A jovem na foto está quase sorrindo, olhando o futuro com a mesma surpresa do observador incógnito que olha para ela, tanto tempo depois. O cabelo solto sugere uma dança suave com a brisa que talvez entrasse pela janela que não aparece na foto. Nada em seu rosto indica seus sentimentos, se é feliz ou triste, se posou para a foto por vontade própria ou se apenas foi surpreendida pelo fotógrafo intruso naquele momento e lugar. Poderia se chamar Ailez ou Zelia, talvez apenas Maria, nunca se sabe. Pôs a foto em um envelope, procurou o endereço em um dos poucos catálogos telefônicos que ainda distribuem nos condomínios. Escreveu com cuidado o nome e o destino, mas não pôs o remetente. Foi a um dos poucos postos do correio ainda existentes na cidade, selou, jogou na caixa apropriada e foi almoçar no MacDonald, antes que esse desapareça também da face da terra. No céu, uma estrela nova nasceu, uma estrela velha morreu, engolfada no tal buraco negro para onde vamos todos nós. Também finito é o destino das estrelas. Nos correios o envelope da foto é recebido e catalogado, distribuído por região de acordo com o CPF – mais um número que nos impõem, esse com muitos usos. Exigido para usar o cartão de crédito nos postos de gasolina, para pedir pizza pelo telefone, para tirar fita de vídeo nas máquinas automáticas dos supermercados. Outra máquina automática, a de classificação da correspondência a ser expedida, rejeita o envelope sem remetente, sem piedade. A funcionária o pega, examina, vê que o valor do selo está correto e manda para o setor de segurança. O envelope passa pelo detector de armas químicas, aciona o sinal verde – sem conteúdo danoso ou suspeito – e é jogado na esteira que desemboca em outros nichos, indo engordar os sacolões jogados sem cuidado nos caminhões que o levarão a seu destino final. Um dia depois o envelope chega a outra agência dos correios, em outra cidade, onde segue os trâmites burocráticos até a caixa postal número 230009, rua E R 23 T, Bairro 5-A, conforme a catalogação dos correios. Somos hoje um baú de números! Há dias ninguém retira as remessas diárias, e o envelope se espreme entre avisos bancários e contas de luz e telefone, propaganda de supermercados e ofertas de novos cartões de crédito, de seguros de vida e sepulturas vitalícias. Ou melhor, “mortalícias”. Chove e a casa é velha, precisa de reparos. A água se infiltra pelas paredes por causa das calhas entupidas, e lentamente escorre para a caixa postal. Cinco dias depois alguém se lembra de checar a correspondência já meio mofada na caixa dos correios. Com nojo, corre ligeiramente os olhos pelo amontoado de papéis úmidos, retira pouca coisa que pode ser importante, e joga o resto na lixeira. O envelope da foto, sem remetente, sem dó, é o primeiro a ser descartado. A chuva parou e o sol brilha num céu azul de esperanças. Não sei porque dizem que a esperança é verde, pois decretaram que verde é a inveja. Quem vai saber? Melhor aproveitar o sol, que esse também não há de estar lá no alto para sempre. Mas por que nos preocuparmos? A moça na foto, a pessoa que mandou a foto, e quem não a recebeu, não estarão aqui para ver.
???Estamos juntos???
