Texto: Henrique Alves Fotos: Rogério Medeiros Sabiá da crônica. Rubem detestava o apelido. “Prefiro ser um urubu, ave maior e mais triste”, grunhia. Houve um período em que o jovem Ivan Lessa – filho de Orígenes e Elsie Lessa e então novo companheiro dos bares da vida do cronista – assim o aclamava: “Salve o sabiá da crônica!”. Ao que Braga devolvia: “Sabiá? Vira-bosta da crônica, isso sim!”. O amigo Sérgio Porto, notando a harmonia entre o canto da ave e a prosa do Braga, deu-lhe a alcunha. Poucos sabiam do mar, de pássaros, dos ventos, das estrelas, de rios ou plantas como o filho de Raquel Coelho Braga e Francisco Carvalho Braga, nascido em 12 de janeiro de 1913. Quando menino, um dos grandes prazeres do Rubinho era passar a noite da mata, coisa que fazia com os amigos. Não havia coisa melhor que despertar de madrugada para desfrutar aquele aroma fresco de mato, o cheiro de terra molhada. Rubem viveu uma infância típica de criança do interior: correr pra lá e pra cá pelas ruas, fugir das boiadas, jogar bola, pescar piabas, mergulhar no Itapemirim. Sem falar no paraíso particular da ampla casa da família Braga. Ali o menino trepava as árvores todas. Muitas mais tarde seriam tratadas como entes queridos em suas crônicas: o pé de fruta-pão, de cajá-manga, de abiu e “da alta saboneteira que era nossa alegria e a cobiça de toda a meninada do bairro porque fornecia centenas de bolas pretas para o jogo de gude”. Aqui, Braga presta dois tributos numa só crônica: à saboneteira e ao cajueiro que se destacava atrás de sua casa, no alto de um morro. Braga conta que instou com seu amigo Carybé a subir o morro para ver o cajueiro “como quem apresenta a um amigo de outras terras um parente muito querido” (Cajueiro, setembro, 1954). Mas um escritor não vive de amor à natureza. E aí avulta o detalhe do Braga: a escrita. Ainda hoje, ninguém sabe direito o que vem a ser a crônica, se jornalismo, se literatura. Por via das dúvidas, um rebento da união de ambos. Com Rubem Braga, no entanto, esse papo foi diferente. Encontramos nele, antes de tudo, literatura. A arte da palavra. Rubem confere brilho ao frívolo, torna permanente o fugaz, veste o singelo com elegância. Enfim, dá nobreza ao papo de botequim. A prosa leve, apurada, bem humorada – embora por vezes triste, resignada e autoirônica – fez daquele homem casmurro um dos pontos altos da moderna literatura brasileira. Quem se quedaria impassível ante sua cruzada atrás de uma simples borboleta amarela? “Reparei que nenhum transeunte olhava a borboleta; eles passavam, devagar ou depressa, vendo vagamente outras coisas – as casas, os veículos ou se vendo –, só eu vira a borboleta, e a seguia, com meu passo fiel.” (A Borboleta Amarela, setembro, 1952). O mar também foi outro parente muito querido do Braga, que, além de cronista, era excelente nadador. Tudo parece ter começado no início dos anos 20, quando seu pai, Francisco Braga, “descobriu” Marataízes. A partir de então… Melhor que o próprio explique. “Depois o mar entrou na minha infância e tomou conta de uma adolescência toda, com seu cheiro bom, os seus ventos, suas chuvas, seus peixes, seu barulho, sua grande e espantosa beleza.” (Mar, julho, 1938). Interessante ver que essa crônica foi publicada em numa época muito dura para Rubem Braga. Mesmo com 20 e poucos anos, o cronista e jornalista já era uma celebridade. Dois anos antes, publicara seu primeiro, e muito bem acolhido, livro, O Conde e o Passarinho. Aqui, na crônica homônima, das mais célebres, confessa que entre o conde e o passarinho, prefere o que canta e voa. “O conde não sabe gorjear nem voar.” (O Conde e o Passarinho, fevereiro, 1935). Os anos 30 foram penosos política e financeiramente para Braga. Getúlio Vargas não lhe deu trégua – Braga o repugnou pelo resto da vida. Entre 1930 e 1940, o cronista morou no Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Recife e Porto Alegre, sempre importunado pelo ditador gaúcho. Quando em 1936 Vargas declarou estado de guerra, o nome de Rubem Braga sequer poderia aparecer nos jornais. Acossado, recorreu a pseudônimos. O aperto financeiro – que, diga-se, viveu em muitos momentos da vida – foi particularmente mais agudo naquele período. Em 1970, Rubem Braga vira uma orquídea. É o que diz Carlos Drummond de Andrade numa crônica: “Entre as desesperanças da hora, e à falta de melhores notícias, venho informar-lhes que nasceu uma orquídea. Nasceu, isto é, foi batizada. Seu nome de batismo é o do cronista Rubem Braga.” (Nasce uma orquídea, Jornal do Brasil, 1970). A vida inteira Rubem Braga foi devoto da natureza. Fiel e fervoroso