A Casa de Bernarda Alba (1936) foi o último texto de Federico Garcia Lorca, antes de ser assassinado pela repressão da Guerra Civil Espanhola. A peça de teatro que encerra a Trilogia Dramática da Terra Espanhola ganha uma versão dirigida por José Luiz Gobbi, que concebeu o drama com ênfase na opressão feminina e na luta pela liberdade. O espetáculo tem estreia marcada para esta terça-feira (18), na Fafi, e na quarta-feira (19), no auditório do Tribunal de Contas do Estado (TCES). As duas apresentações têm entrada franca. A Casa de Bernarda Alba conta a história de uma matriarca dominadora que após a morte de seu segundo marido decreta um luto de oito anos, enclausurando suas filhas. Algumas não se conformam e veem no casamento a única saída. Gobbi conta que durante a produção e os ensaios houve muito diálogo entre o elenco e todos que estavam envolvidos para que a linha original do texto fosse mantida. “O texto de Lorca é bastante naturalista e atemporal. Procurei interpretá-lo de maneira que nada fosse perdido, mas que também se aproximasse do público atual”, diz. Ele próprio escolheu todas as atrizes e muitas delas foram suas alunas, “o espetáculo requer uma entrega total e convidei as artistas que seriam capazes de interpretar essas mulheres”. O elenco é composto por Bernarda e suas cinco filhas, Angústia, Madalena, Martírio, Amélia e Adela. Pepe é único personagem masculino da trama, mas se mantém sempre distante e ausente. A cenografia será um espetáculo à parte. Criada pelo artista Celso Adolfo, o cenário irá se deslocar e girar enquanto os atores estarão dentro dele. “Ninguém sairá de cena, mesmo que não haja nenhuma ação para o ator”, explica Gobbi. Para o diretor, o cenário é mais um personagem dentro da história devido a sua movimentação e presença no palco. Para ampliar a dramaticidade do universo característico de Lorca, serão utilizados a música flamenca e um figurino especial. Os xales negros de seda que vestem as atrizes vem diretamente de La Paz, na Bolívia. Cada peça pesa em média dois quilos e foram adaptadas especialmente para o espetáculo. Serviço A Casa de Bernada Alba será apresentada nesta terça-feira (18), às 20h, na Fafi. Av. Jerônimo Monteiro, 656, no Centro, Vitória. Na quarta-feira (19), às 13h, será apresentada no auditório do Tribunal de Contas do Estado. R. José Alexandre Buaiz, 157, Enseada do Suá, Vitória. Entrada franca.
Independência ou morte
Há quem diga que é nos momentos de dificuldade é que se descobre sua capacidade de superação. Esse pode ser um caminho que esteja sendo traçado para o Espírito Santo. Sem os recursos que tornaram o Estado completamente dependente de Brasília vai ser preciso criar condições de sobrevivência e aí o governo do Estado vai ter que usar a criatividade. É hora de entender que os grandes projetos industriais que prometiam um futuro de abundância com a internacionalização da economia capixaba só nos deixaram os ônus de uma produção nada sustentável a ao sabor da vulnerabilidade do comercio exterior. Não empregaram quanto prometeram, não recolheram para os cofres públicos o que deveriam e não garantiram o desenvolvimento justo. Investindo em infraestrutura não para interligar os pontos distantes do Estado para diminuir a desigualdade, mas para atender ao interesse da elite econômica do Estado, o governo fez, mais uma vez, a aposta errada. E continua anunciando com orgulho obras milionárias que muito pouco vão contribuir para a melhoria do transporte nas rodovias estaduais ou na movimentação dos capixabas internamente ou na saída do Estado. Priorizando as empreiteiras/financiadoras de campanha, contribuiu para a paralisação de obras importantes como o aeroporto, com suspeitas de irregularidades na execução do serviço. Enquanto isso, pequenos produtores migraram para a Grande Vitória ou para a região litorânea em busca das promessas de emprego nunca cumpridas. Pequenas empresas e indústrias locais fecharam as portas por falta de incentivo, prefeituras do interior sem atrativos para grandes projetos se afundaram em dívidas por não ter de onde tirar recursos, enquanto outras mergulhavam no farto recurso do governo federal, no repasse dos royalties. Em vez de criar condições, muitas vezes por meios torpes, em negociações com empresas para facilitar a vinda, instalação e operação de grandes plantas industriais, driblando a legislação ambiental, criando demandas sociais para as prefeituras e aumentando o gargalo que separa PIB e IDH, é hora de o Espírito Santo tomar a frente de seu destino. Recursos existem, vontade política por parte do governo federal em compensar as perdas, também. O que falta são projetos consistentes, que possam atrair recursos e fortalecer o Estado. É hora de incentivar a indústria local, diminuir as distâncias entre norte e sul, leste e oeste do Espírito Santo. Fomentar não eucalipto, mas o turismo. Investir na educação, na saúde, no transporte público de qualidade e enfrentar a violência. O Estado vai perder dinheiro, as prefeituras também, mas esse novo momento pode ser a sacudida necessária para que a classe política entenda que não dá mais para governar para um grupo e esquecer o restante dos 3,5 milhões de capixabas que contribuem para o crescimento do Estado. Está passando da hora de o Espírito Santo parar com essa história de “somos ricos, somos pobres”, enxugar as lágrimas, levantar e dar seu grito de independência. É isso, ou a morte.
