Amalfitano, professor universitário de literatura latino-americana que tem uma presença marcante no romance 2666, é o protagonista de As Agruras do Verdadeiro Tira, obra póstuma do autor chileno Roberto Bolaño. Aos cinquenta anos, ele se envolve com um aluno, o talentoso poeta marginal Padilla, e descobre-se homossexual. A relação acaba se tornando um escândalo na universidade de Barcelona onde leciona, e o professor é forçado a se transferir para a única faculdade que o aceita, na violenta cidade de Santa Teresa, no México. Nesse novo ambiente, por vezes estranho e sinistro, Amalfitano passa a refletir sobre sua homossexualidade tardia, enquanto se relaciona com outro homem, o falsificador de arte Castillo. Roberto Bolaño é conhecido por situar suas tramas dentro de um mesmo universo, onde o personagem de um conto ou poema pode aparecer em outro romance, construindo uma complexa rede de relações. A obra é exemplar neste sentido: expõe “o outro lado” de várias cenas conhecidas pelo leitor de Bolaño. Não se trata, todavia, de um livro apenas para especialistas; o romance representa um passeio pelos vários estilos e temáticas explorados pelo escritor chileno, alternando entre um registro cerebral, herdado de Borges, e uma sensibilidade poética despudorada. Apesar de se tratar de uma obra póstuma incompleta, o romance tem uma estrutura sólida e é um dos livros mais intrigantes do autor, com reflexões sublimes acerca da América Latina e da ambiguidade moral que muitas vezes envolve a literatura. As Agruras do Verdadeiro Tira foi reconstruído após a morte de Bolaño em 2003, a partir de arquivos deixados em seu computador e páginas datilografadas. Serviço As Agruras do Verdadeiro Tira Roberto Bolaño Companhia das Letras 320 págs R$ 44,50 em média
PDT também vai reivindicar espaço no palanque de Casagrande
No início da semana, o ex-prefeito da Serra, Sérgio Vidigal (PDT) anunciou que ao aceitar o cargo especial no Ministério do Trabalho vai deixar em maio a presidência do PDT no Estado. As leituras do mercado político sobre o fato começaram a se multiplicar e para os interlocutores seu sucessor no partido não deve ter um perfil muito distante do que Vidigal tinha para comandar a sigla. Para alguns aliados, a saída do presidente do partido pode ser estratégica para que o PDT possa cobrar uma participação de maior destaque no palanque e no segundo mandato do governador Renato Casagrande. O partido vem embalado pela reaproximação da presidente Dilma Rousseff com a nacional, tentando evitar a candidatura do senador Cristovam Buarque (DF) a presidente no próximo ano. A aproximação da nacional e a ida de Vidigal para o governo federal reforçam a sigla no Estado e a credenciam a exigir um espaço maior no governo Casagrande. O PDT foi um dos principais partidos no palanque de Casagrande em 2010, mas se sentiu preterido na divisão dos espaços no governo, depois da eleição. O partido, porém, tem numericamente uma vantagem para negociar com o palanque palaciano. Com três deputados federais e quatro estaduais, o PDT tem tamanho, embora suas lideranças não tenham unidade de discurso, o que facilitaria a cobrança. A única liderança em condições de se sentar à mesa de negociação com um discurso em nome do PDT continua sendo Vidigal. Mas o partido precisava resolver um problema. Vidigal saiu magoado com o governo do Estado após a eleição de outubro passado, quando perdeu a prefeitura da Serra, menina dos olhos da gestão pedetista, para o ex-companheiro de partido e agora socialista Audifax Barcelos. O PSB, aliás, apostou todas as fichas na eleição de Audifax e agora a Serra é o município mais importante para o crescimento do PSB no Estado. Esse episódio estaria dificultando o diálogo entre o presidente do PDT e o governo do Estado, por isso a saída de Vidigal da presidência do partido é estratégica. Fora do comando, ele deve ter influência total na escolha do substituto, que sentará à mesa com o governador para discutir o processo eleitoral em nome do PDT, mas representando os interesses de Vidigal. PR também pressiona Além do PDT, outro partido que também saiu descontente com a divisão do bolo de 2010 foi o PR. O partido conseguiu apenas a Secretaria de Esportes, o que fortaleceu Vandinho Leite para a disputa de deputado federal no próximo ano, mas o partido acha pouco. Depois do Carnaval, o senador Magno Malta, presidente do partido, deve começar a circular o Estado para testar seu potencial eleitoral. A possibilidade de Malta vir a disputar o governo do Estado pode fazer com que o governador Renato Casagrande dê mais atenção ao partido nas negociações do processo eleitoral de 2014. Os comentários são de que o PR pleiteia a vice na chapa de Renato Casagrande, mas dificilmente o governador vai abrir mão da aliança central com PT e PMDB.
