Gilmar Ferreira questiona ausência de políticas e setores da sociedade em pesquisa realizada pela prefeitura A Prefeitura de Vila Velha disponibiliza uma pesquisa com o objetivo de contribuir para elaboração do Plano Municipal de Direitos Humanos e Cidadania. Contudo, com base na análise do questionário, o militante do Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH/ES), Gilmar Ferreira, acredita que a iniciativa não vai contemplar toda a população. “Mais parece querer envolver as pessoas para elaboração de algo que se assemelha a uma carta de intenção e esquece de parte da população”, aponta. A pesquisa é realizada por meio da Secretaria de Assistência Social e dos Programas de Pós-Graduação em Sociologia Política, Segurança Pública e Arquitetura e Cidades, da Universidade de Vila Velha (UVV). De acordo com uma das coordenadoras do Plano, Juliana Boechat, o objetivo do estudo é “entender a percepção de direitos humanos e cidadania dos munícipes e avaliar as prioridades da população com vistas à elaboração do Plano Municipal de Direito Humanos e Cidadania de Vila Velha, garantindo a participação popular na formulação das políticas públicas para o município”. Os temas contidos no questionário são vinculados à raça, religião e cultura; acessibilidade, mobilidade e desenvolvimento urbano; gênero e sexualidade; e infância, juventude e pessoa idosa. Entretanto, destaca Gilmar, as perguntas não abarcam a população em situação de rua e os povos tradicionais, como ribeirinhos, ciganos e religiões de matriz africana. “Assim, deixa de ser inclusivo”, avalia. O questionário pergunta que importância as pessoas dão para algumas ações. Para isso, disponibiliza a numeração de 1 a 5, sendo 1 não importante e 5 importante. No que diz respeito às mulheres, pergunta que importância tem ações como qualificação dos profissionais da saúde para atender as mulheres de forma geral, especialmente aquelas vítimas de violências; programa de prevenção de saúde para as mulheres, incluindo seus direitos reprodutivos e as situações em que o aborto é permitido por lei; e programa de defesa das mulheres e combate ao machismo nas escolas. Gilmar questiona a ausência de pergunta a respeito da política de autonomia financeira e combate efetivo ao feminicídio. Em relação à saúde, ele acredita que falta abordar questões como a Rede de Atendimento Psicossocial (RAPS). Na infraestrutura urbana, aponta que faltou algo que considera “básico”: iluminação pública. Quanto à metodologia, classifica como “fraca”, por não fazer a introdução dos temas nem dados referentes à realidade da cidade. “Fica uma espécie de prova de marcar x, de ensino fundamental”, afirma. O Plano de Direitos Humanos é uma iniciativa inédita em municípios capixabas. Na ocasião de seu anúncio, em maio deste ano, Gilmar Ferreira destacou “possibilidade de avanço”, mas alertou para a importância de criar o Conselho Municipal de Direitos Humanos e a Secretaria Municipal de Direitos Humanos. Além disso, afirmou que a criação e aplicação do plano iriam exigir da gestão de Arnaldinho Borgo (Podemos) um “novo olhar para a cidade em todos espaços e segmentos”. Dessa forma, defendeu, seria preciso pensar o território no qual seja possível a todos circular. “Ao construir uma obra, é preciso pensar que todos têm direito de circular naquele espaço. É fazer o contrário do que fazem, por exemplo, na questão da mobilidade. Para as cidades, se pensa uma mobilidade para circulação de carro, e não de pessoas e da diversidade que compõe um determinado universo de pessoas”, disse. No que diz respeito à parceria com a UVV, uma instituição de ensino privada, Gilmar afirmou que não há nenhuma ilegalidade nisso e que acreditava que não afetaria o conteúdo das formações e outras atividades que fossem executadas. Contudo, apontou que há instituições públicas, como a Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e o Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), que poderiam contribuir no processo de elaboração do plano, o que acarretaria em “economia dos recursos públicos”. ‘Plano de Direitos Humanos não pode ser mera peça publicitária eleitoral’ Gilmar Ferreira defende que plano a ser criado em Vila Velha busque erradicar violações em todas as áreas https://www.seculodiario.com.br/direitos/plano-de-direitos-humanos-nao-pode-ser-peca-publicitaria-eleitoral
Escritora capixaba lança seu primeiro livro de poemas na Flip
Obra de Jeovanna Vieira, composta por 39 poemas, tem vocação para diário de bordo de quem empreende grandes cruzadas Karol Felício Deserto sozinha, o primeiro livro de poemas da escritora capixaba Jeovanna Vieira, de Vila Velha, será lançado em um dos mais representativos eventos culturais do país, a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), realizada entre esta quarta e domingo (22 e 26). A publicação da editora Pedregulho, também capixaba, tem a tela da artista carioca Julia Debasse como capa e disparador para o livro cujo tema é a “inadequação”. Em Paraty, Jeovanna Vieira participará das programações das casas Gueto, Philos e Poéticas Negras, e, na baía de Paraty, do Sarau no Mar, a bordo do saveiro do Professor Johannes Kretschmer (UFF). Para a leitura de Deserto, convidou a poeta carioca Juliana Krapp, autora de Uma volta pela Lagoa (Círculo de Poemas), de quem também lerá os poemas lançados em julho deste ano. Proposto pela escritora capixaba, “O poema secreto” é um evento colaborativo que vai reunir cerca de 20 poetas que lançaram recentemente ou estão lançando livros de poemas na Flip. “Joguei a ideia para os autores e os contornos da ação foram sendo dados pelos participantes. São autores de todas as regiões do país. Poetas são sempre independentes é