Após fechar o ano com 355 denúncias de tortura registradas nas unidades prisionais do Espírito Santo, o Tribunal de Justiça do Estado anunciou que vai investir em uma unidade de ressocialização para presos. O modelo chamado de Apac (Associação de Proteção e Assistência aos Condenados) já existe na cidade de Itaúna, em Minas Gerais, e funciona como personalidade jurídica própria, dedicada à recuperação e reintegração social dos condenados a penas privativas de liberdade. O modelo segue uma perspectiva mais ampla, baseada em 12 eixos principais, entre eles a valorização humana e a evangelização. Os presos, chamados pelo projeto de “recuperandos” recebem assistência espiritual, médica, psicológica e jurídica prestada pela própria comunidade da região. Em Minas, segundo o Tribunal, o projeto tem altos índices de ressocialização dos internos, baixíssimos índices de fugas e um custo dez vezes menor que o modelo aplicado nos novos presídios construídos no Estado. A cidade de São Mateus, no norte, foi escolhida para ser o primeiro município a receber uma Apac do modelo de Minas Gerais, considerando espaço físico onde se localizam suas duas unidades prisionais – Penitenciária Regional e o Centro de Detenção Provisória, numa fazenda de propriedade do Estado. “Além disso, o mais importante é que em São Mateus já existe a movimentação da sociedade. Como as igrejas, Conselho da Comunidade, maçonaria e outras instituições. O município possui, portanto, um ambiente político propício para a construção da Apac”, explicou o coordenador das Varas de Execuções Penais do Tribunal de Justiça, juiz Marcelo Loureiro. Para implantar o projeto, Marcelo Loureiro se reuniu com lideranças comunitárias e religiosas, além de um grupo de reeducandos e mulheres que cumprem pena na unidade prisional no norte do Estado. A Apac em Minas Gerais opera como entidade auxiliar dos poderes Judiciários e Executivo, respectivamente na execução penal e na administração do cumprimento das penas privativas de liberdade nos regimes fechado, semiaberto e aberto. No site da Apac Itaúna, a informação é que a segurança e disciplina do presídio são feitas com a colaboração dos “recuperandos”, tendo como suporte os funcionários, voluntários e diretores da entidade, sem a presença de policiais e agentes penitenciários. Os presos também frequentam cursos supletivos e profissionais e desenvolvem atividades para evitar a ociosidade. A capacidade média do projeto é para 100 “recuperandos”, dando preferência para o preso permaneça em sua terra natal ou onde reside a sua família.
Ferraço está entre os nove presidentes de Assembleia do País com pendências judiciais
O deputado estadual Theodorico Ferraço (DEM) apareceu na lista da Folha de S. Paulo de presidentes de Assembleia Legislativa com pendências na Justiça. Ele é um dos nove parlamentares que blindados por colegas ou com recursos protelatórios chegaram ao comando de um terço dos Legislativos estaduais, mesmo com a ficha suja. Segundo a Folha, o presidente reeleito da Assembleia capixaba foi alvo de 14 ações civis públicas e de improbidade. Responde a dois processos na Justiça Federal e teve o nome envolvido em um esquema de fraudes. Procurado pela Folha, o deputado não quis comentar as acusações. No levantamento, o jornal encontrou casos de condenações em primeira instância contra presidentes dos legislativos de Alagoas, Espírito Santo e Minas Gerais, além de acusações contra os do Rio, Acre e Piauí. No caso de Ferraço, a condenação em primeira instância não afeta seu mandato caso ele consiga evitar a queda no Judiciário da Emenda 85, que determina a segunda instância como a competente para julgar o caso de ex-prefeitos e deputados estaduais. Há contestações à lei criada no ano passado pela Assembleia no Tribunal de Justiça e no Supremo Tribunal Federal (STF). A projeção nacional da situação delicada de Ferraço pode fragilizá-lo ainda mais à frente do Legislativo. Apesar de reeleito, o demista saiu desgastado do processo e ao contrário da expectativa dos colegas de plenário, não terá condições de dar ao Poder uma musculatura que fortaleça o plenário em 2014, a não ser que o governador Renato Casagrande tenha interesse em fortalecer Ferraço. A sinalização do governo para buscar uma solução para o pagamento do retroativo dos 11.98% dos servidores da Casa pode ser um indício de que ele pretende dar força a Ferraço, mas isso não o recoloca no jogo político de 2014 por enquanto. Nacionalmente, o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral cobra do Supremo uma aceleração no julgamento de ações que envolvam políticos. No Estado, o Tribunal de Justiça pretende seguir à risca a determinação do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), de julgar até dezembro de 2013 todas as ações de improbidade administrativa que tramitam na Corte. Por isso, nos meios políticos, a impressão que se tem é de que uma vez reeleito, dificilmente Ferraço perderia o mandato de deputado estadual. Mas não deve disputar a eleição do próximo ano por causa da ficha suja.