devoto. O sentimento do mar, das plantas e dos bichos nasceu com ele. Era conhecedor profundo dos ventos e ornitólogo amador. A mítica cobertura na Barão da Torre, em Ipanema, seu lar a partir dos anos 60, ganhou um jardim de Burle-Marx – que Braga logo alterou, substituindo as plantas decorativas pelas frutíferas. Mesmo com o êxito jornalístico e, sobretudo, mesmo sendo um dos grandes personagens da Ipanema daqueles anos, o homem da roça sobreviveu dentro dele, pedindo, ansiando por uma vida simples, longe de tudo, no meio do mato. Não à toa Braga foi grande amigo de Dorival Caymmi, outro enamorado do mar. Cultivou também a afável amizade de dois poetas apreciadores da vida simples: o amazonense Thiago de Mello e o mato-grossense Manoel de Barros. Este, certa vez, ao ver o pomar de Braga, não se conteve: “Uma jabuticabeira, no céu de Ipanema!”. Em finais dos anos 50, Braga faz um apelo por uma causa digna: “Apelo para os amantes de passarinhos brasileiros que tiverem algum espaço e algum dinheiro: escrevam para o Dr. Augusto Ruschi, Santa Teresa, Estado do Espírito Santo, peçam a
Grande Vitória ganha nova configuração política com a posse dos novos prefeitos
Renata Oliveira e Nerter Samora O Papo de Repórter desta semana faz um balanço sobre as primeiras ações dos novos prefeitos da Grande Vitória e a repercussão no tabuleiro político de 2014. Qual será a influência do clima de mudança – que falou alto no último pleito – na disputa pelo governo do Estado? O governador Renato Casagrande ganha ou perde com os novos atores políticos capixabas? Confira abaixo no bate-papo entre os jornalistas Renata Oliveira e Nerter Samora: Renata – A posse dos novos prefeitos na última terça-feira (1) veio carregada do discurso de mudança pelo qual eles foram eleitos. Na Grande Vitória, sobretudo, havia uma expectativa muito grande sobre a ascensão de Luciano Rezende (PPS), em Vitória; Rodney Miranda (DEM), em Vila Velha; Audifax Barcelos (PSB), na Serra e Juninho (PPS), em Cariacica. E nesta curta semana eles já mostraram que realmente querem mudar o cenário político da região. Ainda é muito cedo para dizer se essas mudanças vão se traduzir em benefícios para a população, mas já deu para entender como vai funcionar essa “mudança” em cada município. Nerter – E não é só nas prefeituras, nos legislativos municipais também houve muita mudança. A maioria já havia sido desenhada antes do dia primeiro, mas também fazem parte dessa nova configuração que você está falando. Na maioria dos municípios houve uma divisão de forças entre o Executivo e o Legislativo. Na maioria dos casos, os prefeitos influíram pouco ou quase nada nas disputas pelas mesas diretoras. Mas houve uma distribuição que atendeu aos interesses dos novos prefeitos. Em Cariacica, o novato Marcos Bruno (PRTB) na presidência da Câmara mostra essa nova configuração. Na Capital, Fabrício Gandini chegou a dizer que a neutralidade do prefeito quase atrapalhou sua movimentação, que contou com a promessa de melhor condição aos vereadores… Renata – Essa que deve ser uma das tônicas nas relações entre câmaras e os Executivos, pelo menos, na Grande Vitória. Tanto que uma conversa entre Luciano e os vereadores pacificou a articulação. Nerter – Verdade. Embora os vereadores da Capital não tenham saído com a promessa de barganha em troca do apoio a Gandini. Na verdade, a eleição do vereador mais bem votado também está envolta neste contexto de dar uma resposta ao resultado das urnas. É claro que em Vila Velha a mudança não chegou à Câmara, mas Ivan Carlini (PR) já aderiu ao novo governo para não ter problemas futuros. O republicano segue aquele lema: “se hay gobierno, estoy dentro”, o que deve facilitar a vida do novo prefeito Rodney, que ainda não é do ramo. Na Serra, houve uma movimentação da própria Câmara, até porque o ex-prefeito Sérgio Vidigal (PDT) conseguiu eleger um bom percentual da maior Câmara do Estado, o que complicou a movimentação na Casa. Renata – No Executivo, cada prefeito usou uma tática diferente nesses primeiros dias, todos tentando impor de saída uma marca própria. Luciano Rezende parece ter adotado a cautela como principal estratégia. Acertou o secretariado, que, aliás, demorou para ficar pronto. Ele deixou as escolhas políticas para o final. Mesmo tendo o apoio do PR durante a campanha, deixou o PR por último, colocando o vice, Waguinho Ito, na pasta da Ação Social, o que chegou a incomodar alguns setores da sociedade, já que o republicano não é exatamente um defensor das minorias. Luciano também deixou para o final a indicação de Max da Mata (PSD) para a pasta dos