O Homem dos Patos é um romance singular que, na fronteira com a poesia e o teatro, mostra a força crítica de uma expressão calcada na ousadia e na insubmissão formal. Conciliando uma precisão quase geométrica na composição das páginas e uma liberdade radical na escrita, o livro está estruturado em três planos simultâneos que, trançados numa perspectiva lúdica, capturam o leitor pelo ritmo pujante. Extrapolando, porém, qualquer tentativa de delimitação temática, o romance é antes de tudo uma celebração da linguagem e da invenção sem amarras, uma caudalosa proliferação de vozes que – numa mescla rara de concisão e profundidade – perpassa tópicos como o apego e o desapego, a memória e o esquecimento, a atenção e a presença, a ação do tempo e a provisoriedade das identidades. Diana de Hollanda, 29 anos, é carioca. Publicou o conto Beatriz de novembro no primeiro livro, Contos do Rio, concurso promovido pelo jornal O Globo. Posteriormente, publicou outros contos e poemas em coletâneas e revistas. Atualmente, dedica-se também à direção teatral, que cursa na UniRio. Serviço O Homem dos Patos Diana de Hollanda Editora 7 letras 104 páginas R$ 34, em média
O pintor
Manhã sem chuva João chega no ponto, tira os quadros das duas pesadas malas e os enfileira contra a parede da velha igreja da praça. O mundo passa apressado e indiferente, rumo aos pontos de ônibus, ao trabalho qtem hora certa, ao banco que não espera, ao médico do SUS, à promoção de alguma loja, ao supermercado, e ignora o homem sentado no degrau da igreja, cercado de imagens coloridas – João é pintor. Os quadros explodem numa profusão de cores na calçada cinzenta, o cimento rachado, tufos de grama brotando aqui e ali. Matizes berrantes, formas e imagens que João tira da memória; nunca frequentou escolas, mal assina o nome, nunca ouviu falar em artes plásticas, não conhece estilos e escolas, o que é clássico ou superado, quais as novas tendências, quem são os famosos da vez. João é autodidata. Nos quadros expostos aos olhos do público passante, jovens diáfanas dançam sobre tons de azul que simulam paisagens fantásticas. Ninfas ou fadas que parecem flutuar, sombras apenas, os rostos insinuados, cabelos que se desfazem em ondas arrastando algas e estrelas marinhas… Figuras indefinidas, pressentidas nos sonhos. João é criativo. João combina as tintas numa miríade de tons e nuances que atraem os olhares dos transeuntes da praça – seguem eles ocupados demais, preocupados demais, cansados demais, por um breve momento imaginando aquela abundância de cores em suas casas debotadas. Um que outro para e elogia, “Você que pintou? Estudou em qual escola? Devia ser artista. ” Alguns poucos perguntam o preço… E vão embora, que tal exuberância não combina com suas vidas. De raro em raro um quadro é vendido, depois de muita barganha, ”Tenho condição não, moço…” Talvez um dia um patrono das artes, ou um jornalista importante repare no pintor na porta da igreja, e faça uma oferta, ou uma reportagem no segundo caderno, ou no noticiário da TV. Talvez um milionário engravatado…. João é otimista. À tardinha o movimento na praça morre devagar. Os ônibus engolem as últimas filas de operários apressados, as donas de casa retardatárias, as comerciárias indiferentes. Um dia a menos no calendário do tempo. João recolhe os quadros devagar, recoloca nas duas malas, esperando que os ônibus passem mais vazios para ir embora. João é paciente. A mulher o espera com a pergunta de sempre, “Vendeu alguma coisa? Se pintasse paredes ganharia mais dinheiro”. João nunca responde, que a mulher entende de panela vazia mas não entende de sonhos. As poucas notas amassadas no bolso da calça têm que se esticar para o leite das crianças, o aluguel que já vai vencer outra vez, o botijão de gás… João é malabarista. As malas ficam aguardando o dia seguinte no canto da sala. João toma em silêncio o prato de sopa e engole sem pressa o café com pão sem manteiga. Briga com os meninos que estão brigando pelo último copo de guaraná. A mulher vai dormir, que acorda cedo pras faxinas. João quer pintar, mas a tinta azul acabou, e se não vender um quadro amanhã… “Droga de vida!” resmunga. João é anarquista.