Tema da segurança alimentar não pode ficar descolado de discussão sobre agronegócio
Na sexta-feira (8), em Brasília, começaram os trabalhos do Comitê Nacional de Coordenação do Projeto Conservação e Uso Sustentável da Biodiversidade para a Melhoria da Nutrição e do Bem Estar Humano, conhecido como Biodiversidade para Alimentação e Nutrição (BFN, na sigla em inglês). O objetivo do projeto é principalmente debater a ligação existente entre a alimentação, a nutrição e a biodiversidade, com atividades diversas a serem realizadas em âmbito nacional. Para o grupo, a prioridade é promover “a conservação e a promoção do uso sustentável da biodiversidade”, para que consiga melhorar a segurança alimentar e a nutrição humana. Da coordenação do comitê, fazem parte representante dos ministérios Meio Ambiente, Desenvolvimento Agrário, Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Saúde e Educação. Segundo o Ministério do Meio Ambiente (MMA), serão feitas diversas articulações com outras iniciativas, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), Política Nacional de Alimentação e Nutrição (PNAN), Plano Nacional de Promoção das Cadeias de Produtos da Sociobiodiversidade (PNPSB), além de ação voltada ao Desenvolvimento da Agricultura Orgânica (Pró-Orgânico). Historicamente, porém, os debates sobre a questão do alimento e biodiversidade não colocam o dedo na maior ferida da questão: a concentração de terras, fator que emperra um estímulo real à produção em pequena escala, orgânica e camponesa. Para movimentos sociais e comunidades tradicionais, é óbvia a ligação direta entre a concentração de terras e a segurança alimentar dos moradores. Sem terras – e com as poucas que têm estando completamente ilhadas pelo agronegócio, como é o caso do Espírito Santo –, há enorme dificuldade em se garantir a produção de alimentos. Para os movimentos, como o dos Pequenos Agricultores (MPA), não existe debate real sobre essa questão se não houver a perspectiva do combate ao agronegócio. O MPA é um dos movimentos que travam fortemente o debate sobre temas que confrontam os interesses do agronegócio, como os problemas decorrentes da utilização dos agrotóxicos, a luta pela titularidade dos territórios, a variedade na produção de sementes, entre outras. É o caso, por exemplo, do Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (Planapo), cuja proposta deve ser lançada em março pelo governo federal. O Planapo é um dos instrumentos da Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (PNAPO), instituída pelo Decreto nº 7.794, de 20 de agosto de 2012, e tem o objetivo de “integrar, articular e adequar políticas, programas e ações indutoras da transição agroecológica e da produção orgânica e de base agroecológica, contribuindo para o desenvolvimento sustentável e a qualidade de vida da população, por meio do uso sustentável dos recursos naturais e da oferta e consumo de alimentos saudáveis”, segundo o mesmo decreto. Os movimentos consideram tímida a política apresentada na época em que foi lançado o decreto, que foi estabelecida com um debate interrompido após 18 meses de diálogo entre o governo e diversos setores da sociedade. Questões consideradas fundamentais ficaram de fora, como, por exemplo, o plano de redução de uso de agrotóxico no Brasil com banimento das substâncias já proibidas em diversos países, a definição de áreas contínuas de produção agroecológica, além de apoio à pesquisa e assistência técnica deste modelo. Espírito Santo No Estado, há muita expectativa quanto às políticas de estímulo à produção orgânica – hoje ainda em falta, principalmente considerando o recente aumento do consumo dos produtos em feiras livres. Só na Grande Vitória, o comércio é responsável pela movimentação de 50 toneladas de alimento por semana, segundo dados do governo do Estado. Na Capital, as feiras têm se consolidado como importante centro comercial e, para além da relação apenas mercantil, de troca social. Mas apesar disso, ainda faltam políticas do poder público que estimule a produção orgânica e principalmente o seu crescimento para outras regiões do Estado, já que ela se encontra hoje muito concentrada na serrana. Elias Alves, integrante do Movimento de Pequenos Agricultores (MPA), afirma que, em decorrência da fragilidade das políticas atuais, a produção não cresce na mesma proporção do consumo de alimentos – em especial os orgânicos. Segundo Alves, as políticas que têm origem no poder público ainda são travadas em burocracias que dificultam muito um incentivo real para a área. “Faltam políticas públicas principalmente para a produção e comercialização, tanto no campo quanto na cidade”, posiciona-se. Segundo Alves, um dos principais motivos para a concentração da produção agroecológica e de orgânicos na região serrana do Estado é esse: a região não tem histórico de latifúndios e concentração de terras. O cenário é o inverso, por exemplo, do norte do Espírito Santo, marcado por grandes áreas ocupadas unicamente com monoculturas, em especial de eucalipto, da Aracruz Celulose (Fibria).
