Valor médio para as mais de 300 mil famílias no Estado é de R$ 680,40. Serra é o município com mais beneficiários Mais de R$ 205,8 milhões é o total dos recursos que as 304,8 mil famílias do Espírito Santo irão receber do programa Bolsa Família neste mês de abril, cujos pagamentos foram iniciados na última sexta-feira (14) e seguem até o próximo dia 28. As famílias do Estado cadastradas no programa de redistribuição de renda do governo federal alcançaram o maior valor médio da região Sudeste, R$ 680,40, que contribuem para movimentar a economia com o aporte desses recursos. Entre os 78 municípios capixabas, Serra é o que possui mais famílias contempladas. Serão 42,5 mil lares apoiados com o benefício em abril. Na sequência aparecem Cariacica (36,4 mil), Vila Velha (24,9 mil) e Vitória (21,6 mil). No País, 21,19 milhões de famílias serão beneficiadas pelo Bolsa Família, em todas as 5.570 cidades brasileiras. O total a ser transferido é próximo de R$ 14 bilhões. O valor médio recebido por família é de R$ 670,49, o maior já registrado na história do programa de transferência de renda do Governo Federal. O recorde anterior tinha sido registrado mês passado, com R$ 670,33. O calendário de repasses do programa é feito de forma escalonada, a partir do final do Número de Identificação Social (NIS) dos beneficiários. Os primeiros que recebem são os beneficiários com NIS de final 1, no dia 14. O cronograma de pagamentos segue até o dia 28 para beneficiários com o NIS de final zero. Para municípios em situação de emergência ou calamidade pública reconhecida, o Governo Federal unificou o pagamento do Bolsa Família para o primeiro dia do calendário. Assim, na sexta-feira já foram contempladas as famílias beneficiárias em locais atingidos pelas chuvas e inundações no Acre, Amazonas, São Paulo, Espírito Santo ou Maranhão, por exemplo, bem como as afetadas pela estiagem no Rio Grande do Sul, além do povo Yanomami em Roraima. Outros benefícios O Bolsa Família tem valores integrados aos investimentos destinados ao Benefício Primeira Infância, no valor de R$ 22,54 milhões. Em abril, 119,6 mil famílias com crianças de zero a 6 meses na composição familiar recebem esse adicional no Espírito Santo. O adicional de R$ 150 do Primeira Infância, em todo o país, apoia 7,2 milhões de famílias que contam com pelo menos uma criança nessa faixa etária. O pagamento totaliza R$ 1,3 bilhão em investimentos. O Auxílio Gás também será destinado aos lares de 81,4 mil famílias capixabas, seguindo o mesmo cronograma de pagamento do Bolsa Família. O valor de R$ 110 é pago a cada dois meses e considera a média do preço nacional de referência do botijão de 13kg do gás de cozinha. Os recursos transferidos para o auxílio ao Espírito Santo somam R$ 8,96 milhões.
Somos todos ilhas
Vista especial para o porto de minério, onde o pó negro flutua, arrastado pela brisa amena Enquanto a população da Terra continua crescendo desordenadamente, o planeta é o mesmo, não temos como esticá-lo. Muito pelo contrário, e segundo os pessimistas, a área apropriada para o uso humano está encolhendo, com a superfície sólida invadida pela massa líquida que nos rodeia. Já disse o poeta, somos todos ilhas. Os especialistas têm se debruçado sobre o problema, pois de acordo com os matemáticos, todo problema tem uma solução. O desafio é encontrá-la. * Até agora, as soluções apresentadas não solucionaram nada. Travar o crescimento populacional seria uma delas, todos sabem, mas o número de nascidos continua crescendo, e quanto mais cresce, pior fica. Em contrapartida, o número de mortes diminui graças aos milagres da ciência, que prolonga a vida e torna a chamada previdência social imprevisível: a meta é simplesmente parar de morrer. Ninguém quer ser idoso, mas ninguém quer abandonar o barco. Sem mencionar que existe uma velada disputa entre os países mais populosos: quanto mais gente, melhor. * Circulando por Vitória nesse primoroso mês de abril, percebo