Leitores debatem redução da maioridade penal e aumento da violência
A violência epidêmica que ocorre no Estado passou a ser pauta dos veículos de mídia corporativa locais no início do governo de Renato Casagrande, em 2011. No entanto, na última semana intensificaram as matérias referentes à suposta diminuição no número de homicídios após uma explosão de mortes. As entidades de defesa dos direitos humanos, que vêm há anos tentando abrir um canal de diálogo com o governo formularam o Programa e Educação em Direitos Humanos (PeDH) e o Plano Estadual de Educação em Direitos Humanos (PeEDH), que foram amplamente discutidos com a sociedade civil e servem para nortear a adoção de políticas públicas que também deve auxiliar no combate à violência. O governador, no entanto, não compareceu à assinatura dos documentos, na segunda-feira (10), no Palácio Anchieta e gerou descontentamento nas entidades que aguardavam a assinatura. Os comentários da matéria que relatou a falta do governador http://www.seculodiario.com.br/exibir.php?id=3924também demonstram o descontentamento das entidades. A iminente votação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) n° 33/2012, que reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos para crimes hediondos, tráfico de drogas, tortura e terrorismo pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado também voltou à pauta do noticiário local na semana. A sociedade, que em momento de exposição da violência como antes não havia, naturalmente concorda com essa redução. No entanto, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) já prevê punição para adolescentes envolvidos em atos infracionais. Além disso, o sistema penitenciário do Estado já mostrou que não ressocializa os detentos e os devolve ainda mais perigosos à sociedade. Século Diário discutiu a questão na terça-feira (11) e os leitores mostraram que a redução da maioridade penal não é a solução para a redução da violência. Ainda na discussão sobre a suposta redução dos homicídios no Estado, Século Diário mostrou que ao contrário do que o secretário de Segurança Pública, Henrique Herkenhoff , tem afirmado à imprensa, as mortes não apontam nem tendência de queda, nem de alta. O percentual de queda entre 2011 e 2012 foi de 2,69%, o que não demonstra queda real nos números. Os leitores também apresentaram outros dados que corroboram com os números deste ano e mostram que os homicídios não apresentam queda real. Na quarta-feira (12), Século Diário mostrou que o Ministério Público do Estado (MPES) arquivou o procedimento aberto para apurar as denúncias de tentativa de estupro que recaem sobre o deputado estadual Gildevan Fernandes (PV) contra a funcionária pública Débora Cardoso, servidora da prefeitura de Pinheiros (norte do Estado). A servidora havia protocolado representação no Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) por conta da lentidão nas investigações. Os leitores mostraram indignação quanto ao arquivamento da denúncia e cobraram providências. As entidades de defesa dos direitos humanos reagiram à ausência de Renato Casagrande na entrega do PeDH e do PeEDH por meio de nota pública. As entidades lembraram na nota que os documentos começaram a ser construídos em 9 de janeiro deste ano, quando foi assinado o Decreto n° 2944-R pelo próprio governador, instituindo o Grupo de Trabalho (GT) que teria como missão elaborar o PeDH e o PeEDH. Os documentos são frutos de reuniões do GT, audiências públicas realizadas em todo o Estado durante o ano e sugestões das esferas públicas. No entanto, no dia que marcaria a assinatura e consequente implementação dos documentos, as entidades receberam com pesar a notícia que os projetos estariam suspensos. A única justificativa oficial que as entidades receberam foi que o governador não poderia assinar os documentos por não ter lido. O fato causou estranheza, já que os documentos foram entregues oficialmente durante audiência pública na Assembleia Legislativa pelo GT já no dia 9 de novembro. Mais uma vez, os leitores cobraram mais seriedade do governo com o assunto e a assinatura dos documentos.