Olhe bem como são as coisas. Depois que a presidente Dilma Rousseff fez seu primeiro discurso sobre a onda de protestos que ganhou o país, o “apoio à democracia” se espalhou entre governantes e parlamentares. Quem antes criticou, virou “cara-pintada”, como se intitulou o próprio secretário de Estado de Segurança, André Garcia – logo tu, Brutos? Na mesma “pegada” aparecem o governador Renato Casagrande, deputados e senadores da bancada capixaba e até a Mesa Diretora da Assembleia Legislativa. Todo mundo fazendo esforço para se credenciar como legítimo defensor das manifestações populares e da liberdade de expressão. É que a insatisfação do povo brasileiro é tanta, que respinga em muita gente, principalmente na classe política e no seu “modus operandi”. Solução urgente então é tentar mostrar que faz coro, para assim mandar o seguinte recado: “ó, estamos juntos, essa carapuça não serve para mim”. Oportunismo é pouco. “Estamos juntos II” Quero ver quais políticos participarão do ato desta quinta-feira (20). Afinal, “cara-pintada’ que é ‘cara-pintada” vai para as ruas. “Estamos juntos III” Aviso aos navegantes: o mesmo governo que se diz democrático vai manter a estratégia da PM. Ou seja, meio motivo já vai render bombas de gás lacrimogêneo e etc. É só reação viu, nada de ação. Ah se esses policiais militares pudessem escolher de que lado ficar, hein. A PC já anunciou adesão ao protesto desta quinta. “Estamos juntos IV” Tem mais um ponto. Governo democrático espera os manifestantes baterem à porta ou corre atrás do prejuízo? O discurso é muito bonito, mas tem limite. “Estamos juntos V” Sobre a nota da Assembleia, que piada. Para dizer que apoia as manifestações, a Mesa Diretora tentou levantar a própria bola. Só um trechinho: “essa Casa de Leis se orgulha de ter em seu histórico a coragem de lutar e vencer o crime organizado que um dia imperou no Espírito Santo. Éramos conhecidos nacionalmente pelos desmandos e pela corrupção. Hoje, somos modelo de desenvolvimento econômico e humano”. Há, há, há. Ah… Um lembrete aos “nobres” deputados. A imagem da Assembleia está tão capenga, mas tão capenga, que nenhum discurso é capaz de amenizar. Não à toa, a Casa estava entre as opções de trajeto do movimento desta quinta-feira (20). No limite Aliás, esses bate-bocas na Assembleia mostram a quantas andam a relação dos deputados com o presidente da Casa, Theodorico Ferraço (DEM). Primeiro José Esmeraldo (de saída do PR), agora Hércules Silveira (PMDB). Até ano que vem, promete. Tem jeito? Por falar no DEM e em Theodorico, o partido tenta de qualquer jeito recuperar a imagem da mulher do deputado, a ex-prefeita Norma Ayub, presa na Operação Derrama e alvo de críticas por sua nomeação no governo do Estado. Mas a propaganda partidária tendo ela como protagonista, convenhamos, é de um tremendo mau gosto. Dá-lhe Givaldo! O vice-governador continua fazendo graça no interior do Estado. No dia do novo protesto, ele irá entrega dois ônibus escolares e um kit para uso da Secretaria Municipal de Agricultura, em Vila Valério. 140 toques “Tia Dilma: queremos padrão estádio Fifa também para nossas escolas e hospitais públicos”. (Ex-secretário de Educação de Vila Velha Roberto Beling – articulador da Rede no ES – no Twitter). PENSAMENTO: “Todos os males da democracia podem ser curados com mais democracia”. Alfred Smith
Duas políticas
A impressão que se tem do atual momento é que há duas interpretações sobre democracia no Brasil. Os poderes constituídos insistem em um discurso de que são democráticos e que o direito de manifestar deve ser mantido, mas sem “baderna”. O governo se diz aberto ao diálogo desde que os líderes dos movimentos o procurem. Enquanto isso tentam equivocadamente reduzir o debate à questão da tarifa do transportes – agora já são 11 as capitais que reduziram as tarifas. As medidas não vão amenizar o clima de insatisfação e revolta da população. A classe política definitivamente está em descompasso com o processo que se agiganta no País. O Espírito Santo vem mostrando despreparo para conviver com a nova realidade já faz tempo. No governo Paulo Hartung houve o confronto da polícia com os estudantes até às portas da universidade. Também sobrou bala de borracha para os índios que lutavam por suas terras, Aracruz. No governo Casagrande, duas desastrosas operações contra mobilizações populares, mostraram que o governo socialista também não tinha preparo para entender