que a cidade não tem mais para onde ir – os morros passíveis de serem escalados estão todos tomados, e nem preciso mencionar as áreas planas – sufocamos coletivamente. No entanto, o povo – esse polvo de incontáveis tentáculos – continua se multiplicando. Vamos derrubando mais casas e levantando mais arranha céus, janelas contra janelas, área de lazer coletiva. Elevador com tempo alternado – os proprietários de apartamentos com números pares usam o ascensor nas horas pares; os outros usam os outros. Fica terminantemente proibido subornar o porteiro. * Mas nossa cidade é privilegiada, e a solução salta à vista: os morros sagrados da bela ilha de Maria Ortiz, imponentes granitos desafiando o avanço do progresso – protegidos por leis rígidas eles nos desafiam: Aqui ninguém sobe! Só os pássaros se divertem na mataria que teimosamente se equilibra nas magras nesgas de terra escondidas nas reentrâncias do granito. Lindo de ver, mas como já foi mencionado, a população cresce e não tem mais onde se infiltrar. * Mas nem tudo está perdido: se não podemos construir na pedra nua e crua, a solução seria construir sobre ela. Gigantescos pilares seriam erguidos ao redor da montanha, sustentando um patamar acima da pedra, mas sem tocá-la – sobre esta plataforma se construiria luxuosos condomínios, com todo o conforto que o progresso e as contas bancárias permitirem, e com a esplendorosa vista das alturas – toda a cidade se esparramando até o mar. Vista privilegiada para o porto de minério, onde o pó negro flutua arrastado pela brisa amena. * O Morro do Cruzeiro ficaria aprisionado, mas não vai mesmo a lugar nenhum. A pedra serviria ao bem comum e nada sofreria – continuaria bela e altaneira enfeitando a paisagem, respirando e purificando o ar que contaminamos diariamente – uma prisioneira entre pilares de cimento, como todos nós. Delírios de uma mente alucinada? Quem viver verá.
O que quer a UP, mais nova legenda de esquerda?
Hellen Guimarães, dirigente estadual, comenta sobre os ideais, a base social e os planos eleitorais da Unidade Popular Legalizada em 2019, a Unidade Popular (UP) é a legenda de esquerda mais recentemente fundado no Brasil. Nos últimos anos, passou a se organizar também no Espírito Santo. Entrevistamos Hellen Guimarães, dirigente estadual da UP para entender melhor quais as propostas e ideologia do novo partido, sua base popular, a Campanha Nacional pela Punição a Bolsonaro, a última candidatura à Presidência da República, e os planos para a atuação nas lutas populares e nas eleições estaduais e municipais. —- * Inscreva-se no canal do Século Diário no YouTube e ative o sininho para acompanhar as novidades. ** Se quiser ouvir este e outros programas em podcast, siga os canais do Século Diário no Spotify e Google Podcasts.
Práticas inclusivas e Desenho Universal embasam formação em Educação Especial
Projeto também entregará equipamentos de acessibilidade para uso público na Ufes, destaca Douglas Ferrari Arquivo pessoal As práticas inclusivas e o Desenho Universal dão o tom da formação oferecida a professores, pedagogos e gestores de Educação Especial das redes públicas municipais, estadual e federal do Espírito Santo. As atividades acontecem entre abril e setembro, por meio de seminários e cursos regionalizados. O projeto “Práticas inclusivas na concepção do Desenho Universal: direito à aprendizagem e escolarização das pessoas com deficiência” é uma realização é da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), em parceria com os Institutos Federais capixaba e fluminense (Ifes e IFF) e a Secretaria Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência, do Ministério dos Direitos Humanos, por meio de emenda parlamentar do ex-deputado federal Felipe Rigoni (União). O objetivo é preencher uma lacuna de conhecimento e atualização dos profissionais que atuam na área, a partir de recursos e tecnologias que consideram a diversidade humana, buscando garantir a