Mudança de nome da Aracruz Celulose facilitou aporte de dinheiro público em socorro
A mudança de nome da Aracruz Celulose para Fibria não teve apenas o objetivo de tentar deixar no passado um legado de agressões ao meio ambiente e às comunidades tradicionais, mas também ajudou no recebimento de verbas públicas em um momento crítico. A revelação foi feita em reportagem publicada pelo jornal Valor Econômico, que conta os bastidores das perdas milionárias sofridas pela empresa no último trimestre de 2008 – quase levando o negócio à falência. Por conta do prejuízo obtido em operações com derivativos cambiais, a empresa já tinha fechado um acordo entre os principais acionistas, o grupo Votorantim (que hoje é majoritária na ex-Aracruz) que compraria as ações da família Lorentzen, que fundou a empresa, e de acionistas minoritários. No entanto, a revelação das perdas – até então subestimadas – deixou o negócio em zona de risco, tanto que as negociações chegaram a ser suspensa, aponta o Valor. Em novembro de 2008, a reportagem cita que a revelação do valor das perdas – próximas a R$ 4,2 bilhões – aproximou o grupo Votorantim, único interessado no controle da companhia, da compra da empresa. Entretanto, a companhia iria gastar mais do que está previsto com a compra das ações do grupo Safra, que também pretendia se livrar das ações. Com isso, o valor da operação saltou de até R$ 3 bilhões para R$ 5,42 bilhões. Neste contexto, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) surgiu como o parceiro ideal para o negócio. No entanto, o banco estatal não poderia financiar a operação de compra do controle de Aracruz, uma vez que o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva havia declarado, em público, que o órgão não iria financiar “empresas especuladoras”, demonstra. Contudo, a mudança do nome de Aracruz Celulose para Fibria colaborou que a companhia fosse novamente socorrida pelo dinheiro público, assim como remete a criação no final da década de 1960 e início da década de 1970. Durante a ditadura militar, o idealizador da Aracruz, Erling Lorentzen, recebeu um vultoso empréstimo do BNDES, livre de qualquer cláusula que a obrigasse, como era praxe no banco, a ficar com os custos da inflação, muito elevadas à época. No caso atual, a chamada “Aracruz especuladora” daria espaço a uma nova companhia, criada a partir da fusão com a Votorantim Celulose e Papel (VCP). A operação garantiu a participação societária ao banco público, que deve aportar até R$ 2,4 bilhões até o final da operação em 2014. Uma conta feita por um mesmo beneficiário – com nome diferente –, mas que deve ser paga pelo mesmo credor, o povo brasileiro.