um pré-requisito”, brinca. “A gente só sabe que vai trocar livros e ler poesias um do outro tirando o papelzinho, como nos amigos secretos. O resto vamos descobrir na hora”, acrescenta. A escritora defende que é importante a poesia ir para a rua, ocupar as praças, trazer para a Festa Literária um pouco de anarquia. A obra Deserto sozinha é composto por 39 poemas e tem vocação para diário de bordo de quem empreende grandes cruzadas, explorando sobretudo as paisagens internas. É possível acompanhar a personagem-narradora nascer, manobrar o tempo, percorrer territórios – sempre em busca de perguntas -, tendo a insatisfação como bússola. Divulgação “No deserto, a solidão permeia tudo. Mas a solidão de Jeovanna não se restringe ao deserto. O deserto de Jeovanna não se restringe à solidão. A poeta se identifica, acima de tudo, pela inadequação, aquele sentimento responsável por nos fazer sozinhas, ainda que acompanhadas. Sozinha e inadequada, o eu lírico (que neste livro, sem dúvida, é uma mulher) percorre espaços inóspitos, sejam externos ou internos. Espaços que não lhe cabem. Seja na sua própria casa, com sua família, seus irmãos, seus filhos. Seja no deserto, a milhares de quilômetros. A distância é uma constante e é a partir dela que a poeta se coloca, tão íntima, tão densa, a ponto de quase nos fazer sufocar”, define Carla Guerson, escritora e idealizadora do Coletivo Escreviventes.A obra, de intensa dramaturgia, amplia os conceitos de solitude e questiona as companhias: o zoom out coloca o leitor, a personagem-narradora, os cenários, os seus coadjuvantes e a autora em perspectiva com o mesmo protagonismo dos fungos. A geografia do texto expõe rupturas, valas, cânions, abismos e lapsos, ao mesmo tempo que aproxima o sentido da tundra, da savana, da estepe, das dunas, ou transforma em cena uma ida corriqueira ao supermercado do bairro. “E o chão, esse que pisamos agora? Não será todo o mesmo deserto? Não seremos todos um mesmo organismo? E não estaríamos todos irremediavelmente acompanhados e indubitavelmente sozinhos?”, questiona a autora, mostrando em seus apontamentos sua verve observadora e destemida ao desnudar-se em íntimos detalhes – seja na umidade da infância, na aridez de crescer, na transformação de uma filha em mãe, no assassinato de um deus mítico ou no ato contínuo de escavar. Virgínia Mordida Jeovanna também se prepara para a chegada da obra Virgínia Mordida” nas livrarias de todo país no primeiro semestre de 2024, com a editora Companhia das Letras. No livro, lançado de forma digital no ano passado, a autora mostra que a violência psicológica não é exclusividade de mulheres de um determinado perfil. “Normalmente se acha que isso acontece somente com aquelas que não tiveram oportunidades, estão em situação de vulnerabilidade”, diz. Os perfis de Virgínia e Carmem contrariam isso. Com famílias estruturadas e carreira estável, ambas sofreram violências psicológicas por parte de um mesmo agressor, que, conforme afirma Jeovanna, “abocanhou suas vidas”, mostrando que a violência contra a mulher é algo estrutural, acometendo a todas. Com a obra, a escritora foi finalista da 6ª edição do Prêmio Kindle de Literatura, organizado pela Amazon e pela Editora Record. Livro de escritora capixaba é finalista do Prêmio Kindle de Literatura – Século Diário https://www.seculodiario.com.br/cultura/livro-de-escritora-capixaba-e-finalista-do-premio-kindle-de-literatura
Um novo ano
Em 2024, um fato social importante para a classe trabalhadora será as eleições municipais O tempo está passando e aí vem mais um Natal, mais um Ano Novo, mais um Carnaval, para então iniciarmos mais um ano, agora o de 2024. Nesse ritual de passagem, tratamos do espírito do Natal, do feliz Ano Novo e das festividades da carne, o nosso grande Carnaval, onde tudo é alegria. No próximo ano, teremos um fato social muito importante, quando escolheremos quem vai nos governar nos cargos municipais, majoritário e proporcionais, o prefeito ou prefeita e os vereadores e vereadoras da nossa cidade, nos vindouros quatro anos de um mandato político. Nos diz a música que é “na nossa cidade que se começa a ser feliz. Que a gente parece diferente, mas são eles tão iguais, que ser diferente é até bom demais”. Quando observamos a representação política, nos cargos de prefeitos e vereadores nas cidades onde vivemos, percebemos que é a minoria que representa o povo trabalhador, a maioria está defendendo quem explora o trabalho humano, como os empresários, os grandes comerciantes e os fazendeiros. O povo trabalhador, que vive de seu trabalho, precisa buscar o equilíbrio nesta representação. Para defender nossos interesses e atender nossas necessidades, precisamos conquistar o equilíbrio das forças políticas nas câmaras de vereadores e nas prefeituras, e isso se faz com boas escolhas de quem verdadeiramente nos representa, é dos nossos e defende nossa causa. Então acompanhar o processo eleitoral e fazer boas escolhas é nosso dever e responsabilidade. Para isso, precisamos estar atentos e fortes e identificar quem realmente está comprometido com a defesa de nossa causa enquanto povo trabalhador. É nosso objetivo defender a democracia e suas instituições, combatendo todo tipo de conservadorismo e retrocesso, em direitos e igualdade entre os seres humanos. A vida real é feita de disputas de interesses, e o nosso interesse, enquanto classe trabalhadora, é de trabalho, condições dignas de vida e participação na distribuição da riqueza produzida pelo nosso trabalho. As eleições de outubro de 2024 acontecem na nossa cidade, que nós conhecemos bem, e as escolhas de representantes que faremos será muito importante para a renovação das lideranças políticas que se apresentam