenos. “No Plano Estadual de Educação não houve um amplo debate com participação da sociedade civil e comunidade escolar”, relembra. Evasão O fechamento de escolas do campo no Espírito Santo tem gerado debates há anos. Em março deste ano, o conselheiro do Tribunal de Contas do Espírito Santo (TCE), Rodrigo Coelho, se posicionou sobre decisões adotadas por municípios capixabas que queriam fechar escolas do campo de menor porte. Segundo ele, não há orientação do órgão para a nucleação das instituições e as prefeituras deveriam levar em conta aspectos pedagógicos e não só financeiros. Mepes Luciene acredita que a distância das instituições de ensino e a própria rotina podem desanimar os estudantes, aumentando a evasão escolar. A mãe aponta que os alunos muitas vezes precisam
Espírito Santo registrou 28 homicídios de mulheres em 2021
Dados da Sesp apontam que as principais vítimas foram mulheres entre 30 e 39 anos O Espírito Santo já registrou 28 homicídios de mulheres neste ano, de acordo com o Mapa de Mortes Violentas de Mulheres no ES: de A a Z, do Ministério Público do Estado (MPES). Os dados são provenientes de boletins de ocorrência da Secretaria Estadual de Segurança Pública (Sesp), compartilhados por meio do Convênio de Cooperação Técnica nº 001/2015, firmado por meio da coordenação do Núcleo de Enfrentamento às Violências de Gênero em Defesa dos Direitos das Mulheres (Nevid). Dos 28 homicídios, sete foram em janeiro, oito em fevereiro, sete em março, e seis em abril. As principais vítimas foram as mulheres entre 30 e 39 anos, no total de nove. Em sete crimes, a idade das vítimas não foi informada. Cinco mulheres assassinadas tinham entre 19 e 29 anos, quatro estavam entre 40 e 49 e uma nas faixas entre 50 e 59, 60 ou mais, e 18 ou menos. A autoria do crime não foi informada em 17 dos casos. Seis foram cometidos por companheiros ou namorados, três por ex-companheiros ou ex-namorados, um por parente da vítima e um por outras pessoas não especificadas. Os dados apontam que 82,14% das vítimas foram identificadas, enquanto 17,86% não foram. Quanto aos instrumentos utilizados para cometer os assassinatos, 15 deles foram praticados com arma de fogo, 10 com arma branca e outros três não foram informados. Dados da Grande Vitória A taxa de homicídios de mulheres no Espírito Santo é de 0,13 para cada 10 mil mulheres até o momento em 2021. Em 2020 foi de 0,40, enquanto que em 2019 foi de 0,35. Na Grande Vitória, o município com o maior índice é Cariacica, com 0,28 para cada 10 mil mulheres. Em segundo lugar está Vila Velha, com 0,14. Vitória está em terceiro, com 0,12. Serra vem depois, com 0,10. Não há registros de Viana, Fundão e Guarapari. Em 2020, o maior índice foi de Fundão, com a alta taxa de 2,34, seguido da Serra (0,67), Vila Velha (0,65), Vitória (0,46), Cariacica (0,45), Guarapari (0,37) e Viana (0,31). No ano de 2019, Cariacica e Serra lideraram o ranking na Grande Vitória com 0,67. Posteriormente, aparecem Viana (0,63), Guarapari (0,56), Vila Velha (0,37), Vitória (0,35). Não constam dados de Fundão em 2019. Reivindicações Ações de combate à violência contra a mulher foram algumas das muitas reivindicações das 75 organizações da sociedade civil que assinaram um manifesto divulgado por ocasião do último Dia Internacional da Mulher. O manifesto reivindicou também, impeachment do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e do vice, Hamilton Mourão (PRTB); a manutenção do Auxílio Emergencial; respeito aos direitos sexuais e reprodutivos; legalização do aborto; valorização do Sistema Único de Saúde (SUS); vacina para todos; revogação da Emenda Constitucional 95, que congelou investimentos em políticas públicas de saúde e educação durante 20 anos; crédito emergencial para a agricultura familiar; e fim do machismo, racismo, LGBTfobia e todas as formas de violência. No Espírito Santo, comparando os dados da Secretaria Estadual de Segurança Pública (Sesp) nos anos de 2019 e 2020, a violência contra as mulheres teve um aumento tanto no que tange às mortes violentas como em relação aos registros de Ocorrências da Lei Maria da Penha, denuncia o documento. Em 2019, foram registradas 91 mortes violentas de mulheres no Estado. Já em 2020, até 