Interesse político é verdadeiro motivo do impasse da BR-101
Um dos principais problemas logísticos do Espírito Santo é a BR-101, que teve no início do ano sua concessão vencida pela Rodovia da Vitória. A Construtora CR Almeida já deveria estar com as obras em fase inicial, não fosse o interesse político envolvido na questão. Embora o Tribunal de Contas da União (TCU) tenha liberado o contrato com o consórcio Rodovia da Vitória, uma batalha judicial está sendo travada para impedir que o grupo passe a explorar a BR, um negócio que gira em torno de R$ 7 bilhões. Uma batalha que pode durar anos. Enquanto isso, a rodovia continuará no velho estado de calamidade já conhecido de seus usuários. O interesse político na vitória do consórcio capixaba para a exploração da rodovia ultrapassa os limites do Espírito Santo. Em agosto deste ano, o jornal O Globo revelou uma das facetas por trás da manobra para tirar da EcoRodovias a vitória no certame. O jornal destacou a relação entre um dos sócios do Consórcio Rodovia Capixaba, Fernando Aboudib Camargo e o líder do PMDB na Câmara dos Deputados, Henrique Eduardo Alves (RN), sócios no Sistema de Comunicação Cabugi, no Rio Grande do Norte. Alves, segundo O Globo, articulou junto aos ministros do Tribunal de Contas da União, que o consórcio capixaba conseguisse o contrato de concessão da BR-101. O deputado não viu problemas em tentar intervir em uma decisão do TCU sobre a concessão de uma rodovia federal em favor de um amigo. Com a justificativa de evitar o atraso nas obras da BR, o governo do Estado também entrou na discussão de uma forma também atravessada. Em vez de tentar acelerar a assinatura do contrato com a empresa vencedora do certame, que teve parecer favorável do Tribunal de Contas, o governo quer abrir uma nova licitação para concessão da rodovia. O que estaria por trás dessa movimentação é o fato de os integrantes do consórcio capixaba terem além da influência política de seus membros, o compromisso dos agentes políticos em que depositaram financiamento de campanha nas últimas eleições. Para esquentar ainda mais o clima, em novembro passado, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região negou o pedido para liberar o contrato com o consórcio vencedor. A denúncia foi que a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) teria violado edital e tolerado irregularidades. O problema é que na época do leilão a forma como o consórcio capixaba conseguir barrar o contrato, abrindo pacotes de propostas após encerrado o leilão para fazer o comparativo da documentação apresentada, o que é proibido. Dessa forma, a expectativa é de que a empresa vencedora não abra mão da concessão e trave com a segunda colocada uma longa guerra judicial, transformando as obras da BR-101 em uma novela tão longa quanto a do aeroporto de Vitória, para desespero da classe política.
Cerca no entorno da restinga ajuda a combater erosão
O projeto piloto Amigos da Restinga está mudando a cara das praias de Vila Velha. Com o objetivo de preservar a restinga e prevenir a erosão, a medida vem fomentando o trabalho que antes era desenvolvidos pela própria população, só que agora, com o apoio de entidades da sociedade civil e do poder público. A iniciativa oficial partiu da Secretaria de Meio Ambiente (Semma), que está desenvolvendo um projeto junto às associações de moradores dos bairros de Praia da Costa, Itapuã e Itaparica; associação Preserve o Barra Sol de Bodyboard, a Ong Movive, entre outras entidades, a fim de recuperar a restinga das praias de Vila Velha. O cercamento das espécies é feito de acordo com especificações do Ministério Público Federal (MPF) e do Ministério Público Estadual (MPES), que e já é desenvolvido na Praia de Itaparica. O próximo passo, segundo a Prefeitura de Vila Velha, é expandir para Praia da Costa e Itapuã. Nas praias da Barra do Jucu a iniciativa também é desenvolvida por entidades sociais há anos. Na prática, apesar de parecer uma simples vegetação, a restinga serve de contenção dos grãos de areia para manter o nível da água no solo, para preservar nutrientes e também como refúgio para a vida silvestre local, como o caso das aves migratórias. A oceanógrafa Mariana Magnago também defende o projeto e explica que a restinga também faz o papel de conter o impacto das ondas na praia. “No verão, em condições de tempo bom, com menor intensidade de ondas, a vegetação de restinga costuma expandir seus domínios e reter areia. No inverno, em que as condições de ondas são mais intensas, a vegetação ajuda a amortizar os efeitos das ondas, evitando que a praia perca sedimento”, detalha. Ao retirar essa vegetação, além de descaracterizar a região, a praia fica propícia a sedimentação da orla, podendo levar a erosão. O projeto, segundo a Prefeitura Municipal de Vila Velha, também tem o objetivo de propor um acesso à praia sem que as plantas sejam fragmentadas. Para isso, os locais mais devastados serão interligados àqueles mais preservados, formando corredores de biodiversidade. Já as plantas exóticas e invasoras serão erradicadas, dando lugar a espécies de exemplares nativos. De acordo com as diretrizes para elaboração de projetos de urbanização na orla marítima, do Instituto de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (IEMA), o projeto de reurbanização da orla garante que espécies exóticas como castanheiras, coqueiros e outras, que não fazem parte da natureza da praia, deverão ser remanejadas para outros locais. As espécies que devem permanecer são as relevantes para a orla e que garantem um ecossistema compatível com os atributos naturais da orla. A analista ambiental Núbia Thomazini explica que a fase inicial do projeto é conscientizar os cidadãos. “Faremos um trabalho de educação ambiental para informar e envolver os moradores, turistas e usuários da praia”, conta.
