O Conselho Federal de Medicina (CFM), depois de entendimento com os 27 Conselhos Regionais de Medicina (CRMs) que representa, se posicionou em favor da ampliação das excludentes de ilicitudes penais em casos de interrupção de gravidez. A entidade não é favorável, no entanto, ao aborto, mas à autonomia da mulher e do médico e da ampliação dos casos em que a interrupção da gravidez não seja crime. O tema está sendo tratado no âmbito da reforma do Código Penal, que tramita no Congresso Nacional. O CFM acredita que pode contribuir com o avanço do debate no Congresso e, consequentemente melhorar a qualidade da assistência à saúde. Os conselheiros entenderam que a aprovação dos pontos que vêm sendo discutidos no Congresso não preveem a descriminalização do aborto. A maioria dos conselheiros concordou que o aborto não deve ser considerado crime quando houver risco à vida ou à saúde da gestante; se a gravidez resultar de violação da dignidade sexual, ou do emprego não consentido de técnica de reprodução assistida; se for comprovada a anencefalia ou quando o feto padecer de graves e incuráveis anomalias que inviabilizem a vida independente, em ambos os casos atestado por dois médicos; e por vontade da gestante até a 12ª semana da gestação. Também é entendimento do CFM e dos CRMs que os atuais limites excludentes de ilicitude do aborto atuais são previstos no Código Penal que data de 1940 e que são incoerentes com os compromissos humanísticos e humanitários, que não condizem com os tratados internacionais subscritos pelo Estado brasileiro. Foram analisados aspectos sociais, de saúde e jurídicos para que os conselheiros chegassem ao entendimento. No campo da saúde pública e sob aspectos epidemiológicos os conselheiros consideraram que a prática de abortos não seguros tem forte impacto na saúde pública. As complicações causadas por este tipo de procedimento são a terceira causa de ocupação de leitos obstétricos do País. Socialmente, o CFM levou em consideração as estatísticas de morbidade e mortalidade da mulher que se submete aos procedimentos inseguros na interrupção da gestação, justamente por conta da dificuldade de assistência adequada, principalmente na parcela mais carente da população, Já juridicamente, os conselheiros entenderam que a ampliação dos pontos excludentes de ilicitudes pelo novo Código Penal não representam a descriminalização do aborto. O crime de aborto continuará a existir, porém resguardando algumas ressalvas em favor da interrupção da gestação.
PMDB cobra mais espaço no governo, mas não tem unidade para pressionar
A movimentação do PMDB, cobrando mais espaço no governo de Renato Casagrande não deve trazer mudanças no Palácio Anchieta para acomodar às demandas do partido. O enfraquecimento da Assembleia Legislativa e a falta de unidade dentro da própria bancada prejudicam um movimento de pressão que realmente seja traduzido em ameaça à governabilidade de Casagrande. De fato, o PMDB, ao lado do PT, tem a maior bancada da Assembleia, com cinco deputados. Mas a situação de cada um revela a forma de relacionamento com o grupo do governador, que coloca o partido em desvantagem. O deputado Marcelo Santos, por exemplo, foi prejudicado em sua campanha à prefeitura de Cariacica, por movimentos contrários à vontade do ex-governador Paulo Hartung. Mesmo fora do governo, Hartung mantém aliados, do PMDB ou não, dentro da equipe de