A princípio, a ideia era traduzir o romance A Crônica de Malemorte para o inglês arcaico e transpor a história do contexto medieval português para o inglês. Nesse processo, a história foi crescendo e se tornou uma trilogia, logo depois, surgiu a necessidade de traduzi-la novamente para o português. Assim nasceu A Folha de Hera, que agora chega ao seu terceiro e último volume. “Foram quatro anos escrevendo e imerso apenas neste trabalho. A residência aqui na Biblioteca [Pública Estadual] me permitiu tempo e também uma responsabilidade em terminar esse projeto”, conta Reinaldo Santos Neves. O escritor, que tem como maior característica a ironia, já lançou mais de 15 livros com editoras locais e nacionais. Com o fim da residência, ele se prepara para começar novos projetos. Século Diário – Como surgiu a ideia para a trilogia A Folha de Hera, e por que traduzir para inglês A Crônica de Malemort (1978) e, depois, novamente, para o português? Reinaldo Santos Neves – Tudo nasceu com a história do meu segundo romance, A Crônica de Malemort, que é ambientado na Idade Média. Para escrever esse romance, eu consultei fontes medievais portuguesas, porque queria reproduzir a linguagem da época, mas de uma forma peneirada, para que ela pudesse se converter em uma linguagem literária moderna. A princípio, esse romance ficaria nisso apenas. Eu não tive imediatamente a ideia da tradução para o inglês, na verdade passaram-se 20 anos até que a ideia surgisse. A proposta era fazer a tradução com mesmos recursos, ler, estudar e consultar as fontes medievais inglesas e traduzir o texto de Malemort para o inglês arcaico. Esse inglês antigo também deveria ser acessível aos leitores de hoje, embora mantendo o cheiro e o gosto da linguagem medieval. Durante essa pesquisa e posterior escrita, o romance se tornou praticamente três vezes maior do que o original. A história mudou, surgiram novos personagens, mais cenas e também mais episódios paratextual, ou seja, a história do manuscrito, que não é contada na Crônica de Malemort. Eu criei todo um universo não medieval para explorar a história por trás do manuscrito desaparecido e, por isso, a versão inglesa cresceu. Esse meu primeiro projeto ainda não previa a tradução para o português, mas diante dessa diferença de conteúdo entre o original e a versão inglesa, percebi uma necessidade de retraduzir para o português, afinal, essa é a minha língua de escritor. Além disso, eu também criei uma história paralela para justificar o romance bilíngue, que é a história do autor americano que não conseguiu editar o livro para os Estados Unidos e conhece o tradutor brasileiro Reynaldo Santos Neves – com y – pra traduzir o livro para o português e conseguir que o livro fosse editado no Brasil. – Os livros são ambientados na Idade Média, por que escolheu esse período da história para explorar? – Na verdade foi a história que pediu esse tempo. Na época que eu estava trabalhando na Crônica de Malemort, senti que a história deveria ser ambientada em outro momento histórico que não fosse o presente, eu tinha uma intuição de que ela seria melhor em outra época. Então, eu reescrevi o romance de forma que ele fosse ambientado da Idade Média. Embora eu goste da Idade Média como cenário literário, foi uma questão casual escolher esse período. – Os livros são todos escritos em inglês e português arcaico, como foi esse processo de pesquisa? – A pesquisa em português foi mais reduzida porque foi durante os anos 70, pré-internet, então eu tinha que apelar para as fontes impressas. E não era fácil conseguir esses documentos medievais portugueses, então eu tive que me contentar com obras do meu próprio pai, ele era professor de literatura e língua portuguesa e, por isso, tinha algumas coisas. Agora, na época em que me propus a escrever A Folha de Hera e fazer a tradução para o inglês, já estava na época da internet e o meu campo de pesquisa se alargou muito. Inclusive, encontrei um dicionário de inglês médio, que eu consultei intensamente principalmente nas notas e nas citações. Eu sempre digo que o computador e a internet mudaram a minha vida como escritor, o computador por que tornou mais fácil escrever e administrar um texto, e na internet você encontra tudo o que você quer. – A ironia é uma característica que está em quase todas as suas obras, como ela se dá em A folha de Hera? – A ironia em A Folha de Hera eu diria que é mais subliminar. O narrador, que é um monge medieval, é irônico sem saber, mas nós, os leitores de hoje, percebemos a ironia por trás de suas palavras. Além disso, há a ironia dramática, a própria história parece caminhar para uma direção, mas depois há uma reviravolta. – Como você se sente encerrando essa trilogia? Afinal, foram quatro anos escrevendo e imerso apenas neste trabalho. – De certa forma eu estou alforriado, foi um trabalho muito longo e sempre fica aquela dívida com você mesmo. A residência