Muito além do calado dos portos
Reportagem: Kauê Scarim Fotos: Gustavo Louzada Afinal, é possível que exista alguma consequência ruim, seja social ou ambientalmente, na instalação de megaempreendimentos e em grandes projetos econômicos? Por princípio, deve-se partir da premissa que, sim, é possível. Comecemos por aí. Porém, à luz dos olhos, parece que ninguém mais se pergunta sobre as consequências. É o caso, por exemplo, de quem acompanhou os pronunciamentos das autoridades estaduais e nacionais sobre pacote de nove plataformas portuárias que serão construídas no Espírito Santo a partir do próximo ano, todas elas presentes no “Programa de Investimento em Logística: Portos”, lançado no último dia 6 pelo governo da presidente Dilma. Ajudada por uma parte da mídia, pelo jeito, boa quantidade dos receptores das informações sobre o projeto responderiam “não” sem sequer se questionar do porquê. É que o lobby tem sido muito forte. Para quem não sabe ou não quer ter o trabalho de procurar o termo no Google, aqui vai a definição. Lobby é o nome que se dá à atividade de pressão de grupos, ostensiva ou velada, com o objetivo de interferir diretamente nas decisões do poder público em favor de interesses privados. É claro que, no caso dos portos, há muito interesse privado. Das nove plataformas, oito terão investimentos unicamente particulares, a partir de licitação. A outra – o Porto de Águas Profundas (Superporto), que deve ser construído em Vila Velha – vai funcionar a partir de uma parceria público-privada. Tem-se dito por aí que a previsão de número de empregos que seriam gerados chega ao exorbitante número de 25 mil, nos nove portos. Quem tem alguma memória do período do governo Paulo Hartung e gosta de fazer contas deve se lembrar que, à época, de tão grandes as promessas de empregos, haveria mais postos de trabalho do que população – gente mesmo! –, no Espírito Santo. Em geral, os monstruosos números de supostos empregos cumprem basicamente a função de mascarar uma quantidade igualmente grande ou maior de impactos sociais e ambientais. O problema é que os impactos tendem a ser mais reais do que os postos de trabalho, principalmente se forem considerados as vagas que surgem para capixabas – é só se lembrar da eterna crítica de que “não há” mão de obra qualificada no Estado. Assim, o que acontece em geral é uma grande “importação” de profissionais. Com os nove portos, a orla capixaba seria absolutamente picotada. E, salvo engano, nestas praias há muita coisa. Por exemplo, milhares de seres humanos – ou seja, animais bípedes que se distinguem dos outros por possuírem polegar opositor e telencéfalo altamente desenvolvido. Mas, diferentemente dos outros seres humanos, nestas praias vivem alguns que necessitam do mar para sobreviver: são pescadores. Meio fora de moda, o.k. Mas que existem, existem. Pergunta básica: com nove portos a mais, onde estes seres humanos vão poder pescar, no intuito de obter o fruto de sustento de si e de sua família, os peixes? A instalação de portos afeta muito o pequeno pescador artesanal, cuja produção depende diretamente da zona costeira. No município de Aracruz, por exemplo, diversos pescadores perderam importantes pontos pesqueiros para empreendimentos portuários, sendo obrigados a inclusive mudar de profissão e parar de pescar. Segundo Hudson Pinheiro, da ONG Voz da Natureza e pesquisador da California Academy of Scienses, nos Estados Unidos, a rota das embarcações condicionam a perda de pesqueiros, uma vez que os barcos destroem e rebocam instrumentos de trabalho como redes e espinhéis. “Este conflito existe na proximidade de todos os portos existentes e irá se intensificar”. A ancoragem de embarcações também traz impactos diretos nos habitats, pois destrói recifes e os fundos de rodolito (espécie normalmente confundida com os corais), extremamente importantes para grande parte da biodiversidade marinha. “Todos esses impactos são previstos para se intensificar nas zonas costeiras, em áreas extremamente importantes para a criação de peixes e camarões”, afirma Pinheiro. O que parece estar colocado, no fundo, é a perda de