31 de dezembro, 102 mortes. Trata-se de um aumento real de 12% de assassinatos de mulheres. Dessas 102 mulheres mortas violentamente, 34,31% eram pardas, 9,8% brancas, 6,96% pretas e 49% não informaram. Dentre os meios utilizados para assassiná-las, verificaram-se 56 crimes por arma de fogo, 31 por arma branca, oito não informados e sete por outros meios. “O governo do Espírito Santo não efetivou nenhuma política real de enfrentamento às violências contra as meninas e mulheres nesses tempos, o que tem causado um impacto maior na situação de vulnerabilidade e no aumento dos índices de violências dessa população no Estado, diz o manifesto. O caso da menina de 10 anos, de São Mateus, no norte do Estado, que em 2020 teve que ir para Pernambuco interromper uma gravidez fruto de um estupro por não ter tido acesso ao abortamento legal no Espírito Santo, também foi recordado pelas mulheres capixabas, com dados que apontam que não se tratou de um caso isolado. No ano passado, segundo a Secretaria Estadual de Saúde (Sesa), 237 meninas de 10 a 14 anos, todas vítimas de estupro, tiveram filhos. Dessas, 91 passaram por uma cesariana. Mulheres capixabas pedem impeachment de Bolsonaro e Mourão em manifesto Programação do Oito de Março conta com atividades virtuais e presenciais em diversos municípios do Estado https://www.seculodiario.com.br/direitos/mulheres-capixabas-pedem-impeachment-de-bolsonaro-e-mourao-em-manifesto Cruzes fincadas próximo à Segunda Ponte denunciam violência contra a mulher Mulheres também reivindicam vacinação para todos, https://www.seculodiario.com.br/seguranca/cruzes-fincadas-proximo-a-segunda-ponte-denunciam-violencia-contra-a-mulher
A revolta indígena que os capixabas desconhecem
Historiadores buscam entender rebelião em Reritiba (Anchieta), que resultou na criação da comunidade autônoma de Orobó Um fato histórico pouco conhecido ocorrido na então Capitania do Espírito Santo vem sendo analisado e investigado por pesquisadores em estudos recentes. Praticamente desconhecida pelos capixabas, a Revolta de Reritiba foi um raro caso de uma grande rebelião de povos originários contra a ordem colonial representada pelos aldeamentos ligados aos religiosos jesuítas. Somente com a descoberta de documentos que se encontravam no Arquivo Histórico Ultramarino, em Portugal, o ocorrido voltou a ser revisitado recentemente após séculos de esquecimento. Arquivos da Devassa, processo inquisitório criado pela Igreja Católica após a expulsão dos jesuítas em 1759, colheram depoimentos de 62 homens, incluindo 11 indígenas, relatando diversos abusos cometidos pelos religiosos e também fatos históricos, como a revolta indígena. Os relatos, porém, precisam ser analisados com olhar crítico, ressalta o professor de História da Universidade Federal do Estado (Ufes) Luiz Claudio Ribeiro, que publicou um livro reunindo todos estes depoimentos na íntegra. Representam um registro raro de depoimentos indígenas, feitos oralmente mas transcrito por padres, com uma intenção evidente de incriminar os jesuítas. Mesmo tendo acontecido quase 20 anos após a revolta, os relatos reforçam a força do episódio, que depois deu origem à fundação de uma comunidade indígena independente na região. “O quebra-cabeça da história colonial é difícil de montar por conta dos documentos históricos. O evento ocorrido no Espírito Santo tem relevância muito grande e deve ser resgatado e recuperado devido à sua dimensão. Embora seja um evento localizado, é muito importante para o entendimento não só da realidade local mas também da formação histórica do período de colonização do Brasil”, aponta Luís Rafael Araújo Corrêa, estudioso do caso, que irá lançar em breve um livro sobre o tema. Embora haja uma data que marca o início da rebelião, os historiadores acreditam que o desatar do episódio foi fruto do acúmulo anterior de uma série de insatisfações de parte dos povos aldeados. Revolta e refúgio na comunidade de Orobó O estopim da revolta se dá no dia 29 de setembro de 1742, em Reritiba (ou Rerigtiba), hoje município de Anchieta, o maior aldeamento do Espírito Santo em sua época, que pode ter chegado a abrigar cerca de 5 mil indígenas e foi o segundo maior povoamento da capitania. Era dia da