para nos governar, principalmente para o equilíbrio de forças políticas nas câmaras de vereadores, aumentando o número daqueles que tenham compromisso com os nossos interesses e necessidades, para um mandato de quatro anos. Nossas cidades já têm ares de metrópole, é grande, diversa e complexa, e isso torna necessário estimular a diversidade para que ocupem espaço na política, principalmente, mulheres, pessoas negras, LGBTQIA+, que hoje são minoria nas representações políticas. O Brasil é diverso em seu povo, e alguns setores sociais sofrem na carne as opressões, as discriminações, o preconceito e as injustiças de uma sociedade desigual, principalmente no mundo do trabalho, e esses setores sociais ainda não se fazem representados na política local. A inclusão do povo trabalhador no orçamento público começa pela sua representação nos espaços de decisões políticas de forma equilibrada, proporcional ao seu tamanho e sua importância na sociedade. O que o povo quer é trabalho, renda e uma economia que funcione gerando emprego, melhores salários e proporcionando qualidade de vida para todos. O povo trabalhador busca justiça para todos, fortalecer a democracia, onde todos tenham sua liberdade garantida, seu direito de expressar sua opinião, que a verdade e a ciência prevaleçam, e as mentiras e as manipulações da verdade sejam responsabilizadas e punidas conforme a nossa Constituição. Para isso acontecer é preciso que tratemos de política sim, de uma política onde haja justiça para todos, precisamos conversar com os nossos, seja na família, na igreja, na escola, no trabalho, no esporte, em nossos encontros sociais, e afirmarmos que queremos igualdade na representação política do nosso povo. Não é justo observarmos nossos governantes, seja no executivo ou no parlamento, e vermos que os representantes do povo, daqueles que vivem de seu trabalho diário, são sempre uma pequena representação, uma minoria, enquanto a representação dos que exploram o nosso trabalho ocupa quase a totalidade dos espaços de decisões políticas. Assim nunca teremos um feliz Natal nem um próspero ano novo e não vamos festejar a carne e a colheita no nosso querido Carnaval. “Se comparada ao país, nossa cidade parece pequena, mas é na nossa cidade, que se começa a ser feliz”. Observe que “a vida ensina e somos aprendiz”. A cada dia, com nossas escolhas aprendemos a ser feliz. Fazer a boa política é fazer boas escolhas de quem defende nossos interesses e nossas necessidades, para nos bem representar na política, no executivo e no parlamento.
A guerra privada
Se nos eliminamos coletivamente salvamos o clima, mas então o que adianta ter bom tempo? Ligo a televisão e só falam em guerras, obras inacabadas, verbas desaparecidas, assaltos e feminicídios. Mudo de canal e só tem filme de horror e/ou pancadaria. Vou pro fogão e queimo o feijão, talvez um gesto inconsciente de protesto pela eliminação coletiva do bom senso e do bom tempo. Mudo de canal e a reportagem mostra um país onde dois milhões de pessoas não têm banheiro dentro ou fora de casa. Votou na Índia? Errou! Isso acontece no Brasil de grandes vitórias nos campos de futebol, com jogadores ganhando em euros. * Nos meus tempos de professora primária passei por escolas sem banheiro ou com banheiros lá no fundo do quintal. Com chuva ou sem chuva. Quanto tempo tem isso? Perdi a conta. A Índia fez uma campanha recente, “Índia limpa”, para eliminar o problema das necessidades fisiológicas eliminadas a céu aberto. Não eliminou, mas diminuiu, dando incentivos para a construção de privadas privadas e construindo banheiros públicos. Mesmo assim, tem locais com um banheiro para 1.400 pessoas! Esse país de contradições tem mais celulares do que banheiros. * Ouço explosões e corro, assustada – o Hamas invadindo Miami? Impossível, mas nunca se sabe. São apenas fogos de artifício comemorando o lançamento da pedra fundamental de um novo edifício de apartamentos. Pela localização, percebo que vão eliminar minha vista para o lago – sempre cheio de patinhos vivos e artificiais. Os artificiais nadam ao sabor do vento, os vivos não nadam em paz, sempre receosos de serem sumariamente eliminados. Não que virem patos gratinados no cardápio de algum restaurante chinês, mas são levados para reservas. * Pergunto aos vendedores de plantão quantos andares terá o novo edifício e me dizem que serão catorze – o que significa 13 – o número do azar foi eliminado do calendário oficial. “Se pusermos 13º andar ninguém compra, informam a essa reportagem. Pergunto se ninguém ali sabe contar e me eliminam da lista dos prováveis-compradores. Correm boatos de que os States vão eliminar as próximas eleições presidenciais, na impossibilidade de eliminarem Trump do cardápio eleitoral. Biden ficaria no poder até morrer ou até Trump morrer, o que acontecer primeiro. * Se os Bons-Tempos desapareceram de vez do nosso dia-a-dia, o bom tempo também está sendo gradativamente eliminado dos calendários oficiais. Já não se fazem tempos como antigamente, com as estações do ano obedecendo aos rígidos princípios estabelecidos pela meteorologia. O tempo enlouqueceu, gritam todos, mas não queremos eliminar os culpados – que afinal somos nós mesmos. Se nos eliminamos coletivamente salvamos o tempo, mas então o que adiante ter bom tempo? * Minhas pesquisas revelam outras razões para a catástrofe ambiental que se avizinha – a escassez de banheiros nos países menos desenvolvidos está provocando o aquecimento global em proporções que só agora estão sendo devidamente contabilizadas. Usando a Índia como bode expiatório, são 200 milhões de toneladas de substâncias tóxicas eliminadas ao ar livre por 2,6 bilhões de indianos todos os dias! O resto é o resto.
