Depois do atraso no recebimento da documentação solicitada, o Tribunal de Contas do Estado (TCE) iniciou, nesta quarta-feira (7), a auditoria no contrato de concessão do Sistema Rodosol. A área técnica do tribunal começou a análise de 8,5 mil páginas de documentos relacionados ao caso. A auditoria será relatada pelo conselheiro Domingos Taufner, que tem prazo inicial de 90 dias para a conclusão. O resultado deve servir como prova judicial na ação civil pública que pede a nulidade da concorrência pública, realizada em 1998. Segundo informações do TCE, os autos do processo (TC 5591-2013) já somam 40 volumes, que serão analisados por uma equipe multidisciplinar composta por auditores de controle externo do próprio tribunal. Os trabalhos serão acompanhados por quatro representantes da sociedade – três escolhidos pela juíza da 2ª Vara da Fazenda Pública Estadual, Heloísa Cariello, que concedeu a medida liminar que reduziu o valor do pedágio da Terceira Ponte, e pelo advogado Agessandro da Costa Pereira, representante da Ordem dos Advogados do Brasil no Estado (OAB-ES) Por conta das várias mudanças ocorridas ao longo do período de concessão, a Corte recebeu documentação de várias fontes, desde os responsáveis governamentais pela concessão – Departamento de Estradas de Rodagem do Estado (DER-ES) e Agência Reguladora de Saneamento Básico e Infraestrutura Viária do Estado (Arsi), que fiscaliza hoje a concessão – até órgãos que já investigaram a legalidade do acordo ao longo deste tempo, a Secretaria de Controle e Transparência (Secont) e a Assembleia Legislativa, que chegou a deflagrar uma CPI sobre o assunto. De acordo com o tribunal, caso seja verificada alguma irregularidade, os responsáveis serão citados para apresentação de justificativas no prazo de 30 dias. Após a apresentação da justificava será feita uma Instrução Técnica Conclusiva (ITC). Ao final, o relatório será encaminhado ao Ministério Público Especial de Contas (MPC) para formulação de parecer e, em seguida, ao relator, conselheiro Domingos Taufner, para elaboração do voto. Posteriormente, o caso segue para julgamento em Plenário.
Tribunal de Contas suspende pagamentos à empresa acusada de fraude na Derrama
O plenário do Tribunal de Contas do Estado (TCE) determinou, nessa terça-feira (6), a suspensão de qualquer pagamento por parte das prefeituras de Anchieta e Marataízes –ambas no litoral sul capixaba – à empresa CMS Consultoria e Serviços, acusada de fraudes na recuperação de créditos tributárias. Com essa nova medida cautelar, sobe para quatro o número de prefeituras do Estado que estão proibidas de repassarem verbas para a empresa, que foi alvo da Operação Derrama no final do ano passado. De acordo com informações do TCE, os conselheiros entenderam que existia o risco de grave lesão ao erário, bem como a ineficácia em futura decisão de mérito do processo, caso os pagamentos fossem mantidos. Além das duas prefeituras citadas na decisão, a corte havia suspendido qualquer repasse pelas prefeituras de Itapemirim, vizinha aos dois municípios, e de Aracruz (litoral norte), de onde partiram as investigações contra o esquema. Em outubro do ano passado, o TCE havia recomendado às prefeituras capixabas que tinham contratos com a CMS para que se abstivesse de realizar qualquer tipo de pagamento. Em dezembro, a fiscalização do tribunal resultou na deflagração da Operação Derrama, realizada pelo Núcleo de Repressão às Organizações Criminosas e a Corrupção (Nuroc) da Polícia Civil, que cumpriu mandados de busca e apreensão em sedes de prefeituras e no escritório da empresa, localizada em Vitória. A segunda fase da operação policial, deflagrada em janeiro deste ano, ganhou notoriedade após levar à prisão 11 ex-prefeitos capixabas – entre eles, a ex-prefeita de Itapemirim, Norma Ayub, mulher do presidente da Assembleia Legislativa, Theodorico Ferraço (ambos do DEM). Durante as investigações, os policiais levantaram a suposta participação de Ferraço como um articulador do esquema. No entanto, as investigações contra o deputado e demais agentes com foro privilegiado (prefeitos e outro parlamentar) acabaram sendo arquivadas pelo procurador-geral de Justiça, Eder Pontes da Silva, que desqualificou o teor das investigações. Além do arquivamento do inquérito contra as autoridades com foro especial, o chefe do Ministério Público Estadual (MPE) também pediu o desmembramento das investigações, que tramitavam na Vara da Central de Inquéritos de Vitória. Com isso, os inquéritos foram distribuídos para as promotorias de Justiça dos municípios. Desta forma, cada promotor de Justiça vai investigar paralelamente os supostos ilícitos, medida que deve fragmentar as apurações, que devem perder o caráter de esquema criminoso bem articulado entre prefeituras. O Tribunal de Contas já levantou os seguintes indícios de irregularidade: terceirização de atividades de competências típicas e indelegáveis da administração pública; contratação direta por inexigibilidade de licitação; previsão irregular de remuneração vinculada à obtenção de êxito; vinculação irregular de receita de impostos para a realização de despesas com a remuneração dos contratos celebrados com a CMS; e desproporcionalidade entre a remuneração e o provável custo dos supostos serviços prestados.