o movimento político que se dá a partir das ruas. Naqueles movimentos, porém, havia uma liderança para qual o governo poderia apontar sua artilharia. Agora com um movimento sem bandeiras ideológicas ou partidárias, ficará difícil para o poder público sentar à mesa. E é justamente aí que está o nó dessa nova configuração: não há mesa. A política de gabinete, de coalizão, de privilégios para o setor privado, a costura de programas de governo, desenhadas e norteadas pelo setor econômico, o desenvolvimentismo a qualquer preço com promessa de emprego e desenvolvimento social que nunca chegam, não convencem mais. O modelo democrático institucional não contempla mais a população, que cansou de esperar sua fatia do bolo. É verdade que movimentos do tamanho que está acontecendo agora tendem a não perdurarem por muito tempo. Mas uma vez experimentado o calor da rua, ele pode ser acionado novamente a qualquer momento. E se a preocupação da classe política é com o reflexo nas urnas em 2014 é melhor abrir o olho. Pela disposição de parte do movimento, corre o risco de não haver sequer urna em 2014. Fragmentos: 1 – A aprovação da PEC do Passe Livre na Assembleia Legislativa vem sendo colocada na cota da pressão popular por conta dos movimentos populares que vem se espalhando pelo País. Mas não é bem assim. 2 – Pode até ser que a aceleração da votação do segundo turno da PEC possa ter sido influenciada pelo movimento, mas a proposta já foi bem conversada e liberada pelo governo do Estado. 3 – Não há como dizer que a política institucional já sente os efeitos dessa pressão das ruas. A classe política continua com jogo de empurra e ninguém veste a carapuça.
SOS Ambiental requer participação em auditoria à ArcelorMittal
A SOS Espírito Santo Ambiental reivindica participação na auditoria que será realizada na ArcelorMittal. Documento nesse sentido foi protocolado no Ministério Público do Estado (MPES) pelo representante da entidade, Eraylton Moreschi, nessa quarta-feira (19). Ele contesta o fato do estudo ser acompanhado apenas pela instituição e por associações de moradores. A auditoria é feita a cada três anos para que a licença ambiental da empresa seja renovada, por uma empresa indicada pela própria Arcelor. Desta vez, porém, terá caráter mais amplo. Além do Ministério Público, as associações – oito ao todo – são representadas por Paulo Esteves, ex-funcionário da Vale. Para Moreschi, a sociedade civil organizada não pode ficar somente à mercê das associações e muito menos da empresa contratada pela própria Arcelor. A auditoria atende a uma proposta do MPES que tem como objetivo identificar a necessidade de a Arcelor realizar adequações para minimizar seus impactos. Isso porque a empresa se recusa a instalar as telas windfences, como fez a Vale. O caso rendeu ação civil pública movida pelo Ministério Público contra a empresa e o Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Iema). O MPES acusa a empresa de racismo ambiental, por se utilizar de tecnologias inadequadas e inferiores às utilizadas em outros países onde atua. Em julho de 2012, a Arcelor já havia sido condenada à instalação das barreiras de vento, apesar de suas alegações de que o cinturão verde minimizava em 75% suas emissões na Grande Vitória. No próximo dia 8 de julho, será realizada a terceira audiência de conciliação do processo no Tribunal de Justiça do Estado (TJES), quando serão definidos os detalhes da auditoria, como cronogramas e prazos.Iema já fez um laudo definitivo que determina que a siderúrgica deve instalar as windfences na ponta de Tubarão. Reunião Na mesma data, o diretor-presidente do Iema, Cláudio Denicoli, reuniu-se com os representantes da SOS Ambiental e com Alexsander Silveira, representante do órgão e coordenador do GTI Respira Vitória, para debater sobre a relação entre o instituto e a sociedade. A reunião funcionou como um alinhamento de propostas entre o Iema e a entidade, que quer maior participação e transparência nos processos do instituto. O Iema teve sua competência questionada com a divulgação de um relatório da Associação de Servidores do Iema (Assiema), no ano passado, que comprovava, dentre vários outros pontos alarmantes, a ineficácia e desestímulo dos funcionários na aplicação de multas a infrações ambientais e casos frequentes de carência de capacitação, falta de rigor em aplicação de penalidades e assédio moral por parte das empresas fiscalizadas.