Cachoeiro tem quatro deputados estaduais, mas discurso não é de união
Com o retorno do deputado Rodrigo Coelho ( PT) à Assembleia Legislativa, o município de Cachoeiro de Itapemirim passa a ter quatro parlamentares, incluindo o presidente da Casa, Theodorico Ferraço (DEM). Quanto ao interesse político, porém, os ruídos da bancada cachoeirense são muitos. Entre Glauber e Rodrigo, as semelhanças se restringem ao sobrenome Coelho. O primeiro foi o candidato da oposição, pelo PR, ao prefeito Carlos Casteglione (PT), mas as diferenças políticas entre os dois são bem anteriores ao processo eleitoral do ano passado. Glauber foi secretário municipal nas gestões anteriores à do PT, assumiu a pasta de Saúde na gestão de Roberto Valadão (PMDB) e esteve à frente das pastas de Agricultura, Meio Ambiente e Adolescente e Juventude no governo de Theodorico Ferraço. Já Rodrigo Coelho é apontado como o primeiro na linha de sucessão do prefeito Carlos Casteglione. Seu retorno à Assembleia estaria ligado não só às costuras de fortalecimento do nome do prefeito de Cariacica Helder Salomão, que assumiu a Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos, para criar musculatura para a disputa à Câmara Federal. Teria também o objetivo de dar projeção ao ex-deputado do sul do Estado para garantir sua reeleição em 2014. Em Cachoeiro, foi uma das peças mais importantes da campanha e do início da gestão petista, assumindo a Secretaria de governo. Na Assembleia, seu retorno após a eleição para a Mesa Diretora estaria ligada à impossibilidade política de avalizar a recondução de seu principal adversário político em Cachoeiro à presidência da Assembleia. Para a próxima disputa municipal, os nomes de Rodrigo e Glauber podem representar uma nova versão da disputa de poder no município. Caso a Lei da Ficha limpa tire Ferraço da eleição. Glauber, se conseguir se refazer da derrota do ano passado, pode novamente representar o grupo na disputa. Já o prefeito Casteglione, que está em seu segundo mandato, pode passar a Rodrigo o bastão para a disputa, caso chegue ao final de seus segundo mandato com prestígio político para fortalecer o aliado. O quarto integrante da bancada cachoeirense tem menos influência na disputa local. Marcos Mansur (PSDB), que chegou a insistir em uma CPI contra Rodrigo Coelho, quando era vereador no município. No fim das contas, embora Cachoeiro tenha agora quatro deputados, politicamente a bancada será uma disputa de três contra um.