Reportagem especialFeridas de guerra
Álvaro José Silva (especial para Século Diário) Florêncio Barth nunca havia colocado um par de sapatos no pés em toda a sua vida. Vivia no meio rural de Várzea Alegre, região de montanhas do interior capixaba, e os agricultores da primeira metade do século XX ou andavam descalços ou usavam sandálias rústicas. Em 1942 o Brasil entrou na II Guerra Mundial. Num meio sem televisão, rádio ou jornais, Florêncio só soube disso quando chegou a convocação para se apresentar ao Exército, em Vitória. Havia virado soldado e seria treinado para, quem, sabe vir a integrar a Força Expedicionária Brasileira na Itália. Ele não entendia o que estava acontecendo. Ainda sentia dificuldades para aceitar a morte do pai, espancado por causa de caça. Caçar era o que todos os descendentes de estrangeiros na região da hoje Santa Teresa faziam para poder viver melhor. Se alimentar melhor. Houve um desentendimento com um conhecido da mesma região por causa de partilha do produto da caçada que tirou a vida do imigrante. Ele foi morto por espancamento, um caso longe de ser raro na época. Com os pés sangrando Florêncio nunca aceitaria aquilo. Mas quando se apresentou ao quartel do Exército, na Prainha, em Vila Velha, os demais soldados acabaram sabendo da história. Azar o dele. Quando colocou o coturno nos seus pés a dor era quase insuportável. O fato de seus pés sempre terem andado sem calçados fazia com que as rústicas botinas militares os machucasse muito a cada passo dado, a cada movimento feito nas caminhadas. Nesses exercícios de treinamento militar, com quase quarenta quilos de equipamentos às costas, as dores eram quase insuportáveis. O filho de imigrantes reclamava com superiores, dizia não aguentar mais o desconforto e sangramento. Mas como chegar ao coração dos demais soldados e oficias, grande parte deles negros? Tinha que ouvir quase sempre a mesma coisa: “Alemão, grande filho da puta, seu pai morreu de porrada e você vai morrer também. Continue andando e não reclame!” Florêncio continuava. Engolia em seco, fazia um esforço desesperado para suportar o insuportável e, ao voltar ao quartel, tirava o coturno para os pés poderem descansar dessa forma, levantados, recebendo o ar da noite. Nunca chegaria a ir para a Itália combater o nazifascismo. O filho de alemães foi desmobilizado após a Segunda Guerra, em 1945, e tudo o que sentiu ao voltar para casa foi uma grande sensação de alívio. Mas o trauma provocado pelo uso das botinas militares ele carregou pelo resto de sua vida. Hoje seu filho, Rainaldo Pedro Barth, o Naldo, ainda vive próximo de Santa Teresa, em Aparecidinha, perto da estrada que leva ao radar da Aeronáutica. É um pequeno produtor rural e planta produtos orgânicos diversos, como alface e tomatinhos cereja “os únicos que resistem sem agrotóxicos”. Tinha um irmão, Ricardo Emílio Barth, mas este morreu faz pouco mais de três anos. Naldo toca a pequena propriedade juntamente com a mulher. Planta, colhe e vende. Ele próprio abastece seus clientes. Os filhos seguiram outro caminho. Um deles, Márcio Barth, dirige uma marcenaria onde faz estrados (pallets) de madeira. É dono de uma das treze serrarias da região, onde quem não faz os estrados para indústrias, supermercados e outros, vende caixas para hortifrutigranjeiros. São treze empresas do ramo empregando muita gente na região e consumindo o eucalipto de reflorestamento que também dá dinheiro a pequenos proprietários rurais autorizados pelo IBAMA. Sim, porque a madeira colhida para beneficiamento tem que ser certificada. E ela ocupa grande parte dos costados dos morros que se espalham por lá. Os operários não ganham mal. A maioria chega a “tirar” mais de mil reais por mês. Mas a vida é dura. Em Aparecidinha não se descansa em feriados normais, nacionais ou mundiais, nem mesmo no dia 15 de novembro da Proclamação da República. O trabalho vai de segunda a sexta-feira. Paradas somente em feriados religiosos, o que só os católicos, a maioria, respeita. Os protestantes, quase todo anglicanos, labutam nesses dias também. Como o transporte coletivo se limita a idas e vindas de alunos e professores à rede escolar, é grande o número de motocicletas que trafegam por aquelas estradas vicinais. E também carros antigos como fuscas, a maioria bem conservados e que levam os trabalhadores para cima e para baixo. Quando para baixo, geralmente às compras. Padarias, supermercados, farmácias e outros estabelecimentos estão todos em Santa Teresa. Naldo gosta de retornar no tempo e ainda se recorda das convocações que atingiram principalmente os mais pobres no Brasil. Ou então, no caso capixaba e de outros estados ocupados por imigrantes do longo da segunda metade do Século XIX, descendentes de estrangeiros que tiveram de ir para o país de origem de seus pais e avós e, quem sabe, por um golpe do destino, matar ou serem mortos por irmãos, primos, etc. “Quando nós soubemos, já tínhamos que ir. Meu irmão Ricardo foi alistado depois da guerra. O que ganhamos com isso? Conseguimos nos aposentar como ex-combatentes. Isso somente os que foram convocados na guerra. Os