Presidente abre as portas do TJES para comissão de manifestantes
Nesta quinta-feira (20), a cidade de Vitória se prepara para ser palco de um novo grande protesto de rua – o da última segunda (17), reuniiu, segundo estimativas da PM, mais de 20 mil pessoas. Os manifestantes iniciam o novo protesto, às 17 horas, na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Por volta das 18 horas, seguem em marcha pela Reta da Penha, passam em frente à praça do pedágio da Terceira Ponte, Assembleia Legislativa (Ales) e finalmente se concentram em frente ao Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES). Após conhecer que o destino da marcha é o Tribunal, o presidente da Corte estadual, desembargador Pedro Valls Feu Rosa, divulgou nota pública informando que irá receber os manifestantes para que sejam apresentadas as demandas do movimento. “Considerando a notícia de que a manifestação popular que ocorrerá amanhã [20] na cidade de Vitória, terá o seu término na Praça em frente ao TJES, a presidência reafirma o seu compromisso ético-legal na defesa dos princípios fundamentais do Estado Democrático de Direito”, diz a nota. Segundo Feu Rosa, a iniciativa está em consonância com as ações que o TJES vem implementando para garantir os direitos humanos, acesso à Justiça, democratização e transparência do Poder Judiciário, enfrentamento à corrupção e à impunidade. O presidente do TJES, porém, esclareceu que receberá as demandas que forem pertinentes à competência do órgão. Para se preparar para a manifestação, o presidente alterou o expediente do Tribunal nesta quinta-feira (20). O horário de expediente para os servidores e atendimento ao público e transferiu, para a próxima segunda-feira (24), a sessão do Tribunal Pleno. O Ato Normativo 65/2013 foi assinado na tarde desta quarta-feira (19) pelo presidente em exercício, desembargador Carlos Roberto Mignone, já que Pedro Valls está em agenda externa. No ato, o presidente registra que a medida considera “o legítimo direito de manifestação pacífica” e está “em consonância com as ações que o Tribunal de Justiça vem implementando de aproximação com a população” e tem, ainda, o “sentido de garantir segurança e mobilidade a seus servidores e demais cidadãos”. O Ato Normativo determina, ainda, que o expediente nos juízos da Grande Vitória seja encerrado às 17 horas e deixa a critério do juiz de outras comarcas a modificação do horário de expediente, nos locais onde houver manifestações nas proximidades do fórum.
Cidades do interior programam jornada dupla de protestos
O protesto da última segunda-feira (17) em Vitória, que mobilizou mais de 20 mil pessoas, já contagia a população do interior do Estado, que não quer ficar de fora das manifestações que se alastram por todo o país. Pelo menos dez cidades já confirmaram protestos para a esta quinta-feira (20). Outras pretendem dobrar a dose e já falam em um novo ato no sábado (22). A pauta dos municípios do interior é praticamente a mesma do movimento deflagrada na Capital. Eles protestam contra a criminalização dos movimentos sociais, corrupção, precariedade da saúde, segurança, educação e do transportes públicos, além de criticarem os gastos com grandes eventos: Copa das Confederações, Copa do Mundo e Olimpíada. Os atos deverão respeitar uma sincronia de horário. A concentração começa entre 17h00 e 17h30, com o início da marcha previsto entre 18h e 18h30. Entre as manifestações do interior, a que promete fazer mais “barulho” é a de Sooretama. A concentração ocorre às 16h, com início marcado para as 17h na praça da Bíblia, no Centro. Os manifestantes passarão pela Prefeitura e seguirão para a marginal da BR 101, na avenida. Ângelo Suzano. De lá, seguem para a região conhecida como Alegre, onde pretendem interditar a BR-101 Norte. O ato já foi comunicado à Polícia Rodoviária Federal. Em Cachoeiro de Itapemirim, no sul do Estado, os manifestantes se concentrarão em frente ao Teatro Municipal e percorrem as ruas do Centro com destino à sede da Prefeitura. O ato deverá se repetir no sábado, com o mesmo percurso, só que com horário de concentração previsto para às 11h e saída para o meio-dia. Em Castelo, também no sul, a concentração está marcada na praça Três Irmãos e deverá percorrer as principais ruas da cidade natal do governador Renato Casagrande. Ainda no sul do Estado, os balneários de Marataízes e Piúma prometem protestos para a manhã de sábado (22). Em Venda Nova, na região serrana, a manifestação também ocorre às 8h do sábado. Em Guaçuí, no Caparaó, a promessa é que a população saia às ruas no próximo dia 29, a partir das 8h30. O percurso ainda não foi divulgado. Em Aracruz, a saída será às 17h, na praça da Paz e percorrerá as ruas da cidade até a praça João Batista. Nas redes sociais, a previsão é de que duas mil pessoas compareçam ao ato. Na vizinha Linhares, a manifestação sairá da Praia 22 de Agosto, às 17h. Em Colatina, noroeste no Estado, os manifestantes vão para ruas nesta quinta-feira (20). A marcha parte da Catedral e vai até a Ponte Florentido Ávidos.