Casagrande. Sérgio Borges é líder do governo Casagrande na Assembleia e se tornou presidente da Comissão de Finanças da Casa, uma das mais importantes para o Executivo, ainda no governo Paulo Hartung. Essa posição não o levou a qualquer tipo de pressão contra o governo do Estado, muito pelo contrário, é cobrado pelos colegas por sempre adotar os critérios do Executivo para a relatoria da peça orçamentária, que nem sempre agrada aos parlamentares. Hércules Silveira já foi prejudicado eleitoralmente duas vezes pelo grupo de Hartung nas disputas à prefeitura de Vila Velha. A primeira vez em 2008, quando foi abandonado pelo ex-governador no segundo turno da disputa, que deu a vitória a Neucimar Fraga (PR). No ano passado, Hércules, que era apontado como um dos favoritos ao pleito, teve a candidatura retirada pelo próprio presidente do partido Lelo Coimbra, aliado de Hartung. O grupo apoiou a candidatura de Rodney Miranda (DEM), outro aliado do ex-governador. A deputada Solange Lube tem problemas na Justiça e em alguns momentos teria sido socorrida por Hartung. Mesmo estando na primeira secretaria da Mesa Diretora, não teria condições de fazer qualquer pressão contra o governo. Luzia Toledo tem um perfil agregador e não entraria em rota de colisão com o Executivo por cargos. Já o deputado Paulo Roberto, que foi líder de Hartung na Assembleia, retornou à Casa passando por cima da fidelidade partidária e ainda não sabe ao certo se permanecerá na vaga. Como cada deputado tem seu campo de interesse, a bancada não conseguiria articular uma ação integrada para pressionar o governo. Ainda mais sem o apoio da Assembleia, que também não empolga em ajudar o PMDB, justamente por ser a maior bancada do plenário.
Violência contra a mulher: ministra vai entregar o primeiro botão do pânico no Estado
A ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM) da Presidência da República, Eleonora Menicucci, recebeu, em Brasília, nesta quarta-feira (20), o presidente do Tribunal de Justiça do Estado (TJES), Pedro Valls Feu Rosa, a coordenadora do Combate à Violência Doméstica do TJES, Hermínia Maria Silveira Azoury, e a senadora Ana Rita (PT) – que intermediou o encontro – para que fosse apresentado o “botão do pânico” para as mulheres vítimas de violência doméstica que estão sob medida protetiva. Também participou do encontro a secretária nacional de Enfrentamento à Violência Contra as Mulheres, Aparecida Gonçalves. Eleonora Menicucci vai participar do lançamento do dispositivo no Estado, no dia 4 de abril, quando a ministra vai entregar o primeiro botão do pânico. O equipamento vai ajudar o sistema de Justiça e a polícia a fiscalizar medidas protetivas oferecidas a mulheres vítimas de violência doméstica. O botão é acionado pela mulher toda vez que o agressor, condenado a ficar distante dela, se aproximar. A expectativa é que inicialmente 100 mulheres sejam beneficiadas com o dispositivo, que vai atender somente moradoras de Vitória na primeira fase de implantação. A Guarda Municipal de Vitória também irá trabalhar em parceria com o Tribunal de Justiça com a Patrulha Maria da Penha, responsável por atender às mulheres sob medida protetiva sempre que o botão de pânico seja acionado. Além de intensificar a proteção de mulheres vítimas de violência doméstica, o botão do pânico também vai auxiliar o Tribunal e a polícia na fiscalização do cumprimento das medidas protetivas.