Escritor que já visitou mais de 130 países lança livro sobre viagens
Francisco Aurélio Ribeiro é o convidado do Pocando pelo Mundo, trazendo boas histórias sobre viagem e literatura O programa Pocando pelo Mundo recebe o professor aposentado e escritor Francisco Aurélio Ribeiro, que já viajou por cerca de 130 países. Ele relata um pouco sobre suas viagens, sua inspiração na literatura, o país que mais lhe surpreendeu e o seu novo livro Olhar estrangeiro ou praga de cigano*, lançado pela Editora Cousa, que traz diversas crônicas e relatos sobre os países que visitou ao longo de décadas. Fala também sobre como era viajar antes da internet e o desejo conhecer os polos extremos do planeta. *A obra está disponível para venda no site da editora. —- * Inscreva-se no canal do Século Diário no YouTube e ative o sininho para acompanhar as novidades. ** Se quiser ouvir este e outros programas em podcast, siga os canais do Século Diário no Spotify e Google Podcasts.
Jovens pedem fim do extermínio da juventude negra no Espírito Santo
Marcha realizada na Serra recordou ativistas contra o racismo e reivindicou direitos Na mesma cidade onde há 174 anos negros escravizados lutavam pela liberdade e entraram para a história ao protagonizarem a Insurreição de Queimados, jovens foram às ruas também em defesa da liberdade e por diversos direitos, como o de ir e vir sem serem abordados pela Polícia Militar (PM) devido à cor da pele ou de ter suas vidas ceifadas. Concentrados em Ourimar, na Serra, na tarde desse sábado (18), os jovens seguiram rumo à praça de Feu Rosa, dando vida à XVI edição da Marcha Contra o Extermínio da Juventude Negra. Leonardo Sá Foi a primeira vez que a marcha, realizada pelo Fórum Estadual da Juventude Negra do Espírito Santo (Fejunes), foi realizada na Serra. Todas as edições anteriores foram na Capital. A iniciativa, avalia o vice-presidente da marcha, Ramon Matheus, foi de “muita coragem”. “A gente compreende que a violência não se encontra somente na cidade de Vitória e, portanto, as políticas sociais não devem ficar concentradas lá. Precisamos construir diálogo com outras comunidades periféricas, outras juventudes, mas onde estão os nossos? Nos bairros periféricos”, diz. A lembrança de heróis do passado que protagonizaram a Insurreição de Queimados, como Chico Prego, se somaram com a de heróis contemporâneos, como o ativista Lula Rocha, cuja memória foi lembrada em uma atração cultural que antecedeu o início da marcha e em seu trajeto. As mulheres também foram lembradas: Teresa de Benguela, Dandara, Marielle Franco e outros nomes foram entoados. A força da mulher negra foi recordada com a música que diz “Deus é uma mulher preta e por natureza sei que vou sobreviver”, lembrando as muitas mães que perderam seus filhos para a violência ou temem perder por saber que, simplesmente por serem negros, podem ser alvo de uma “bala perdida” que normalmente tem alvo certo: os corpos negros. Leonardo Sá O sagrado feminino da ancestralidade africana também foi recordado com pontos em homenagem a orixás como Iemanjá e Yansã, uma forma de lutar contra a intolerância religiosa, que vitima principalmente as religiões de matriz africana. Na marcha também foi dado direito de voz ao Movimento Negro Evangélico, provando que as mais diversas crenças religiosas podem conviver e se unir em prol de causas que buscam o bem comum. A integrante do Movimento Negro Evangélico, Ester Ferreira dos Santos, destacou que o Movimento estava ali “por não acreditar no Jesus branco da milícia, mas no Jesus Negro de Nazaré”. Leonardo Sá “Seguimos o Jesus negro, que foi morto pelo Estado, e estamos aqui derrubando todo o evangelho eurocêntrico e que traz essa imagem do racismo, da segregação, para dizer que nosso Jesus prega o amor, está presente nas nossas músicas, nos nossos ritmos. Continuaremos resistindo, seguindo tudo que ele nos ensinou, todas as formas de resistência contra o Estado. Mesmo que o Estado continue nos matando, a cada dia surgirão mais de nós para propagar esse amor que Jesus nos ensinou”, ressaltou Ester. Leonardo Sá Diante do calor excessivo das últimas semanas, mas que não foi impedimento para a realização da marcha, o racismo ambiental não foi esquecido pelos manifestantes. “O calor tem cor e raça. A mudança climática é pelo nível de exploração do capitalismo na natureza e vai impactar primeiramente os lugares onde nosso povo vive, que são os quilombolas, as populações indígenas, os povos das águas e das florestas, e também as favelas, por causa da ocupação urbana que é feita sem muitos recursos. A gente não tem acesso à refrigeração, à água potável, mais uma vez o calor incide mais sobre o povo preto. Por isso que a gente diz que a mudança climática deve ser discutida a partir do conceito de racismo ambiental”, defende a coordenadora estadual do Círculo Palmarino, Ana Paula Rocha. Serra receberá pela primeira vez Marcha da Juventude Negra Felipe Lima, do Fejunes, afirma que decisão de sair da Capital é para abranger outras regiões que também têm registrado violências https://www.seculodiario.com.br/seguranca/serra-recebe-pela-1-primeira-vez-a-marcha-contra-o-exterminio-da-juventude-negra