acessibilidade para todos. “A formação em Educação Especial não está boa. Em geral são cursos EAD [Ensino à Distância] em faculdades privadas. Não há uma formação de qualidade e gratuita”, avalia o professor Doutor Douglas Ferrari, do Centro de Educação da Ufes, um dos coordenadores do projeto, ao lado do professor Dr Décio Nascimento Guimarães, do IFF. “A nossa aposta é que essa é uma formação seja um start para outras ações, regionais ou municipais. Alguns gestores já vêm chegando até a gente dizendo que precisam de mais vagas, que tem mais profissionais interessados”, relata. “Precisamos avançar. Com conceitos, técnicas e equipamentos. Nosso curso traz isso, são coisas que já existem, mas não são colocadas em prática. Temos professores do Espírito Santo e de outros estados, com temáticas e práticas diferentes, alguns, como eu, pessoas com deficiência”, destaca Douglas Ferrari. A presença de PCDs ministrando o curso também é um diferencial e um avanço, afirma, pois traz a perspectiva de quem vive no dia a dia as dificuldades de estudar e lecionar em ambientes educacionais tão defasados do ponto de vista dos direitos das PCDs. “Estamos preocupados com a prática, sentimos falta disso. Eu nunca tive nenhuma ajuda em EE na minha época de estudante”, depõe. “Nada sobre nós sem nós”, afirma, invocando uma máxima cada vez mais popular no universo das PCDs. E na observância no cotidiano da sala de aula, uma atenção especial é em relação a práticas inclusivas, que sejam ministradas a todos os estudantes do ensino regular, aos moldes do que já implementa, com sucesso, a rede pública municipal de Santa Maria de Jetibá, na região serrana, considerada uma das melhores referências no Estado e no Brasil, segundo Douglas Ferrari. Sala de aula comum “A sala de aula comum é o locus privilegiado da Educação Especial. É onde os estudantes com deficiência irão aprender as disciplinas, como todos os demais alunos, tendo acesso ao conhecimento acumulado pela humanidade nas mais diversas ciências e áreas do saber”, afirma. É na sala de aula comum também, complementa, que os estudantes sem deficiência podem aprender sobre diversidade e respeito às PCDs e outros corpos e mentes atípicos. Como exemplos mostrados no seminário que abriu o projeto, cita a iniciativa de professores de um professor de Física que abriu um abacate para explicar sobre a crosta terrestre. “Não é só teórico, precisamos investir na prática”, reforça, acrescentando que orientações sobre a acessibilidade do espaço da escola e socialização dos estudantes também são trabalhados. Terceirização e ‘desresponsabilização’ A prática inclusiva e o desenho universal, bases do projeto, precisam ser incorporados pelas redes públicas capixabas, reivindica o professor da Ufes. “O governo do Estado investe nas instituições especializadas, como Apaes e Pestalozzis, ao invés de formar professores da sala comum, de contratar por concurso público, de investir na infraestrutura da Educação Especial nas escolas regulares”, critica. Desde 2014, observa, essa terceirização aumentou muito no Espírito Santo. “O Estado se desresponsabiliza e os municípios, por tabela, também se desresponsabilizam da Educação Especial, terceirizando e segregando os estudantes com deficiência“, avalia. Equipamentos Para além do legado pedagógico, o coordenador ressalta o legado material que o projeto irá deixar para a população capixaba, com a doação, para a Ufes, de uma impressa 3D e dois equipamentos de audiodescrição. “A Ufes só tem uma impressora 3D na Engenharia e na Terapia Ocupacional. Audiodescrição, não existe nenhum equipamento fixo em todo o Espírito Santo”. A expectativa é de que as doações sejam alocadas no Laboratório de Acessibilidade da Ufes, que está sendo montado, sendo que o equipamento de audiodescrição tende a ter um uso constante no cinema e no teatro universitários. “Alguns espetáculos que chegam ao Estado trazem o equipamento de audiodescrição, mas não há