PT no divã
A partir de julho, as lideranças do PT deflagram o Processo de Eleição Direção (PED), que escolherá seu novo presidente regional no Estado. Esta será uma oportunidade de o partido fazer uma avaliação interna sobre como a forma que tem atuado no Espírito Santo fortaleceu algumas de suas lideranças, mas enfraqueceu o partido como todo. Como sempre acontece um ano antes da eleição estadual, o PED acaba sempre incluindo no rol de discussões o processo eleitoral do ano seguinte. Este ano não será diferente, e com um elemento a mais. Caso Eduardo Campos (PSB- PE) resolva mesmo lançar candidatura à presidência da República, a nacional do PT pode recomendar uma restrição ao palanque socialista no Estado, onde está o parceiro tradicional do PT, Renato Casagrande. A tendência é que o prefeito de Vitória, João Coser, vença o pleito interno do PT. Ele fez uma filiação em massa no partido para justamente conquistar um número de eleitores que lhe garanta a hegemonia na disputa. Uma vez à frente do partido no Estado, terá plenas condições de construir sua candidatura ao Senado. Resta saber para onde vai levar essa candidatura, caso o PSB saia do palanque de Dilma Rousseff. É claro que as realidades locais são observadas durante as disputas, mas o PT costuma ser rigoroso nessas questões quando se trata de eleição presidencial. Ainda mais quando no Estado, onde o partido não tem tido grande sucesso em seus pleitos presidenciais. Sem falar que para a disputa à reeleição, Dilma Rousseff pode ter que enfrentar Marina Silva em seu novo partido, de quem perdeu na capital capixaba em 2010 no primeiro turno, e que nacionalmente já teria ameaçadores 32% de intenção de votos. O PT não se saiu bem da eleição 2012 e suas costuras personalistas enfraqueceram o partido. As lideranças mais ligadas à origem do partido estão em situação financeira complicada e a tendência é que o campo majoritário no Estado se afaste cada vez mais de seus ideais de origem em busca de espaço político para seus caciques. Cada vez mais o PT vem se tornando um partido como outros, o que vem decepcionando e afastando seus membros históricos. Enquanto o partido nacionalmente se fortalece, no Espírito Santo ele padece.
Reportagem EspecialLar, doce lar
Texto: Henrique Alves Foto: Gustavo Louzada/Agência Porã “Não atrapalha a porra do samba, não”. Os seis músicos da roda e a plateia em torno se entregavam ao refrão de Além de Tudo, sucesso setentista de Benito Di Paula, e o atendente do Bar do Ney querendo saber se alguém ali queria mais cerveja. O cavaquinista reagiu impulsivamente. O atendente cedeu. A roda então abriu o peito e se libertou: Eu vou ficar aqui até madrugada voltar e trazer você pra mim Há um ano ninguém atrapalha a p… do samba que acontece no final da feira livre da Rua Sete de Setembro, no Centro de Vitória, logo após a barraca de pastel e caldo de cana. Como a feira, o Samba da Xepa marca ponto todos os sábados, mas só a partir das 10h, nas imediações do Bar do Ney. Ele nasceu como evento-protesto contra a prefeitura, acusada de tratar com descaso os artistas do Centro. “É de graça. Costumo dizer que o ingresso são os aplausos do público”, diz Beto Capoeira, um dos organizadores. E assim foi no dia 2 de fevereiro, primeiro sábado do mês. Ao discriminado Benito Di Paula e seu samba-joia seguiu-se a tradição de Nelson Sargento e seu clássico Agoniza Mas Não Morre. Na calçada, os músicos se reuniam em volta de uma mesa sob o Edíficio Gaivota; outras duas dezenas de mesas se espalhavam pelas calçadas. Um rapaz filmava o samba com um Iphone. No dia seguinte, um rio de alegria nasceu no Bar da Zilda, correu pela Rua Sete e desaguou na Praça Costa Pereira. O bloco Regional da Nair, braço carnavalesco do megagrupo de samba homônimo, arrastou cerca de duas mil pessoas entre as cercanias da Escadaria da Piedade e a Costa Pereira. O grupo nasceu em 2008 e a partir de 2011 fez do Centro seu palco iluminado. As apresentações na área livre da Zilda atraíam gente de qualquer canto da capital e dos municípios vizinhos. A estreita rua do bar, entre a Graciano Neves e a Sete de Setembro, inundava-se de gente. O bloco desfilou pela primeira vez em 2011 e aquele domingo escaldante repetiu as mesmas cenas dos últimos três anos: quanto riso, quanta alegria. Certamente ao Regional foram pessoas para quem o Centro é algo tão remoto quanto Bombaim ou Mantenópolis. Num outro patamar, manifestações tais – o Samba da Xepa, o Regional da Nair, a Estação Porto, a Casa de Bamba, entre outros – contribuem para