‘Estou disposto a tudo para consolidar esse movimento legítimo e necessário’
Manaira Medeiros e Kauê Scarim Fotos: Gustavo Louzada/Agência Porã “Se não buscarmos o impossível, acabamos por não realizar o possível”. Leonardo Boff Presidente da Comissão de Meio Ambiente da Câmara de Vitória e propositor do Grupo de Trabalho Interinstitucional (GTI) Respira Vitória, que debate novos padrões para as emissões de poluentes na Capital, o vereador Serjão Magalhães (PSB) assumiu uma bandeira que nunca foi prioridade para a classe política do Espírito Santo: o meio ambiente. E embora saiba que transita agora em um terreno arenoso, está confiante nos resultados que poderão sair de suas ações, que têm como objetivo conter a poluição do ar causada principalmente pelas transnacionais Vale e ArcelorMittal. Tomando como base um movimento semelhante registrado em São Paulo, onde uma nova lei foi aplicada nesse sentido, Serjão tem realizado constantes debates com os setores envolvidos na questão e acredita que essa interação é essencial para se chegar aos resultados esperados. O vereador em segundo mandato tem convicção de que para isso conta com o apoio do governador Renato Casagrande, também do PSB, e do prefeito de Vitória, Luciano Rezende (PPS). Considerando os impactos ambientais e à saúde que a poluição do ar causa aos moradores de Vitória, Serjão defende que não há mais espaço para protelação e omissão. Ele garante que fará uma lei com padrões mais restritivos para as emissões, mesmo que tenha que enfrentar “gigantes” ou recorrer a instâncias superiores. “Ninguém suporta mais”. Século Diário: Vereador, estamos há 13 anos procurando alguém da classe política para falar sobre meio ambiente. E para nós, que tratamos dessa área há tempos, é bom saber que o senhor está mexendo com essa questão. Mas não te apavora? Porque a classe política sempre fugiu de qualquer situação que possa prejudicar as transnacionais, principalmente a Vale, que polui Vitória de diversas formas, tanto na atmosfera quanto com pó de minério, que também é tóxico. Como é essa sua conduta, estando sozinho? Está sozinho mesmo? Serjão: Vejam bem, primeiro que eu não quero ter a pretensão de ser o salvador da pátria. Porém, tenho me cercado de situações, pessoas – de jurisprudências, digamos assim – para poder conduzir, com o êxito que esperamos, este problema. Então, quais foram os passos preliminares? Em junho do ano passado, exatamente no dia 12, Dia dos Namorados, realizamos o seminário Respira Vitória. Antes de tudo eu fui a São Paulo, estive lá com Bruno Covas, neto do Mário Covas e secretário de Meio Ambiente do Estado de São Paulo, porque houve esse movimento por lá. Reuniram os vários setores, fizeram a discussão ampliada, em cima de uma convergência de fatores e discussões, para chegar à elaboração de uma lei. Porque todo mundo quer [as emissões] no padrão OMS [Organização Mundial da Saúde]. O padrão vigente hoje é de 1990 do Conama [Conselho Nacional do Meio Ambiente], que é totalmente desatualizado. Em 1990, nós tínhamos 10% das pesquisas que temos hoje. Então hoje nós temos muito mais subsídios para fazer uma coisa amparada dentro da técnica moderna, de estudos científicos na área de saúde, principalmente que nos respaldam a caminhar com mais propriedade para onde a gente quer, que é fazer uma lei mais restritiva, no sentido de que as emissões sejam menores do que as atuais permitidas. Hoje todo esse pó que está por aí em Vitória é legal, está legalizado, dentro do padrão de 1990. O que nós queremos? Fazer padrões mais restritivos. – Mas sobre este ponto tem uma outra questão: quem faz as medições na Capital são as próprias poluidoras… – Hoje quem faz a medição é o Iema [Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos] e isso é feito online, você pode ter acesso na internet. As estações