procissão em devoção a São Miguel e a igreja estava cheia com pessoas locais e visitantes do entorno. Depois de um desentendimento que teria ocasionado por ciúmes em relação a uma indígena casada, o seminarista Manoel Alves agrediu e feriu gravemente o esposo dela, Fernando Silva. Diante disso, vários indígenas se revoltaram e expulsaram os padres responsáveis pela aldeia, que foram substituídos. Após negociações dos responsáveis locais da Igreja Católica com os indígenas, que impuseram condições relacionadas com a escolha dos administradores da aldeia, mudanças nas condições de trabalho e anistia aos rebeldes, os padres expulsos voltaram. Porém, o não cumprimento das promessas e uma tentativa de emboscada dos padres para se vingar dos líderes da revolta levaram a uma nova rebelião, que teria resultado na fuga de quase metade dos indígenas aldeados, que fundaram uma comunidade no Vale do Orobó, em Piúma. Quadros de Ronaldo Moreira, que fazem parte do acervo da Casa da Cultura de Anchieta, mostram cenas de revoltas indígenas A tradução de Orobó seria “a nós com a exclusão de vós”, demarcando um espaço de liberdade e autonomia dos indígenas, se livrando da tutela jesuita. O número de pessoas que se refugiaram no local é incerto, mas como há relatos que apontam para cerca de metade da população da época, esse número pode ter chegado a algo entre mil e 3 mil habitantes, analisam historiadores. No local já foram realizadas algumas pesquisas arqueológicas, buscando indícios materiais que ajudem a entender esse processo histórico, sobretudo a partir da análise de cerâmicas encontradas no local, datadas de diversas épocas de acordo com os estudos. O arqueólogo Henrique Valadares, que participou de escavações no Vale do Orobó aponta que o material coletado aponta que o grupo deveria ser predominantemente tupinikim, que durante este período de refúgio fora dos aldeamentos mostram uma intensificação da etnicidade. Embora as aldeias jesuítas pudessem reunir diversas etnias, os documentos históricos invisibilizam a identidade dos grupos, generalizando-os com o termo “índios” ou “índios mansos”, como aponta Henrique, já que haviam também grupos indígenas viviam fora dos aldeamentos e resistiam ao contato com os jesuítas. O historiador e também pesquisador da revolta, Leonardo Bourguignon, acredita que o episódio também demonstra a disputa existente entre diferentes grupos indígenas aldeados em Reritiba para ocupar os cargos de administração da aldeia, estabelecendo relações de aliança e inimizade de acordo com seus interesses em suas relações interétnicas e com os jesuítas. Além da questão étnica, o arqueólogo indica que também que há vestígios que evidenciam que em Orobó havia maior liberdade dos indígenas. Um exemplo são cerâmicas encontradas são vinculadas ao preparo do Cauim, bebida alcoólica feita pela fermentação da mandioca utilizada de forma ritual pelos indígenas, mas que era proibida pelos padres. Outros artefatos encontrados são adornos característicos de cerimônias de vingança. Também se registram presença de cerâmicas portuguesas, que poderiam ter sido saqueadas durante a revolta ou depois dela. A maior revolta indígena na capitania no período colonial Os historiadores analisam que a rebelião representou um marco importante sobre a questão indígena e a história do Espírito Santo, tal como a Insurreição de Queimado, realizada por negros escravizados na Serra, representa para a história dos povos afrodescendentes, como símbolo da insatisfação contra a ordem colonial que os subjugava. “O evento aponta para o protagonismo dos indígenas na história, diferente do que se costuma ver em livros didáticos, que trazem muitas vezes uma interpretação muito passiva sobre eles. A revolta mostra que tinham suas reivindicações e bandeiras de luta, sobretudo por autonomia. Embora não fossem escravos, o status de aldeados trazia uma série de restrições, não tinham liberdade irrestrita e os missionários controlavam questões do cotidiano como o trabalho e a rotina
Educadores são contra propostas que declaram ensino presencial como atividade essencial