aqui na Biblioteca me permitiu tempo e também uma responsabilidade em terminar esse projeto. Como residente, eu trabalhei apenas nessa trilogia, já havia muita coisa escrita, mas a versão final foi feita toda na Biblioteca. – E junto com a trilogia, também se encerra o seu período como escritor residente na Biblioteca Pública Estadual. Quais são seus planos agora? – Eu tenho um projeto na cabeça que já tem quatro anos também e agora vou me dedicar a ele. Quando eu digo na cabeça, na verdade, eu já tenho alguns rascunhos, roteiros e páginas escritas. Mas ainda é tudo muito restrito, porque a minha preocupação maior era com A Folha de Hera. – Outra obra sua, O Reino dos Medas (1971), recentemente virou filme pelos diretores Vitor Graize e Rodrigo Oliveira, o que achou? – Eu continuo sem ter assistido ao filme, não é por
Número alto de indecisos reforça indefinição do pleito
Entre os dados da pesquisa DataFolha divulgada nessa sexta-feira (6) sobre a corrida presidencial, o que mais chama a atenção é o índice de indecisos sobre a eleição que será daqui a quatro meses. Os levantamentos mostraram que 30% dos eleitores brasileiros ainda não escolheram em quem vão votar nesta eleição. Um número recorde para o período desde 1989, quando Lula perdeu a eleição para Fernando Collor por conta da polêmica edição do debate às vésperas da votação. Naquele momento, a disputa era bem diferente do cenário atual, em que os dois candidatos dividiam o interesse do eleitorado na primeira eleição realmente direta. Este ano, Dilma Rousseff (PT) mantém a dianteira da disputa, uma distância que pode acabar atraindo os indecisos na hora da definição. No Espírito Santo, os últimos levantamentos realizados, além de trazerem desconfiança da classe política sobre os nomes e os métodos utilizados, também mostraram um índice alto de indecisos. Um cenário que reforça a indefinição do pleito. Se nacionalmente os especialistas apontam o desinteresse da população diante dos nomes apresentados, no Estado a política de unanimidade torna a eleição morna. A indefinição do cenário majoritário também ajuda a afastar o eleitor, que só deve escolher um nome para disputa quando o cenário se tornar mais consistente. O processo eleitoral terá início no próximo dia 6 de julho, assim que forem concluídas as convenções e as chapas forem homologadas na Justiça Eleitoral. Mas com a Copa do Mundo iniciando no próximo dia 12, o eleitor capixaba, assim como o brasileiro, só deve começar a prestar atenção na disputa eleitoral após a final, no dia 13 de julho.
Ações afirmativas são mais eficazes para conter violência do que aumento de pena
O aumento no tempo de internação de adolescentes em conflito com a lei e de tempo de cumprimento de pena para progressão de regime não é medida capaz de reduzir os índices de violência. Esta é a avaliação do juiz Vladson Bittencourt, da 2ª Vara da Infância e Juventude de Vila Velha. Na última semana, os secretários de Segurança do Sudeste – André Garcia (Espírito Santo), José Mariano Beltrame (Rio de Janeiro) Fernando Grella (São Paulo) e Rômulo Ferraz (Minas Gerais) – foram a Brasília reivindicar diretamente aos presidentes do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), agilidade na tramitação de projetos que tornam mais rígida a legislação penal para adolescentes. Dos pedidos dos secretários aos chefes das Casas legislativas, destaca-se o aumento no cumprimento de medidas socioeducativas de três para oito anos. Para o magistrado, o aumento de penas provocaria uma assepsia social de negros e da população pobre. “É preciso trabalhar as políticas públicas desde o início, com educação, alimentação e saúde. Só aumento de penas não resolve”, considera. No caso dos adolescentes, Bittencourt exemplifica que os atos infracionais são regidos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), com tempo máximo de internação de três anos. Se, de fato, houvesse socioeducação no Estado, se fossem aplicados os preceitos do ECA, o adolescente não reincidiria no ato infracional, por temer o Código Penal. Além da socioeducação não ser aplicada na unidade, esses adolescentes não tiveram nenhuma ação afirmativa preconizada pelo ECA durante a vida e, quando adultos, voltam para o sistema penitenciário. Bittencourt também lembra que, na realidade do Estado, a socioeducação é negligenciada. Ele salienta que existem, atualmente, cerca de 100 adolescentes que deveriam estar em unidades de internação, já que têm medidas socioeducativas aplicadas, mas estão na Unidade de Atendimento Inicial (Unai), em condições desumanas e ociosos, porque o Estado não dá conta da internação de adolescentes. O juiz ressalta que o encarceramento puro e simples não resolve o problema da violência e que a ela decorre da indignação pelo abandono, tornando-se ainda mais severa depois que esses adolescentes passam pelo sistema e são mais esquecidos ainda pela sociedade.