Transportes e o novo secretário terá que demonstrar habilidade para lidar com um tema espinhoso, o aumento da tarifa que geralmente acontece logo no início do ano. Do ponto de vista técnico, preocupa a indicação da arquiteta e urbanista, Sandra Monarcha para a pasta do Desenvolvimento Urbano, fora do País há tanto tempo, ela vai ter que lidar com o complicado imbróglio da expansão do Shopping Vitória. Nerter – Pois é, no município da Serra, o problema parece ser mesmo dinheiro. Com uma dívida crescente nas mãos, o prefeito Audifax Barcelos (PSB) vai encontrar um desafio enorme pela frente. Na posse, o nosso editor de conteúdo José Rabelo noticiou que a dívida passava de R$ 100 milhões, só que agora esse valor chega a R$ 200 milhões. Talvez por isso, em seu primeiro dia de governo, Audifax cortou quase 600 cargos comissionados. Boa parte, evidentemente, ligado ao ex-prefeito, mas só o enxugamento da folha não vai resolver o problema. O município vai perder também recursos federais e precisará de ajuda do governo do Estado para garantir os investimentos necessários. O fato de ser do partido do governador Renato Casagrande pode ajudar. Quanto aos cargos, a saída dos aliados de Vidigal vai abrir espaço para os aliados do atual prefeito, que vai poder acomodar os servidores vindos de outros municípios. É que há uma migração nessa época do ano de comissionados de uma prefeitura para a outra. Renata – Sim, isso vem acontecendo há quase duas décadas na Grande Vitória, com a hegemonia de quatro ou cinco partidos que, unidos, criaram uma força política que administra os quatro maiores municípios do Estado todo esse tempo. Aí temos PT, PDT e PR como protagonistas e PMDB e PSB, atuando como forças aliadas. Essa distribuição territorial entre os partidos garantiu o rodízio dos servidores, incluindo aí as eleições estaduais e proporcionais neste ínterim, que acomodaram os aliados em outros setores. Mas o maior impacto foi evidentemente em Vila Velha. Com uma só canetada Rodney Miranda exonerou 1,2 mil servidores comissionados. Os aliados dele são um pouco diferentes desse conjunto de forças que falei acima, e não vai dar para preencher a metade disso com gente vinda da iniciativa privada, porque o salário não é tão interessante. Nerter – Rodney adotou uma estratégia agressiva para o início de seu mandato. Quer causar impacto ao mesmo tempo em que busca afirmação como figura com brilho próprio, independente de seu padrinho político Paulo Hartung (PMDB). Apesar do DNA e da referência sempre destacada de seu modelo político, Rodney tentou montar uma equipe que não tivesse os
Qualidade na Educação precisa voltar à pauta do Sindiupes
No dia 18 de dezembro, depois de quatro meses de batalha Judicial, a chapa cutista tomou posse na diretoria do Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Estado (Sindiupes). Uma das definições da nova diretoria é o fim da a proporcionalidade qualificada como determinante para a composição da direção do sindicato. A justificativa é de que esse critério teria se mostrado insatisfatório para a condução do sindicato, que se transformou muito mais um palco de disputas políticas do que de interesse da categoria. Entre os profissionais da área, a disputa sindical afastou o interesse do magistério pela categoria, justamente pelas disputas internas. A principal reclamação de alguns profissionais é a defasagem do discurso, que abre um amplo caminho para que o governo conduza o setor com pouco interesse na qualidade da educação oferecida, o que consequentemente contribui para os índices incompatíveis da educação com o nível de desenvolvimento e com o PIB capixaba. Mais do que mudar a diretoria do sindicato é preciso mudar a mentalidade da atuação da entidade. Na pauta de reivindicações, a melhoria da qualidade de educação sempre aparece nas bandeiras de luta, mas de uma forma subjetiva, já que o diálogo entre os representantes da categoria e os governos do Estado e dos municípios ficam restritos à questão salarial. Como não há mais atrasos, no caso do governo do Estado, há uma acomodação do movimento sindical, que pauta sua reivindicação na discussão do abono salarial do fim do ano e da discussão sobre os bônus de desempenho. Para alguns profissionais da educação, a falta de continuidade do ensino, causada pelo número exorbitante de professores contratados em designação temporária, que evita o vínculo com o trabalho, não é discutido com tanta intensidade, como a questão salarial. A metodologia do ensino e o baixo desempenho dos alunos nos exames nacionais também são encarados de forma superficial pelo sindicato.