Defesa de Hartung pode prejudicar Casagrande na disputa de 2014
Além da defesa pública de seu antecessor pelas denúncias de improbidade administrativa, o governador Renato Casagrande estaria se aproximando politicamente do ex-governador Paulo Hartung para a montagem do palanque do próximo ano. Mas para os meios políticos essa antecipação da defesa pode arranhar a imagem do socialista para a campanha à reeleição no próximo ano. A movimentação de Casagrande seria para manter a unidade da base, garantindo assim sua governabilidade para este ano e a movimentação de 2014. Mas diante de uma nova denúncia, desta vez envolvendo as renúncias fiscais em favor do Instituto Sincades, aumenta o risco de compartilhar o palanque com o ex-governador. As tentativas de desqualificar as denúncias atacando os promotores de Justiça, não funcionaram, muito pelo contrário, geraram reações em defesa das ações contra o ex-governador. Como as ações tramitam na primeira instância, uma condenação não “suja” a ficha de Hartung, mas faria um grande estrago em sua imagem, construída com um discurso de “faxina ética” e “reconstrução política”. As denúncias colocam em xeque essa imagem construída em seus dois mandatos e abala o sistema político que orbitou na última década em torno dele e sob seu comando. Além das denúncias de improbidade administrativa, politicamente, Hartung precisaria de um esforço do governador para garantir sua eleição, caso ele realmente dispute a vaga a ser aberta no próximo ano para o Senado. Para os meios políticos, Casagrande vive um dilema: se excluir Hartung do palanque, pode colocar em risco a unidade da base que sustenta seu governo. Os partidos e prováveis candidatos que fazem parte do grupo, defendem a permanência de Hartung, porque isso também significa manter o controle do poder econômico, que financiará as campanhas majoritárias e proporcionais do próximo ano. Além disso, se tirar Hartung do grupo, Casagrande estaria virando as costas para o palanque no qual se elegeu em 2010. Mas se mantiver a defesa intransigente do ex-governador, poderá sair desgastado do processo, se Hartung não conseguir reverter as denúncias na Justiça. Aliado ao problema no próprio palanque, Casagrande ainda tem uma outra preocupação que é a possibilidade de enfrentar uma candidatura de oposição, capitaneada pelo senador Mango Malta (PR). O senador não confirma sua disposição para disputar a eleição do próximo ano, mas a impressão do mercado é de que ele tem um capital eleitoral muito maior do que vem sendo apresentado nas primeiras sondagens e que pode crescer, colocando em risco a reeleição de Casagrande. Como não depende do sistema financeiro que sustenta a base de Casagrande, ele fica livre para erguer um palanque de oposição. Escolheu para isso o discurso da Segurança. A movimentação no sentido de criar uma CPI do erro médico em nível nacional pode lhe dar uma visibilidade e penetração na classe média, que ele ainda não transita com desenvoltura, ficando assim, com uma musculatura eleitoral difícil de ser batida.
Caso Denadai: STJ nega recurso da defesa de Sebastião Pagotto
A Sexta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou, no início deste mês, um recurso do empresário e ex-militar Sebastião de Souza Pagotto, condenado pelo mando do assassinato do advogado Joaquim Marcelo Denadai, morto em abril de 2002. A decisão confirmou o entendimento do Tribunal de Justiça do Estado (TJES) que acusa Pagotto de ter subornado uma testemunha para mudar depoimento prestado à Justiça. O relator do caso, ministro Sebastião Reis Júnior, reforçou o entendimento que o crime de corrupção de testemunha poder ser configurado mesmo depois de prestado o depoimento. “O fato de a testemunha já ter prestado o seu depoimento, não lhe retira essa condição, uma vez que, até o final do processo, pode ser chamada a depor novamente ou mesmo comparecer em Juízo, espontaneamente, a fim de apresentar uma nova versão dos fatos”, apontou o voto – seguido à unanimidade pelo colegiado. A decisão frustra uma nova tentativa da defesa do empresário em reverter os efeitos do julgamento do Tribunal do Júri, que condenou Pagotto em setembro do ano passado a pena de 17 anos e 10 meses de prisão pela morte de Marcelo Denadai. Além do crime, o empresário também responde pelo crime de corrupção de testemunha. Na época do crime, o assassinato teve grande repercussão social – até mesmo na imprensa nacional – e chegou a provocar a vinda de uma missão especial federal ao Estado. Marcelo Denadai foi morto a tiros no dia 22 de abril de 2002, na véspera do encaminhamento à Justiça de uma queixa crime em que citava o envolvimento de 12 empresas, algumas administradas por laranjas, em fraudes em licitações em prefeituras capixabas. De acordo com a decisão do Conselho do Júri, Pagotto teria sido o mandante do homicídio, além de ter cometido para encobrir o assassinato, dentro da mesma ação, o crime de receptação qualificada. Na sentença, o juiz Carlos Henrique Cruz de Araújo condenou o empresário a 14 anos e 10 meses de reclusão pela acusação de mandar matar o advogado e mais três anos de reclusão pelo crime de receptação qualificada. Mesmo com a condenação, a Justiça permitiu que Pagotto aguarde julgamento de recurso em liberdade. Na mesma Sessão do Júri, o comerciante Leandro Scárdua Mageski, acusado de cometer fraude em um carro para proteger os assassinos de Marcelo Denadai, foi absolvido pelos jurados.