nenhum de uso permanente em todo o Espírito Santo. Acessibilidade não é só ter uma tradução em Libras. E as pessoas cegas ou com baixa visão?”, questiona. Inscrições A próxima atividade do projeto é um seminário que será realizado na manhã do dia 25, no Ifes de Cariacica, com presença, além de Douglas e Décio, das professoras doutoras Flávia Faissal de Souza (UERJ), Gisele Pessin (UENF), Márcia Denise Pletsch (UFRRJ) e Geovana Mendonça Lunardi Mendes (Udesc). Podem participar, além de professores e gestores, estudantes de licenciaturas e pós-graduação, familiares e pessoas com deficiência e membros da sociedade civil que se dedicam à discussão dos direitos das pessoas com deficiência. A inscrição é gratuita. Mais informações sobre como se inscrever para o seminário e para o projeto como um todo pode ser obtidas por meio do email pcd.inclui@gmail.com . Os municípios, as superintendências regionais e os Núcleo de Apoio às Pessoas com Necessidades Específicas (Napnes) dos Ifes são responsáveis por indicar os servidores que irão fazer a formação, mas, havendo vagas, podem ser contempladas inscrições avulsas de profissionais interessados. ‘Atendimento casado’ continua nas Apaes, denunciam mães e educador Famílias relatam que mantêm filhos no CAEE da Apae, no contraturno, para não perder atendimento em saúde https://www.seculodiario.com.br/direitos/atendimento-casado-continua-nas-apaes-denunciam-maes-e-educador ‘A classe comum tem que ser o local privilegiado da Educação Especial’ Douglas Ferrari comemora a revogação de decreto que segregava pessoas com deficiência na Educação https://www.seculodiario.com.br/educacao/a-classe-comum-tem-que-ser-o-local-privilegiado-da-educacao-especial ‘Todos os alunos
‘Médicos pela democracia’ se organizam no Espírito Santo
Entidade debateu pautas com a ministra Nísia Trindade, em defesa de uma saúde pública de qualidade A Associação Brasileira de Médicas e Médicos pela Democracia (ABMMD), que recentemente debateu pautas com a ministra da Saúde, Nísia Trindade, se organiza no Espírito Santo. O grupo é formado por profissionais e acadêmicos de Medicina de todo o Brasil, que defendem a democracia, a ciência, a vida e uma saúde pública de qualidade e financiada No Estado, a mobilização é liderada pela Drª Henriqueta Sacramento. Uma campanha de filiação já está em curso, para ampliar a participação da categoria em questões que passam por decisões políticas, como o programa Mais Médicos. A entidade, suprapartidária e criada no Ceará em 26 de outubro de 2019, reúne profissionais com uma visão progressistas do setor, como resultado do desdobramento do Movimento de Médicas e Médicos pela Democracia surgido três anos antes, para defender o regime democrático. A organização tem caráter nacional e capilaridade em todos os estados brasileiros e no Distrito Federal. O programa Mais Médicos foi uma das pautas debatidas com a ministra, além do pedido da associação de representação em fóruns e instâncias do Ministério, formação médica e o financiamento para a saúde. “Se você é médica, médico ou acadêmico de Medicina e ainda não é filiado à nossa entidade, entre no nosso site (ABMMD.com.br), conheça melhor nossa atuação, os documentos e propostas, e solicite a sua filiação. É muito rápido e todo o processo é feito online. Venha formar conosco e seja mais um na defesa da democracia, do SUS, da ciência e da vida!”, diz o texto da campanha de filiação. “Trataremos também do programa Mais Médicos para o Brasil, solicitaremos representação da nossa entidade em fóruns e instâncias do Ministério, discutiremos a formação médica, o financiamento para a saúde e outros temas importantes”, acrescenta. A ABMMD já funciona, além do Ceará, no Amazonas, São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Alagoas, Maranhão, Piauí, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Sergipe, Rio de Janeiro, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e no Distrito Federal.