Com poucos vereadores da área, câmaras da GV elegem comissões de Meio Ambiente
Nesta semana, as Câmaras de Vereadores dos quatro maiores colégios eleitorais do Estado – Vitória, Vila Velha, Cariacica e Serra –, após o conturbado período de eleição dos presidentes e demais membros das mesasdiretoras dos legislativos municipais, definiram as presidências de suas comissões permanentes. A avaliação é de que, em geral, um trabalho bem feito à frente de comissões das Casas rende capital político e visibilidade, muito embora os vereadores geralmente tenham pouco espaço e capacidade limitada de legislar. Nas comissões de Meio Ambiente, dos quatro mandatários, apenas um já exerceu mandato na Câmara: Serjão (PSB), em Vitória, que ocupou o mesmo cargo na última legislatura. Em sua gestão, as principais ações feitas se centraram sobre a qualidade do ar. Em junho de 2012, aconteceu o Seminário Respira Vitória, que debateu a questão com especialistas. Dele surgiu o Grupo de Trabalho Interinstitucional (GTI) de mesmo nome, que visa a elaborar propostas de leis para tornar mais rígido o controle da poluição. A ação é importante, em especial em uma cidade como Vitória, que acumula “prêmios” sobre os abusivos índices de poluição registrados em seu território, principalmente por conviver com grandes poluidoras – Vale e ArcelorMittal – em seu entorno. Com a reeleição de Serjão para a comissão, a cobrança é que o GTI – que fará a sua quinta reunião no início de fevereiro – apresente resultados na forma de leis sobre os temas debatidos. Em Vila Velha, o presidente da comissão de Meio Ambiente da Câmara será o vereador iniciante Osvaldo Maturano (PMDB). Especializado em Gestão do Trânsito, chegou a ser secretário de Transporte e Trânsito do município na gestão do ex-prefeito Neucimar Fraga (PR) por um ano e três meses, a partir de 2009. Apesar de ter atuação mais voltada para a área de mobilidade urbana, o próximo presidente da comissão vai ter que lidar com uma cidade com questões ambientais complexas e entidades populares que estão atentas às movimentações. O último grande caso em jogo é o do Porto de Águas Profundas do Estado, que deve ser instalado no município canela-verde. Se concretizado, o empreendimento deve levar profundos impactos ao município. Em Cariacica e Serra, as presidências das comissões de Meio Ambiente ficaram com o PV. Apesar do nome, ao menos no Espírito Santo o partido não tem grandes representantes da causa ambiental. O principal representante “verde” no Estado é o deputado estadual e presidente da comissão de Meio Ambiente da Assembleia Legislativa, Sandro Locutor, que, para se ter uma noção, recebeu R$12 mil da poluidora ArcelorMittal na última eleição, quando foi candidato a prefeito de Cariacica. No município, o mandatário da área ambiental na Câmara será Ozeias Lopes, que se elegeu com R$ 3 mil da mesma siderúrgica. Já na Serra, o presidente da comissão será o verde Tio Paulinho. Ambos ocuparão o seu primeiro cargo no legislativo municipal e são, como se diz, ilustres desconhecidos – na política e na área de meio ambiente.