Grupo dos Onze: Muniz Freire teve célula de resistência pré-golpe de 1964
História que marca um episódio pouco conhecido do sul capixaba e no Estado foi resgatada por pesquisador Muniz Freire, município do sul do Estado com menos de 20 mil habitantes, sediou um “Grupo dos Onze” entre o final de 1963 e o início de 1964. Com a formação de grupos de onze pessoas em todo o Brasil, o então deputado federal Leonel Brizola (1922-2004) planejava pressionar pelas reformas de base e resistir a um golpe iminente no país. Mas, com a ditadura militar se estabelecendo em 1964, a ousadia política acabou em prisão e perseguição para os militantes muniz-freirenses. Quem estudou a fundo esse acontecimento pouco divulgado foi o historiador Herbert Soares. Em 2021, ele lançou o livro “O ‘Grupo dos Onze’: elites políticas e anticomunismo no município de Muniz Freire – ES“, baseado em sua pesquisa de mestrado em História na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Herbert Soares (último à direita), junto com Carlinho, Jonatas, Renato e Mario. Foto: Arquivo/Herbert Soares “Essa é uma história familiar também. Dos onze do grupo, sete são parentes meus, e sempre teve comentário na família sobre esse acontecimento. Acabou que a história ficou restrita ao ambiente familiar e a pessoas que viveram aquele período. Mas, quando lancei o livro e falei sobre ele em escolas, os mais jovens demostraram muito interesse. Eles ficam impactados em saber que a ditadura militar teve repercussão numa cidade do interior”, afirma Herbert Soares. Conforme relata Herbert em sua obra, essa experiência política de 60 anos atrás teve vida curta, não rendendo mais do que algumas reuniões informais. O idealizador e líder do “Grupo dos Onze” de Muniz Freire foi o vendedor ambulante Jonatas Ribeiro Soares, admirador de Leonel Brizola que escutava seus discursos de rádio todas as noites. Ao líder se juntaram: o ferreiro Ângelo Cizotto; o comerciante Carlinho José de Arêas; os lavradores Ilto Vieria e Mauro Rodrigues de Oliveira; o motorista Jair Ribeiro Soares; os funcionários públicos Lino Ribeiro Soares e Mario Ribeiro Soares; o lenhador Nelson Bolzan; o estudante universitário Renato Viana Soares; e o comerciante e então vice-prefeito, Romulo de Araujo. Há dois remanescentes ainda vivos: Mario, avô de Herbert Soares, que está com 97 anos e continua morando em Muniz Freire; e Renato, o mais novo da turma, que tem 79 anos e atualmente reside em Maceió (AL). Divulgação “Era uma realidade bem diferente. Os setores progressistas do Brasil reivindicavam várias reformas, e essas reivindicações se espalhavam pelo rádio e pelos movimentos sindical e estudantil. Foi dessa maneira que a gente tomou conhecimento e passou a se organizar para realizar essas reivindicações. E uma das formas de organização para lutar contra as oligarquias nacionais e locais eram os ‘Grupos dos Onze’ do Leonel Brizola”, relembra Renato. Contexto histórico Na década de 1960, Leonel Brizola usava as ondas da rádio Mayrink Veiga, no Rio de Janeiro, para tentar organizar os setores populares e progressistas do Brasil em torno das reformas de base – agrária, administrativa, eleitoral, tributária, bancária, universitária e constitucional. Ele havia liderado a “Campanha da Legalidade”, para garantir a posse de João Goulart na Presidência, e estava em conflito com o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), do qual fazia parte. O incentivo à formação dos “Grupo dos Onze” pela rádio era uma forma de criar um canal de comunicação direta do deputado com a população. O número onze fazia referência à quantidade de jogadores titulares de um time de futebol, esporte mais popular do Brasil. “A intenção era criar grupos pequenos, com mobilidade”, explica Renato (foto abaixo com Brizola). Casa da Cultura de Muniz Freire Inspirados pelos discursos radiofônicos de Brizola, milhares de “Grupos dos Onze” se formaram em todo o Brasil. No Espírito Santo, uma reportagem do Jornal Brasil da época chegou a apontar a existência de 50 grupos, com possíveis casos em cidades como Jerônimo Monteiro, Colatina e Montanha. Mesmo em Muniz Freire, outros grupos ensaiaram uma atuação. No “Grupo dos Onze” pesquisado por Herbert Soares, estiveram entusiastas da vertente política representada por Brizola, membros do PTB local e simpatizantes de ideias progressistas em geral. Em sua maioria, os integrantes descendiam diretamente de dois ex-prefeitos de Muniz Freire: Lino Ribeiro de Assis e Joaquim Ribeiro Soares. Com exceção de Ângelo e Nelson, todos os demais tem algum grau de parentesco. Carlinho era cunhado dos irmãos Jonatas e Jair, e este último é pai de Renato. Já os irmãos Lino e Mario são primos de Jonatas, Jair, Mauro, Ilto e Romulo. O golpe de 1964 resultou na dissolução do grupo ainda em fase embrionária. Entretanto, seus integrantes já haviam assinado a lista de