é que foram montadas como contrapartida ambiental de projetos das empresas. Mas elas são monitoradas pelo Iema. Nós queremos, enquanto Prefeitura de Vitória, ter as nossas próprias estações, além das do Iema. Ou até fazer um monitoramento conjunto. Mas, sobre as fontes, nós podemos dizer que são confiáveis, tanto que nós temos hoje demonstrações de que elas precisam de revisão. Todos demonstram isso. E não é só fonte industrial, não. Também há as de trânsito, construção… Mas o que mais incomoda, hoje, é o pó em suspensão, que são as partículas maiores, que são as visíveis e que, inevitavelmente, nós sofremos com isso. E isso causa danos, sim, à saúde, além do incômodo, da sujeira e do mal-estar. A última reunião do GTI [Grupo de Trabalho Interinstitucional] Respira Vitória, na última terça-feira [5], foi só sobre isso, mostrando com estudos científicos que essa poluição vem causando um aumento de doenças respiratórias, afetando diretamente os brônquios dos pulmões, por exemplo. Isso já é público e notório, é inquestionável. O que nós precisamos é: como fazer e que índices vamos colocar? Nós temos o padrão OMS, que é muito mais restritivo do que o Conama. A gente poderia, de fato, adotá-lo, mas criaria uma celeuma muito grande. Por isso, nós criamos esse GTI, que começou em agosto e tem prazo para terminar – pelo nosso cronograma, ele termina no dia 2 de agosto deste ano – e que congrega vários grupos, como Ministério Público, Prefeitura, Governo do Estado, Secretarias de Saúde estadual e municipal, Procuradoria da Prefeitura, Câmara de Vereadores, sociedade civil, associações de moradores, Federação das Indústrias, Federação dos Transportes, ou seja, praticamente todos os atores envolvidos na questão da poluição atmosférica estão ali representados. Nós queremos chegar em um “acordão” para colocar esses novos índices, obviamente, como foi em São Paulo, dando prazo de adaptação para as empresas, para não haver um baque econômico na cidade. Não se pode fazer algo que faça com que as empresas fechem as portas por inviabilidade de operação. Nós temos que exigir e dar um prazo mínimo de adaptação para sonharmos com ares mais limpos em Vitória, que é o nosso objetivo. – É que, além disso, nessa questão das estações de monitoramento,
Prefeita de Presidente Kennedy ganha carta branca para mexer no orçamento
Mesmo alegando pouca experiência administrativa, a nova prefeita de Presidente Kennedy (litoral sul do Estado), Amanda Quinta Rangel (PTB), vem demonstrando bastante habilidade em seus primeiros atos. A sobrinha do ex-prefeito cassado do município, Reginaldo Quinta (PTB) – apontado como seu principal conselheiro político –, emplacou seu primeiro projeto de lei, garantindo a liberdade para alterar o destino, por decreto, de até 70% do atual orçamento e de 100% em receitas adicionais e superávit de exercícios anteriores. O Projeto de Lei nº 001/2013 foi encaminhado para votação na sessão do último dia 7, antes do carnaval. A aprovação da matéria foi a segunda vitória da nova prefeita, que enfrenta uma ação de investigação na Justiça Eleitoral, entre os novos vereadores. Além da eleição da Mesa Diretora, a flexibilização do orçamento pode ser apontado como a cereja do bolo de Amanda, que ocupa um cargo de expressão pela primeira vez. A ex-secretária de Cultura na gestão do tio acabou sendo alçada ao cargo, justamente por não figurar entre os principais agentes políticos envolvidos em casos de corrupção no município. Amanda foi escolhida às vésperas para substituir o ex-prefeito, que havia deixado a prisão há poucos dias antes do início do processo eleitoral, sob acusação de chefiar a quadrilha que atuava no município, revelada na Operação Lee Oswald. Apesar da pouca experiência, os meios políticos apontam que a nova prefeita está sendo assessorada de perto pelo tio. Essa