Vice-cacique Maynõ Guarani: ‘O que nos fortalece são nossos cantos sagrados’
Liderança na maior aldeia Guarani do Estado, ele luta pelo direito do seu povo viver conforme sua cultura Redes Sociais O que era para ser uma aldeia mais reservada, apenas para as famílias desejosas de viver mais próximas da natureza e afastadas do burburinho que adentra as Terras Indígenas (TIs) de Santa Cruz, em Aracruz, norte capixaba, tornou-se a maior aldeia Guarani do Espírito Santo. A Tekoá Ka’agwy Porã (Aldeia Nova Esperança) tem hoje mais de 200 moradores e a liderança de um jovem determinado a trabalhar pelo direito do seu povo de viver conforme sua cultura. Filho do cacique Werá Djekupé, Maynõ Guarani é casado e pai de duas crianças. Graduando-se no Programa de Licenciatura Intercultural Indígena (Prolind) da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), ele caminha com desenvoltura entre o universo indígena e branco, consciente da responsabilidade de dar continuidade à luta empenhada por seus antepassados. Redes Sociais “A gente está num território totalmente assolado pelo plantio de eucalipto. Precisamos retomar a conversa com a empresa [Suzano, ex-Fibria, ex-Aracruz Celulose], porque o território foi entregue [em 2007, após intenso movimento de autodemarcação de 11 mil hectares sob domínio da empresa] naquela situação, tendo de destocar [retirar os tocos de eucalipto cortados], empobrecido. Essas coisas não podem ficar impunes”, posiciona. O início do deserto verde, afirma, ainda está vivo na memória dos anciãos e reverberando sofrimento também entre as novas gerações. “Ela [Aracruz Celulose] chegou com correntões, derrubando toda a floresta. Os mais velhos viram isso. Eu gravei esses depoimentos segurando o choro, vendo a tristeza dos mais velhos. Não tem como dizer que esses acontecimentos do passado não afetam a gente na atualidade. Fazendo meu TCC [Trabalho de Conclusão do Curso] eu lia essas coisas nos documentos e me dava uma dor enorme no peito, relacionando com o que eu ouvia do meu pai, da minha avó. Não adianta dizer que não afeta, que é ‘mimimi’, porque não é”. A situação dos Guarani e Tupinikim em Aracruz, sublinha, é um microcosmo do que ocorre em âmbito planetário. “Os países mais pobres e mais violentos, com grandes índices de doenças, não são os europeus, somos nós, que ainda somos o celeiro deles. O ouro ianomâmi ainda vai para a Europa, as madeiras. A Sonia [Guajajara, ministra dos Povos Indígenas] fala bem isso: os minérios usados em iPhone são tirados das terras indígenas. Essa sociedade que a gente está vivendo é ridícula, insustentável, não vale para nós. A gente está chegando num ponto de não reversão, precisa pensar em políticas melhores”. O que há de mais promissor no cenário brasileiro atualmente, observa, é a chegada de lideranças indígenas nos espaços de poder federais, após a eleição do presidente Lula (PT), mas isso não significa que está tudo resolvido, apenas que a luta encontra eco no alto e médio escalão e que avanços já começaram a acontecer. “A gente esteve com Douglas Krenak [novo coordenador regional da Funai ES/MG]. É uma conversa que começa a ficar melhor, de parente para parente a gente se entende melhor, mas está tudo no começo. Eu que estou começando agora quero contribuir para sanar essas questões”. Questões que, em âmbito local, tocam em necessidade básicas da Aldeia Nova Esperança, como água, energia, saúde, educação. Fundada em 2015, sofre logo nos seus primeiros meses de existência os impactos do crime da Samarco/Vale-BHP, mas de forma inversa às áreas atingidas pelos rejeitos de mineração. “Com a contaminação do rio Piraquê-açu e o lençol freático na Terra Indígena, os Guarani, que têm uma ligação forte com a natureza, muitos decidiram vir para a Nova Esperança”, conta Maynõ. Por estar mais distante do rio, a nova aldeia se manteve mais a salvo, atraindo mais famílias do que se esperava inicialmente. Divulgação A grande população, por sua vez, trouxe desafios extras na infraestrutura. A comunidade está organizada em núcleos familiares distantes entre si, ocupando vasta extensão. A energia elétrica, no entanto, não chega a todos os núcleos e a água encanada a nenhum. “Quem consegue energia, cava um poço, pega água da nascente e têm água em casa, mas de forma bem precária”. Nas negociações com a Fundação Renova, instituída devido ao crime da Samarco/Vale-BHO, uma demanda é para que, como forma de compensação ao território, sejam abertos poços artesianos e construída uma rede de distribuição da água potável. “Mapearam o solo, mediram, mas não fizeram nem o poço nem o encanamento. São poços que iriam abastecer também outras aldeias Tupinikim e Guarani. Mas continuamos sem qualquer