População ainda tem dúvidas quanto ao uso de armas nas guardas municipais
Os novos prefeitos que assumiram mandato na terça-feira (1) – principalmente os da Grande Vitória – elegeram como bandeira ainda durante a campanha o combate à violência nos municípios. A principal plataforma apontada pelos atuais gestores é, via de regra, o fortalecimento das guardas civis municipais e o aumento ou implantação dos sistemas de videomonitoramento. O olhar direto dos municípios para a Segurança Pública foi promessa de campanha dos prefeitos e deve ser cobrada de perto pela população, principalmente por conta dos altos índices na Grande Vitória. A Serra fechou 2012 com a maior taxa da Região Metropolitana da Grande Vitória (RMGV) com 84 homicídios por grupo de 100 mil, seguida por Cariacica, com 82,5, Vila Velha, com 52, Viana com 50,7, Guarapari, com 46,5 e Fundão com 35 mortes violentas por grupo de 100 mil habitantes. Vitória vem numa redução constante nos índices de violência nos últimos seis anos e fechou 2012 com 34 mortes violentar por 100 mil habitantes. Em casos mais extremos, como em Vila Velha, o prefeito Rodney Miranda (DEM) se propôs a treinar e armar a guarda. E só isso. Sem propostas de cursos de formação, abordagem multidisciplinar, simplesmente armar como se isso fosse resolver os problemas de violência que o município enfrenta. Também caiu no senso comum a ideia de ampliação ou implementação do sistema de videomonitoramento nos municípios. Não há dúvidas que o sistema pode ser eficaz, mas essa eficácia depende de uma série de outros fatores. A própria população parece estar em dúvidas sobre a atuação de uma guarda armada, mostrando que o tema ainda carece de debates nos municípios. Século Diário realizou uma enquete durante esta semana e o resultado é uma amostra desta imprecisão da população. Os leitores foram questionados se acham que a guarda municipal deveria ser armada para o combate à criminalidade. O resultado parcial nesta sexta-feira (4) mostrou que 27% dos leitores disseram que sim, o Estado não está dando conta. Com percentual parecido, 24% dos leitores disseram que não, a guarda deve cuidar do patrimônio. Outros 26% votaram em não armar a guarda municipal, já que é função do Estado combater o crime e 16% votaram em sim, quanto mais policiais na rua, melhor. Dos leitores que votaram 8% pensam que a guarda não deve ser armada, pois haveria conflito entre ela e a Polícia Militar. Os resultados tão apertados mostram que a população ainda está dividida em relação ao armamento das guardas municipais. O tema ainda é espinhoso e levanta questionamentos. No Estado, o uso de armas por guardas municipais já gerou polêmica quando em junho 2010 o guarda civil municipal de Vitória Israel Becker Martins atirou contra Rodrigo de Oliveira Gomes no bairro de Goiabeiras por ele ter, segundo consta no boletim de ocorrência, arremessado uma garrafa de uísque contra o guarda. Rodrigo morreu depois de dar entrada no Hospital São Lucas. Com o incidente, o uso de armamento letal por parte da guarda municipal chegou a ser questionado pela população, já que, em teoria, a função da guarda seria apenas de proteção do patrimônio. De acordo com o especialista em políticas públicas, o professor Roberto Garcia Simões, entre a atribuição das guardas civis municipais – proteção do patrimônio – e das polícias – policiamento ostensivo e investigação de crimes – existe uma “área de sombra” em que deveria haver mais interação entre essas forças. “Dependendo do que for feito, se as guardas começarem a ser tratadas como polícia pode haver problemas jurídicos futuros”. Ele ressalta que a guarda pode atuar como um apoio no policiamento comunitário, não exercendo o policiamento ostensivo, que é função da PM. “Entre ser uma guarda patrimonial e ser uma PM 2 deve haver um equilíbrio”. Em relação ao videomonitoramento, frente às centrais já implantadas em outros Estados, o professor disse que o que há no Estado ainda é rudimentar. A instalação de câmeras sem que haja um apoio em terra se mostra sem efetividade no combate ao crime. Como exemplo ele citou o Centro de Operações do município do Rio de Janeiro (COR). O mecanismo integra 30 órgãos e monitoram a cidade 24 horas por dia. De acordo com o site oficial do COR, no sistema estão integradas todas as etapas de um gerenciamento de crise desde a antecipação, redução e preparação, até a resposta imediata às ocorrências, como chuvas fortes, deslizamentos e acidentes de trânsito. . Em caso de ocorrência, é possível acionar rapidamente os órgãos competentes para cada tipo de situação. Frente à realidade da capital do Estado vizinho, o professor disse que ainda estamos na idade da pedra. Exemplo a ser seguido Um caso bem sucedido de estruturação da guarda – que poderia ser tomado de exemplo pelos atuais gestores do Estado – é o da Guarda Civil Municipal de Diadema, município na região metropolitana de São Paulo. Até o fim dos anos 1990 o município era o mais violento de São Paulo e um dos mais violentos do País. Com a reestruturação da guarda, além de apresentar índices baixos de criminalidade, o município também sumiu das estatísticas. O caso de Diadema é usado de exemplo em todo o mundo – foi a única cidade a representar o Brasil no congresso Prevenção ao Crime e Justiça Criminal realizado pela Organização das Nações Unidas (ONU) em Bangcoc, na Tailândia em 2005, entre as lideranças de 140 países participantes. Para ter uma ideia do quando os índices de violência baixaram no município, é só utilizar a taxa do ano de 1999. Naquele ano Diadema fechou com 111,9 homicídios por grupo de 100 mil habitantes. Já em 2011, mais de uma década depois, a taxa de homicídio do município caiu para 9,5 mortes por 100 mil, índice abaixo do estadual naquele ano, que foi de 9,8 por 100 mil e da nacional que foi de 22,7 por 100 mil. A redução dos índices de homicídios começou
De 1969 a 4187 d.C.