Omissão do poder público ‘enterra’ 28 anos de trabalho da família Ortiz
Texto: Flávia Bernardes Fotos: André Alves Ao ouvir um estrondo ensurdecedor, Marcos Ortiz, assustado, pensou num primeiro momento que um avião estivesse caindo sobre sua casa e restaurante. Sua reação instintiva foi juntar seus quatro filhos (o quinto não mora com ele) e correr para a parte mais baixa da casa para se abrigar. Segundos depois, sentindo a terra literalmente tremer sob seus pés, achou mesmo que o fim do mundo, como previam as profecias, havia chegado com um pouco de atraso. Logo depois, ele descobriria que um deslizamento implacável de terra havia sepultado 28 anos de trabalho na arte de preparar alimentação saudável, não para simples clientes, mas para amigos. É assim que ele via os comensais que “batiam ponto” diariamente no restaurante Sol da Terra. Segundo o filho mais novo, Gabriel Ortiz, parecia que o prédio da frente estava “desabando em cima de tudo”. A tragédia, resultado das fortes chuvas que castigaram a Grande Vitória nessa segunda e terça-feira (18 e 19), devastou o restaurante e mais três casas vizinhas, inclusive a dos Ortiz. O local era ponto de encontro tradicional de quem prestigiava a alimentação saudável, a base de produtos orgânicos. A destruição do espaço comoveu clientes e amigos que não param de chegar ao local com votos de solidariedade e esperança à família Ortiz. Enquanto uns ofereciam seus ombros, outros clamavam por justiça, responsabilizando o poder público pela omissão. Marco Ortiz, médico naturalista e ambientalista, por sua vez, apesar do caos, demonstrava serenidade. Ele preferia festejar que todos saíram ilesos da tragégia e olhar as perdas materiais com otimismo, vislumbrando um recomeço em breve. Ambientalista das antigas, Marco Ortiz denunciou por diversas vezes – inclusive oficialmente à Prefeitura de Vitória – o assoreamento que corroía a terra no morro que jazia atrás do seu restaurante. Segundo ele, os últimos ofícios foram protocolados há três anos, porém, voltaram a ser protocolados e encaminhados à Defesa Civil no ano passado. No ofício, Ortiz pedia um muro de arrimo e o desvio do esgoto vindo das residências localizadas acima para o bueiro central do Parque Gruta da Onça, vizinho à sua propriedade, localizada no Centro de Vitória. “Tinha uma água descendo constantemente e ao lado uma grande árvore. Pedimos o muro de arrimo e o desvio do esgoto que era despejado ali. Pedimos também uma ação para que o lixo não fosse jogado no morro. Da última vez, o ofício foi para a Defesa Civil, mas não tivemos resposta”, contou ele. Embaixo da lama, calcula Ortiz, ficaram suas tartarugas e a “energia” captada durante anos de trabalho: o feng shui que energizava os clientes, a música durante os almoços e o quadro com fotos de clientes ilustres, como Cássia Kiss, Milton Nascimento,Gilberto Gil, Jorge Mautner, Lucélia Santos, entre tantos outros. A história do Sol da Terra se confundia com a de Marco Ortiz. Talvez por isso ele olhasse os escombros do 9° andar do edifício de frente ao seu restaurante – um dos lares oferecidos por amigos e vizinhos para abrigá-lo – ainda tão desolado. Ele parecia procurar em meio à lama e ao lixo que desceram da encosta, fragmentos da sua história tão intensamente vivida ali. “Em 86 viemos para Vitória, morei na casinha ao lado do restaurante durante a construção. Não tínhamos nem chão, nem teto, as mangas caiam no prato do cliente. Depois coloquei uma lona e fomos indo até que chegamos ao ápice físico com o revestimento de cerâmica, a música, o feng e ao ápice da qualidade do alimento que fornecíamos”, recorda Ortiz. Naturalista desde 1973, quando foi apresentado ao livro Macrobiótica Zen, de George Ohsawa, a preocupação dele é até hoje tornar palpável para todos a boa alimentação, e