que moradores e não-moradores nutram uma relação afetiva com o coração da capital. Entre 2000 e 2010 o Centro de Vitória cresceu em 598 habitantes. De 9.240 foi para 9.838 moradores. É um salto modesto: no mesmo período, Jardim Camburi inchou em pouco mais de 15 mil habitantes (de 23.882 para 39.157); Jardim da Penha, em quase seis mil (24.623 para 30.571). Os números são do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Não obtivemos dados, mas o povoamento do Centro deve ter crescido um pouco mais nos últimos dois ou três anos. Em termos urbanísticos, o Centro se amolda ao conceito de “bairro autônomo”, como Jardim da Penha ou Jardim Camburi. É bem provido de serviços: as compras do supermercado podem ser feita a pé. Outra: boa parte das linhas municipais e intermunicipais (Transcol) de ônibus atravessa o Centro. Para quem depende de ônibus – ignoremos por ora a frota precária e de tarifa injusta – é uma maravilha. Há um certo lirismo ali também: morar em prédios antigos, amplos e bem conservados, ser vizinho de monumentos históricos, caminhar à sombra das árvores, ver criança brincando na rua, contemplar navios deslizando à beira-mar. São elementos que agregam um valor (não pecuniário) à ideia de viver no Centro, bairro cujo perfil imobiliário combina duas características primordiais para a revitalização: o velho “bom e barato”. Há muitos imóveis bem conservados, agradáveis e, em comparação a outros bairros com características semelhantes, baratos. Esse perfil atraiu uma parcela substancial dos novos moradores do Centro: jovens nos seus vinte e poucos anos. Muitos enfrentam a fase geralmente coalhada de incerteza de recém-egressão da faculdade. Um lugar aprazível a preços admissíveis – com serviços gastroetílicos, digamos assim, a custo plausível sem sacrifício da qualidade – é o que se busca. A cultura é um fator essencial para o renascimento do Centro – embora não tão quanto o imobiliário/socioeconômico. A questão cultural mexe com expectativas de moradores e não-moradores. O ramo de shows ao vivo de Vitória sofre de uma mesmice crônica: Capital Inicial, Jota Quest, Ana Carolina, Geraldo Azevedo, Titãs, etc. Nada contra os artistas, o problema é a mesmice. Aí no final de 2006 veio a Estação Porto. De lá para cá, o armazém da Codesa abrigou música para todos os gostos: Roberto Menescal/Wanda Sá, Elza Soares, Tom Zé, Nana Caymmi, João Donato, Arnaldo Antunes, Luiz Melodia, Moraes Moreira, a nova geração com Céu, Marcelo Jeneci, Quinho…. São tantos que é difícil lembrar. Nos anos 00, o Porto deu uma primeira contribuição cultural consistente à revitalização do Centro. Um exemplo recente: o show da Orquestra Voadora. Banda carioca de marchinha pop que atrai milhares de foliões no carnaval do Rio de Janeiro tocando de Michael Jackson a Tim Maia, o voo da orquestra não coube no Porto. Imaginem cerca de 500 pessoas deixando o Porto e tomando as avenidas. A farra só parou na Rua Sete, onde o show continuou tão vibrante quanto. Uma experiência tal tem uma aura única, a partir da qual moradores e não-moradores criam um laço sentimental com o Centro. Esse é apenas um exemplo. Há uma infinidade de outros elementos que interagem entre si: os sambas da Xepa e da Regional, a Casa de Bamba, os equipamentos culturais do Centro (Galeria Homero Massena, Museu Capixaba do Negro, Museu de Arte do Espírito Santo – Dionísio Del Santo, Centro Cultural Majestic), os monumentos históricos, o histórico
Eder Pontes e Pedro Valls: arranjo institucional inviável
Renata Oliveira e Nerter Samora O Papo de Repórter desta semana analisa a complicada situação que passa o “arranjo institucional” montado pelo ex-governador Paulo Hartung (PMDB). Do clima de total harmonia – que beirava à subserviência dos comandos vindos do Executivo -, as principais instituições ligadas à Justiça entraram em clima de guerra com direito até a demonstrações públicas de descontentamento. Será esse um grito de independência das instituições ou outras questões habitam os bastidores por trás do mal-estar entre as cúpulas do Ministério Público e o Tribunal de Justiça? Confira logo abaixo na conversa entre os jornalistas Renata Oliveira e Nerter Samora. Nerter – Apesar da tentativa de ambas as partes de querer transparecer uma tranquilidade na relação institucional, é evidente que há uma crise estabelecida entre o Ministério Público Estadual e o Tribunal de Justiça. Algo que durante oito anos no Espírito Santo foi impensável, por conta do que o ex-governador Paulo Hartung chamou de arranjo institucional, que