Em 1969, o artista búlgaro Christo embrulhava pela primeira vez um prédio nos Estados Unidos, e o escolhido foi nada menos que o Museu de Arte Contemporânea de Chicago. Nessa atmosfera de arte e cultura, nascia no mesmo ano o programa infantil de maior sucesso da história da televisão americana, e também o de maior duração: Sesame Street, que completou 40 anos no último dia 10, com o episódio número 4187. O programa, que no Brasil recebeu o nome de Vila Sésamo, basicamente mantém o mesmo formato idealizado por seu criador Jim Henson, levando um aprendizado de alta qualidade para a população infantil, com muita diversão e criatividade. Nesse mesmo ano, mas um tanto mais provocativo, o fotógrafo americano Garry Winnogrand, inaugurava a exposição The Animals, no mesmo Museu de Chicago. Mantendo o mesmo título, Winnogrand lançou também seu primeiro livro, onde explorava suas observações sobre a semelhança entre animais e humanos. As imagens foram produzidas no Zoológico do Bronx e no Aquário de Coney Island. Sempre com sua Leica e uma lente grande angular, Winnogrand tornou-se fotógrafo de rua, sintetizando com maestria o melhor espírito do fotojornalismo e do documentário. Ao longo de sua carreira, ele trabalhou para importantes veículos de comunicação, como Sports Illustrated, Life, e Fortune. Com uma produção humanista e uma narrativa direta e simples, esse artista conquistou o público e a crítica. Mas apesar de seu arsenal jornalístico, suas verdadeiras influências vieram de Eugene Atget e Walker Evans. Winnogrand herdou de Atget a busca da verdade, e de Evans a arte de distinguir a fotografia do mundo. No New York Photo League ele juntou tudo isso ao ideal da fotografia como instrumento de mudança social, muitas vezes com certo radicalismo, típico dos fotógrafos europeus. Um típico novaiorquino, Garry Winnogrand, nasceu no dia 14 de janeiro de 1928, e morreu de câncer em 1984, deixando umas 300 mil imagens e mais de 2,5 mil filmes por revelar. Essas imagens renderam o livro póstumo, “Winogrand – Fragmentos do Mundo Real”, publicado pelo MoMA de New York. A imagem da semana é New Mexico, tirada em 1957 por Winogrand. Glauco Frizzera é fotógrafo, com mestrado em Fotografia pela Barry University. Mestrando em Business and Administration, e vencedor do prestigiado premio Photoshop Guru Award. Visite o site www.glaucofrizzera.com. Para entrar em contato com a coluna, envie email para: contact@glaucofrizzera.com
A primeira impressão
A primeira semana dos novos prefeitos da Grande Vitória foi curta, mas bastante movimentada. Visitas a obras, reunião com secretários, cortes de servidores, encontros com a população. Todos, cada um à sua maneira, partiram para ações de mais visibilidade. O maior destaque foi para o prefeito Rodney Miranda (DEM), que cortou, num único ato, 1,2 mil servidores comissionados da prefeitura de Vila Velha. A medida radical lhe garantiu destaque nos noticiários durante toda a semana. Audifax Barcelos (PSB) frequentou as páginas dos jornais pelo tamanho do rombo nos cofres da prefeitura com o qual vai ter que lidar. Isso sem falar da cereja do bolo, a prorrogação do contrato com a empresa de coleta de lixo, assinada pelo antecessor, Sérgio Vidigal (PDT), por 20 anos. Luciano Rezende (PPS) finalmente concluiu o secretariado e passou o resto da semana visitando alguns pontos da cidade. O outro eleito popular-socialista, Juninho, prefeito de Cariaicia, quer mesmo é ficar no meio do povão. Todos os prefeitos, exceção a Audifax Barcelos, fazem sua estreia `frente do Executivo municipal. Eles parecem ainda estar se ambientando com o novo cargo. Rodney quis impressionar na chegada, daí a medida midiática. Luciano Rezende segue seu perfil cauteloso, estudando os movimentos da cidade antes de tomar alguma atitude mais drástica. Juninho também mantém seu perfil populista, mas de vez em quando é bom saber o que seus secretários andam fazendo, senão a coisa foge ao controle. E Audifax, como esperado, está colhendo os frutos da rivalidade com seu antecessor: um abacaxi de todo tamanho. Acreditando que a primeira impressão é a que fica, os novos prefeitos chegam se movimentando muito e querendo mostrar trabalho neste início de gestão. Mas, a semana foi curta, e não dá para tirar conclusões sobre o perfil deles no restante dos quatro anos. O jeito é acompanhar o dia a dia das prefeituras e aguardar.