Dia do Meio Ambiente: no Estado, mercado de exportação se opõe à preservação
“Temos, sim, motivos a comemorar”, disse Valmir Noventa, coordenador estadual do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), quando questionado sobre o Dia Mundial do Meio Ambiente, nessa quinta-feira (5). Ao menos no campesinato, explicou, a consciência ambiental e a adoção de práticas que fortalecem e equilibram o meio ambiente são crescentes entre os pequenos camponeses. “Não é possível afirmar que o conjunto da sociedade concorda com esse modelo predatório de desenvolvimento adotado no Estado”, disse o camponês, completando: “a discussão ambiental é um dos maiores dilemas da humanidade”. Valmir Noventa ilustra que o Código Florestal, por exemplo, nunca foi uma ameaça para o pequeno camponês, que sempre desenvolveu seus cultivos com preocupação ambiental e, não por acaso, as regiões com maiores percentuais de preservação da Mata Atlântica, como o município de Pancas e a região serrana do Estado, também são as de maior atuação camponesa. Por outro lado, nas regiões onde há maior incidência do agronegócio, a destruição ambiental é crescente, em oposição à timidez do reflorestamento. “O município de Pinheiros configura nesse cenário predatório de desenvolvimento como um grande exportador de água, uma vez que seus recursos hídricos são exportados com frutas, cana, eucalipto e gado produzidos no município, que já sofre o constante déficit hídrico”, retrata Noventa. Ele também lembra que, já escassa, a água que se tem acesso nas grandes regiões do agronegócio são, ainda, contaminadas pelo uso abusivo de agrotóxicos. A posição é acompanhada por Adelson Lima, coordenador estadual do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que também lembra que, no Estado, há situações muito diferentes entre municípios muito próximos. Uns sofrem com alagamentos e enchentes, outros com a seca. Essa situação, certamente, é acirrada pelas políticas estaduais que, supostamente, apoiam a agricultura familiar com ações como o incentivo ao “reflorestamento” com o eucalipto da Aracruz Celulose (Fibria), que não promovem a biodiversidade e a produção saudável de alimentos, almejadas pelos pequenos camponeses. A reforma agrária e o incentivo à agroecologia, como ressaltou o militante, são medidas políticas necessárias para que o meio ambiente seja preservado com a produção campesina de alimentos, dando condições para que o povo se firme no campo. Apesar da conscientização dos trabalhadores do campo, o agronegócio avança. As principais ameaças ao campesinato vêm dos grandes latifúndios monocultores de frutas para exportação, cana para fabricação de etanol e o grande vilão, o eucalipto, responsável pelo empobrecimento do solo e pela queda da biodiversidade nas regiões onde estão localizadas as extensas e danosas plantações. Adelson ressalta que o Brasil, desde o período colonial, cumpre o mesmo papel de exportador de matérias-primas sem, no entanto, desenvolver políticas adequadas que sustentem a população do campo. Devido a isso, o êxodo rural e a usurpação dos recursos naturais para as grandes empresas, onde também são incluídas as mineradoras, ainda são uma realidade no país. Para Noventa, os órgãos governamentais que deveriam atuar pela proteção do meio ambiente estão mais preocupados em apoiar a iniciativa privada, em uma clara contradição entre o discurso que pregam e a prática que desenvolvem. O agronegócio, calcado na falsa promessa de empregabilidade e aumento da produção, não vai solucionar os problemas ambientais do campo. Ao contrário da agricultura familiar que, aliada a políticas públicas que realmente ofereçam o suporte necessário ao desenvolvimento da atividade camponesa, pode produzir alimentos aliada à preservação ambiental. Cidade Na Grande Vitória, a mudança nas políticas públicas ambientais do governo, por pressão da sociedade civil, é a esperança para a preservação ambiental no meio urbano, como retrata Luiz Fernando Nogueira Moreira, da Associação Nacional dos Amigos do Meio Ambiente (Anama). Depois de aprovar um decreto da qualidade do ar que em nada ajuda na questão, o governador Renato Casagrande é alvo de um requerimento do grupo SOS Ambiental para que a legislação seja revogada. A entidade alerta que o decreto estabelece uma “licença para matar” às poluidoras Vale e ArcelorMittal, por estabelecer metas de redução da poluição sem prazos para cumpri-las e, ainda, por aumentar o valor de tolerância das Partículas Sedimentáveis, (PS), o famoso pó preto. Para Luiz Fernando, não há motivos para comemorar o Dia do Meio Ambiente no Estado. A Vale, por exemplo, está na iminência de iniciar o funcionamento de sua oitava usina, sem que o enclausuramento total, método conhecido como Domus e amplamente defendido pela sociedade civil, tenha sido implantado nos pátios de estocagem e na linha de produção da mineradora e de sua vizinha, ArcelorMittal, que divide com a mineradora a responsabilidade pelos elevados índices de poluição do ar na região. Outro alvo de esperanças por parte dos ambientalistas da capital, como também informou o representante da Anama, é a tentativa de reabertura da CPI do Pó Preto, projeto de relatoria do deputado Gilsinho Lopes (PR). Diferentemente do que aconteceu no ano passado, quando a proposta foi arquivada após sete deputados retirarem suas assinaturas de apoio, a expectativa de Luiz Fernando e de todos os ambientalistas que defendem a abertura da comissão é de que a assinatura de dez deputados tenha o poder de, enfim, abrir o procedimento de investigação, punindo os responsáveis.