sobretudo, mostrar que há sim como se manter saudável sem remédios. Foi assim que há 33 anos nasceu o primeiro restaurante no Centro de Vila Velha e que há 28 funcionava no Centro de Vitória, na Rua Barão de Monjardim. “Nós éramos jovens, primeiro formamos a Cooperativa Naturalista do Espírito Santo, depois veio o restaurante do Alcides pra quem eu emprestei minhas próprias panelas e minha cozinheira, depois nasceu o Aquário, o Sempre Vida e era sempre eu que dava as palestras iniciais para a abertura dos restaurantes”, conta ele. As histórias são comemoradas pelos amigos que articulam uma saída para o naturalista. Entre as iniciativas está a realização de eventos culturais em prol da reconstrução do local. Os amigos também defendem que Ortiz mova uma ação judicial para cobrar do poder público por sua omissão, diante do risco iminente denunciado pelo naturalista. Ele ouve cauteloso, sorri, mas não tira os olhos do lamaçal. Saudoso, mesmo interrompido minuto a minuto por um abraço apertado de um amigo, ele já calcula os prejuízos e pensa em uma forma de recomeçar. “Eu tenho que saber quais serão os rumos traçados doravante”, diz ele ainda em dúvida se será possível reaproveitar algo do pouco que restou. Do restaurante, além da fidelidade de amigos e frequentadores, restaram apenas lembranças e a recente memória de que tudo poderia ter sido evitado. Além do restaurante, situado na Rua Barão de Monjardim, no Centro de Vitória, três apartamentos e duas casas foram comprometidos com o deslizamentos e as famílias tiveram que deixar os imóveis por recomendação da Defesa Civil. Clique na imagem para ver a galeria de fotos
Omissão sem limites
Mais uma vez, a Assembleia Legislativa virou as costas para os interesses da população capixaba. Exceção de Eucléiro Sampaio (PDT), os outros 29 deputados preferiram o silêncio a se pronunciar ante o escândalo que envolve os repasses do governo do Estado para o Instituto Sincades, já brecado pela Justiça. Euclério bem que tentou provocar os colegas. Em vão. É verdade que o histórico da Assembleia não criaria expectativa nem entre os mais otimistas. Mas, mesmo assim, esperava-se que os ditos “representantes do povo” exigissem no mínimo a apuração rigorosa das irregularidades. Mas nem isso se viu nas duas sessões – de terça e quarta-feira – que se sucederam após Século Diário denunciar o escândalo. A publicação da decisão do juiz da 3ª Vara dos Feitos da Fazenda Pública Estadual, Arion Mergár, pedindo a suspensão dos repasses de dinheiro público ao Instituto Sincades – informação veiculada no site oficial do Tribunal de Justiça – tampouco mexeu com os brios dos deputados, que preferiram mergulhar e fingir que o problema não lhes diz respeito. Diz sim. É preciso refrescar a memória dos nobres deputados para lembrá-los que a manobra articulada pelo então governador Paulo Hartung para desonerar as empresas do setor atacadista, deveria ser submetida, além do Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz), à Assembleia Legislativa. Esse motivo por si só já justificaria uma reação da Assembleia. Afinal, o ex-governador “atropelou” uma prerrogativa da Casa. Mas os deputados parecem não se incomodar com isso, ainda mais quando se olha para a lista dos envolvidos, que é encabeçada pelo ex-governador. Na semana passada a omissão se repetiu. Os deputados fecharam os olhos para a escandalosa obra (virtual) do posto fiscal de Mimoso do Sul. Nem o deputado que havia denunciado o caso, em setembro do ano passado, quis retomar o assunto. Gilsinho Lopes (PR), que tem se mostrado tão atuante, preferiu deixar o caso com o Ministério Público e com a Justiça. Em bom português, preferiu “lavar as mãos”. Por que tanta omissão? Será que os deputados esqueceram quais são as obrigações da Assembleia? Grosso modo, nunca