desconfiança se torna mais clara nas primeiras movimentações da petebista. A apresentação de projetos semelhantes não chega a ser novidade em novas administrações, já que o texto do orçamento havia sido enviado pelo antecessor, o ex-interventor estadual em Kennedy, o promotor aposentado Lourival Lima do Nascimento. Entretanto, as semelhanças entre as prefeituras param por aí. Enquanto normalmente as margens de “flexibilidade” para alterações giram entre 30% e até 50% do orçamento – em raríssimos casos -, a nova prefeita de Presidente Kennedy emplacou o limite de até 70% de mudanças no orçamento sem passar pelo crivo do Legislativo, onde detém uma maioria tranquila, e até 100% no caso de recursos do chamado Excesso de Arrecadação e do superávit orçamentário de 2012. Chama a atenção que os recursos, sobretudo do superávit, devem abrir um vasto campo para gastos. A tônica da gestão interina foi a austeridade financeira, deixando uma vultuosa poupança nos cofres da prefeitura. Essa margem de alteração joga luzes sobre a atuação de Amanda, uma vez que o orçamento anterior havia passado pelo crivo do ex-interventor, nome de confiança do Ministério Público Estadual (MPES) e do governador Renato Casagrande. Resta a dúvida se a sucessora de Reginaldo Quinta vai seguir os desejos do tio. Em entrevistas à imprensa – e até mesmo a este Século Diário – o ex-prefeito cassado deixava clara a intenção de zerar os cofres da prefeitura com obras. Somente no ano passado, o Tribunal de Contas do Estado (TCE) impediu gastos na ordem de R$ 300 milhões no município. No entanto, o bastão está agora nas mãos de Amanda.
Ex-chefe de missão especial assume defesa de Guerino Zanon em Brasília
Um dos ex-prefeitos investigados que seguem presos após a Operação Derrama, o ex-chefe da prefeitura de Linhares e ex-presidente da Assembleia Legislativa Guerino Zanon (PMDB), recorreu a um velho conhecido para se defender das acusações: o ex-sub-procurador da República e hoje advogado, José Roberto de Figueiredo Santoro. O ex-chefe de missão especial no Estado retorna à cena atuando na defesa de figuras ligadas ao ex-governador Paulo Hartung (PMDB). O escritório de José Roberto Santoro assina o pedido de habeas corpus a favor de Guerino no Supremo Tribunal Federal (STF). O nome do ex-procurador consta, inclusive, como o impetrante do pedido de liberdade. Estranhamento, o ex-prefeito mudou de advogado no curso dos recursos em Brasília. Antes, o pedido de liberdade feito ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) era assinado pelo advogado Mozart Victor Russomano Neto, também registrado no Distrito Federal. Esse é o primeiro caso “oficial” de renome que a banca de Santoro assume em favor de políticos capixabas. Antes disso, a atuação dele teria ocorrido nos bastidores, como revelou o jornalista Amaury Ribeiro Jr., autor do livro Privataria Tucana em entrevista ao blog VioMundo, do jornalista Luiz Carlos Azenha. O jornalista revelou que foi procurado pelo ex-sub-procurador-geral após a publicação de notas sobre o envolvimento de Hartung nas denúncias sobre a compra de terrenos da Ferrous Resources, em Presidente Kennedy (litoral sul do Estado). Amaury publicou notas em uma coluna que assina no jornal mineiro Hoje em Dia. Amaury relatou que José Roberto Santoro – que teria ligações com o ex-governador paulista José Serra (PSDB) – procurou a direção do jornal O Tempo para intermediar um encontro com a direção do Hoje em Dia, no qual o jornalista assina uma coluna semanal. O objetivo do encontro seria uma reclamação sobre a nota publicada sobre os desdobramentos da Operação Lee Oswald, que remontam ao envolvimento de parceiros do ex-governador com a mineradora Ferrous Resources, sediada em Minas Gerais. Nas colunas, Amaury denuncia a participação do que chamou de “grupo de Hartung” nas