Fundo Brasil de Direitos Humanos destina R$ 1,4 milhão para projetos
O Fundo Brasil de Direitos Humanos divulgou o resultado de duas chamadas de projetos de apoio a organizações da sociedade civil. Ao todo são 25 projetos selecionados e mais de R$1,4 milhão destinados a essas entidades. Em 2014 os editais foram o já tradicional “Combate à violência institucional e à discriminação”, realizado anualmente, e o temático “Litigância estratégica, advocacia e comunicação para a promoção, proteção e defesa de direitos humanos”. O Fórum Estadual da Juventude Negra (Fejunes) foi uma das entidades com iniciativa apoiada pelo Fundo Brasil. O Fórum propôs a terceira etapa da campanha estadual contra o extermínio da juventude negra. A campanha, que já foi apoiada pelo Fundo Brasil em 2008 e 200, tem o objetivo de mobilizar a juventude negra ao engajamento político para consolidação de um processo de resistência contra o extermínio, por meio de ciclo de formação sobre o tema, oficinas em escolas públicas, publicação de cartilha e da realização de atos públicos para dar visibilidade à causa. O Mapa da Violência 2013 – Homicídios e Juventude no Brasil, elaborado pelo sociólogo Julio Jacobo Waiselfiz, e lançado pelo Centro de Estudos Latino-Americanos (Cebela) e pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), mostra que o Espírito Santo é o segundo mais violento do País para jovens negros – com idades entre 15 e 24 anos. O estudo aponta que a taxa de jovens negros mortos no Estado em 2011 foi de 144,6 por grupo de 100 mil habitantes, taxa somente menor que a de Alagoas, que ficou em 201,2. As taxas de mortes de jovens negros são de países que estão em guerra civil. O Fundo Brasil realiza editais para seleção de projetos desde 2007. Com os novos projetos, a fundação alcançou a marca de 241 iniciativas apoiadas, destinando cerca de R$ 7,4 milhões em doações para indivíduos e grupos que atuam em defesa dos direitos humanos em todo País. Entre dezembro de 2013 e fevereiro de 2014, o Fundo Brasil recebeu 406 propostas que passaram por uma triagem inicial, quando foram verificadas a adequação ao foco do edital e definiu quais projetos deveriam ser remetidos ao Comitê de Seleção externo. O Comitê tem a função de indicar as iniciativas a serem apoiadas para a decisão final do Conselho Curador. Participaram do Comitê de Seleção em 2014: Letícia Tura, Lúcia Xavier, Joênia Wapichana, Renato Roseno, Sandra Carvalho, Sandra Unbehaum, Veriano Terto Jr.
???Cada um com seus problemas???