nada mais era do que um controle do Executivo sobre os demais poderes. Controle esse, estabelecido graças ao fortalecimento financeiro que ficou destacado na evolução dos orçamentos de cada um dos braços desse arranjo. Renata – Com a mudança de governo, o tempo do controle rígido acabou. Embora o governador Renato Casagrande tenha sucumbido à manutenção de um repasse gordo tanto para o Tribunal de Justiça, quanto para o Ministério Público, aquela ala de passo marcado não está funcionando mais. Em tempos de arranjo político e institucional, a coisa funcionava muito bem orquestrada, o Ministério Público denunciava e o Tribunal condenava, e assim o governo mantinha o controle, punindo aqueles que destoavam do acordo estabelecido de cima para baixo. A maioria eram deputados, ex-deputados ou prefeitos que não se alinhavam ao sistema de hegemonia política. Nerter – Quando falamos em fortalecimento financeiro, temos que destacar a evolução dos orçamentos. Só para se ter uma ideia, durante os anos do governo Hartung, a dotação do Ministério Público saltou de R$ 82,1 milhões para R$ 218,25 milhões. Já o Poder Judiciário saiu de R$ 286 milhões para R$ 619 milhões. Hoje nem se fala. Juntos, os orçamentos desses dois órgãos já chegam a R$ 1,1 bilhão por ano. É mais do que o pleno de investimentos do governo do Estado. E vem mais por aí com a aprovação do Fundo Especial do Ministério Público (Funemp), mas isso é assunto para um outro papo… Renata – Combinado. Voltando ao arranjo, Paulo Hartung saiu do governo e seu aliado no Ministério Público, Fernando Zardini, que havia inclusive passado pela Secretaria de Justiça do governo passado, também deixou o cargo. Mas a ascensão de Eder Pontes não trouxe uma transformação nas ações do Ministério Público capixaba. No Tribunal de Justiça, houve mudança. Primeiro pela ascensão de Pedro Valls Feu Rosa, que tem uma visão bem diferente de seus antecessores. Mas não foi só isso. Os efeitos da Operação Naufrágio foram profundos. A saída dos desembargadores “das antigas” deu uma oxigenada no Pleno e o fortalecimento do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) pressionou mudanças de postura. Nerter – O que não acontece no Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), que até tenta, mas ainda não conseguiu mudar a imagem de uma instância corporativista para se tornar de fato um órgão de controle da atuação de promotores e procuradores de Justiça em todo País. Mas o problema é que algumas instituições entenderam o novo momento do Estado e outras ainda insistem em fazer valer uma lei que não se aplica mais. Não há hoje no Espírito Santo um ambiente favorável a um arranjo político dessa natureza. Renata – A chegada de novos delegados de polícia, oriundos de concursos recentes, também mudou a cara dos inquéritos e eles também entraram na briga, pedindo respeito. Afinal, quem tem prerrogativa para investigar é a polícia e não o Ministério Público. A Ordem dos Advogados do Brasil no Estado (OAB-ES) ficou do lado MP, até porque lhe convém. Com a justificativa já desgastada da defesa das prerrogativas, a OAB está esquecendo que seus membros não estão blindados pela carteirinha. Estão em prisão domiciliar porque são acusados de envolvimento em fraudes em prefeituras. Nerter – Esta semana aconteceu o ponto máximo de tensão entre MPES e TJES. Mesmo com todos os protestos pela postura do Ministério, Eder Pontes pediu a revogação das prisões dos acusados de participação no esquema que originou a Operação Derrama e o desembargador Ronaldo Gonçalves de Sousa negou o pedido. O fato causou até surpresa em parte da mídia, que já considerava trâmite normal o Ministério pedir e o Tribunal aceitar. Mas o Tribunal de Justiça não é um órgão legitimador do Ministério e aos poucos seus membros estão entendendo isso. Renata – Começa a ganhar corpo nos meios políticos a ideia de que por trás desse cabo de guerra entre Ministério Público e Tribunal de Justiça há um interesse político incutido que vai acabar causando desgaste para um dos lados, aparentemente para o Ministério Público. Como o MPES em um passado muito recente denunciava antes sequer de ouvir os acusados, e agora está cheio de dedos diante de uma montanha de documentos e indo de encontro, inclusive, aos cruzamentos de dados do Tribunal de Contas, a corda está mais fraca para o lado dele. Nerter – A delicada e indigesta situação pode ser observada na sessão de instalação dos trabalhos na Assembleia. Para a solenidade foram convidados o governador Renato Casagrande; o presidente do Tribunal de Justiça, Pedro Valls; o presidente do Tribunal de Contas, Sebastião Carlos Ranna, e o chefe do MPES, Eder Pontes – e só ele foi. Os demais mandaram vices e nem justificaram as ausências. O presidente reeleito da Casa, Theodorico Ferraço (DEM), é acusado de ser o pivô do escândalo. A ausência das autoridades de um lado e a presença de Pontes foi simbólica, mas o constrangimento foi claro. Renata – O que alguns observadores apontam é que há uma parte do antigo arranjo institucional que insiste em sobreviver. Quer se fortalecer, mas encontrar espaço neste novo terreno político é