de depois dela, não”. Dos estragos provocados pelos combates na Itália para onde a Força Expedicionária Brasileira foi e voltou de navio ele tem uma única certeza: Olívio Coser, que acabou embarcando com a divisão brasileira de 25 mil homens encarregada de derrotar as tropas nazifascistas de Hitler e Mussolini, voltou vivo de lá. Mas deixou uma perna em Pistóia, cemitério dos brasileiros. Em outro episódio, um soldado “alemão” matou um “inimigo” brasileiro. Cercado pelos três remanescentes da tropa pediu clemência em português. Era na verdade um brasileiro filho de alemães que havia sido mandado a combate nas tropas de Hitler. Ele foi solto pelos compatriotas e viveu para ver os três morrerem numa carga suicida contra vários “boches”. Restou a ele enterrar os mortos, identificá-los nas cruzes como heróis e depois responder a uma corte marcial a que o exército alemão o submeteu. Por traição. Não reconheceram nele o
Posto fantasma: juiz pode decidir sobre pedido de bloqueio dos bens de Hartung
Depois de quase nove meses de demora, a Justiça estadual está pronta para decidir sobre o pedido de bloqueio dos bens do ex-governador Paulo Hartung (PMDB) e de outras sete pessoas, que figuram como réus em uma ação de improbidade por supostas fraudes na realização das obras do “posto fantasma”, em Mimoso do Sul. Na última sexta-feira (29), o juízo da 3ª Vara dos Feitos da Fazenda Pública Estadual completou o recebimento das defesas prévias dos acusados, condição dada pelo próprio juízo para a apreciação da liminar pleiteada pelo Ministério Público Estadual (MPES). De acordo com informações do Tribunal de Justiça do Estado (TJES), os autos do processo foram considerados como conclusos para despacho, ou seja, pronto para a apreciação imediata do pedido de liminar. O caso deverá ser analisado pelo juiz Gustavo Marçal da Silva e Silva, que hoje responde pelos processos na Vara Anticorrupção. Em setembro, o magistrado negou a antecipação do julgamento da solicitação do bloqueio dos bens de todos os réus, solicitado pelo promotor de Justiça, Dilton Depes Tallon Netto, autor da ação, que criticou a demora no cumprimento de atos no processo. No requerimento, o promotor afirmou que a demora de cinco meses no cumprimento de uma carta precatória (instrumento usado pela Justiça quando existem partes em comarcas diferentes), expedida para a comarca de Piúma, no sul do Estado (local de residência do ex-gerente da Secretaria de Transportes e Obras Públicas Luiz Cláudio Abrahão Vargas), estaria prejudicando o bom andamento do processo. O ex-servidor era até então o único dos denunciados que não havia sido notificado. Além desse problema, outras situações atrasaram o processo, como a não devolução dos mandados de citação de alguns réus. Essas “questões processuais” ganharam evidência após a decisão do juiz Manoel Cruz Doval, que era o titular da Vara na época do ajuizamento do processo, no início de março, pela postergação da análise do pedido de liminar para após o recebimento das manifestações de todos os réus. Na época, a decisão foi considerada como polêmica, uma vez que este tipo de cautela não era observado por magistrados em outros casos de improbidade e ocorreu somente após a pressão de Hartung em declarações à mídia local por não ter sido ouvido pelo MPES. Atualmente, esse expediente de ouvir as partes é adotado na maioria das ações que tramitam na Vara. Denúncia Na denúncia do posto fantasma, o promotor Dilton Depes acusa o ex-governador e mais sete pessoas de seu governo de “torrarem cerca de R$ 25 milhões” nas obras do posto São José do Carmo, em Mimoso do Sul. O representante do MPES se refere ao “desperdício do dinheiro público” com o projeto, que saiu da fase da terraplanagem e não tem qualquer previsão de utilização. Hartung foi denunciado pela realização de uma suplementação, isto é, ter destinado mais verbas às obras, mesmo após ele ter extinguido o posto fiscal por decreto. Na época do ajuizamento do caso, o ex-governador chegou a afirmar que a obra inacabada seria um “patrimônio do Estado”, hipótese que foi desmentida pela atual diretora-geral do Departamento de Estradas de Rodagem do Estado (DER-ES), Tereza Maria Sepulcri Casotti, em manifestação nos autos deste processo. Entre os réus da ação de improbidade estão os ex-secretários da Fazenda José Teófilo de Oliveira (atual sócio de Hartung no escritório de consultoria Éconos) e Bruno Pessanha Negris (ex-presidente e atual diretor do Banestes); o ex-secretário de Transportes e Obras Públicas Neivaldo Bragato (atual presidente da Companhia Espírito-Santense de Saneamento, a Cesan), e ainda o ex-diretor-geral do DER-ES Eduardo Antônio Mannato Gimenes – que foi mantido em um cargo de direção na autarquia. Também foram denunciados os servidores Marcos Antônio Bragatto (atual consultor do Executivo na Secretaria da Fazenda) e Dineia Silva Barroso (ex-subsecretária de Tesouro Estadual), que faziam parte do Conselho de Administração do DER-ES à época, juntamente com Luiz Cláudio Abrahão Vargas. Eles são acusados de terem homologado todos os contratos relativos à obra inacabada.