Manato quer entrar por cima no PP capixaba, mas enfrenta resistências internas
O deputado federal Carlos Manato (de saída PDT) insiste em tentar conquistar a presidência de um partido no Estado. Ele vem costurando sua entrada e tomada da presidência do PP capixaba, mas esta movimentação enfrenta resistências no partido. Manato quer pacificar o partido que passa por um momento de reestruturação. Com a saída da presidência do ex-deputado estadual Nilton Baiano, a sigla vem sendo comandada pelo ex-deputado federal Marcus Vicente. Internamente, porém, há problemas de acomodação entre os grupos. Mesmo com algumas arestas a aparar, o partido vem intensificando suas movimentações para a disputa eleitoral do próximo ano. Apesar de o partido festejar a possibilidade de filiação do deputado federal, há uma preocupação em mais uma mudança no comando, já que isso poderia desarranjar o que foi costurado até o momento. A principal dificuldade de Manato conseguir a presidência do partido, porém, está ligada à sua vaga na Câmara. O primeiro suplente da vaga é justamente Marcus Vicente. Embora não seja o perfil do ex-deputado, se a discussão não chegar a um denominador comum, Vicente tem como trunfo a possibilidade de vir a questionar a fidelidade partidária de Manato. Insatisfeito desde a eleição de 2010 com o PDT, Manato quer mudar de partido na janela de transferência que tem como prazo limite o próximo 5 de outubro. A experiência de isolamento e enfraquecimento dentro do PDT fazem com que o parlamentar busque não só um novo partido, mas um partido em que possa ser o comandante, podendo assim costurar seus caminhos eleitorais com mais tranquilidade. Com menos de dois meses para acertar sua vida política para a disputa do próximo ano, o deputado tem que encontrar um caminho para garantir sua candidatura à reeleição por outro partido, já que pelo PDT, Manato não quer mais se candidatar. O PP oferece todo apoio à candidatura de Manato à reeleição à Câmara dos Deputados, o que, aliás, fortalece as pretensões do partido para 2014, mas a presidência do partido é outra conversa.
Vitória Apart Hospital é multado por usar água imprópria para o consumo humano
O Vitória Apart Hospital, localizado na Serra, foi autuado pela Secretaria de Estado da Saúde ao pagamento de multa no valor de 20 mil VRTE – Valor de Referência do Tesouro Estadual – que corresponde a R$ 47.640 por ter ligação e uso de água proveniente de poço artesiano para consumo humano. O flagrante foi feito por um técnico da programa de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (Vigiágua), da Serra, durante fiscalização de um surto de diarreia notificado pelo hospital à Vigilância Epidemiológica Municipal, em agosto de 2012. O técnico constatou que, além de a água ser proveniente de poço artesiano, em desconformidade com a legislação, não havia cloro residual na água, constatado por meio de coleta de amostra de pontos focais – posto de enfermagem amarelo, Unidade de Tratamento Intensivo Pediátrica (Utip) e cozinha. O Habite-se Sanitário do hospital não prevê a viabilidade de uso de lençol artesiano, que é vedado pela legislação para unidade hospitalar. A infração sanitária do Vitória Apart é considerada grave, por isso foi aplicada a multa de 20 mil VRTE. O valor pode sofrer redução de 20% caso seja recolhido no prazo de 20 dias da notificação. O pagamento da multa não exclui o hospital de cumprir as obrigações que deram origem ao auto de infração, ou seja, o hospital deve providenciar o tratamento da água e a coleta adequada pela rede.