Ato público do magistério de Viana pede a valorização da educação pública
Os professores da rede municipal de Viana vão realizar um ato público na manhã e tarde desta quinta-feira (20) pela valorização da educação pública. Por conta do ato, as aulas dos turnos matutino e vespertino das escolas municipais vão começar mais tarde. A principal bandeira do magistério de Viana é a valorização da educação pública. De acordo com diretor do Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Estado (Sindiupes), Christovam Mendonça, o salário inicial dos professores com graduação no município é muito baixo e toda a categoria luta por reajuste digno desde a entrada na carreira. Ele acrescenta que, além do ato público, também vai ser realizada uma assembleia da rede municipal, em que pode ser votado o indicativo de greve. O Sindiupes convidou a comunidade de Viana para participar do ato público, que pretende fechar a BR-262, que corta o município, nas imediações do Centro de Aperfeiçoamento de Líder Rural (Calir). Christovam conta que o movimento já teve larga adesão de pais de alunos, da comunidade e de movimentos sociais.
Vigília celebra o Dia Estadual em Memória das Vítimas de Violência
Nesta quinta-feira (20) é celebrado o Dia Estadual em Memória às Vítimas de Violência no Espírito Santo, instituído a partir da Lei Estadual 9.922/2012. A data foi escolhida em memória ao dia do assassinado de Pedro Nacort, morto em 20 de junho de 1999 no Centro de Vitória com 20 tiros. Em 2001 a mãe de Pedro, Maria das Graças Nascimento Nacort fundou a Associação de Mães e Familiares de Vítimas de Violência do Estado (Amafavv/ES). Maria das Graças vai fazer uma vigília, iniciando às 6 horas desta terça, na Rua Sete de Setembro, local do assassinato do filho, em memória das vítimas da violência. Ela diz que também deve participar da manifestação marcada para a noite de quinta-feira. A mãe de Pedro Nacort também espera que o policial militar Erivelto de Souza Pereira, conhecido como “Diabo Loiro”, condenado no dia 5 de novembro de 2011 pelo Tribunal do Júri de Vitória, a 18 anos de prisão e à perda da patente de soldado pelo crime, cumpra a pena em regime fechado. O recurso impetrado pela defesa do policial está no Superior Tribunal de Justiça (STJ). O primeiro julgamento do caso foi realizado em maio de 2009, mas Erivelto e Jeferson Zambalde Torezani, acusado de emprestar a arma usada para assassinar Pedro foram absolvidos. No entanto, em 21 de outubro do mesmo ano a Primeira Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Estado (TJES) anulou a absolvição dos policiais militares. O relator do caso, desembargador José Luiz Barreto Vivas alegou que as provas encontradas ainda apontavam dúvidas quanto à autoria do crime. A presença maciça de policiais militares fardados durante o julgamento também foi um dos pontos abordados durante a relatoria.