é tarde para lembrá-los que é dever da Assembleia dar posse ao governador e vice-governador, bem como julgar as contas e crimes de responsabilidade do Executivo estadual, solicitar intervenção federal para garantir o cumprimento das constituições (federal e estadual) e votar projetos de leis vindos do Executivo e de deputados. Chama atenção, no caso do Sincades e do posto fiscal, a omissão da Assembleia em exigir ou apurar de forma paralela crimes de responsabilidade que envolvam o Executivo. A famosa Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) parece uma ferramenta em desuso, obsoleta, na concepção desse legislativo, acostumado a resolver tudo a portas fechadas por meio de acordos. Alguém já parou para pensar qual foi a última CPI instalada pela Assembleia? Faz tempo, não? Uma coisa é certa, se não houve CPI, não foi por falta de casos. Isso tem de baciada.
Para Lina, rosa choque era o novo preto
Tudo dela era rosa, de preferência em estado de choque. Toda garota que se preza tem o chamado pretinho básico, ou coringa, um vestido preto que serve para toda e qualquer ocasião. É o vai-com-tudo, que tanto pode ser usado no escritório como na happy-hour pós escritório, tanto vai à missa como à festa. Todas as garotas menos Lina – para quem rosa choque era o novo preto. Tudo dele era preto. Não por uma questão de preferência, apenas para simplificar a vida. Nada de cores que precisam demorados cálculos para se encaixarem nos lugares certos. Com ele, nada de pés de meia solteiros, calça que não combina com a camisa, gravatas que não vão bem com esse ou aquele terno, ou não são apropriadas para certos momentos. Tanto faz olhar de cima para baixo, ou de baixo para cima, do sapato ao cabelo, tudo em Lino era preto. Quando se casaram os amigos riram, Preto combina bem com rosa chocante. Não combinou. Seus excessos de rosa agridem a vista, ele alega. Seus excessos de preto tornam a casa – e a vida – lúgubre, ela reclama. Mas iam se aturando, até o dia em que ela cismou de pintar a casa toda de rosa. Quer dizer, a decoração já era toda em rosa, mas depois da reforma ela decidiu que as paredes também deviam se vestir de sua cor favorita. Foi demais. Lino aguentava com paciência o mundo cor de rosa de Lina – todas as roupas, pessoais como de cama, mesa, e banho, os azulejos de cozinha e banheiros, as cortinas, tapetes, poltronas, os assentos das cadeiras, os pratos, copos, talheres… o que mais aguentasse uma cor, era rosa. Até o carro dela era rosa berrante com assentos rosa bebê. Preto, nessa vida a dois, só era permitido nas roupas dele. O que, convenhamos, era muito pouco. Ou eu ou seu mundo de princesa da Disney, ele grita. Jamais abrirei mão de minha cor favorita, ela rebate. Tem c asais se separando por menos ainda, bem sabemos. Para não virar exceção, Lino e Lina se separam, e cada um segue seu rumo. Com certeza as coisas já não iam bem, disseram os amigos, já todos separados e entendidos do assunto. Até que durou muito, disseram os inimigos. Mas Lina aprendeu a lição, como sempre pelo método mais difícil – sofrendo. No relacionamento seguinte reduziu a extravagância de rosa a seus objetos de uso pessoal, apenas. Mesmo porque, o novo amor a chamava de Loura Legal, filme que ela detestou, apesar da explosão de rosa choque. Além do mais, seu amor ao rosa estava virando piada, tanto entre amigos como no trabalho. Lino continua sozinho, pelo menos até o momento em que você lê essa coluna. Depois, não garanto. Mas a solidão lhe ensinou, também pelo método mais doloroso, que a vida era melhor com Lina, apesar de sua aquarela cor de rosa. E como na partilha dos bens do casal ele ficou com a casa, achou um jeito de mostrar a ela seu arrependimento: pintou todo o exterior de rosa gritante, ton sur ton com portas e janelas em rosa bebê.