CNJ adia julgamento de recurso do juiz Arthur Neiva contra rejeição de promoção
O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) adiou o julgamento do recurso do juiz Arthur José Neiva de Almeida contra a decisão do Tribunal de Justiça do Estado (TJES), que rejeitou a indicação do magistrado ao cargo de desembargador. O caso seria apreciado na sessão do Conselho dessa terça-feira (6), porém, a defesa do juiz pediu um novo prazo para analisar os novos documentos do processo. Na última semana, o Pleno do TJES abriu uma nova sindicância para apurar denúncias contra o juiz titular da Vara dos Registros Públicos de Vitória. De acordo com a defesa do magistrado, o Tribunal enviou as notas taquigráficas da sessão que determinou a abertura de um novo Procedimento Disciplinar Administrativo (PAD) contra o juiz Arthur Neiva na sexta-feira (2), dia seguinte ao julgamento. Os advogados do magistrado alegam que não tiveram tempo para se manifestar sobre as acusações de suposto favoritismo e beneficiamento de partes em processos. O pedido de adiamento foi acolhido pelo relator do caso, conselheiro Jefferson Luís Kravchychyn, que abriu o prazo de cinco dias para que a defesa do juiz exerça o direito do contraditório aos novos documentos. Somente após o envio dessas novas alegações, o relator deverá colocar o caso em pauta. As próximas sessões do Conselho estão previstas apenas para o mês de setembro, nos dias 10 e 24. Desde julho do ano passado, o juiz capixaba recorre ao órgão de controle para garantir a participação no processo de escolha de sete novos desembargadores do TJES. Em março de 2012, os desembargadores negaram a indicação do magistrado sob alegação de que pesariam graves denúncias contra o juiz – que se transformaram neste novo PAD. Em dezembro passado, o plenário do CNJ retirou uma punição de censura aplicada ao magistrado, porém, a promoção de Arthur Neiva esbarra em resistências entre os atuais desembargadores. No início de julho, o plenário do CNJ liberou a realização da eleição para a escolha dos novos desembargadores do TJES. Na decisão, o conselheiro Jefferson Kravchychyn alegou que o pedido de liminar, solicitado pelo próprio juiz Arthur Neiva, não teria os requisitos necessários para barrar a seleção. Apesar disso, a cúpula do TJ capixaba tem se posicionado no sentido de aguardar o término da análise do recurso do juiz pelo órgão de controle.
CinemaEstreias da semana
O filme tem fortes pinceladas apocalípticas, mas traz a assinatura do mexicano Guillermo del Toro (O Labirinto do Fauno, 2006). Em Círculo de Fogo humanos constroem robôs gigantes para se defender de monstros. O diretor disse que deseja buscar menos guerra e mais aventura. Não é acaso que gente descolada está se fixando nos morros cariocas. Isso não se chama pacificação. Antes, é especulação imobiliária. A comédia Vendo ou Alugo retrata esse mundo de hoje do Rio de Janeiro, favelas, violência, UPPs e poder imobiliário. Os filmes entram em cartaz a partir desta sexta-feira (9). PRÉ-ESTREIA Percy Jackson e o Mar dos Monstros (Percy Jackson & the Olympians: The Sea of Monsters, EUA, 2013, 119 minutos, 12 anos) Aventura. Direção de Thor Freudenthal. Com Logan Lerman, Alexandra Daddario, Brandon T. Jackson, Jake Abel. Percy Jackson e seus amigos terão que enfrentar monstros dos mares para encontrar o mítico Velo de Ouro. Cine Kinoplex – Shopping Praia da Costa: Sala 4 (3D). Sexta e sábado 20h50. Cinesystem Shopping Boulevard Vila Velha: Sala 6 (3D). Sexta e sábado 19h30. DUBLADO. Cinemark – Shopping Vitória: Sala 6 (3D). Sexta e sábado 23h. ESTREIA Círculo de Fogo (Pacific Rim, EUA, 2013, 132 minutos, 12 anos) Ficção Científica. Direção de Guillermo Del Toro. Com Charlie Hunnam, Charlie Day, Idris Elba. Robôs gigantes pilotad os por humanos são criados para lutar contra aliens que querem invadir a Terra. Cine Kinoplex – Shopping Praia da Costa: Sala 1 (3D). 15h40 e 18h20. DUBLADO. 