Ministério da Justiça divulgará novas instruções para demarcações
As novas instruções para o processo de demarcação de terras indígenas devem ser divulgadas pelo Ministério da Justiça na próxima semana. Já na segunda-feira (2), a minuta do documento será apresentada a lideranças indígenas integrantes da Comissão Nacional de Política Indigenista (CNPI). A publicação da portaria já havia sido prometida em outubro deste ano quando, forçado pelas diversas manifestações pela Mobilização Nacional Indígena, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, disse que o governo é contrário à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 215/2000, mas não reviu suas decisões já estabelecidas que contrariavam a causa indigenista. A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) repudia a portaria, evidenciando que tais alterações não vão resolver os conflitos em torno dos processos de demarcação, pois podem facilitar a ação de fazendeiros, por meio de suas associações. Cleber Buzatto, secretário executivo do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), afirma que a portaria perpetuará os conflitos ao criar mais obstáculos no processo de demarcação, criando a possibilidade de participação de sujeitos diametralmente opostos à demarcação, uma celeuma no procedimento administrativo. Já a posição do Ministério da Justiça é totalmente contrária. Para o órgão, as novas instruções vão trazer mais transparência para o processo e minimizar os conflitos entre índios e ocupantes das áreas reivindicadas como territórios tradicionais indígenas, já que instrui o procedimento administrativo de demarcação previsto no Decreto 1.775, de 8 de janeiro de 1996. O processo administrativo de demarcação poderá ser acompanhado por membros da comunidade científica, de entidades civis e outros interessados, “desde que não interfiram de modo a perturbar ou impedir o seu regular processamento”, e esse é exatamente uma das interferências levantadas pelos índios como um empecilho à demarcação justa. Além disso, a Fundação Nacional do Índio (Funai) pode dar prioridade a processos de identificação e delimitação de terras indígenas onde os índios estejam em situação de vulnerabilidade social; nos casos de inexistência de terra demarcada para a mesma comunidade ou etnia na região; quando houver previsão de empreendimento público de interesse da União na área reivindicada; estudo ou proposta do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) de criação de projetos de assentamento ou de reconhecimento de território quilombola na área reivindicada; ou quando houver estudo ou proposta de órgãos ambientais para criação de unidade de conservação ambiental na área reivindicada. Com a mudança, diz-se que o Ministro da Justiça poderá determinar a instauração de procedimento de mediação em qualquer fase do processo de demarcação das terras visando soluções pacíficas para os conflitos. As novas regras também englobam nos processos de demarcação a participação de diferentes órgãos do governo federal, como os ministérios da Agricultura, das Cidades, de Minas e Energia e dos Transportes, e dos estados e municípios em que se localizem áreas em estudo para tal fim. Atentados oficiais Dos atentados mais recentes e graves contra os direitos constitucionais indígenas, a PEC 215/2000 é uma das mais graves e que causa maior enfrentamento por parte desses povos. Manifestações de lideranças indígenas de todo o país reunidos em Brasília, onde expressaram com maior afinco a contrariedade ao projeto, fizeram com que o presidente da Câmara, deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), decidisse não instalar a comissão especial que daria continuidade a esse processo. Atos contra a proposta também foram firmados em outros estados, como parte da Mobilização Nacional Indígena em todo o mês de outubro. No Espírito Santo, índios das aldeias Tupinikim e Guarani de Aracruz (norte do Estado) fizeram uma manifestação pacífica em trechos das rodovias ES 010, ES 257 e ES 456. A PEC 215 