um patrimônio natural e cultural do Estado cuja importância histórica não é possível estimar. Igualmente inestimável é o impacto ambiental decorrente do empreendimento. A atividade de dragagem, por exemplo, que é constantemente feita durante toda a existência do porto para ampliar a sua profundidade, destrói e modifica habitats. Além disso, o substrato marinho que é retirado é posteriormente lançado no próprio mar, em locais chamados de “Botas-Foras”. Nesses lugares, o material lançado começa a se dispersar para novos ambientes, destruindo outros habitats. É, por exemplo, o caso da Grande Vitória. Boa parte dos nove portos será destinada à exportação. Com o mercado internacional em queda, com a crise – é só lembrar-se da queda do montante de orçamento da Vale para o próximo ano –, como serão arranjados os compradores para a produção a ser escoada? Além disso, afinal, o Espírito Santo vai exportar o quê? A grande maioria entre os poucos itens de exportação produzidos no Estado, em especial os industriais (de celulose a minério), já têm os seus próprios portos para a exportação. Para citar: o Praia Mole, da Vale, e o Portocel, da Aracruz Celulose (Fibria). Uma alternativa possível seria exportar itens de outros Estados, mas o Espírito Santo está longe dos grandes centros produtivos. O próprio governador Renato Casagrande até tentou com os amigos quase-capixabas de Minas Gerais, mas não conseguiu muita coisa. Além disso, o Estado não possui infraestrutura adequada para conseguir escoar grande produção. Isso coloca o Espírito Santo fora da disputa dos peixes grandes na exportação, focada em portos específicos do Sul e do Nordeste. Uma ação possível, como divulgado pelo governo estadual, é investir largamente em logística para reposicionar o ES. Precisaria, no mínimo, de uma grande malha viária e ferroviária, além da construção de polos industriais, hoje inexistentes. Outro fator mascarado é que, no caso da exportação, há desoneração do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). Ou seja, diretamente,
?? hora de Casagrande começar a cumprir as promessas de campanha
Renata Oliveira e Nerter Samora Passados quase dois anos de seu primeiro mandato, é hora de Casagrande começar a preparar o caminho para a reeleição. No campo político, tudo certo. Mas e com o eleitor, tá combinado? Renata – O governador Renato Casagrande vai para a segunda parte de seu primeiro mandato já iniciando as articulações que garantirão seu palanque à reeleição em 2014. Nesse cenário, o governador tem em suas mãos uma faca de dois gumes. Se por um lado se estabeleceu como grande líder político, por outro precisa começar a mostrar serviço e fazer mudanças significativas em sua gestão. Nesses primeiros dois anos, a sensação é de que o governo não tem grandes realizações para mostrar e um governo que elege com o rotulo do socialismo precisa mostrar trabalho na nessa área. Apoio político é bom, mas sem aprovação popular, Casagrande pode ter dificuldade em consolidar sua candidatura. Nerter – Bom, do ponto de vista político, Casagrande vai muito bem. Estabeleceu novos parâmetros de diálogo com a classe política e manteve a unanimidade que vem garantindo sua governabilidade. Sua habilidade em manter unida a base é tanta, que conseguiu atrair para perto de si até os partidos que estiveram contra ele na eleição de 2010, como o DEM e o PSDB. Em vez de um controle político unilateral, conseguiu de uma forma mais, digamos, democrática manter o sistema político que garantiu os oito anos de Paulo Hartung (PMDB), sem precisar para isso pisar no pescoço de ninguém. Renata – É verdade. Surpreendeu, inclusive, a classe política com tamanha habilidade. Na eleição deste ano, mexeu com as peças no tabuleiro eleitoral de forma eficiente e silenciosa e com isso, saiu do processo eleitoral como o grande vencedor do ano. Enquanto isso, seu antecessor amargou a desgaste de ter feito as escolhas erradas e não vai conseguir o papel de destaque que pretendia ter nas articulações de 2014. Casagrande, em vez de definir como Hartung os atores que disputariam ou não as eleições, preferiu apostar