constituição do coletivo, que foi usada depois na denúncia sobre as supostas atividades subversivas do grupo feita à Justiça pelo então presidente da Câmara de Vereadores, José de Lima (UDN). O anticomunismo crescente foi um dos motivadores para a denúncia, mas também havia questões da política local envolvidas, tendo em vista as ligações familiares dos integrantes e ao fato de um dos onze ser o então vice-prefeito de Muniz Freire. De acordo a pesquisa de Herbert Soares, o “Grupo dos Onze” liderado por Jonatas Soares foi o único que passou por um processo judicial no Espírito Santo. Condenação e discriminação Não havia provas de participação do grupo em quaisquer atividades relacionadas a combate armado, e todos eles negaram adesão ao ideário “comunista”. Nelson, inclusive, disse em depoimento que assinou a lista sem saber do que se tratava. Ainda assim, nove integrantes foram condenados à prisão em 1966, num processo na Justiça Militar, sendo enquadrados na Lei de Segurança Nacional – apenas Lino e Mario escaparam. Como o processo correu no judiciário do Rio de Janeiro, eles tiveram dificuldades para apresentar defesa. O líder Jonatas – que na época já havia ficado praticamente cego – foi sentenciado a um ano de prisão, e os demais, a seis meses. Com exceção de Renato, que morava em Vitória, todos cumpriram a pena no Fórum de Muniz Freire. Menos mal que o juiz do município na época, Arione Vasconcelos Ribeiro
Profissionalismo, cuidado e afeto que salvam vidas na periferia de Vitória
Fisioterapeutas Danúbia Araújo e Brener Acker incentivam o amor próprio das mulheres acolhidas pelo Fordan Foram 174 pessoas acompanhadas e acolhidas durante os dois primeiros anos da pandemia de Covid-19 na periferia de Vitória, nenhum caso de morte ou intubação pela doença e nenhum caso de feminicídio. O que parece um milagre é na verdade fruto de um trabalho feito com profissionalismo e afeto pela equipe multidisciplinar do programa de extensão e pesquisa da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Fordan: cultura no enfrentamento às violências. E quem conta um pouco dessa história são os fisioterapeutas Brener Araújo Acker e Danúbia Galvão de Oliveira, integrantes do Núcleo de Saúde do Fordan. Nessa entrevista, a dupla rememora momentos marcantes daqueles dois anos de sucessivas inovações nas metodologias de trabalho e como a essência do cuidado se mantém no momento atual, de retomada das atividades que haviam sido interrompidas por conta do isolamento social. Na região da Grande São Pedro, todas as 174 pessoas acolhidas eram monitoradas permanentemente. “Muitas ficaram desempregadas, então começamos a entregar cestas básicas, a cada quinze dias”, conta Danúbia. “Tinha casas com dez pessoas em um cômodo e sem banheiro”, cita. A solução? Muitas doações de máscaras e álcool. Telefonemas constantes, orientando sobre como isolar os suspeitos de infecção ou doentes dos demais membros da casa. “A gente traduzia o conhecimento científico de forma bem lúdica, para todo mundo entender, inclusive as crianças”, fala Brener. Um dos alicerces do trabalho, antes, durante e agora, depois da emergência global da pandemia de Covid-19, continua sendo o cuidado. “Olhar para cada pessoa com atenção, carinho, cuidado. A gente cuida dessas vidas. Eu faço porque gosto, entendi a importância disso para uma vida e para a vida das pessoas”, declara. Para Danúbia, a autoestima é um valor que está sempre no radar da atuação com as mulheres. “Além de mães e esposas, elas também são mulheres, têm que se cuidar, tem que se amar, tem que se valorizar. Todo o trabalho é registrado em relatórios técnicos do Fordan e gera pesquisas que objetivam guiar políticas públicas e novos projetos do programa, na universidade e na cidade. — * inscreva-se no canal do Século Diário no YouTube e ative o sininho para acompanhar as novidades. ** se quiser ouvir este e outros programas em podcast, siga os canais do Século Diário no Spotify e no Google Podcasts. ‘Hoje eu sou independente, graças a Deus!’ História de Alessandra Souza é inspiração para as mulheres que desejam superar violência doméstica https://www.seculodiario.com.br/direitos/hoje-em-dia-eu-sou-independente-gracas-a-deus ‘Advogada dos pobres’, Defensoria é referência na proteção das mulheres – Século Diário https://www.seculodiario.com.br/justica/advogada-dos-pobres-defensoria-publica-e-referencia-na-protecao-das-mulheres O desafio de vencer o machismo e o racismo no Judiciário Advogada Layla dos Santos conta sua luta cotidiana para aplicar a Lei Maria da Penha a mulheres negras e periféricas https://www.seculodiario.com.br/tv-seculo/o-desafio-de-vencer-o-machismo-e-o-racismo-no-judiciario-1 Corpos invisibilizados: APP amplia público-alvo e inicia testes em São Pedro Episódio de estreia do podcast Aplicativo Fordan entrevista coordenadora-geral do programa, Rosely Pires https://www.seculodiario.com.br/tv-seculo/corpos-invisibilizados-app-amplia-publico-alvo-e-inicia-testes-em-sao-pedro-1
PL para incluir Aracruz na Grande Vitória ainda aguarda parecer técnico