21h (LEG). Sexta, sábado e segunda também 13h. DUBLADO. Cinesystem Shopping Boulevard Vila Velha: Sala 2 (3D). 13h50, 16h30, 19h10. DUBLADO. 21h50 (LEG). Cinemark – Shopping Vitória: Sala 2. 15h40, 18h40, 21h40. Sala 5 (3D). 13h30 e 19h40. DUBLADO. Terça 13h30. DUBLADO. 16h40 e 22h30 (LEG). Terça 16h40 (LEG). Vendo ou Alugo (Idem, Brasil, 2012, 90 minutos, 14 anos) Comédia. Direção de Betse de Paula. Com Marieta Severo, Marcos Palmeira, Nathalia Timberg, Silvia Buarque, Antonio Pitanga. Bisavó, avó, mãe e filha dividem uma casa luxuosa próxima de uma favela, que elas não podem mais manter. Com a pacificação, na favela, possíveis compradores começam a aparecer, mas, durante uma visita, começa um tiroteio, e todos ficam presos dentro da casa. Cine Kinoplex – Shopping Praia da Costa: Sala 2. 14h40, 16h40, 18h40, 20h40. Cinesystem Shopping Boulevard Vila Velha: Sala 5. 14h25, 17h15, 19h35, 21h45. Cinemark – Shopping Vitória: Sala 1. 12h20, 14h30, 16h50, 18h50, 21h10. Sexta e sábado também 23h20. Os Escolhidos (Dark Skies, 2013, EUA, 97 minutos, 14 anos) Suspense. Direção de Scott Charles Stewart. Com Adam Schneider, Alexandra Fulton. Depois de sofrer uma série de eventos perturbadores, a pacífica família Barret percebe que uma força terrível e mortal a está perseguindo. Cine Kinoplex – Shopping Praia da Costa: Sala 6. 17h, 19h10, 21h20. DUBLADO. Cinesystem Shopping Boulevard Vila Velha: Sala 1. 17h35 e 19h45. DUBLADO. 21h55 (LEG).
Os anos mais loucos do século XXI
Uma das maiores surpresas das recentes manifestações populares foi a desenvoltura da chamada mídia ninja, formada por jovens equipados com celulares que transmitem áudio e vídeo on line, gerando uma formidável anarquia informacional. Ao contrário do que se pensou e se difundiu, essa rapaziada não opera solta no espaço. Ela tem comando, embora desfrute de uma autonomia rara na mídia convencional. Só isso já bastou para transformar esses jovens repórteres-manifestantes em protagonistas centrais dos acontecimentos que marcaram 2013 como o ano mais louco do século XXI. Dois cabeças do movimento, Pablo Capilé e Bruno Torturra, deram um depoimento extraordinário ao programa Roda Viva da última segunda-feira, dia 5. Com nomes que lembram codinomes, esses rapazes demonstraram possuir uma rara capacidade de argumentação, tanto que conseguiram escapar ilesos à maior parte dos questionamentos feitos por uma bancada de experientes perguntadores. Sua articulação tem raízes no movimento estudantil, mas eles têm algo que os diferencia da maior parte dos jovens de hoje – ou muito dependentes dos pais ou completamente descolados das bases familiares. Embora a palavra ninja lembre automaticamente os lutadores encapuzados do Japão, no Brasil de 2013 NINJA é uma sigla: Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação. E por aí vamos com ousadia e criatividade. Nada a ver, portanto, com siglas emergentes como CQC e Pânico na TV, que fazem arremedos de jornalismo temperados por um humor irresponsavelmente corrosivo. Segundo o depoimento de Capilé e Torturra, a base do movimento da Ninja começou a se formar há dez anos graças a jovens músicos sem vez no mundo do show business. Eles procuraram cavar espaços independentes da superestrutura que domina a TV, as gravadoras e à qual está atrelada a máquina publicitária. Sobreviveram e cresceram, conseguindo estabelecer um circuito alternativo de festivais e shows durante os quais também rolam debates e seminários que discutem os problemas dos pobres e oprimidos pelo sistema. Em alguns casos, eles contam com patrocínios públicos, que não representam nem 10% de sua arrecadação. Hoje há dois mil jovens ativistas que vivem em comunidades de até 30 pessoas que trabalham para se sustentar individual e coletivamente. O custo mensal de cada ativista é R$ 900. Um sucesso: até quando? Qual sua real motivação? Quais seus objetivos? Querem ser absorvidos pelo