transfere do Executivo para o Congresso a decisão final sobre as demarcações de terras indígenas, abrindo prerrogativa para a revisão de processos já homologados – que é o caso do território indígena de Aracruz – e para terras quilombolas e Unidades de Conservação (UCs). O texto foi aprovado há um ano e meio ano na Comissão de Constituição de Constituição e Justiça da Câmara e precisa ser analisado por comissão especial antes de ir ao Plenário. Também ameaça o território indígena o PLP 227/12, que permite concessões a latifundiários de terras demarcadas em áreas de fronteira e define como de “relevante interesse da União” projetos desenvolvimentistas, como dutos, estações logísticas e empresas extrativistas que, sendo implantados sem conhecimento dos indígenas, afrontam sua soberania constitucional sobre suas terras demarcadas. O PLP é a tentativa de regulamentar o Artigo 231, Parágrafo 6º, da Constituição Federal. O projeto foi apensado a outro PLP, nº 260/1990, de mesmo teor, que aguarda constituição de Comissão Temporária na Mesa Diretora da Câmara e encaminhamento na Coordenação de Comissões Permanentes (CCP), o que também deve estar próximo de acontecer, visto que o prazo era o mesmo da publicação da portaria que pede “mais transparência” . E ainda a PEC 038/99, que dá ao Senado Federal competência privativa para aprovar processos de demarcação de terras indígenas, e a 237/13, que permite o arrendamento das terras indígenas para grandes produtores rurais, além do Projeto de Lei 1610/96, que permite a mineração em territórios demarcados. O Executivo, por sua vez, afronta os direitos indígenas por meio da Portaria 419/11, que regulamenta a atuação de órgãos e entidades da administração pública durante processos de licenciamento ambiental de empreendimentos que possam causar interferências em terras indígenas, quilombolas ou áreas ou regiões de risco ou endêmicas para malária; e pelo Decreto 7957/2013, que regulamenta a atuação da Força Nacional a prestar auxílio à realização de estudos sobre impactos socioambientais. Não é a primeira vez que o governo Dilma trabalha “a serviço de interesses privados” contra os direitos indígenas sagrados à terra, territórios e bens naturais garantidos pela Constituição. Os índios já denunciaram, reiteradas vezes, o que chamam de “ataques orquestrados”, partidos tanto do Planalto como do Congresso Nacional, e permanecem em luta constante pela urgente revogação de todas as portarias e decretos editados pelo governo Dilma que afrontem seus direitos. As obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) – não à toa,
Prefeitura de Vitória promete mais 4,7 mil vagas para educação infantil em 2014
A Secretaria Municipal de Educação (Seme) divulgou nesta sexta-feira (29) o quadro de vagas da educação infantil para o ano letivo de 2014 em Vitória. Ao todo, são 4.748 vagas para crianças com idade entre 6 meses e 5 anos em 48 Centros Municipais de Educação Infantil (Cmei). A reunião pública para proceder à ordenação da lista de espera (sorteio) vai acontecer nos próprios centros municipais. O processo se inicia nesta segunda-feira (2) e se encerra no sábado (7). Já a efetivação da matrícula acontecerá entre os dias 9 e 13 de dezembro. A relação completa com o número de vagas por unidade escolar e os horários dos sorteios pode ser verificada no site da prefeitura. As ações fazem parte do calendário da educação infantil no município, que inclui o cadastramento eletrônico unificado, lançado pela Seme em novembro, que tem como objetivo organizar o processo de entrada da criança na escola, organizando a procura, e ainda será uma ferramenta de controle social. Se em 2014 a família não for contemplada com uma vaga, ela não precisa voltar ao Cmei para repetir o cadastro, porque ele é permanente. Anualmente, as famílias farão apenas a atualização dos dados. O ano de 2014, ressaltou a administração, começa com a entrega do Cmei Carlos Alberto Martinelli de Souza, em Consolação, que vai ser inaugurado em janeiro, com 550 vagas.