Projeto de lei está na Procuradoria da Assembleia; comunidade reclama de falta de ar-condicionado nos ônibus Dois meses após ser apresentado na Assembleia Legislativa, o projeto de lei complementar para incluir Aracruz, no norte do Estado, na Região Metropolitana da Grande Vitória (RMGV), segue com destino indefinido. De acordo com o site da Ales, a Procuradoria Geral recebeu a proposta no dia 19 de setembro para elaboração do parecer técnico, e desde então, a tramitação permanece nessa mesma fase. Ainda não houve análise nas comissões temáticas. Proposto pela deputada estadual Iriny Lopes (PT), a inclusão na Grande Vitória visa inserir o município no Sistema Transcol de transporte interurbano e garantir subsídios do Governo do Estado para essa área. A má qualidade do serviço de transporte coletivo é alvo de insatisfação constante no município do litoral norte. Com a onda de calor excessivo, uma das reclamações tem sido a ausência de ar-condicionado em, pelo menos, nove veículos. Em sessão da Câmara Municipal no início do mês, o vereador Vilson Jaguaraté (PT) afirmou que o prefeito da cidade, Doutor Coutinho (PP), estava em contato com o governador Renato Casagrande (PSB) para reivindicar subsídios ao sistema de transporte coletivo municipal. Entretanto, para Júlio Cezar Florentino, representante do Sindicato dos Servidores Municipais de Aracruz (Sisma) no Conselho Municipal de Trânsito e Transporte (Comtrat), a viabilização da chegada do subsídio a Aracruz depende da inclusão do município na Grande Vitória. “Prefeitos e secretários anteriores de Aracruz tentaram subsídios para o transporte, incluindo a questão de benefícios para estudantes e outros públicos. Mas isso não chegou a lugar nenhum. O fato é que, para ter o subsídio, é preciso incluir Aracruz na Região Metropolitana”, reitera. Discussões sobre o projeto Aracruz está na microrregião do Rio Doce, junto com Ibiraçu, João Neiva, Linhares, Rio Bananal e Sooretama. Na Região Metropolitana, passaria a fazer parte do grupo que tem Vitória, Vila Velha, Serra, Cariacica, Fundão, Guarapari e Viana. O projeto de lei da deputada Iriny Lopes também prevê a reestruturação do Conselho Metropolitano de Desenvolvimento da Grande Vitória (Comdevit) e autorização para o governo instituir o Fundo Metropolitano de Desenvolvimento da Grande Vitória (Fumdevit). A proposta surgiu como uma forma de solucionar os problemas crônicos do município com transporte coletivo. Uma das insatisfações atuais é com o preço alto das passagens de ônibus, que chega a custar R$ 15,75 em um dos itinerários, da Sede a Rio Preto – apesar de a empresa concessionária receber subsídio de R$ 2,76 milhões da Prefeitura de Aracruz. Também há críticas motivadas por mudanças de horários dos itinerários, não retorno de linhas suspensas durante a pandemia de Covid-19 e atendimento ineficaz a algumas áreas do município. Durante uma audiência pública relacionada ao tema, realizada na Câmara em outubro passado, o diretor-presidente da Companhia Estadual de Transportes Coletivos de Passageiros do Estado (Ceturb-ES), Marcus Bruno, afirmou considerar viável integrar o município do norte do Estado no Sistema Transcol de transporte coletivo metropolitano. De modo geral, lideranças políticas e comunitárias de Aracruz se mostraram amplamente favoráveis ao projeto, mas também houve discordâncias. O vereador Jean Pedrini defendeu que Aracruz tivesse acesso igualitário às políticas públicas do Estado, independentemente de estar ou na Grande Vitória. A moradora Sueli dos Reis também declarou que é “a favor da vinda do Transcol, mas não é a solução de ouro do transporte”. Integrar Aracruz no Sistema Transcol é viável, afirma Marcos Bruno – Século Diário https://www.seculodiario.com.br/politica/integrar-aracruz-no-sistema-transcol-e-viavel-afirma-diretor-presidente-da-ceturb Audiência em Aracruz coloca em pauta inclusão na região metropolitana – Século Diário https://www.seculodiario.com.br/cidades/audiencia-publica-em-aracruz-debate-inclusao-na-regiao-metropolitana
Ilha de preservação ambiental e lazer de Cachoeiro está abandonada
Espaço doado ao poder público em 1988 teve visitação turística no passado, mas está fechado Lucas Schuina A Ilha do Meirelles, patrimônio ambiental e espaço de lazer e turismo de Cachoeiro de Itapemirim, no sul do Espírito Santo, está abandonada há anos. Até recentemente, ainda era possível visitar o espaço, cujo acesso se dava por uma ponte de madeira em estado precário. Atualmente, nem isso: os fios de sustentação de um dos lados da ponte se romperam e o acesso foi bloqueado. Localizado no bairro Elpídio Volpini (Valão), a cerca de quatro quilômetros do centro da cidade, a Ilha do Meireles é a maior ilha fluvial do rio Itapemirim, com 9,6 hectares, abrigando milhares de espécies da fauna e flora da Mata Atlântica. O espaço recebe o nome de seu antigo dono, Newton Meirelles, que doou o terreno à Prefeitura de Cachoeiro em 1988. Entre as instalações do espaço estão banheiros, deque