No início da semana, este espaço repercutiu os efeitos devastadores para os cofres da União e dos Estados, caso o Congresso Nacional aprove a Proposta de Emenda Constitucional 63/2013, também conhecida como PEC da Magistratura. A proposta cria um adicional por tempo de serviço de 5% para magistrados e membros do Ministério Público da União e dos Estados. O adicional seria aplicado a cada cinco anos até o limite de 35%. Com o pagamento dos quinquênios, os salários ultrapassariam o teto constitucional de R$ 29,4 mil, podendo beirar a casa dos R$ 40 mil mensais. Cálculos preliminares do governo federal estimam um forte impacto nas contas públicas: R$ 1 bilhão ao ano para a União e R$ 2,5 bilhões para os Estados. Os dois principais jornais do Estado (Gazeta e Tribuna) repercutiram nesta sexta-feira (6) os efeitos da PEC com o presidente do Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES), desembargador Sérgio Bizzotto, que tinha a resposta na ponta da língua: “Isso é um direito nosso”. Quando ele diz “nosso”, entende-se: magistrados, procuradores e promotores, inclusive aposentados e pensionistas. Bizzotto reconheceu que a aprovação da proposta representará impactos financeiros para os cofres públicos, mas deixou bem claro que isso não lhe diz respeito. “Vai trazer impactos, mas o governo que gere recursos. Isso não é conosco, é com o Executivo”. O discurso de Bizzotto está afinado ao da maioria dos magistrados do País. O futuro presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Ricardo Lewandowski, por exemplo, já estaria fazendo “lobby” no Senado pela aprovação da PEC. Chama atenção o fato de Bizzotto tratar um assunto desta relevância — que pode comprometer os investimentos do governo em áreas vitais como saúde, segurança e educação — com tamanha leviandade. Bizzotto precisa ficar atento que quando dá declarações, não fala como mais um magistrado, apenas ansioso para botar as mãos na bufunfa. Mas fala como presidente de uma instituição que ironicamente carrega no nome a palavra “Justiça”. É prudente que Bizzotto meça suas palavras antes de soltá-las aos quatro vento, porque certas declarações podem revoltar as pessoas. Imaginem como se sente um trabalhador que ganha um salário mínimo ouvir a seguinte declaração do presidente do Tribunal de Justiça: “Eu, por exemplo, recebo R$ 19 mil líquidos por mês [sem os penduricalhos, é bom que se diga]. Quando me aposento, passo para R$ 14 mil de um dia para o outro”. Bizzotto fez essa observação para justificar a importância da aprovação da PEC 63, que garantirá que o desembargador curta sua velhice com os mesmos R$ 19 mil. Em que país vive o desembargador? Vamos refrescar a consciência de de Bizzotto. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em sua Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2012, mostrou que 43,1% das famílias apresentaram renda média mensal per capita inferior a um salário mínimo. Sem contar que cerca de 15,7 milhões de pessoas vivem na pobreza no Brasil, dos quais 6,53 milhões continuam abaixo da linha de pobreza. O presidente do tribunal talvez não saiba que a maioria dos trabalhadores brasileiros, mesmo os que tiveram bons salários durante os anos de labuta, se aposenta com um valor muito abaixo do teto do INSS, que hoje é de R$ 4.159. São raros os trabalhadores que conseguem bater no teto do INSS. Quem consegue a proeza, fica feliz da vida, porque tem consciência de que a maioria envelhece com o mínimo de R$ 724. E pensar que o desembargador está insatisfeito com R$ 14 mil de aposentadoria. Quer mais, quer manter os mesmos R$ 19 mil que recebe hoje, que equivalem a mais de 26 salários mínimos. Ele deve estar apavorado, pensando como irá manter seu padrão de vida com R$ 5 mil a menos na conta quando tiver que botar o pijama. Em meio aos impropérios sobre a PEC, Bizzotto soltou mais uma pérola. “Nós temos esse direito, como outras categorias”. Faltou o desembargador informar quais são as benditas categorias que desfrutam dos mesmos benefícios dos magistrados. O que sabemos, por exemplo, é que os professores da rede pública estadual, mês passado, pleitearam e não conseguiram reposição das perdas salariais; reajuste no auxílio-alimentação e no auxílio-saúde; e reposição da inflação de 5,91%, referente a 2013. Com certeza, Bizzotto não estava se referindo aos professores. Em tempo: falando em benefícios, foi na gestão de Bizzotto, não podíamos deixar de registrar, que o valor do auxílio-alimentação de magistrados saltou de R$ 819,94 para R$ 1.679,80 – mesmo valor que é pago aos membros do Ministério Público. Melhor não revelar o valor do “vale-coxinha” dos professores. Ficaria até chato.