No ES, PL é do Capitão Assumção. “Projetos contrariam a preservação da vida e da dignidade”, afirma Lagebes/Ufes Tati Beling/Ales O Laboratório de Gestão da Educação Básica no Espírito Santo (Lagebes), da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), somou-se à indignação de educadores capixabas e brasileiros e manifestou seu repúdio a dois projetos de lei que propõem classificar o ensino presencial como atividade essencial durante a pandemia de Covid-19. Na Câmara Federal, trata-se do PL 5.595/2020, da deputada Paula Belmonte (Didadania/DF), e, no Espírito Santo, do PL 59/2021, do deputado Capitão Assumção (Patri). “No momento em que o país atravessa a maior crise sanitária da história e o terrível colapso do sistema hospitalar, em decorrência do agravamento da pandemia em todo território nacional, entendemos que projetos dessa natureza corroboram com uma política contrária à preservação da saúde, da vida, da dignidade humana e da educação”, pronuncia-se o Lagebes/Ufes em suas redes sociais. “Quem é pela educação é pela empatia, pela ciência, pela defesa do SUS, pela valorização do trabalho docente, pela melhoria das condições de todas as escolas e pela luta contra as desigualdades sociais!”, conclamam os educadores e pesquisadores. Caso os projetos sejam aprovados, o ensino presencial poderá ser implementado mesmo em municípios em risco alto e extremo no Mapa de Risco Covid-19 do Espírito Santo. Atualmente, somente municípios em risco moderado e baixo estão autorizados. No 51º mapa de risco, que vigora entre a próxima segunda-feira (19) e o domingo (25), nove municípios estão em amarelo, estando autorizados ao ensino presencial. Nessa sexta-feira (16), em coletiva de imprensa com o secretário de Saúde Nésio Fernandes, o subsecretário de Estado de Vigilância em Saúde, Luiz Carlos Reblin, reafirmou que a vacinação dos educadores não é pré-requisito para reabertura das escolas. “Não é a vacina que vai definir o retorno ou não das aulas presenciais, mas sim o Mapa de Risco”, disse Reblin. “O Espírito Santo, como outros estados, adotou estratégia de vacinar o setor da Educação. Há obviamente no Brasil uma necessidade sentida por todos nós de que a criança precisa estar na escola, por isso estamos vacinando primeiro os que cuidam das crianças menores”, explicou. A imunização dos trabalhadores da educação, das redes pública e privada, da educação infantil ao ensino superior, começará na próxima semana e sua velocidade depende do quantitativo de doses enviados semanalmente pelo Ministério da Saúde. Somente os professores da educação básica somam 42 mil. Mais qualidade para o ensino remoto emergencial Ao se posicionar contrariamente aos PLs de Assumção e Paula Belmonte, o Lagebes apoia também a Nota Técnica emitida na última segunda-feira (12) pela Campanha Nacional pelo Direito à Educação, a Rede Análise Covid-19 e o Observatório Covid-19 BR, com o título “Brasil: não é hora de retomar as aulas presenciais nas escolas e é preciso garantir as condições adequadas para a oferta do ensino remoto emergencial“. A nota técnica dos três coletivos baseia-se na Nota Técnica 01, da Fundação Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), intitulada Considerações sobre política de restrições e as atividades escolares, publicada em 26 de março, em que afirma não haver condições epidemiológicas no país para a retomada das atividades presenciais nas escolas. O documento afirma o inciso I do art. 206 da Constituição Federal, que estabelece, como primeiro princípio do ensino no país, a “igualdade de condições para o acesso e permanência na escola”, o que, nesse momento, significa, também, universalizar o acesso ao ensino remoto emergencial. Infelizmente, salientam os coletivos, desde 2020, a pauta sobre reabertura de escolas para o ensino presencial está equivocada, com a discussão acontecendo “sem a devida análise do contexto epidemiológico e das condições da infraestrutura das instituições de ensino, fatores imprescindíveis para uma reabertura segura”. “Em termos práticos, a abordagem responsável do problema deve se dedicar a dizer como e quando é possível reabrir as escolas com segurança, sem colocar em risco a vida de profissionais da educação, estudantes e seus familiares”, acentuam. Assim, nesse momento, “o esforço nacional deve estar todo dedicado a controlar a