e um anfiteatro. Como o acesso está bloqueado, não é possível verificar o atual estágio das edificações, mas já não havia manutenção regular há praticamente dez anos e as estruturas encontravam-se danificadas e tomadas pela vegetação. A intenção da gestão do prefeito Victor Coelho (PSB) era retirar as edificações do local. Entre 2002 e 2013, a Ilha do Meirelles foi administrada pelo Centro Universitário São Camilo, instituição particular de ensino superior do município, que transformou o espaço em uma estação ecológica e desenvolveu projetos científicos e socioambientais, incluindo visitação de escolas. Entretanto, alegando que a Prefeitura de Cachoeiro não cumpria com o seu papel de dar manutenção ao acesso da ilha, devolveu o espaço ao poder público e o contrato foi rescindido. Em 2018, no primeiro mandato de Victor Coelho, foi publicada a Lei 7.463, na qual a prefeitura retomou sua responsabilidade pela gestão da Estação de Proteção e Educação Ambiental Ilha do Meirelles. De acordo com a normativa, o poder público municipal deveria “zelar pela manutenção do espaço, edificações, equipamentos e ponte de acesso; pela preservação ambiental permanente de sua fauna e flora, a sua recuperação, além de exercer a vigilância e fiscalização do local, e criar condições para que a atual e as futuras Administrações e seus gestores atuem em prol das finalidades desta Lei, sob pena de anulação da doação”. Desde então, porém, nenhum projeto de recuperação do espaço foi realizado. Ao contrário: a Prefeitura de Cachoeiro tem alegado que a Ilha do Meirelles tem alta vulnerabilidade a enchentes e não pretende retomar as visitações. Apesar disso, a Ilha ainda é lembrada como um espaço de lazer que deveria ter suas funções originais retomadas. “Ótimo pra passear. Pena que o lugar agora está abandonado”, diz uma usuária em avaliação publicada na internet. Alguns ônibus do sistema de transporte coletivo de Cachoeiro também apresentam uma plotagem divulgando a Ilha do Meirelles como um ponto turístico cachoeirense, mesmo que o espaço não esteja aberto à visitação. Lucas Schuina Meirelles e a Ilha O carioca Newton Meirelles chegou ao Espírito Santo em 1934, aos 29 anos, para trabalhar no Banco do Brasil, e foi transferido para Cachoeiro em 1939. No município, tornou-se uma figura ativa nos movimentos sociais e políticos, tendo participado de diversas greves. Foi filiado ao Partido Socialista Democrático (PSB) e ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), e ocupou uma vaga de vereador, em 1947. Casado com Carmem Vieira Meirelles, Newton não teve filhos, e por isso fez a doação do espaço em que morava para a Prefeitura de Cachoeiro, um ano antes de sua morte, em 1989, com a esperança de que fosse preservado para a realização de ações de cunho socioambiental. A Ilha do Meirelles foi tombada como patrimônio natural pela Lei 5.484, de 2003. Arquivo/Higner Mansur A gestão do prefeito Victor Coelho teria dado início a procedimentos para a transferência da área para o Governo do Estado, mas lei de 2018 sobre a gestão da estação ambiental permanece em vigor. Outros espaços Além da Ilha do Meirelles, outros espaços de cultura e lazer de Cachoeiro estão inutilizados. No Parque Urbano da Ilha da Luz, as obras estão paralisadas desde o ano passado e o local acumula entulho. O portão de acesso estava sendo fechado, mas foi reaberto na semana passada após reclamação, na Ouvidoria Municipal, da Fábrica de Pios Maurílio Coelho, cujo prédio é anexado ao pavilhão da Ilha da Luz. O Teatro Municipal Rubem Braga encontra-se inutilizado desde a enchente de 2020, a maior registrada na história do município. Em outubro, a Governo do Estado assinou contrato de convênio para o repasse de R$ 3,5 milhões para a Prefeitura de Cachoeiro reformar o espaço, que teria duração de 14 meses. Entretanto, ainda não foi lançado o processo licitatório para contratação da empresa que ficará a cargo do trabalho. No caso do Palácio Bernardino Monteiro, onde funcionará um centro cultural, a obra de restauração está 80% concluída e deverá ser finalizada no primeiro semestre do ano que vem, segundo a Prefeitura de Cachoeiro – apesar de trâmites pendentes junto ao Governo do Estado terem criado impasses para a finalização Questionada por Século Diário sobre o trabalho de conservação e restauração dos espaços de cultura e lazer do município, a Prefeitura de Cachoeiro não deu retorno às solicitações. Parque da Ilha da Luz, em Cachoeiro, acumula entulho após obra paralisada – Século Diário https://www.seculodiario.com.br/cidades/parque-da-ilha-luz-em-cachoeiro-acumula-entulho-apos-obra-paralisada Em Cachoeiro, restauro do Palácio Bernardino Monteiro segue pendente – Século Diário https://www.seculodiario.com.br/cultura/em-cachoeiro-restauro-do-palacio-bernardino-monteiro-segue-pendente Convênio libera R$ 3,5 milhões para reforma do Teatro Rubem Braga – Século Diário https://www.seculodiario.com.br/cultura/casagrande-libera-r-3-5-milhoes-para-reforma-do-teatro-rubem-braga-em-cachoeiro