Este ano não vai ser igual àquele
Depois da explosão dos fogos de artifício e das flores para Iemanjá, das uvas e da lentilha, chega a ansiosamente esperada hora das resoluções de fim de ano, que já ganharam a triste fama de nunca serem cumpridas. Mas algo de bom pode ainda renascer do cheiro de pólvora das bombinhas que brindaram esse auspicioso 2013 – o ano em que o mundo resolveu não acabar! Fazer resoluções no Ano Novo para mudar nossos maus hábitos não foi criação do Facebook, como muitos pensam. Na antiga Babilônia, os babilônios prometiam aos deuses que devolveriam os objetos que pegaram emprestados e pagariam suas dívidas. Claro, também com eles começou a mania de não cumprir o prometido. Já os romanos faziam promessas menos absurdas ao deus Janus, que deu nome ao primeiro mês do ano. O costume tem resistido ao correr dos séculos e foi adotado por várias religiões, não como uma brincadeira de fim de ano, mas para nos tornarmos melhores seres humanos. Fatores externos podem influenciar nossas intenções: no final da Grande Depressão americana, um quarto dos adultos fizeram resoluções de fim de ano. Com a entrada do novo século, na chegada do 2000, 40% das pessoas admitiram ter feito. Cumpri-las, porém, é outra história, o que talvez tenha inspirado Samuel Beckett a escrever, “Sempre tentou. Sempre falhou. Não importa. Tente outra vez. Falhe outra vez. Falhe melhor”. Assim tem sido nossa cruzada, tentar sempre, mesmo sabendo que pode não dar certo. Antigamente a resolução mais adotada era ajudar os pobres; hoje as mais populares são perder peso, mudar os maus hábitos alimentares, aderir à preservação do meio ambiente. Mesmo assim, estamos cada vez mais gordos e o meio ambiente, coitado, do jeito que as coisas andam, não passará do dia 21 de dezembro de 3012. Epa, apago o que escrevi; minha resolução para os anos vindouros é ter muito cuidado com o que escrevo! Pode ser que daqui a alguns séculos outras civilizações substituam a nossa e encontrem esses rabiscos – tudo mais se perdeu – e concluam que é uma previsão catastrófica – o mundo vai acabar nessa data! Estudos e pesquisas revelam que 80% das resoluções de fim de ano não chegam ao final de janeiro. Desses 20% de heróicos persistentes, 54% não chegam ao mês de junho, e o restante, os últimos resilientes da boa vontade humana, também não duram muito. Não há registros de nenhuma resolução de ano novo que chegue a 31 de dezembro! Já viu alguém dizer, ao levantar a taça de champanhe e degustar mais uma uvinha, “Vou continuar com as minhas resoluções do ano passado”? Para você não desanimar porque não vai mudar nada em sua vida apenas com boas resoluções, fecho a coluna com a mensagem de um cartão postal escrita no começo do século passado – “Resolva renovar todas as suas velhas resoluções / E adicione algumas novas intenções/ Resolva mantê-las enquanto aguentar / O que mais um pobre homem pode desejar?”
O PIB do ES
Os discursos de posse dos novos prefeitos da Grande Vitória explicam por que os governadores são considerados os prefeitões da Região Metropolitana. Ok, existe a expectativa de cofres menos fornidos em vista das perdas de recursos federais. Mas todos eles – Luciano Rezende (Vitória), Rodney Miranda (Vila Velha), Audifax Barcelos (Serra) e Juninho (Cariacica) – se mostraram dispostos a ter o governador Renato Casagrande a seus respectivos lados e, assim, garantir os investimentos. Com essa vitrine, a Grande Vitória é o PIB do Espírito Santo, a liderança de Casagrande mais que se consolida. Gestos largos Os primeiros dias dos novos prefeitos da Grande Vitória foram orientados por ações de impacto e visibilidade. Rodney Miranda, em Vila Velha, e Audifax Barcelos, na Serra, exoneraram comissionados; em Cariacica Juninho visitou PA. Luciano Rezende, em Vitória, mostrou-se mais comedido. Vamos ver no que vai dar esse gestual todo. Recorde Falando em gestos largos, o novo prefeito e Anchieta, Marcus Assad, bateu recorde no quesito. Como prometera na campanha, ele pegou no pesado e, logo após a posse, de terno e gravata, foi fechar a porta dos fundos da prefeitura. Menos, Assad, menos. Coisa feia Mas o feio mesmo foi o anúncio de redução de gastos, num movimento bem diferente daquele, alegre e eufórico, que se viu no período eleitoral. Tudo bem que Audifax, Luciano, Juninho e Rodney Miranda solicitaram algumas informações acerca da situação da máquina, no que, segundo eles, não foram atendidos. Mas, de qualquer forma, é difícil crer eles estavam por fora do que encontrariam pela frente. Lista suja E ninguém