Leitores se manifestam a favor do TJES no embate com MPES
Passado o momento inicial em torno das movimentações da Operação Derrama, as atenções da audiência de Século Diário se voltaram ao noticiário de maneira mais ampla. A imprensa nacional continuou a repercutir a censura a Século Diário. Na segunda-feira (5), o jornal O Estado de S. Paulo criticou a decisão truculenta da juíza Ana Cláudia Rodrigues Soares, da 6ª Vara Cível de Vitória, que mandou o jornal Século Diário suprimir três notícias e dois editoriais. O caso já está se tornando um dos mais emblemáticos de censura aos veículos de comunicação brasileiros. Paulo Rogério de Souza, ao comentar o caso em Século Diário, lembrou que a democracia tem início na liberdade de expressão. Na terça-feira (6), o juiz Manoel Cruz Doval condenou o Estado a criar outras quatro Delegacias de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCAs) na Grande Vitória. A decisão é proveniente de uma Ação Civil Pública impetrada pelo Ministério Público do Estado (MPES), já que a única unidade, localizada em Vitória, não atende à demanda dos municípios. A decisão foi comemorada pelos leitores, como Elizeth dos Anjos e Izanildo Sabino, que reconhecem a importância da existência das delegacias para fazer cumprir o que estabelece o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Os autos da Operação Derrama foram remetidos do Tribunal de Justiça do Estado (TJES) para o Ministério Público durante a semana. Além de encerrar as polêmicas sobre o assunto, a remessa deve inaugurar uma nova fase do processo: quando as acusações contra autoridades, entre elas, o atual presidente da Assembleia Legislativa, Theodorico Ferraço (DEM), deverão ser analisadas pelo procurador-geral de Justiça, Eder Pontes da Silva. Desde o início da segunda fase da Derrama – após a prisão de dez ex-prefeitos, no último dia 15 –, a principal expectativa nos meios políticos e jurídicos estava no posicionamento de Eder Pontes sobre o cerne das denúncias de fraudes na recuperação de créditos tributários. Medida que ganhou ainda mais importância dias depois com a prisão da ex-prefeita de Itapemirim, Norma Ayub Alves (DEM), mulher de Ferraço – que foi acusado pelo cunhado de ter sido o principal articulador do esquema com a empresa de consultoria CMS. A partir deste momento, os holofotes da mídia e da classe política se voltaram para Eder Pontes, que teria a missão de dar um parecer sobre as denúncias contra Ferraço – até então com a candidatura à reeleição para a chefia do Legislativo estadual entrando em risco. Os leitores acompanham na expectativa pelo posicionamento de Pontes, mas Fernando Guimarães sugeriu uma medida ainda mais drástica ao chefe do Ministério Público. Um ofício enviado do Ministério Público Estadual (MPES) para o Tribunal de Justiça (TJES) reforça a amplitude da crise entre as instituições. O procurador-chefe do MPES, Eder Pontes, enviou o documento datado de 25 de janeiro ao presidente do TJES, o desembargador Pedro Valls Feu Rosa, solicitando os procedimentos em tramitação na Comissão de Prevenção e Enfrentamento à Tortura para a força tarefa criada no âmbito do Ministério Público. No ofício, o procurador-geral classifica como inverídicas as informações declaradas por Pedro Valls à revista IstoÉ, que dão conta que das 365 denúncias de prática de tortura enviadas ao MPES em 2012, nenhuma resultou em processo. Os leitores que comentaram a notícia se posicionando em favor de Pedro Valls e Rodrigo de Vitória lembrou das atribuições do MP, que alguns membros parecem ter esquecido. A notícia que dá conta que o prefeito de Vila Velha, Rodney Miranda (DEM), promoveu mudanças que elevaram em quase 200% os gastos com o primeiro e segundo escalões da administração dividiu leitores. Alguns tentaram justificar a mudança com a extinção de cargos comissionados da administração passada, outros não se mostraram surpresos com a atitude do atual prefeito.