Semana de Direitos Humanos tem início nesta segunda-feira
Nesta segunda-feira (2) tem início a V Semana o tema “Democracia e Direitos Humanos na Contemporaneidade”. A solenidade de abertura vai ser realizada às 10 horas no Palácio Anchieta. Na ocasião serão conhecidas as ganhadoras do Concurso de Redação – Direitos Humanos na Escola 2013. Com o tema “Democratização das comunicações, redes sociais e efetivação dos direitos humanos”, o concurso é uma realização do Conselho Estadual dos Direitos Humanos (CEDH) em parceria com a Secretaria de Estado da Educação (Sedu) e visa levar para as escolas uma discussão sobre os direitos humanos. Na abertura da semana também vai ser entregue o Prêmio Estadual de Direitos Humanos, que tem o intuito de prestar reconhecimento a entidades e personalidades que se destacaram na luta pelos direitos humanos no Estado. Neste ano os contemplados com prêmio serão o militante Rafael Nascimento Miranda, o Feijão, e o Centro de Defesa de Direitos Humanos da Serra (CDDH-Serra). Feijão foi preso nos protestos do dia 19 de julho deste ano, em Vitória. Em 23 de agosto, durante na III Conferência Estadual de Promoção de Igualdade Racial, no Sesc Aracruz, norte do Estado, homenageado pelo coordenador do Fórum Estadual da Juventide Negra (Fejunes), Luiz Inácio Silva da Rocha, o Lula, e contou a experiência às pessoas que participavam da reunião. Na ocasião, ele compartilhou com os participantes a experiência de ser preso em meios aos protestos de rua de junho e julho. “Percebi que mais de 90% das pessoas que estavam presas eram gente do meu povo [se referindo aos negros do sistema prisional]. Essas pessoas, que também são criminalizadas, estão ali, na sua maioria, por que o Estado não promove políticas públicas para esse segmento da população: os pobres e negros”, protestou. Feijão ainda disse ao governador Renato Casagrande, que compunha a mesa do evento, que o governo não conseguiu entender os protestos. “A manifestação era um pedido para construir um Estado mais democrático e justo. O senhor não conseguiu perceber isso. O senhor simplesmente mandou a BME pra cima da gente”, disse a Casagrande, exibindo o alvará de prisão que o obrigado a carregar no bolso. Antes de encerrar sua manifestação, o militante fez um pedido ao governador: “Gostaria que quando o senhor colocar a cabeça no travesseiro, pense no que quer para o nosso Estado”. As críticas do militante do Centro de Defesa de Direitos Humanos da Serra duraram mais dez minutos. Feijão foi ovacionado pelos presentes.
Deputados do interior se beneficiam com marca do governo Casagrande
O perfil interiorano que o governo Renato Casagrande aos poucos vem ganhando nesta segunda metade de seu mandato explica o motivo pelo qual os deputados estaduais querem permanecer na base do socialista, independentemente dos projetos de seus partidos. Dos 30 deputados estaduais que compõem o plenário, 14 são oriundos de municípios do interior e alguns da Grande Vitória. Todos eles ampliaram suas bases em busca de votos fora da região metropolitana. Com uma agenda de interior lotada e com o cofre cheio de recursos para os municípios, posar para a foto ao lado de Casagrande no interior do Estado pode render votos na região de cada deputado. Por isso, a briga dos deputados é para não ficar para trás nas viagens de Casagrande. Nos últimos meses o governador tem intensificado sua agenda pelo interior, com entrega de obras, equipamentos, ordens de serviço. Tudo vem acompanhado de atos públicos que geram visibilidade. Embora a relação de Casagrande e dos deputados não seja a melhor do mundo desde o início do mandato, o fato de ele ter a caneta na mão atrai as lideranças para seu palanque. Neste sentido, as rebeliões que na Assembleia têm sido vistas como motim, na verdade, revelam uma briga por espaço, pelo privilégio de circular o Estado ao lado do governador. Como a eleição proporcional do próximo ano desenha um cenário de disputa acirrada entre os atuais deputados e as lideranças que estão fora da Casa, uma vitrine nas bases pode ser fundamental para definir o voto. O problema é que muitas bases são compartilhadas por deputados com mandato, interessados nas cadeiras da Assembleia e prefeitos que também têm interesse em eleger seus aliados para o Legislativo no próximo ano. Com uma base muito grande, Casagrande precisa tentar harmonizar todos esses interesses. A entrada do ex-governador Paulo Hartung na disputa para o governo do Estado pode levar a uma fragmentação dessa base, dividindo as lideranças, mas por enquanto, os parlamentares preferem não trocar o certo pelo duvidoso e isso inclui até mesmo os deputados do PMDB e do PT, partidos que estariam costurando com pontos fortes a aliança para a majoritária em torno de Hartung para o ano que vem. As lideranças lidam, hoje, com esse dilema: ou permanecem na base de Casagrande, que pode não contemplar a todos os interessados em permanecer em seu grupo, ou migram para o palanque de Hartung, que não é mais tão forte quanto outrora.