Estado perde um dos principais combatentes das poluidoras
A luta ambiental no Espírito Santo perdeu um de seus principais articuladores. Morreu nessa terça-feira (18), de causa desconhecida, o advogado e ambientalista Freddy Monteiro Guimarães, 67 anos, fundador da primeira entidade ambiental do Estado, a Associação Capixaba de Proteção ao Meio Ambiente (Acapema). A trajetória de Freddy é marcada por denúncias contundentes sobre a poluição do ar e os impactos gerados pelas grandes poluidoras do Estado, como Vale, ArcelorMittal, Aracruz Celulose (Fibria) e Samarco Mineração. Com muito critério, ele “escancarou a janela da sujeira que onera a saúde dos capixabas e compromete o futuro da cidade e do Espírito Santo como um centro turístico”, como bem citou em seus artigos o colunista de Século Diário, Geraldo Hasse, e se não foi ouvido na época, abriu um bom caminho para o debate. Junto com ele vieram ações populares, manifestações e denúncias contra corrupção, sempre regadas de indignação e críticas contundentes sobre o que ele chamava de “tremendo suporte” dado pelo governo do Estado às grandes empresas transnacionais do Espírito Santo. Para Freddy, tanto governo quanto população, enquanto inertes, eram cúmplices dos crimes ambientais registrados no Espírito Santo. Freddy denunciou ainda o aumento constante de doenças respiratórias na Grande Vitória devido à emissão de partículas totais e sedimentáveis pela Vale e Arcelor, e cobrou a adoção de novos parâmetros de emissões pelo governo do Estado. Ele se preocupava com a qualidade de vida, mas sobretudo com o que restaria do Estado após anos sem o controle da poluição do ar. Ele tratava o Estado e as transnacionais como “um só corpo” e foi um dos pioneiros em levantar a bandeira contra a isenção fiscal dada pelo Estado às transnacionais. Em outras ocasiões, apontou a destruição de 50 mil hectares de Mata Atlântica no norte do Estado pela Aracruz Celulose, ressaltando a luta indígena e quilombola, comunidades que tinham o direito de ter suas terras devolvidas pela “empresa usurpadora de terras”, como ele dizia. Inquieto, Freddy ficou conhecido por desmascarar ações do governo e projetar sua mente para os impactos que ainda não eram sentidos pelos capixabas. Sem papas na língua, posicionou-se ainda contra a implantação da siderúrgica Baosteel, em Anchieta, sul do Estado. Para ele, tanto aço e minério na Ponta de Tubarão e no sul do Estado não serviam para nada, a não ser gerar impactos negativos à saúde, economia qualidade de vida do capixaba. Sem acreditar nas promessas políticas, o ambientalista afirmava não se iludir com a CPI da Poluição nem dos agrotóxicos, e desdenhou do inventário de gases sobre as poluidoras do Estado, feito pelo Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Iema). Sempre deixou claro, nenhumas dessas iniciativas foram levadas até o fim e, portanto, não representam mérito algum. Tais medidas, esbravejava, são tão falhas quanto os Termos de Ajustamento de Condutas (TACs), que nada mais servem do que retardar o processo fiscalizatório e punitivo para empresas que impactam de forma negativa o Estado. Luta emblemática envolvendo o ambientalista diz respeito à exigência da implantação da unidade de dessulfuração – que deveria tratar os gases da primeira usina da Arcelor – na época CST –, nunca implantada. Outro ponto duramente criticado por ele foi a mudança do nome dos TACs para Termos de Compromisso Ambiental (TCA), que segundo ele, teve o único objetivo de não denegrir a imagem das empresas. Freddy também defendia a não liberação da oitava usina da Vale, devido aos impactos que a empresa já gera na Grande Vitória. Freddy nasceu no Centro de Vitória, área próxima ao Parque Moscoso, em 22 de novembro de 1946. Formado em Direito pela Universidade Federal do Estado (Ufes), em 1970, também é conhecido por, juntamente com Ewerton Guimarães, Paulo Torre, Luiz Tadeu Teixeira, Aprígio Lyrio, Antônio Alaerte e Rubens Manoel C. Gomes dividir suas atividades entre o jornal O Diário e o movimento teatral e musical. Como autor, diretor e ator, e na música, Freddy também escrevia poesias e publicou o livro Veneno Antídoto, pela Oficina de Letras, 1997. Na Revista Capixaba e Revista Talismã Gold, abordou as questões ambientais. O sepultamento do ambientalista foi realizado nesta quarta-feira (19), no Cemitério Santo Antônio, em Vitória.