sistema? Ou desejam transformá-lo? O sistema e o governo são a mesma coisa? Sua luta lembra a época da ditadura militar, quando muitos jovens e alguns veteranos se uniram para editar jornais alternativos, formar cooperativas de jornalistas, grupos de teatro e cinema. Os mais radicais caíram na clandestinidade e formaram grupos armados que acabaram sendo destruídos pelo regime militar. Até hoje se faz o rescaldo desse período. Aí está a Comissão da Verdade lutando para reunir depoimentos, documentos e provas de violações de direitos humanos em cadeias civis e dependências militares. Sem patrimônio nem estrutura física, como acontece com a mídia convencional, a mídia ninja é engajada no ativismo dos direitos civis, políticos e econômicos. “Jornalismo pós-industrial”, falou Capilé, tentando explicar o fenômeno sem precedentes à vista na moderna história brasileira. Seu grande diferencial, além do baixo custo operacional e do voluntarismo, é a habilidade no uso de ferramentas eletrônicas que, além de revolucionar a comunicação interpessoal, estão provocando mudanças profundas na relação da mídia tradicional com seus leitores, ouvintes e telespectadores. O celular está para essa mídia revolucionária como o microfone móvel esteve para o rádio e a câmera ambulante para a TV. É lógico concluir que, daqui a algum tempo, todas as novas ferramentas estarão dominadas pelos trabalhadores da mídia convencional. Será a banalização de uma nova tecnologia de comunicação. A pergunta que fica é até que ponto a mídia convencional ancorada na iniciativa privada terá interesse em operar como correia de transmissão de impulsos originários da base sociedade? Até onde se sabe pelos relatos da História, os interesses que movem a iniciativa privada estão longe demais do interesse público. LEMBRETE DE OCASIÃO “Nos corredores da história, o grito dos ricos ecoa mais alto que o gemido dos pobres” HENRY THOMAS, historiador inglês, em A História da Raça Humana, de 1938
Masmorras juvenis
As violações de direitos nas unidades prisionais e no sistema de privação de liberdade para adolescentes em conflito com a lei se tornaram uma marca registrada na gestão do ex-governador Paulo Hartung (2003 – 2010). De tão graves, as sistemáticas denúncias chegaram à ONU e expuseram o Estado brasileiro às comunidades internacionais. O episódio deu ao ex-governador o título de “senhor das masmorras”. As violações nas unidades de adolescentes capixabas também levaram o país à Corte Interamericana de Direitos Humanos na Organização dos Estados Americanos (OEA), que mantém o Estado brasileiro, em função das denúncias no sistema Instituto de Atendimento Socioeducativo do Estado (Iases), sob medidas protetivas. Nesta terça-feira (6), o Sindicato dos Agentes Socioeducativos do Estado (Sinases), cansado de denunciar as irregularidades ao governo, decidiu revelar o que se passa por trás dos muros da Unidade de Atendimento Inicial, a Unai, que é porta de entrada de todo o sistema de internação de adolescentes gerenciado pelo Iases. Fotos e vídeos denunciam a precariedade e o risco que a unidade oferece tanto a internos quanto a educadores. As imagens mostram a superlotação da Unai, que hoje abriga o triplo de adolescentes de sua capacidade – deveria abrigar 68 e está com 195 internos. Além da superlotação, há problemas graves de infraestrutura no prédio. A higiene também é precária, tornando o local inadequado para o convívio humano. Não se respeita critérios de compleição física, idade ou gravidade do delito cometido. Os adolescentes ficam “amontoados” em condições desumanas. Os mais fracos e ingênuos ficam vulneráveis a abusos de todo a ordem por parte de outros internos. Prevalece a lei do cão. Com as unidades de internação lotadas, a Unai é obrigada a manter adolescentes que já receberam medida socioeducativa no local. Na prática, o adolescente fica encarcerado, alguns até algemados, “cumprindo” a