transações milionárias em Presidente Kennedy, publicadas com exclusividade por este Século Diário. No texto, o jornalista acusou o Ministério Público capixaba de ser leniente ao livrar o ex-governador e o ex-secretário da Fazenda José Teófilo, sócios no escritório de negócios Éconos, da denúncia formalizada ao Tribunal de Justiça do Estado (TJES). A relação entre Santoro e Hartung remonta a um período turbulento na política capixaba, quando o Estado ficou próximo de ser alvo de uma intervenção federal no ano de 2002. O então subprocurador da República foi nomeado como chefe da missão especial no Estado, deflagrada após a morte do advogado Joaquim Marcelo Denadai – morto em abril daquele ano – e do pedido de impeachment do ex-governador José Ignácio Ferreira, que viria a ser sucedido por Hartung. Desta história teriam permanecido laços de amizade entre Santoro e o ex-governador. Fontes dos meios jurídicos avaliam a possibilidade do ex-procurador se basear no Estado para disputar os grandes litígios no Judiciário estadual. Essa possibilidade ganha força com a aproximação com Hartung e a “entrada” na causa de Guerino Zanon. De acordo com estatísticas do TJES, o nome do advogado não consta em nenhum processo que tramita na 1ª ou 2ª instância do Judiciário capixaba. Diferentemente dos registros em nome da advogada Raquel Botelho Santoro, que assina o habeas corpus a favor do ex-prefeito de Linhares. Ela aparece relacionada a sete processos na 1ª instância e outros cinco nas câmaras do Tribunal. Entre os clientes da advogada está o ex-prefeito de Vitória Luiz Paulo Vellozo Lucas (PSDB), outro aliado do ex-governador.
Sindicato da Orla Portuária do Estado entra na briga para derrubar MP 595
O Sindicato Unificado da Orla Portuária do Espírito Santo (Suport-ES) vai debater a Medida Provisória 595 no Rio de Janeiro, na próxima terça-feira (19), durante o seminário “Medida Provisória 595/2012 – Desafios, Questionamentos e o Futuro dos Portos Organizados no Século XXI”. A entidade afirma que as mudanças previstas pela MP, que propõe a reestruturação do setor, ameaçam o mercado de trabalho. Segundo o Suport-ES, este é um ponto em que todos concordam sobre a nova medida, porque ela desregulamentaria direitos já conquistados pelos trabalhadores. Para o sindicato, a MP é inconstitucional, visto que prevê o retrocesso. “Além disso, os argumentos para que a MP fosse proposta também não são plausíveis, uma vez que não há urgência em vários pontos”, explicou o advogado do sindicato, André Moreira. Moreira informou que a MP sequer vem acompanhada do caráter de urgência, condição prioritária para a apresentação de uma Medida Provisória. Apesar de relevante, o advogado ressalta que o assunto não é urgente, pois foram republicadas várias normas que já existiam. Além disso, a MP não passou pelo processo legislativo normal. “Isso nada mais é do que um interesse político de donos de instalações portuárias”, pontou. A insatisfação da categoria pode gerar uma ameaça de greve nacional para pressionar a derrubada da MP. Moreira ressaltou que nem mesmo os assuntos previdenciários foram considerados pela nova medida. “Foram menosprezados no artigo 17 da MP 595. Fere o artigo 10 da Constituição, que diz que ‘é assegurada a participação dos trabalhadores e empregadores nos colegiados dos órgãos públicos em que seus interesses profissionais ou previdenciários sejam objeto de discussão e deliberação”, explicou ele. A MP traz ainda para o regime do trabalho portuário a Lei 12.353/10, que é inconstitucional, por excluir o trabalhador justamente da deliberação das questões de seu interesse, o que afronta a Constituição, dizem os portuários. Em São Paulo a mobilização para a derrubada da MP começa nesta segunda-feira (18), com panfletagem no Porto de Santos e reunião como prefeito Paulo Alexandre Barbosa.