Presidente do STF vai dar palavra final sobre destino de investigações contra Sueli Vidigal
O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Joaquim Barbosa, dará a palavra final sobre o pedido da deputada federal Sueli Vidigal (PDT) de trancar as investigações de supostos crimes eleitorais cometidos no pleito de 2010. O caso tramitava no Tribunal Regional Eleitoral (TRE-ES), mas acabou sendo encaminhado ao Supremo, em função do foro privilegiado da congressista. Segundo a decisão publicada nessa semana, o ministro Dias Toffoli – que havia julgado prejudicado o habeas corpus impetrado pela defesa de Sueli – submeteu a análise do caso ao presidente da Corte, após uma divergência sobre qual é a autoridade coatora (isto é, aquele que é alvo do processo). O processo originalmente era contra o relator da ação de investigação eleitoral contra a deputada na Justiça Eleitoral. No entanto, as investigações contra a parlamentar foram remetidas para o Supremo, passando a ser enquadradas como inquérito policial (Inq 3353), sob relatoria do ministro Celso de Mello, que propôs a redistribuição dos autos para o gabinete de Dias Toffoli. Por conta desta nova mudança, o ministro submeteu a decisão sobre a apreciação do habeas corpus ao presidente do STF. “Diante dessa circunstância, a meu ver, tão peculiar, entendo não poder funcionar como relator do agravo regimental interposto nesta impetração, que, originariamente, questiona atos praticados no Inquérito Policial nº 4098-51.2010.6.08.0000, ora remetido a esta Suprema Corte e autuado sob nº 3.353/ES, e sob minha relatoria atualmente”, narra um dos trechos da decisão. Durante a campanha eleitoral de 2010, a deputada foi investigada pela prática de vários crimes eleitorais, entre eles a formação de “caixa dois” em empresas que atuavam na prefeitura da Serra (então administrada pelo marido de Sueli, o ex-prefeito Sérgio Vidigal, do mesmo partido). Em dezembro daquele ano, a Polícia Federal deflagrou a Operação Em Nome do Filho, que chegou a prender pessoas ligadas ao gabinete de Sueli.
Prefeitura promete revisar PDM de Vila Velha nos próximos meses
O prefeito de Vila Velha Rodney Miranda (DEM) anunciou que irá rever o Plano Diretor Municipal (PDM) nos próximos meses. Apesar de não apresentar uma agenda de discussão, a expectativa é que na próxima reunião com representantes da sociedade civil organizada, que será realizada no início de março, serão definidas as datas e metas para a modificação das diretrizes adotadas pela gestão anterior. O atual PDM, declarado inconstitucional pelo Pleno do Tribunal de Justiça do Estado (TJES), prevê a transformação de áreas ambientais em zonas turísticas, porém, com permissão para a construção de empreendimentos imobiliários empresariais e residenciais. Na ocasião, a Justiça considerou as alterações na legislação como uma violação ao princípio da democracia participativa e retrocesso social e ambiental. Sem a construção de um novo PDM, temem os representantes da sociedade civil organizada, há risco de degradação nas principais áreas ambientais da cidade, como é o caso do Parque Estadual de Jacarenema. Com as decisões do PDM suspensas liminarmente, a expectativa das entidades é que no próximo planejamento urbano sejam incluídas como prioridade a preservação das áreas ambientais do Morro do Moreno, Jaburuna, Mantegueira e do Parque Natural Municipal Jacarenema, parte integrante da Reserva da Biosfera no Espírito Santo. Além de “atropelar” questões ambientais, o PDM violou o princípio da democracia participativa ao não abrir a discussão para os representantes da sociedade civil. As alterações do PDM foram sancionadas no dia 10 de agosto de 2011, em pouco menos de um mês, após três sessões na Câmara de Vereadores e sob o forte protesto da sociedade civil organizada. Na ocasião, eles cobraram a ampla divulgação do debate e maior participação popular para que fossem definidos os novos parâmetros do PDM.