Nova chance
A denúncia sobre o posto fiscal virtual passou pela Assembleia Legislativa e o deputado estadual Gilsinho Lopes (PR/foto) perdeu o bonde. Embora tenha puxado o assunto lá atrás, como a coluna já fez questão de lembrar, não apareceu na hora que deveria, e quem acabou sentando na janelinha foi Euclério Sampaio (PDT). Aliás, dos 30 deputados, o único a levantar a questão na Casa. Agora, mais uma vez, estamos diante de outro caso em que Gilsinho foi protagonista, a nebulosa parceria do governo do Estado com o Instituto Sincades. Também lá atrás, o deputado fez um duro pronunciamento cobrando explicações sobre esta relação mais do que questionável, pontuando que a Assembleia não havia aprovado qualquer lei autorizando que parte do dinheiro dos impostos na área atacadista fosse destinada a uma entidade privada. Pois bem, Século Diário publicou com exclusividade que a Justiça suspendeu os repasses de dinheiro público ao Instituto Sincades. Na ação, tem o discurso do deputado de “cabo a rabo”. É mais um pepino em que o ex-governador Paulo Hartung surge como figura-chave. E, novamente, só Euclério fez cobranças. Gilsinho vai “mergulhar” de novo? ‘Os caras’ Esta experiência do Instituto Sincades é muito interessante, para não dizer nada pior. A cultura do Estado simplesmente foi privatizada a um núcleo de comerciantes, que se sentem os donos do setor. A ponto de agirem com toda a arrogância de quem acha que está no pedestal – acha não, tem certeza. Cadê? Por falar nisso, os deputados estaduais sabem mesmo é mexer com “peixe pequeno”. Todo mundo fez e aconteceu na hora de responder às críticas dos vereadores de Vitória sobre a atuação da Assembleia. Mas na hora que precisam assumir posição para defender os interesses da população capixaba, ninguém tem peito. Corporativistas Ah, tem outra coisa que os deputados sabem fazer, sair em defesa de todos os colegas de plenário denunciados, não interessa o motivo. Efeito rabo preso, eu te protejo hoje, você me protege amanhã. A desejar A sociedade civil organizada quer saber: por que algumas comissões da Assembleia trabalham e outras não? As de Justiça e Segurança Pública realizaram todas as reuniões até agora. Já as restantes uma…duas… Inédito A Transparência Capixaba finalmente agiu no andar de cima. Em nota, considerou as declarações do ex-governador Paulo Hartung sobre a inclusão de seu nome na denúncia sobre os gastos de R$ 25 milhões no posto virtual como tentativas de desclassificar a investigação, e saiu em defesa do Ministério Público Estadual. Também cravou: ninguém está imune a apurações de qualquer espécie. Gente, o que deu na Transparência? De boas intenções… Se os prefeitos da Grande Vitória percorreram as ruas alagadas dos municípios e áreas de risco nessa terça-feira (19) para de fato pensarem em medidas para conter os estragos das fortes chuvas no Estado, ok, ponto pra eles. Só para fazer cena à população, não vale. Os prefeitos anteriores também apareciam em dias de caos, fica o lembrete. Midiático Sobre esse assunto, alerta especial para o prefeito de Vila Velha, Rodney Miranda (DEM), que à frente da pasta estadual de Segurança saía às ruas todo paramentado de superdelegado e não fazia absolutamente nada para reduzir a criminalidade. Não custa nada atacar de aquaman com o mesmo propósito: mostrar serviço. Espertinhos… Ainda no município, chega a ser engraçado o anúncio da Câmara de Vereadores