pandemia. A maior prioridade é preservar a vida”, conclamam. Indicadores Fiocruz A Fiocruz também estabelece sete indicadores que, sendo alcançados, apresentam um contexto epidemiológico seguro para a volta das aulas presenciais. Nenhum estado brasileiro, no entanto, os atingiu. No Espírito Santo, a última avaliação feita por cientistas do Núcleo Interinstitucional de Estudos Epidemiológicos (NIEE), que assessora tecnicamente o governo do Estado na condução da crise de Covid-19, mostrou que o Estado só atendia a dois indicadores. Isso em janeiro último, quando ainda não havia entrada na terceira e mais grave onda da pandemia. A Nota Técnica 01/2021 da Fiocruz foi elaborada pela vice-presidência de Ambiente Atenção e Promoção da Saúde (VPAAPS/Fiocruz) e o Grupo de Trabalho Retorno às Atividades Escolares Presenciais, instituído pela portaria Fiocruz nº 5.608, de 1º de setembro de 2020. Lockdown nacional O documento parte do pressuposto de que “a interrupção prolongada das atividades escolares presenciais por ocasião da pandemia de Covid-19 produz efeitos físicos e emocionais em crianças e adolescentes” e que é “fundamental reconhecer as atividades escolares como serviços essenciais à sociedade”. No entanto, “no atual momento os indicadores da transmissão comunitária expressam a necessidade urgente de tomar medidas mais efetivas de lockdown ou restrições. Isso permitirá que o distanciamento físico seja capaz de ‘achatar a curva’, com redução de casos e mortes e garantia de leitos hospitalares para todos”. Por isso, salientam os cientistas, é fundamental “a reafirmação da indicação de lockdown como medida de controle da pandemia”. Nesse contexto de lockdown, a entidade faz três pontuações essenciais. A primeira é relativa ao transporte público, que deve ter fiscalização sobre lotação e medida de obrigatoriedade de uso de máscaras com previsão de multa às empresas se não fiscalizarem. Em seguida, a necessidade de um Plano Territorial para definição de abertura ou fechamento das atividades econômicas, sociais e de lazer. “Deve-se considerar as escolas dentro deste plano e cada uma avaliará suas condições estruturais de acordo com o mapa de risco do seu município, apoiada em particular pelos serviços de saúde como a Atenção
‘Currículo escolar nas comunidades quilombolas é urbano e eurocentrado’
Realidade é apontada pela pesquisadora Noelia Miranda, em e-book fruto de seus estudos de mestrado No Espírito Santo, muitos se ouve falar, por exemplo, no tradicional beiju, iguaria produzida principalmente nas comunidades quilombolas do Sapê do Norte. Entretanto, esse e tantos outros aspectos da cultura desse povo muitas vezes são esquecidos nas salas de aula dessas mesmas comunidades. “A questão é que os currículos escolares são urbanos e eurocentrados”, diz a professora, pesquisadora e escritora Noelia Miranda, que aponta a falta de investimento na formação docente quilombola como um dos motivadores dessa realidade. Ela chegou a essa conclusão em seus estudos de mestrado, que deram origem ao e-book “Formação de Professoras/es e Lideranças Quilombolas de Sapê do Norte, em Conceição da Barra – ES”, disponível para download gratuito e no qual estudou as comunidades quilombolas de Conceição da Barra, norte do estado. Noelia afirma que a realidade das escolas quilombolas é de ausência dos valores tradicionais da comunidade e de seus saberes. De acordo com ela, questões como a manipulação das ervas medicinais; religiosidade; manifestações folclóricas, como Ticumbi e Congo; e tecnologias, como a da produção de farinha; não se fazem presentes nas unidades de ensino, gerando, entre outros problemas, a falta informações sobre a origem dessas localidades e, consequentemente, a falta de reconhecimento como quilombolas principalmente por parte de alguns grupos de jovens. “Muitos jovens não têm ciência de que aquilo é uma comunidade quilombola. Um dos motivos é porque a escola não apontou, por isso têm dificuldade de se ver enquanto quilombola”, diz. A pesquisadora aponta, ainda, a ausência de uma formação que contemple a reflexão sobre as violências vividas pelas comunidades na atualidade, como a invasão de terras por parte de empresas, a exemplo da Suzano, e a degradação