Ventos de fora
Dois fatos políticos nacionais movimentam a sexta-feira dos principais candidatos e seus aliados ao governo do Estado. Se por um lado a pesquisa presidencial DataFolha confunde ainda mais o já confuso palanque de Paulo Hartung (PMDB). Por outro lado, a definição de PSDB e PSB sobre a eleição em São Paulo ecoa no acordo para o pouso dos tucanos no palanque do governador Renato Casagrande. Os presidenciáveis haviam costurado um acordo em maio passado, mas devido às incompatibilidades causadas pelos desentendimentos entre Eduardo Campos e Marina Silva sobre a disputa em São Paulo, houve uma desaceleração nas movimentações no Estado. Uma vez resolvido o problema em São Paulo, não há mais justificativa para paralisar as articulações no Estado. Mesmo assim, as definições no Estado devem acontecer mais para o fim do mês. Mesmo com a proximidade do período de convenções, os partidos devem deixar as definições para o fim do mês, aguardando uma melhoria do cenário. Já no palanque do ex-governador Paulo Hartung, o cenário nacional só confunde mais o que já não está fácil de entender. Se ele esperava que a pesquisa DataFolha ajudasse na difícil decisão de assumir ou não o palanque de Dilma no Estado, não ajudou. Dilma caiu, mas Aécio e Eduardo Campos também não cresceram. Então não dá para escolher um caminho agora. E no Estado, a pressão dos aliados continua grande. Mas, com 30% de indecisos, Hartung não vai conseguir através dos números escolher um caminho a seguir. Para fechar, os 2% de intenção de votos de Magno Malta (PR) parecem pouco, mas representam 2,8 mil votos, o que em uma eleição polarizada pode significar muita coisa. Enquanto isso, o tempo passa. Fragmentos: 1 – A escolha do vice e do candidato ao Senado pelo palanque do governador Renato Casagrande será discutida por um conselho político que vai reunir lideranças dos partidos que compõem o palanque do socialista. O grupo deve se reunir todas as quartas-feiras às 18 horas, na sede do PSB, em Vitória. 2 – O ex-prefeito de Vila Velha, Max Filho (PSDB) foi visto passeando pela Assembleia Legislativa na última quarta-feira (4). Foi o suficiente para a classe política voltar a aventar a possibilidade de o tucano recuar na candidatura de deputado federal. 3 – Max, porém, vem reafirmando nas redes sociais sua disposição para a disputa à Câmara dos Deputados. Até porque seu principal cabo eleitoral hoje é o desempenho nada satisfatório do prefeito de Vila Velha Rodney Miranda (DEM).
??ltimo suspiro
Embora o ex-prefeito de Vitória João Coser bata o pé, a candidatura própria do PT ao governo do Estado é a chance que o partido tem de renascer das cinzas e voltar à mesa de negociação nas articulações políticas do Estado. Tendo, como trunfo, o fato de levar o pleito para o segundo turno. Mesmo que Coser não seja mais “essa coca-cola toda” do ponto de vista eleitoral, deve conquistar votos suficientes para impedir que o pleito se encerre logo na primeira fase. Até porque, a previsão é de embate acirrado entre o governador Renato Casagrande e seu antecessor Paulo Hartung (PMDB). A candidatura de Coser seria possível em uma aliança com o PDT, podendo arrebatar ainda o PR, do senador Magno Malta. Assim, para o PT, estaria garantido o palanque da presidente Dilma Rousseff e uma boa coligação na proporcional. Não à toa, já há manifestações de lideranças do partido nesse sentido, inclusive daquelas que estendem tapete vermelho para o ex-governador. O problema é Coser largar o osso: primeiro de Hartung, depois da candidatura ao Senado. O ex-prefeito, não é novidade, sempre esteve preocupado com o próprio umbigo. Vai pesar a mão da nacional. Pé atrás Isso tudo, claro, considerando que Hartung será mesmo candidato, o que é sempre uma incógnita. O ex-governador sofre forte pressão do empresariado. Sentido contrário A propósito, Hartung aparece em foto no Facebook do gerente de Comunicação da Prefeitura de Anchieta, Arthur Wernersbach Neves, ao lado de dois tucanos, o vereador do município Válber Salarini e o secretário-geral do partido, Ruy Marcos Gonçalves. Todos felizes e sorridentes, após solenidade que homenageou Hartung na Câmara. Tem um porém: PSDB está cada vez mais próximo de Casagrande. Área de risco Se a aliança PSDB-PSB for consolidada, aliás, forçando uma candidatura de Guerino Balestrassi a deputado federal, o tempo poderá fechar para o deputado federal Paulo Foletto (PSB). Os dois têm base eleitoral em Colatina e região e terão que dividir votos por lá. Balestrassi é aliado do prefeito, Leonardo Deptulski (PT). Novo cenário ameaça reeleição de Foletto. Matemática Na última eleição, Foletto obteve cerca de 35 mil na região e 96 mil no Estado inteiro. No mercado político, quem entende de números e de eleição, calcula que se ele tiver 60 mil votos este ano, deve soltar fogos. Lembrando que Vandinho Leite, também do PSB, é outro que tira votos de Foletto. Nem ‘tchun’ Ao que tudo