vai tocar mesmo no nome de Camilo Cola (PMDB), cujo Complexo Agroindustrial Pindobas foi incluído na atualização da Lista Suja do Trabalho Escravo? Eleições extemporâneas A partir deste sábado (5) os candidatos que participarão das eleições extemporâneas (3/02) para prefeito de Guarapari, já podem pôr o bloco na rua. As campanhas já estão liberadas pelo TRE-ES. Ricardo Conde (PSB), Orly Gomes (DEM), Carlos Von (PSL), Edinho Maioli (PV) e Beth Hadad (PHS) já podem distribuir santinhos, fazer comícios e caminhadas ao som das inconvenientes peruinhas.O duro vai ser conquistar a atenção dos eleitores. Nesta época do ano Guarapari costuma voltar seu olhar exclusivamente para os turistas. Poupe água A Corregedoria Geral de Justiça, na Enseada do Suá, em Vitória, não evita o desperdício, como diz a musiquinha da Cesan. Na manhã dessa sexta-feira (4), a calçada em frente era devidamente asseada com a água de uma mangueira que vinha do prédio da Corregedoria. E, isso, mesmo jorrando (!) notícias sobre falta d’água pelo Estado. Ô, gente, vamos poupar água, que já chegou o verão. Carimbo Ainda sobre as posses. A ausência do ex-governador Paulo Hartung à posse de Rodney Miranda mostra mais uma vez que o ex-secretário de PH quer imprimir marca própria à sua gestão. Pobre Vila Velha Falemos do presidente da Câmara de Vila Velha, Ivan Carlini (PR). O que passa na cabeça dele para dizer que sempre foi governista, nunca foi oposição? E ele deve achar bonito dizer isso. É muito despreparo para uma pessoa só. Chocante. 140 toques “Caraíva é show…”. Pelo twitter, a deputada estadual Lucia Dornellas (PT) dá mostras de que aproveitou muito bem as férias. Pensamento ”O silêncio do povo é a lição do rei”. Abbé de Beauvoir
Primeiros atos dos prefeitos, trabalho escravo e poluição dominam os comentários
A semana foi de rearranjos nas prefeituras que têm novos chefes. As demissões de servidores que ocupavam cargos comissionados – mais de mil em Vila Velha – pareceram não chocar os leitores de Século Diário, que entenderam que este método faz parte do jogo político. No entanto, a semana iniciou com a notícia que uma empresa de propriedade do deputado federal Camilo Cola (PMDB), o Complexo Angroindustrial Pindobas, foi incluída no cadastro de empregadores flagrados explorando mão de obra análoga à escrava, conhecido como Lista Suja do Trabalho Escravo, do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). A libertação dos trabalhadores foi feita em outubro de 2011, mas o complexo só foi incluído na atualização mais recente, de 28 de dezembro de 2012. Os leitores cobraram providências a respeito do caso, mas alguns deles – que já foram funcionários de empresas do deputado – não se espantaram com o fato. Na quarta-feira (2), o vereador Max da Mata (PSD) foi confirmado para ocupar a Secretaria Municipal de Transportes de Vitória e o vice-prefeito, Waguinho Ito (PR) a Secretaria de Ação Social. O fato dividiu os leitores. Alguns consideraram o vereador apto a assumir a pasta de Transportes, mas questionaram o vice-prefeito na Ação Social, já que esperavam corpo técnico mais qualificado. Na quarta-feira (3) a coluna Socioeconômicas abordou o “desaparecimento” do ex-governador Paulo Hartung (PMDB) por conta do arranjo político feito pelo governador Renato Casagrande (PSB) que deixou os novos prefeitos da Grande Vitória a seu lado. Os leitores, acompanhando o raciocínio, lembraram que em Vila Velha os ideais de Hartung sobrevivem na figura do prefeito Rodney Miranda. Ainda na quarta-feira foram publicadas no Diário Oficial do Estado mais de mil exonerações de comissionados de Vila Velha. O fato não causou surpresa aos leitores que entenderam ser parte do jogo político. Eles também não acham que o número de comissionados vá diminuir, mas que os cargos devem ser ocupados por aliados do grupo que alicerçou o palanque de Rodney na eleição deste ano. O movimento Pó Preto Ponto-Vix vem cobrando uma resposta do Ministério Público do Estado (MPES) a um documento protocolado no órgão em julho do ano passado, que pede, dentre outras coisas, a não liberação da Licença de Operação (LO) da 8ª Usina da Vale e uma série de estudos e justificativas técnicas das últimas ações de controle ambiental feitas sobre as empresas atuantes na Ponta de Tubarão. Assim como a entidade, outras associações de moradores da região que sofre efeitos diretos das poluidoras também se manifestaram na matéria publicada nesta sexta-feira (4) cobrando estudos mais aprofundados sobre os impactos que trazem mais uma usina em Tubarão.