Programas de assistência agrária ainda desagradam a militantes do campo
O Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) Capixaba, implementado em 2005 pelo governo Paulo Hartung, foi divulgado com a proposta de promover a agricultura familiar e o desenvolvimento sustentável com linhas de crédito voltadas às demandas de infraestrutura, capacitação e comercialização. O projeto priorizava 21 municípios do interior do Espírito Santo que tinham baixo IDH ou não haviam recebido ajuda do Pronaf, o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar do governo federal. Em um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) da graduação em Geografia da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), concluiu-se que, entre os anos de 2005 e 2010, desde sua criação até o fim do governo Hartung, o Pronaf Capixaba aprovou projetos de infraestrutura – como construção de edificações, estradas e compra de suplementos agrícolas, dentre outros – a 60 municípios do Estado, ao passo que as aprovações dos projetos para capacitação de trabalhadores e comercialização de produtos foram menos expressivas (respectivamente, 19 e 15 municípios). A monografia é de autoria da aluna Renata Nunes da Silva e teve como título “Políticas Públicas de Desenvolvimento Rural: o Pronaf Capixaba (2005-2010)”. As cifras dos investimentos do projeto foram de: R$ 3,9 milhões em 2005, R$ 5 milhões em 2007 e R$ 12 milhões em 2010. Entretanto, como disseram os próprios professores presentes na banca, “a disponibilização de recursos não significa melhorias”. Progressos referentes a produtores ligados ao Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), por exemplo, foram mínimos. A principal crítica dos militantes é referente à gestão dos recursos, que são repassados às prefeituras, e não diretamente ao produtor rural. Leomar Lírio, da coordenação estadual do MPA, conta que a participação da sociedade civil organizada se restringe aos Conselhos Municipais de Desenvolvimento Rural Sustentável (CMDRS), de onde “na teoria” saem os direcionamentos para as solicitações e projetos aprovados. “Os agricultores e as entidades representativas se uniram e solicitaram que o governo repassasse esse recurso diretamente ao produtor”, mas a solicitação do MPA não foi atendida pela atual gestão. “Queremos uma relação direta, sem envolvimento de interesses políticos”, reivindica o militante. Os professores presentes na avaliação da pesquisa também consideraram que as políticas públicas são resultado da luta dos movimentos sociais, não mérito do governo. Apesar do Pronaf Capixaba, com esse nome, ter acabado, continua funcionando da mesma forma o programa Vida no Campo, do atual governo, que também oferece incentivo financeiro para diversas áreas, como infraestrutura, crédito e pesquisa rural, mas continua repassando os recursos diretamente às prefeituras, sem atender às reivindicações da população. Bruno Pilon, também da coordenação estadual do MPA, cobra que os recursos atendam às demandas dos movimentos sociais, o que não acontece. Apesar de a infraestrutura ser um ponto importante na produção agrícola, o projeto não realiza as mudanças no modelo agroexportador que os movimentos sociais consideram necessárias. No estudo, ainda é apontado que a agricultura familiar, estabelecida em pequenas propriedades rurais, consolidou-se no Estado. Entretanto, o tamanho das terras ocupadas por esse sistema ainda é inferior ao total de territórios do agronegócio. Tanto no Espírito Santo, como em todo o país, o número de trabalhadores ainda é maior na agricultura patronal, que faz uso de recursos como os agrotóxicos e latifúndios para a obtenção de um lucro cada vez maior em oposição à segurança alimentar da população.