medida socioeducativa de internação. É dessa maneira, para todos os efeitos, que começa o processo de “ressocialização”. Diante da caótica situação, a Justiça determinou, nesta terça (6), que o Iases solucione o problema de superlotação na unidade em 15 dias. Em dois meses a Justiça quer a unidade definitivamente desativada. Foi a maneira encontrada pela Justiça para dar um basta às violações. Apesar do histórico, após quase três anos de governo a gestão de Renato Casagrande ainda não conseguiu pôr fim as violações de diretos no sistema de privação de liberdade juvenil, tampouco foi capaz de desenvolver uma proposta pedagógica que pudesse de fato ressocializar parte dos jovens que passa pelo sistema. O governo não revela porque os números seriam embaraçosos. Dentro desse caótico sistema, alguém arriscaria dizer qual o percentual de ressocialização nas unidades do Iases? Não bastasse a falência do sistema, o governo atual ainda herdou do antecessor uma quadrilha que atuava na cúpula do Iases. A Operação Pixote levou para a cadeia a diretora-presidente da autarquia, Silvana Gallina, acusada de agir em conluio com o colombiano Gerardo Mondragón, que foi recebido no Estado pelo governo anterior como o “mago do sistema socioeducativo”. O homem que seria capaz, em troca de alguns milhões, de devolver para a sociedade os adolescentes considerados “irrecuperáveis”. O ex-frei colombiano, com seu método revolucionário, não teve sucesso no trabalho de ressocialização, mas conseguiu enriquecer à custa do dinheiro público, desviando recursos das unidades administradas pela Acadis. A conta deixada por Hartung e companhia não é paga hoje só pelo governador Renato Casagrande, mas por toda a sociedade, que é refém da violência, em parte, protagonizada por esses jovens que estão submetidos a um sistema falido, incapaz de recuperá-los.
Juntandoas peças
Essa “tomada” do PT no Estado por João Coser liquida, logo de saída, aquela que poderia ser um obstáculo aos planos do ex-prefeito de Vitória para 2014, a senadora Ana Rita Esgário. Já no comando do partido, Coser colocaria em prática sua estratégia, em mais duas frentes, “jogar” o PT no colo do governador Renato Casagrande e ir atrás do ex-governador Paulo Hartung (PMDB) para pedir apoio a uma candidatura ao Senado – tem “carta na manga” para isso, pois ninguém mais do que ele fez concessões a Hartung. A “jogada” é exatamente aparecer como o candidato de todo mundo: PT, Casagrande e Hartung. Coser começa a juntar as peças e, sem dúvida, seria o sonho do ex-prefeito emplacar seu projeto com o vento soprando a favor, mas nem tudo são flores. Dentro do partido, o grau de indignação pode ser grande e já tem militantes históricos berrando – com razão. Outro risco ao plano de Coser é exatamente Hartung, de quem ele nunca se afastou. Em matéria de gratidão, o ex-governador não é exemplo pra ninguém. A manobra é arriscada. Próprio umbigo A movimentação de Coser é para atender a seu projeto pessoal, não do partido. Ana Rita seria candidata natural à reeleição e um nome forte para o PT, pois faz um bom mandato. A candidatura dela também faria interligação com outras forças políticas. Telhado de vidro Além de Ana Rita, até agora, quem tem sido ventilado, vez ou outra, como concorrente ao cargo, é o próprio Hartung. Mas ele teria disposição para “colocar a cara a tapa”, neste momento de clamor das ruas? Nunca fez essa linha. Carreira solo Já Magno Malta (PR) dificilmente terá candidato ao Senado. Como sempre faz, deverá articular sua candidatura ao governo do Estado sozinho. Caso contrário, terá que “empurrar” alguém. Bons tempos Já não se faz cachoeirenses como antigamente. O deputado estadual Rodrigo Coelho (PT) rasgou elogios ao presidente da Assembleia, Theodorico Ferraço (DEM), na sessão desta terça-feira (6). ‘Lambendo a cria’ O deputado estadual Elcio Alvares (DEM) é visto com frequência no Tribunal de Justiça do