Maquiando dados
Na gestão do ex-secretário de Segurança Pública Rodney Miranda era comum o governo manipular dados para amenizar os números da criminalidade que continuavam em franca ascensão. O atual secretário Henrique Herkenhoff parece ter gostado da fórmula do antecessor e também decidiu recorrer à maquiagem dos dados. Nessa quarta-feira (14), a Sesp publicou o balanço dos crimes no carnaval 2013. A chamada da notícia alertava: “Cai em 56% número de homicídios durante o Carnaval no ES”. Sem dúvida, uma boa notícia para todos nós que convivemos com taxas de homicídios de guerra civil há mais de uma década. Entretanto, o confuso texto “escondia” um dado surpreendente. A Sesp, na verdade, tentou induzir o leitor ao erro ao anunciar que houve uma redução de 56% durante o carnaval. A manipulação da informação fica flagrante quando o texto “esclarece” que está comparando os dados do carnaval 2013 com o mesmo período do ano passado. O intrigante é que o setor de estatística da Sesp não estava comparando os dados dos carnavais 2013 e 2012, e sim o número de homicídios registrados no carnaval deste ano com a data correspondente de 2012. Em outras palavras, a Sesp comparou “alhos com bugalhos”. Não há nenhum sentido em comparar dados de períodos distintos e produzir um texto com enunciado equivocado. Não há outra explicação para justificar a construção da informação, a não ser tratá-la como “mal intencionada”. O texto deixa patente que não há nenhuma preocupação da Sesp em informar qual o percentual no comparativo dos carnavais 2013 e 2012, que na verdade beirou a casa dos 15% – quase quatro vezes menos do que o percentual propalado pela Sesp. Mais constrangedor é ver o secretário Henrique Herkenhoff festejando os resultados como se fosse normal comparar bases distintas de dados. “As Polícias Civil e Militar fizeram um planejamento específico. No período do carnaval, comparado ao ano passado, diminuiu não só o número de homicídios, mas também o número de furtos e roubos”, alardeou Herkenhoff. Na fala de Herkenhoff, publicada no site oficial da Sesp, fica claro que a informação, no mínimo, deixa no ar um sentido dúbio, que pode colar: “No período do carnaval, comparado ao ano passado (…)”. A desenrolar do texto da Sesp põe a informação em contradição. “A Polícia Militar planejou mais de 1.700 escalas extras para aumentar a segurança da população durante o Carnaval, na Região Metropolitana da Grande Vitória. O policiamento durante o feriado contou também com o apoio do Batalhão de Missões Especiais (BME), Ronda Ostensiva Tática Motorizada (Rotam) e Regimento de Polícia Montada (RPMont)”, informa o texto. Ora, não há dúvida de que houve uma operação especial da polícia para coibir a criminalidade nos dias de carnaval. A contradição está justamente no fato de que no período comparado – 09 a 12 de fevereiro do ano passado -, como não era carnaval, não houve nenhum esquema especial como o montado este ano. Esse dado por si só desconstrói a tentativa descabida de comparar bases de dados diferentes, pois as condições eram completamente distintas. Mas honesto seria a Sesp informar que houve uma redução de 15% no número de homicídios no carnaval deste ano em relação ao carnaval do ano passado. A redução é bem menor que os 56% festejados pelo secretário. Mas seria um dado transparente, limpo, sem a maquiagem grosseira feita para iludir a população.
Cúmplices
Os movimentos sociais se despertam cada vez mais para a questão ambiental, numa demonstração clara da necessidade de suprir a negligência das estruturas criadas em favor das poluidoras no Estado. O grupo SOS Espírito Santo Ambiental deu um passo importante, partindo para cima da Comissão de Meio Ambiente da Assembleia Legislativa, que vive em eterno conluio com essas mesmas poluidoras. Cobra providências em relação à omissão do Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Iema). Mas vai topar pela frente com Gildevan Fernandes (foto), o novo presidente da comissão, que é do Partido Verde (PV). O último que passou pela função, Sandro Locutor, também era. É exatamente ai que se resume a atuação do PV no Estado. Criado com a bandeira ambiental, nunca assumiu a causa. Tornou-se apenas um nome atraente