em vários nomes, garantindo assim seu DNA nos palanques vencedores, independentemente de quem vencesse. Assim, desagradou o menos possível. Nerter – Casagrande tem um trunfo em relação à disputa de 2014, que é a vaga do Senado. Dificilmente Hartung, depois do desgaste deste ano, deve pleitear a vaga. Nesse sentido, abre-se um campo de atores políticos com um capital político menor que o dele, que podem se aventurar a conquistar a vaga. Mas, evidentemente, essa discussão deve passar pelo Palácio Anchieta. E o governador deve antecipar essa discussão até para garantir o apoio necessário para seu palanque de reeleição, acomodando as lideranças políticas. Ele sinaliza favoravelmente para o prefeito de Vitória, João Coser (PT), mas se isso vai se concretizar vai depender as conversas do próximo ano. Renata – Bom, mas se politicamente as articulações de Casagrande vão de vento em popa, no que se refere ao seu ganho de capital por conta do trabalho apresentado não é lá essas coisas. Em dois anos de governo ele não conseguiu evitar que os setores sociais cobrassem respostas que até agora não foram dadas. Hartung, por meio de um rígido controle da imprensa, conseguia estancar qualquer sangria que pudesse ser desatada sobre os pontos fracos de seu governo. Casagrande não consegue. Nerter – É verdade. Ele já sofreu com críticas no setor da saúde e cedeu, basta ver o processo de terceirização da saúde que deve ser acelerado em 2013, sem falar na pressão constante sobre seu secretário de Saúde, que não é ligado ao setor privado. Na área da educação também há uma insatisfação ainda velada, que não vai demorar muito a explodir. Mas o que preocupa mesmo é a segurança. Esse pode ser o calcanhar de Aquiles do governo Casagrande, porque os números continuam altos, a sensação de segurança continua distante e a Secretaria de Segurança continua capenga. Em vez de tomar uma atitude de repercussão, como fez o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, Casagrande tolera a situação para não entrar em rota de colisão com seu antecessor. Enquanto isso, vai pagando uma conta que acumulou do governo passado. Conta essa que está ficando cada vez mais cara. Renata – Casagrande, antes mesmo de tomar posse, elegeu a segurança como sua grande prioridade. Disse que cuidaria pessoalmente do setor, acompanhando a evolução dos números. Entrou no governo, fez planejamentos integrados, apresentou o projeto Estado Presente, mas até o momento isso não se refletiu na resposta que a sociedade esperava. Embora tenha se fortalecido politicamente, Casagrande é visto como um governador fraco. Isso não é bom. Como parte da mídia entrou no discurso superficial de alimentar a intolerância com a violência, isso pode respingar no Palácio Anchieta e os secretários da área não parecem muito preocupados em defender a imagem do governador, até porque não têm identidade política com Casagrande e sim com Hartung. Nerter – O próximo ano vai se tornar assim, decisivo para Casagrande conseguir criar a musculatura necessária para erguer seu palanque de reeleição. O problema é que o cenário político-econômico que se desenha não é o mais apropriado para ele conseguir dar as respostas que a população quer. Para isso precisaria investir nos chamados gastos permanentes, como, por exemplo, aumentar o efetivo policial, que pode não ser a solução do problema, mas aumentaria a sensação de segurança. A ampliação do número de vagas nos hospitais da Grande Vitória, com a inauguração do Dório Silva, pode amenizar as críticas ao setor, mas deve ser algo temporário. Casagrande prometeu descentralizar o desenvolvimento e até o momento continuamos a ver a concentração de renda e um crescimento econômico do estado artificial, que não se reflete em melhorias das condições de vida da população. Renata – O problema é Casagrande se elegeu em um palanque de continuidade, mas ficou implícito em seu discurso que essa continuidade do crescimento do Estado, em sua gestão, seria voltada para as políticas públicas. Ficou implícito
PSB vai de Conde