ambiental causada por elas. “As pessoas olham ao redor e só veem eucalipto. Os rios estão secos. Porém, é necessário que as pessoas compreendam o porquê dessa realidade”, defende. Essa situação, acredita a pesquisadora, poderia ser superada por meio da formação docente com foco na realidade quilombola. De acordo com ela, os professores dessas comunidades participam de qualificações junto aos da área urbana, sendo disponibilizado para eles o mesmo conteúdo. “Não existe um momento de diretrizes para a educação quilombola”, relata. Entretanto, dentro das comunidades há ações de resistência quanto a isso, como no caso de docentes que buscam inserir no conteúdo a realidade local. “As professoras, e digo professoras por que a maioria é mulher mesmo, fazem o movimento por iniciativa delas. Mas precisamos de política pública, não somente da boa vontade dessas profissionais”, defende. Insuficiência de vagas Não é somente a falta de formação para professores o problema da educação quilombola no Sapê do Norte. De acordo com Noelia, nas comunidades é ofertado somente o ensino fundamental I, ou seja, do primeiro ao quinto ano, e, mais recentemente, a Educação de Jovens e Adultos (EJA). No sexto ano, os estudantes têm que migrar para escolas da zona urbana. Observa-se, a partir daí, algumas mudanças na vida escolar. Uma delas é a redução no índice do Instituto de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). “Enquanto os alunos estão na escola da comunidade, a média é razoável. Quando saem, ela cai. A evasão aumenta, pois os estudantes estão em um lugar onde não se veem, não cabem, não são aceitos”, diz. Valorização do conhecimento europeu A realidade exposta em sua pesquisa, defende Noelia, não é encontrada somente nas comunidades quilombolas do Sapê do Norte. Quando se trata do Brasil como um todo, afirma, existe a valorização do conhecimento europeu em todas as áreas de conhecimento. “A matemática que nos é ensinada é uma matemática branca, europeia, não se estuda, por exemplo, os matemáticos egípcios”, lamenta. Conforme aponta Noelia, muitas vezes, no ambiente escolar, se fala de negritude somente quando se refere à escravidão, mesmo assim, de maneira muitas vezes distorcida, como se não tivesse ocorrido resistência contra a violência dos brancos. “É preciso mostrar também a história de antes da escravidão. Em África, os negros dominavam diversas tecnologias, como as da mineração, e os brancos exploraram muito esse conhecimento em Ouro Preto, por exemplo, para escavação em busca do ouro”, recorda. A predominância de heróis brancos, de personagens brancos nos livros didáticos e literários, também contribui para que não haja diálogo com a realidade dos estudantes negros, acredita Noelia. Ela exemplifica com uma situação vivida por ela na rede municipal de ensino de Viana, quando ocorreu um concurso de príncipes e princesas no qual foram apresentados às crianças somente personagens brancos. “Uma mãe negra falou que suas filhas não iriam participar, pois ela tinha três. Duas seriam Branca de Neve e uma a Cinderela. Além das roupas, ela teria que pagar o salão para alisar o cabelo das meninas, pois tinha que ficar parecido com o das princesas, senão as pessoas iam rir”, recorda. Diante disso, Noelia conseguiu incluir no concurso do ano seguinte princesas e príncipes negros e indígenas, como Zacimba Gaba, princesa angolana escravizada no norte do Espírito Santo, fundadora de quilombos e que liderou diversas revoltas pela liberdade. A história dessa importante liderança foi contada em um livro infantil escrito por Noelia, o “Zacimba Gaba, a Princesa Guerreira – A História que Não te Contaram”. Depois veio Zabelê, o Pássaro Encantado, que escreveu com Paulo Tássio Borges e no qual conta a história da índia Zabelê, de Cumuruxatiba, na Bahia, que lutou pela retomada do território de seu povo. Livros publicados por Noelia Miranda. Foto: Divulgação A trajetória de Zacimba Gaba também é retomada em “Zacimbinha – Princesa, Sapeca e Guerreira”. No livro, a escritora recorre a um processo imaginário de como foi a infância de Zacimba Gaba na África junto aos amigos, com suas brincadeiras e tradições. Os livros podem ser adquiridos por meio do site da editora.