Estado (TJES). Mas se engana quem pensa que é para conversar com desembargadores. Vai sempre encontrar sua pupila, a assessora de imprensa do órgão Ana Paula Garcia Barros. Engoliu a seco Os deputados estaduais do G11 retomaram os trabalhos nessa segunda-feira (5) ainda engasgados com o Eustáquio de Freitas (PSB), que resolveu colocar lenha na fogueira na polêmica do pedágio na Terceira Ponte no último dia de sessão antes do recesso. No entanto, a enquadrada de Casagrande fez efeito. Freitas não respondeu. Falha grave A propósito, os primeiros meses deste ano foram tão complicados para os deputados que eles sequer lembraram de indicar lideranças para a Tribuna Popular dessa segunda-feira (5). Agora, só em setembro. Chegou aqui Já tem movimento nas redes sociais para ocupação em frente à residência oficial do governador Renato Casagrande, na Praia da Costa, em Vila Velha. Assim como ocorre no Rio de Janeiro há dias e está programado para Brasília, no local onde moram os presidentes e – vizinhos – do Senado e Câmara dos Deputados, Renan Calheiros (PMDB-AL) e Henrique Alves (PMDB-RN). Burburinhos Repercute nos bastidores a investida feita pelo jornal A Gazeta, com interferência do comando da Rede Globo, que acabou com as colunas dos jornalistas Miriam Leitão e Fernando Calazans, em A Tribuna, depois de anos. Os dois passaram para o lado da concorrente, com exclusividade. Do ponto de vista de resultados, a antiga casa de Miriam e Fernando tem quase o dobro de circulação de A Gazeta. Nas redes “Galera, ainda estamos na frente da Ales esperando vocês! VEMPRARUA”. (Não é por 20 centavos, é por direitos – no Facebook). PENSAMENTO: “Só merece o poder aquele que o justifica todo os dias”. Dag Hammarskjold
Sai ou não sai?
O ninho tucano parece empolgado com a possibilidade de o ex-governador Paulo Hartung aproveitar a janela de transferência e retornar ao PSDB no último dia do prazo para filiações partidárias, no início de outubro. Mas a tendência, para os meios políticos, é de que ele permaneça no PMDB, partido que segue sob seu rígido comando no Estado. O convite tucano, vindo do presidenciável do partido, o senador por Minas Gerais, Aécio Neves, é atraente, mas para Hartung o momento político não é apropriado para ousadias e se tem uma coisa que o ex-governador não parece ser adepto em política é ousadia. Deixar o PMDB não seria problema para o ex-governador, que nunca teve uma marca partidária forte, mas passaria o recibo de excesso de oportunismo. A troca só seria realmente justificada se Aécio fosse o franco favorito para a eleição presidencial e ele não é. Neste caso o PMDB, que não tem candidato a presidente, deixa Hartung livre para se movimentar no Estado de acordo com seus interesses e caminhos em 2014. Sob o comando de um de seus principais emissários, o deputado federal Lelo Coimbra, o PMDB é um partido que atende aos interesses do ex-governador. Portanto, dificilmente será desta vez que o mercado político verá o reencontro de Hartung com o ninho tucano. Possivelmente, PMDB e PSDB farão uma aliança, o que fortaleceria mais o ex-governador para a disputa do próximo ano, se ele estiver em condições de disputar. Se não estiver, tem como indicar seu aliado, o senador Ricardo Ferraço. Mas essa aliança não depende só de tucanos e peemedebistas capixabas. Mas, por enquanto, fica todo mundo como está. Fragmentos: 1 – Ficou nas entrelinhas de algumas coberturas da imprensa sobre os planos de carreira dos servidores da Assembleia a impressão de que os funcionários da Casa não merecem a reestruturação. É isso mesmo? 2 – A pergunta que não quer calar é: será que se as mudanças causando um impacto de R$ 160 milhões no orçamento próprio fosse em outra estrutura do poder estadual, a crítica seria a mesma? 3 – A religiosidade aflorou no retorno dos deputados do recesso. Pelo jeito o conceito de estado laico está cada vez mais distante do Legislativo estadual.