Disputa de bastidores nas articulações de 2014 está polarizada
Nerter Samora e Renata Oliveira Os movimentos das últimas semanas para o jogo eleitoral de 2014 se limitaram a dois personagens. Papo de Repórter analisa as ações e suas consequências para a disputa do ano que vem para o governador Renato Casagrande e para o ex-governador Paulo Hartung. Nerter – Quantos palanques eleitorais teremos na disputa do próximo ano? Ainda é cedo para afirmar com toda certeza, mas pelo menos neste período pré-eleitoral, disputa está bastante polarizada entre o governador Renato Casagrande e seu PSB, PPS e mais um monte de partidos e o ex-governador Paulo Hartung, com PMDB, PT e outros que ainda caminham na ponta dos pés. Os últimos movimentos se restringiram a esses dois personagens políticos, ou tendo referência a eles. Tomaram conta do cenário. Parece que estão numa mesa de xadrez, avaliando cada ação do adversário e refletindo muito antes de mexer em qualquer uma das peças dispostas sobre o tabuleiro. E eles estão se mexendo bastante, não é? Renata – E como estão. Quem vem dando passos ousados é o ex-governador Paulo Hartung. Enquanto o aliado João Coser vencia a disputa no PT estadual e, consolidava seu controle do partido, vencendo a eleição no diretório de Vitória, Hartung se aproximava cada vez mais da cúpula nacional do partido. E não é que ele conseguiu?! Hartung conquistou o ex-presidente Lula, o principal articulador do palanque de Dilma Rousseff à reeleição. Em nome do pragmatismo o ex-presidente esqueceu o passado de traições do ex-governador e fechou uma aliança com ele no Estado para a eleição do próximo ano. Nerter – E aí percebemos como foi importante a vitória de Coser na eleição interna do PT capixaba e a consolidação, com a vitória de Alexandre Passos em Vitória. Era preciso manter o partido controlado para que essa movimentação seja exitosa. Agora, de um lado do tabuleiro as peças já parecem ter sido distribuídas: Hartung será o candidato ao governo, Coser ao Senado e Ricardo Ferraço, mais uma vez, será um peão a ser descartado. Pelo menos dessa vez ele não tem nada a perder não é? Já tem o mandato de senador. Renata – Hoje Casagrande, sem a unanimidade, reúne quase o mesmo tanto de partidos do arco de alianças de 2010, e o PMDB tem o PT e o PSD, que também fechou por cima a aliança com o palanque de Dilma. Mas a partir do momento da consolidação desse cenário com Hartung na jogada, pode ser que a enorme base aliada de Casagrande sofra uma fragmentação. A classe política pode ficar dividida entre o palanque de Hartung com a presidente Dilma como candidata a presidente e com muitas chances de se reeleger, o que puxa as candidaturas proporcionais e majoritárias; e o palanque do governador Renato Casagrande, que é forte e está no jogo para garantir a reeleição, mas que tem um presidenciável de potencial eleitoral incerto. Nerter – E por falar em Casagrande, o movimento dele também foi inteligente. Colocado contra a parede pelo PT nacional, que negou seu projeto de neutralidade eleitoral, mexeu sua principal peça neste xadrez: o prefeito de Vitória, Luciano Rezende (PPS) e seu movimento foi pesado, porque os emissários de Hartung reagiram na hora. No congresso estadual do PPS, confirmada sua permanência à frente do partido, sem qualquer contestação, Rezende selou a aliança que caminha para o fechamento em nível nacional entre seu partido e o PSB. Ao dizer que o PPS do Espírito Santo declara apoio ao presidenciável socialista, Eduardo Campos, Luciano Rezende manda dois recados: o primeiro de que está com o governador Renato Casagrande e não abre; e o segundo verbaliza que Casagrande foi empurrado para o palanque de Campos pelo outro lado. Renata – Agora a classe política vai avaliar em qual desses lados a vantagem vai ser maior. A disputa proporcional deve nortear a escolha dessas lideranças. Não tem essa de escolher Hartung porque ele está mandando. O ex-governador é muito forte politicamente, mas Casagrande conquistou os partidos de baixo para cima e na hora da campanha isso conta, aliás, a impressão é que ultimamente esse é o único momento em que a base conta. Mas isso é outra discussão. Esse acirramento entre os dois palanques vai acabar pressionando os demais atores políticos, não é? Não vai dar para eles ficarem observando a partida de xadrez o tempo todo, uma hora vão ter que se movimentar no tabuleiro. Nerter – É verdade, o PSDB tem um