indica, o presidente da Assembleia Legislativa, Theodorico Ferraço (DEM), tomou um “chega pra lá” do filho, o senador Ricardo Ferraço (PMDB). Apareceu com aquela história de convencer o filho a ficar do seu lado na eleição deste ano, que é o lado de Hartung, mas ficou a ver navios. Intocáveis As declarações do presidente do Tribunal de Justiça do Estado, Sérgio Bizzoto, sobre a PEC dos Magistrados, que garante aumento dos salários de juízes, é o retrato claro de que como o Judiciário se coloca acima de tudo e de todos, repetindo um discurso pra lá de corporativista. Para ele, é simples assim: “o governo que gere recursos”, como declarou em A Gazeta. Em um país onde a maioria sobrevive com apenas um salário mínimo, não desce. Intocáveis II A proposta, ultrapassa e muito o teto do funcionalismo público e representará impacto de mais de R$ 3,4 bilhões ao ano – se a aplicação for retroativa, R$ 30 bilhões -, além de abrir precedente para que ocorra um efeito cascata. Tudo para manter a situação exatamente como está: os magistrados e membros do MP no topo da cadeia remuneratória, cada vez mais distantes das demais carreiras e, como sempre, reclamando de barriga cheia. Blá,blá, blá… Está difícil de colar a “política do bom moço” adotada pelo presidente da Câmara de Vitória, Fabrício Gandini (PPS). Enquanto a Casa debate corte de ponto, sobra omissão em questões importantes para os moradores da Capital. Exemplo claro, a poluição do ar. Quero ver vereador bater boca durante sessão, quase brigar, pela qualidade de vida da população. O resto é picuinha e jogo político em defesa de interesses próprios. ‘Bóra’ trabalhar? 140 toques “Nova pesquisa Datafolha mostra empate técnico no Sudeste entre Aécio e Dilma!”. (Deputado federal César Colnago – PSDB – no Twitter). PENSAMENTO: “A paixão pela política deriva normalmente de uma necessidade insaciável, ou por poder, ou por amizade e adulação, ou por uma combinação de ambos”. Fawn M. Brodie
Altos e baixos
O Brasil tenta pôr fim à famigerada “cura gay”. Uma tortura mental, sem fundamento cientifico que pode provocar lesões irreversíveis no psicológico de um ser humano. Uma invenção do fundamentalismo evangélico que provocou um debate nacional, gerando protestos e causando constrangimentos políticos. Obra de autoria da ex-psicóloga Mariza Lobo – ex, porque teve seu registro cassado pelo Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP) -, que já tinha estabelecido normas rígidas com relação a esse pseudo tratamento da orientação sexual de uma pessoa. A chamada “cura gay” vai na contramão das diretrizes da OMS (Organização mundial de saúde), que não reconhece a homossexualidade como doença, portanto, não passível de cura. Mariza Lobo é fundamentalista evangélica e usa sua crença religiosa para apoiar a falsa terapia. O CRP também proíbe que psicólogos venham a público reforçar preconceitos sociais e que apontem os homossexuais como portadores de qualquer desordem psíquica. Enquanto isso, no clima da Copa do Mundo, jogadores se posicionam contra a homofobia e promovem um mundo mais igualitário, quebrando estigmas e preconceitos. Esse movimento se junta a luta contra o racismo, que vem agredindo jogadores negros em várias partes do mundo, inclusive aqui no Brasil. O jogador brasileiro Neymar, afirma em vídeo postado no You tube, que “dentro do campo, não existe espaço para o preconceito, nem discriminação, somente para a arte de jogar”. E essa semana a Nike, uma das mais importantes marcas esportivas do mundo, inclusive patrocinadora da Copa, lançou uma linha de produtos que marca o apoio ao público LGBT (Lésbicas, Gays, bissexuais, travestis e transexuais). Já foram lançadas outras coleções da Nike em homenagem ao orgulho gay, mas essa é especial pela proximidade da Copa, o que vai chamar atenção de todo o planeta. E nos Estados Unidos mais um Estado legaliza o casamento igualitário, desta vez foi o Estado de Ilinois. A autorização está valendo desde o dia primeiro de Junho. Este é o 20º Estado a vencer a barreira do preconceito e reconhecer o direto ao casamento de pessoas do mesmo sexo. O amor vencendo o ódio e a segregação, a exemplo do que aconteceu com o direitos de negros e mulheres. O ativista político Harvey Milk, o primeiro a lutar em prol da diversidade sexual, que em 1977 foi eleito para o conselho de supervisores de São Francisco, e no ano seguinte foi assassinado juntamente com o prefeito da cidade, Geoge Moscone, pelo ex-supervisor Dan White, está sendo homenageado com um selo dos Correios. O acontecimento esta enchendo de ódio um grupo religioso que se auto intitula American family association, que vem pedindo pela internet que os cristãos americanos boicotem o selo. Por aqui continua a alta vendagem do livro de Jean Willys, Tempo bom, Tempo ruim. Jean que é político, assim com Milk, assumidamente gay, vem trazendo um balanço das conquistas e das perdas da militância LGBT no Brasil. O livro deveria ser lido por todos aqueles esperam um dia por uma sociedade mais inclusiva e equânime. O livro passeia pelas lutas sociais, pela homofobia, fala no racismo no futebol, fala de avanços e retrocessos nos direitos humanos. Jean conta um pouco a sua trajetória como político e consciente de seu tempo. Uma boa oportunidade para reflexões e tomadas de posicionamento num país desigual, onde muitos lutam pela diversidade. Luiz Felipe Rocha da Palma (Phil Palma) é publicitário. Nas “horas vagas” (às quartas) comanda o programa “Praia do Phil” pela Rádio Universitária FM, onde defende os LGBTs e denuncia a homofobia. Fale com o autor: philpublicitario@gmail.com