para conquistar funções como esta e cargos de confiança em secretarias da área. Locutor não fez absolutamente nada na comissão, nem Gildevan vai fazer. Mas se as entidades conseguirem derrubar os tapumes que encobrem os políticos a serviço da poluição, já será um avanço e tanto. Cúmplices II Locutor, para quem não se lembra, só jogou para plateia à frente da comissão. Chegou colocando banca, jurando que iria tocar em todos os assuntos ambientais espinhosos do Estado, mas logo virou a casaca e acabou como a maioria: promovendo visitas de cortesias às empresas e com dinheiro delas no cofre. Cúmplices III A propósito, a secretária de Meio Ambiente, Patrícia Salomão, já tem bastante tempo que está no cargo e ainda é uma total incógnita. Não aparece, não assume posição e muito menos mostra serviço. Limite Esse cenário desenhado no Estado e o movimento de criação de um novo partido capitaneado pela ex-senadora Marina Silva, que impõe restrições às doações de campanha por poluidoras de determinadas áreas, levantam a questão: qual político do Estado vai abrir mão do “garante” das eleições? Por aqui, ninguém está interessado em mexer com Vale, Arcelor, Aracruz, Samarco… Um ou outro A entrevista dos petistas Iriny Lopes, João Coser e Perly Cipriano à Rádio CBN, nesta sexta-feira (15), reforça o assunto que tratou esta coluna dias atrás, do desafio que terá o governador Renato Casagrande de decidir se o PT ficará com a candidatura a vice ou ao Senado em 2014. Coser, todo mundo sabe, quer virar senador. Mas já há quem diga que o governador está mais para manter a vice ao partido. A pressão rola solta. Andou Por falar em Casagrande, ele finalmente baixou o decreto que cria uma comissão para articular a implementação do Plano e Programa de Educação em Direitos Humanos no Estado. É uma cobrança antiga dos movimentos sociais, que estão de olho vivo no comportamento do governo estadual. Andou II Entre os representantes da tal comissão está Sérgio Gianordoli, aquele maçom que disputou vaga na Assembleia Legislativa em 2010 e acabou com um “carguinho” na Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Seama). Até hoje, aliás, não se sabe o que ele tem a ver com a área. Gianordoli representa exatamente a Seama no grupo. No encalço O vereador Reinaldo Bolão (PT) não é o mesmo. Depois de “descer” da presidência da Câmara de Vitória, assumiu postura firme em relação à prefeitura. Primeiro a polêmica dos estacionamentos rotativos, agora ele cobra “uma solução rápida” para a iluminação pública da Capital. Informações foram solicitadas sobre contratos, etc e etc. Cargo José Célio Vailant Capila, que foi vice-prefeito de Helder Salomão (PT) em Cariacica, é o novo diretor administrativo do Hospital Pedro Fontes. 140 toques “A maior dificuldade que vejo do partido em Rede da Marina será a luta para democratizar as doações de campanha e reeleição ad eternum”. (Ex-vereador de Vila Velha João Batista Babá – PT – no Twitter). PENSAMENTO: “Em política não se escolhe a companhia”. Nils Kjaer
Milonga do gringo doidão
Findo o Carnaval, começa finalmente o novo ano, depois dos dois meses em que a maioria dos brasileiros leva a vida em banho-maria. Das vésperas do Natal até as Cinzas, quem pode viaja, vai para a praia e paga as contas. Quem não pode se sacode e vai em frente do jeito que der. Para alguns é fim de linha: nessa época sempre parte uma grande personalidade. Este ano foi a vez do grande arquiteto Oscar de Brasília. Também nesse período sempre ocorre uma tragédia. Este ano foi o incêndio no boatão Kiss de Santa Maria, que matou em alguns minutos o mesmo tanto que um dos grandes acidentes aéreos da nossa época. No rescaldo do pavoroso acidente, provocado por uma sequência de atos encadeados cujo denominador é a sanha irresponsável pelo ganho de dinheiro fácil, as pessoas fazem comparações descabidas e tiram conclusões equivocadas, sem respaldo histórico. Ao afirmar que o acidente de Santa Maria foi a maior tragédia da história do Rio Grande do Sul, muitos se esquecem das guerras e revoluções de décadas passadas, quando inocentes eram chacinados para agradar coronéis, generais e fazendeiros. Na Guerra dos Farrapos (1835/1845), morreram 10 mil pessoas, ou seja, uma