problema enorme para resolver. Precisa de um palanque para o candidato a presidente, o senador Aécio Neves (MG), no Espírito Santo. Tem um candidato a governador, Guerino Balestrassi, que não tem muito espaço midiático, as articulações vêm sendo para dentro do partido, em uma espécie de autoconvencimento sobre a eleição e suas estrelas precisam de mandato. Magno Malta (PR) observa, observa, mas não sabemos se ele é candidato mesmo e quando vai se posicionar. Renata – Malta precisa de apoio. Casagrande tem palanque presidencial e base, muita base. Hartung tem o PT, a mídia e parte do empresariado, que ele divide com Casagrande. Malta ofereceu o palanque para Dilma, mas está em stand by, se tudo der errado, ela terá o palanque de Magno Malta. Ele não parece ser o tipo de político que aceita esse jogo, aliás, ele não aceita jogo nenhum. Tem o apoio do PSC, deve conseguir partidos menores para apoiá-lo e tem um bom candidato ao Senado, o delegado Fabiano Contarato. Uma saída seria o seu histórico aliado PDT, que circula no baile sob olhares furtivos de seus admiradores, mas ignora porque sabe muito bem o valor que tem. Não vai aceitar o flerte de início, vai enrolar o quanto puder para fechar aliança com uma acomodação que realmente o contemple. Em 2010, Sérgio Vidigal foi um dos que não saíram satisfeitos depois das partilhas no governo Casagrande, a coisa piorou com a filiação de Audifax Barcelos, seu grande adversário na Serra. Vidigal não vai
Caminhos tortosdo poder
O caminho eleitoral do ex-governador Paulo Hartung (PMDB) com a presidente Dilma não é sem volta. Sobretudo, pela necessidade de tirar o senador Magno Malta (PR) de sua frente. E o Magno tem absoluta noção do seu grau de importância, sabe do rumo da eleição de governador. Por outro lado, Hartung é suficientemente esperto para ter certeza de que uma candidatura ao governo é a sua última chance de recuperar o poder político que lhe foi tirado pelo governador Renato Casagrande. O que não ocorrerá numa candidatura ao Senado, que seria meramente uma honrosa aposentadoria. Mas para alcançar seus objetivos com uma candidatura ao governo, Hartung vai depender, fatalmente, de que as prometidas legendas do PT e do PMDB venham acompanhadas de suas respectivas bases. Pois elas já estão, de certa forma, no jogo eleitoral do governador Casagrande. É um emaranhando e tanto, pelo visto. Destes que requerem viciados em mesa de jogo político. Sendo mister registrar: o ex-governador não é mais aquela ameaçadora águia que todos tinham que se proteger sob as asas. Amarrando Não é por outra razão, portanto, que o prefeito de Vitória, Luciano Rezende, antecipou o apoio do seu partido, o PPS, a Casagrande, criando rota de fuga, caso o governador perca as legendas do PT e do próprio PMDB de Hartung. Garantia Pois dá segurança a Casagrande para puxar, a partir do PPS de Luciano, uma série de partidos de porte médio e pequenos, somando forças para garantir uma legenda ainda robusta e competitiva. Domesticado O senador Ricardo Ferraço (PMDB) é hoje um aliado preferencial do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB). Aquela cobra venenosa que chegou à Casa querendo picar todo mundo, não existe mais. Expeliu o veneno. Páreo O senador não desistiu de uma candidatura ao governo. Está rodando o toco diante das intenções do presidente de Calheiros, de priorizar a eleição do Senado para Hartung. Para Calheiros, essa candidatura o fortaleceria no controle da Casa. Na velha lógica de que, em política, deve haver sempre mais de uma opção. Esbarra O que também deseja o ex-presidente Lula. Só que Lula tem que, prioritariamente, assegurar a reeleição da Dilma. Daí encontra-se querendo no Espírito Santo ser feliz com a reeleição da Dilma e também com a eleição do ex-prefeito de Vitória João Coser para o Senado. Dose. Tático Pois, como Renan Calheiros, Lula se interessa em fazer uma maioria no Senado, como fórmula alternativa de mantê-lo vivo no jogo do poder, caso fracasse a candidatura da Dilma. Esperteza Entreouvidos no mercado político: o delegado e prefeito de Vila Velha, Rodney Miranda (DEM), é mais sabido do que demonstra. Faz carreira de esperto. Vai de Hartung a Casagrande, sem atropelos. Sorri para um e toma grana do outro para suas obras. Do policial ficou a excessiva tropa de segurança que o guarda, como se vivesse na conturbada e violenta Síria. PENSAMENTO: “A Justiça se faz à luz do sol”. Nathaniel Hawthorne