Ficha limpa
Feitos para marcar horas eternas, ainda hoje enfeitam paredes mundo afora, indiferentes ao fluir do tempo e das pandemias Se nada é como antes, por que não os casamentos? Que nem os produtos made in China, feitos para não durar, assim andam os casamentos modernos. Descartáveis, mas atraentes e baratos. Mas quem quer algo que dure para sempre? Só mesmo dinheiro e saúde. Ou aqueles relógios cuco alemães, antigamente obrigatórios em todas as casas de prestígio? Feitos para marcar horas eternas, ainda hoje enfeitam paredes mundo afora, indiferentes ao fluir do tempo e das pandemias. * Esses relógios remontam ao século XVII e os casamentos são bem mais antigos, havendo referências a eles até na Bíblia. Sabe-se que Jesus frequentava festas de casamento, onde até dava uma força, melhorando a qualidade do vinho. Se nas Bodas de Caná os noivos eram parentes ou apenas amigos, a história não registrou. Também não se sabe se o casamento durou para toda a vida de um dos consortes, mas tendo a presença de um convidado tão nobre, devemos acreditar que sim. Se esses casamentos duravam ou não, a Bíblia não conta. Mas uma coisa é certa – os noivos que contavam com a presença de Jesus eram todos fichas limpas. * Muitas voltas tem dado esse sofrido globo terrestre até chegarmos a esse desastroso século das maravilhas, e a não ser pelos modelitos usados pelas noivas, pouca coisa mudou nos casamentos. Duas pessoas geralmente de sexos opostos resolvem viver juntos, em um ato devidamente oficializado em cartório, perante um juiz, e na igreja, diante de um sacerdote. Até que a morte nos separe – mas não ficou bem especificado se era a morte dos cônjuges ou do amor que diziam sentir um pelo outro. O símbolo desse amor eterno é o cisne, por ser bonito, monógamo e não se casar novamente quando fica viúvo ou viúva. * Mas ninguém pesquisou a vida íntima dos cisnes para saber porque eles não recasam. Pode ser que cultivem o amor eterno que o ser humano tanto procura, mas talvez haja alguma lei inserida no DNA proibindo novos relacionamentos. Como saber? Na dúvida, sugiro que adotem o cuco, essa avezinha escolhida para marcar o tempo, como pássaro símbolo dos casamentos. Mas nesses tempos de ficha limpa, eles não seriam aprovados. Migratórios, eles se mandam para outros países, onde acham suas companheiras, desprezando as conterrâneas. * São também parasitas, e não constroem ninhos: procuram um ninho prontinho, tiram um dos ovos do hospedeiro e depositam um dos seus. Ao nascer, o filhote do cuco expulsa os legítimos donos, ficando com o ninho só para ele. Mesmo assim, seu canto monótono foi o escolhido para anunciar as horas nesses belos relógios. Mas com a moda atual de caça às bruxas e bruxos, que elimina da história e da mídia os heróis de passado duvidoso, pode ser que o cuco seja também relegado ao ostracismo, substituído por algum pássaro ficha limpa. Que não seja a araponga.