boate Kiss a cada dois meses e meio. Na Revolução Federalista de 1893/95, numa única tarde, ocorreu no oeste gaúcho a degola de 300 prisioneiros, episódio fotografado e registrado em livros. Eram degolados para não dar despesa e trabalho. Ou como queima de arquivo: morto com um talho na garganta para economizar munição, o preso ficava definitivamente impedido de fugir ou de levar informação verbal ao inimigo. Atribui-se a degola tricentária a um sujeito chamado Adão Latorre, que naturalmente desfrutou de amplo apoio na execução do serviço. Para alguns, menos inclinados a emocionar-se com catástrofes, não é descabido lembrar que a conta dos mortos da boate Kiss – 239 pessoas, a maioria jovens estudantes, até o dia 15 de fevereiro – é menor do que o número de vítimas de acidentes de trânsito entre o Natal e o Carnaval no Brasil; inferior ao número de mortos por armas de fogo no mesmo período; e tampouco supera a conta de vítimas da luta armada durante a ditadura militar (1964-1985), um longo período que alguns negam ter existido ou gostariam de apagar da memória. Contando mortos em combates de campo, assaltos a bancos, tiroteios de rua, sequestros, desaparecimentos e torturas em prisões civis e militares, a conta se aproxima do meio milhar. Embora seja difícil chegar a ele, o número definitivo está sendo apurado apela Comissão da Verdade, cujo prazo final termina em maio de 2014. Nomeados pela presidenta Dilma, os membros da CV vêm lendo dossiês, fazendo buscas, tomando depoimentos de agentes policiais e militares, arapongas, alcaguetes e testemunhas de variados episódios, alguns registrados em livros, outros enterrados em valas comuns ou locais ainda desconhecidos. Quem tiver algo a revelar, que o faça sem medo antes que fique tarde. A esta altura dos acontecimentos, seria um crime degolar a verdade. LEMBRETE DE OCASIÃO “Era um verdadeiro açougue de carne humana, pisava-se sobre bustos separados dos corpos.” Giuseppe Garibaldi em suas Memórias, descrevendo o final da batalha de Laguna (SC) em 15 de novembro de 1839, quando as forças do Império destruíram as tropas farroupilhas estabelecidas meses antes no sul catarinense, onde haviam proclamado a fugaz República Juliana
Justiça volta a analisar disputa por vaga na Assembleia Legislativa
Um novo round da disputa pela vaga na Assembleia Legislativa entre o vereador de Colatina, Olmir Castiglioni (PSDB) e o ex-deputado Paulo Roberto Ferreira (PMDB) já tem data marcada. O caso foi incluído na pauta de julgamentos do Pleno do Tribunal de Justiça do Estado (TJES), que se reúne em sessão extraordinária nesta segunda-feira (18). Eles disputam uma cadeira na Casa aberta após o então deputado Rodney Miranda (DEM) se eleger prefeito de Vila Velha. Até o momento, o tucano tem sete votos favoráveis, Paulo Roberto conta com cinco votos. O ex-deputado chegu a ser empossado no início de janeiro pelo presidente da Assembleia, deputado Theodorico Ferraço (DEM). A Justiça já havia concedido mandado de segurança ao vereador Olmir Castiglioni, que era o segundo suplente da chapa, porém, a vaga ficou com o peemdebista – então primeiro suplente. Entretanto, Paulo Roberto saiu do PMN que compunha a coligação, fato que poderia inviabilizar seu retorno por conta da regra de infidelidade partidária. A legislação eleitoral é clara quanto a necessidade de preservação em relação à investidura no cargo. Apesar disso, a interpretação da principal corte do Judiciário estadual continua dividida. No último dia 07, o julgamento foi suspenso por conta do pedido de vista feito pelo desembargador Annibal de Rezende Lima, quando Paulo Roberto havia conseguido cinco votos a seu favor, contra sete de Olmir. Inicialmente, a votação caminhava fácil para o tucano que chegou a abrir 11 votos no placar, inclusive, com o voto da relatora, desembargador Elizabeth Lordes. O desembargador substituto Fernando Estevam Ruy Bravim inaugurou a discordância, dando vazão à tese de que Paulo Roberto não poderia ser “punido sem abertura de um processo [na Justiça Eleitoral]”. O voto de Bravim foi seguido pelos desembargadores Adalto Dias Tristão e Manoel Rabelo, além de Fábio Clem e Ney Batista Coutinho, que haviam seguido anteriormente o voto de Lordes.