O PSB vai novamente de Ricardo Conde (foto) em Guarapari, convencido de que ele tem amplas chances nessa nova disputa a prefeito. Uma avaliação feita por companheiros de partido no município admite que Conde tem a fórmula certa para vencer o candidato do prefeito Edson Magalhães (PPS), seu vice na eleição deste ano, Orly Gomes (DEM). Qual seja mostrar que estava certo quando dizia que Magalhães não poderia disputar, como tentou na eleição anterior. O que custou-lhe, inclusive, uma queda e tanto nas pesquisas. Agora é ir para o palanque e mostrar que quem mentiu foi Magalhães. Reforço Conde também terá o apoio do senador Magno Malta (PR). O republicano fechou com Conde uma participação efetiva na campanha. Isso estende a campanha do socialista aos bairros periféricos. Na cara O tal núcleo de esquerda que apoiou Rodney Miranda (DEM) bateu com a cara na porta quando quis influir da formação do secretariado dele. O núcleo perdeu o senso político principal: esquerda não anda de braços dados com a direita. Bateu firme Ao comentar, em sua coluna no jornal O Globo, a sessão do Congresso Nacional de derrubada do veto da presidente Dilma no caso dos royalties, Miriam Leitão, bateu firme na deputada Rose de Freitas (PMDB). E olha que elas estiveram juntas na redação de A Gazeta. Miriam já como editora e Rose iniciando-se como repórter. Nada a ver A história de que foi a Rose de Freitas foi quem cedeu o ex-reitor Rubens Racelli ao prefeito eleito de Cariacica, Juninho (PPS), não procede. Primeiro, a Rose apoiou o deputado Marcelo Santos (PMDB). E depois, o ex-reitor, no período em que esteve com Rose, o único esforço despendido era botar mãos na grana do cargo no dia do pagamento. O resto, firula. Cotado Ledir Porto, que está deixando o cargo na área e segurança do prefeito Neucimar Fraga (PR), é um nome em cogitação para integrar o governo de Luciano Rezende (PPS) em Vitória. O seu trabalho, nesta área, é bem elogiado, pelas passagens pela prefeitura da Serra e de Vila Velha. Armação Já estão armando para cima do prefeito eleito de Viana, Gilson Daniel, do PV. Querem tomar-lhe o cargo. PENSAMENTO: “Uma guerra política é aquela em que todos atiram pelos lábios”. Raymond Moley
Coração grande II
O governador Renato Casagrande tem atraído para perto de si os prefeitos que estão deixando os cargos à frente dos maiores colégios eleitorais do Estado, abrindo vagas em sua equipe de governo para uns, ou movimentando-se politicamente para viabilizar as pretensões futuras para outros. Mas Casagrande não trabalha apenas com os prefeitos que já estiveram nas prefeituras, também se movimenta para compartilhar as gestões que se iniciam, sobretudo, na Grande Vitória. Na Capital, ele foi o principal artífice para a viabilização da eleição de Luciano Rezende (PPS), e na Serra o prefeito Audifax Barcelos é do PSB. No município de Cariacica, o prefeito eleito Geraldo Luzia, o Juninho (PPS), também mostrou o movimento de aproximação com o PSB, com o convite ao presidente do PSB, Macaciel Breda, para comandar secretaria no município – o que não se confirmou por questões estratégicas –, e até em Vila Velha, do prefeito eleito Rodney Miranda, do DEM, também dialoga com os socialistas. Assim, o governador vem costurando sua “unanimidade suave”, como destacou o professor Roberto Simões em sua entrevista a Século Diário. Vem se cercando de lideranças que mantém um capital, mesmo depois das derrotas deste ano, aliado aos agentes da “mudança”, e até mesmo os que tiveram derrotas significativas, como o ex-prefeito de Vitória Luiz Paulo Vellozo Lucas (PSDB) ganham um espaço nesse novo modelo de controle político estabelecido por Casagrande. Esse é, evidentemente, seu maior trunfo para garantir sua reeleição. Atraindo todas as forças políticas do Estado, não haverá quem queira enfrentar o colossal palanque do socialista. A impressão que se tem é que Casagrande vai criar uma dependência das forças políticas em relação a ele, dessa vez não pela força, mas pelo compromisso, o que torna sua unanimidade muito mais consistente, já que ninguém esconde pedras nas mãos para atirar no governador se ele tropeçar. Agora, se isso é bom para a população, aí é outra história.