de que vai devolver R$ 500 mil ao prefeito Rodney. O demista vai à Casa receber em mãos o cheque. Dizem os vereadores que é para “compensar as perdas de receita”. Em uma Câmara famosa por gastos fúteis e em excesso, quem cairá nessa? Há, há, há. 140 toques “Perdemos hoje [quarta-feira, 20] o cantor Emílio Santiago. Um dos maiores intérpretes da Música Popular Brasileira”. (Deputado estadual Marcelo Santos – PMDB – no Twitter). PENSAMENTO: “Nós fazemos uma política do cinismo ou uma política da esperança?”. Barack Obama
Depois da chuva
Um assessor de Rodney Miranda (DEM) falou brincando, mas acertou na mosca. Agora começou de fato os mandatos dos novos prefeitos. Diante do primeiro desafio imposto pelas chuvas que atingiram o Estado na segunda e terça (18 e 19), eles têm o desconto de dizer que estão chegando agora. Mas é preciso dar uma resposta rápida à população e aos estragos causados pela enchente. Evidentemente a chuva desses dias fugiram da lógica dos últimos anos, e as atuais administrações ainda não completaram 100 dias, o que dá um salvo conduto para os novos prefeitos. Os prefeitos estão na rua, ajudando a população e prometendo mudanças. Mas se em 2014 a situação se repetir, vai se cumprir uma profecia do ex-prefeito de Vila Velha, Neucimar Fraga (PR) de que a cidade sempre se volta contra seu prefeito. Rodney não pode ser culpado pela chuva desses dias, mas talvez seja interessante atentar para o fato destacado na manhã desta quarta-feira (20) pelo deputado Claudio Vereza (PT), morador da Barra do Jucu. O município está abaixo da linha do mar e não há solução fácil para acabar com os alagamentos em Vila Velha. Mas o fato de o município só ter uma estação de bombeamento contribui para o caos. Em Vitória, apesar de a água descer mais rápido e um dos pontos críticos, Jardim Camburi, ter melhorado um pouco a situação, o prefeito Luciano Rezende (PPS) também terá de dar resposta sobre os problemas da Capital, sobretudo, em relação às áreas de encostas. O prefeito de Cariacica, Geraldo Luzia (PPS) foi outro que também passou o dia com capa de chuva prestando solidariedade aos moradores. Mas deixar o prefeito do município vizinho, Vila Velha, falar que vai pedir ajuda para o seu município, pegou mal. Dos novos prefeitos da Grande Vitória, a situação menos grave em relação à chuva, por conta do favorecimento geográfico, é a do prefeito da Serra, Audifax Barcelos (PSB), mas por lá também houve estragos. A solução ou amenização para esse problema deveria fazer parte de uma agenda metropolitana, mas ninguém quer arcar com os problemas dos vizinhos e aí, todo ano é a mesma história. Ou os prefeitos começam a pensar conjuntamente a questão dos impactos das chuvas e de outras questões comuns aos municípios ou o cidadão vai continuar à mercê das intempéries. Fragmentos 1 – A turma do deixa disso já entrou em campo na Assembleia Legislativa para evitar que uma CPI sobre incentivos fiscais concedidos ao setor atacadista, o Sindicades. 2 – O deputado estadual Paulo Roberto (PMDB) vem tentando mostrar serviço na Assembleia e vem se movimentando bastante no Plenário. Enquanto isso, o processo no Tribunal Regional Eleitoral (TRE) que questiona seu mandato segue a tramitação. Agora, está nas mãos da relatora. 3 – A coisa anda tão estranha na Assembleia que em vez de o deputado receber o vereador na Assembleia é o vereador que recebe o deputado na Câmara.