Juíza mantém liberdade de jovem que matou a ex-namorada em Vila Velha
A juíza da 4ª Vara Criminal de Vila Velha, Paula Cheim Jorge D’Ávila Couto, manteve a decisão que revogou a prisão do jovem Christian Braule Pinto Cunha, 19 anos, que confessou ter assassinado a ex-namorada Bárbara Richardelle Costa de Oliveira, 18. Em nova decisão nessa quarta-feira (4), a magistrada negou o recurso do Ministério Público Estadual (MPES). Ela ressaltou a necessidade de imparcialidade pelo julgador e classificou que a manutenção da prisão como uma antecipação da pena mesmo sendo um caso de grande repercussão social. Apesar de ter sofrido uma série de críticas por parte da família da vítima, de parte da imprensa e até na Assembleia Legislativa, a juíza Paula Cheim defendeu a legalidade de sua decisão: “Existe inúmeras prisões preventivas sendo decretadas com supedâneo (base) no clamor público, sendo evidente a sua inconstitucionalidade em virtude da violação dos princípios da legalidade, da presunção da inocência, pois o decreto prisional através do clamor público nada mais é do que uma antecipação da pena, bem como da culpabilidade do acusado”. A magistrada citou que tramitam mais de 1,2 mil ações penais por crimes contra a vida na Vara, em sua maioria, de jovens. “Tais delitos por si só causam grande comoção social e clamor público, pelo sentimento de revolta diante da banalização da vida humana que se vê cotidianamente não só na nossa cidade como em todo o país mas, ao magistrado impõe-se a imparcialidade e o distanciamento necessário para apreciação do caso concreto sem se deixar levar pelas impressões pessoas e indignações humanas”, observou. Sobre o recurso do Ministério Público, a juíza Paulo Cheim afirmou que o teor do apelo não trouxe novos argumentos para reverter sua decisão inicial, prolatada no último dia 26. Na ocasião, a juíza revogou de Christian Cunha sob alegação de que o réu é primário, possui residência fixa no município onde ocorreu o crime e labor (trabalho) lícito. Segundo ela, não era possível presumir a periculosidade de Christian Cunha – que assassinou a ex-namorada a golpes de cavadeira, no dia 17 de março passado. Na época, a decisão foi alvo de críticas por parte da família de Barbara Richardelle, que criticou a impunidade no caso. Na Assembleia Legislativa, o assunto foi tema de vários pronunciamentos. Um dos principais críticos foi o deputado Gilsinho Lopes (PR) que classificou a decisão como “extemporânea e inexplicável”. O deputado Freitas (PSB) chegou a citar a manutenção da prisão dos acusados pela morte do cinegrafista Santiago Andrade, durante um protesto em fevereiro passado, como exemplo de decisões de tribunais superiores a favor da previsão de liberdade. Na decisão prolatada no último dia 26, a magistrada fixou ainda medidas cautelares para o réu, como a obrigatoriedade do comparecimento período no juízo, proibição de frequentar bares e casas noturnas ou manter contato com qualquer parente da vítima e testemunhas do caso. Christian Cunha também foi proibido de sair do município de Vila Velha por mais de oito dias, sob pena de prisão em caso de descumprimento de qualquer das medidas cautelares. O jovem foi solto no dia seguinte e teve que assinar um termo de compromisso do cumprimento das imposições feitas pela juíza. O crime A jovem Bárbara Richardelle foi morta a golpes de cavadeira pelo ex-namorado, no terreno de uma obra na Praia da Costa, em Vila Velha. O crime teria ocorrido após uma discussão do casal em função da divulgação de imagens íntimas da jovem pelo acusado do crime. Segundo as apurações da Polícia Civil, Christian Cunha teria esganado a vítima na briga, que teria desmaiado. Logo em seguida, ele teria desferido golpes com a ferramenta na cabeça da jovem, que morreu no local. O corpo de Bárbara só foi encontrado por volta das 6 horas do dia seguinte, às margens da Rodovia Darly Santos, no mesmo município. Em depoimento, o jovem confessou o crime e afirmou que, logo após ter matado a ex-namorada, comprou um churrasquinho e um guaraná e lanchou no local. Na madrugada do crime, ele teria transportou o corpo de Bárbara no carro do pai. Ela só foi encontrada nas primeiras horas da manhã do dia seguinte por pessoas que estavam saindo de casa para trabalhar.