resposta”. Em caráter emergencial, a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) passou a abastecer a comunidade com carro-pipa. Há mais de sete anos e de forma precária. “Feriado o caminhão não vem. Sábado e domingo, o caminhão não vem. Caminhão quebrou, choveu, não vem. Às vezes é uma semana as famílias tomando água de chuva ou pegando água em garrafa pet. Eu já passei quatro finais de semana seguidos sem ter água na caixa. O reservatório, a Estação de Tratamento de Água [ETA] que abastece a população de Aracruz, está colado na aldeia, no Rio Sauê, mas a gente aqui não tem água encanada”, contrapõe o vice-cacique. Outra reivindicação antiga dos Guarani é a educação. Depois de muita luta, os Tupinikim conseguiram o funcionamento da sua escola de ensino médio, mas os Guarani ainda estão desassistidos. “Só tem duas pessoas formadas aqui na minha comunidade. Os jovens às vezes nem terminam o ensino médio, porque têm dificuldade de ir para Coqueiral. Temos o ensino fundamental Guarani, mas também precisamos do ensino médio”, reivindica. Já a saúde indígena se resume a uma salinha reservada para receber a equipe de saúde quando faz visita à comunidade. “Precisamos de pontos de apoio para a saúde estruturados. Tem famílias no interior do território que têm que se deslocar cinco, até 14 km, para chegar a um posto de saúde”. A espiritualidade também demanda uma estrutura sobre a qual a comunidade atua para sanar. Maynõ conta que cada núcleo familiar da aldeia Nova Esperança faz sua própria casa de reza, mas não há palha natural suficiente no território para todas as construções. Sem o indaiá nativo,
Órgãos de Justiça recebem denúncia de assédio sexual contra professor da Ufes
Renato Siman é denunciado há um ano, mas direção da universidade mantém caso invisibilizado, apontam os documentos Leonardo Sá Várias denúncias de assédio sexual e moral contra um professor, mas nenhuma providência por parte da direção da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). A situação, que se arrasta desde 2021, foi levada nesta sexta-feira (14) aos Ministérios Públicos Estadual e Federal (MPES e MPF) e às Defensorias Públicas Estadual e da União (DPES e DPU). O acusado é o professor do Departamento de Engenharia Ambiental da Ufes Renato Ribeiro Siman, que segue com suas atividades docentes normalmente. O encaminhamento do caso aos órgãos de Justiça foi feito pelo também professor de Engenharia Ambiental Ricardo Franci e a professora do Centro de Educação Física e Desportos (CEFD) Rosely Pires, coordenadora do programa de extensão Fordan – Cultura no Enfrentamento às Violências e integrante do Conselho de Ensino, pesquisa e Extensão (Cepe-Ufes). O professor Ricardo Franci foi quem abriu a primeira denúncia formal sobre o caso dentro da universidade, em março de 2022, depois de ter sido procurado diretamente pelas vítimas, que buscavam ajuda para fugir da perseguição que sofriam por parte de Renato Siman, na época, orientador das mesmas, em cursos de mestrado e doutorado e em estágio. “Fiquei muito abalado pelo sofrimento delas. Uma chegou em estado de choque na minha sala, catatônica. Eu tenho uma filha da mesma idade delas, não podia ignorar aquela situação”, relata Ricardo Franci, que aceitou o pedido de se tornar orientador das alunas, que acabaram concluindo seus trabalhos com êxito, diferentemente do que prognosticava Renato Siman, que elas eram incapazes de concluir o mestrado/doutorado, que eram burras e coisas do tipo. As ofensas, relata o documento encaminhado pelos professores aos órgãos de Justiça, se seguiam mediante as recusas das alunas em ceder aos seus convites. Somente em fevereiro, conta o professor que acolheu as vítimas, a Ufes abriu uma comissão de sindicância sobre o caso, porém, não é possível acessar o processo, que teria mantido em sigilo. “Não há informação de que o processo tenha evoluído. O tempo está passando e a comissão não ouviu ninguém, o que é estranho, porque ela tem todos os relatos e contatos das vítimas”. Antes desse registro em março de 2022, o professor havia tentado denunciá-lo ao Centro Tecnológico, ao qual a Engenharia Ambiental é vinculada, mas não conseguiu. “Não aceitaram, disseram que eu não tinha provas, o que é estranho também, porque como servidor público, se eu fizesse uma falsa denúncia, recorreria em prevaricação”. Antes, ainda, a pedido das estudantes, que não queriam que o caso fosse resolvido dentro da universidade, com medo de exposição e perseguição, as denúncias foram feitas na Delegacia da Mulher, em 2021, de onde foram encaminhadas para a Polícia Federal. “A PF fez muitas entrevistas, mas não houve nenhum encaminhamento em favor das vítimas”, lamenta. O documento encaminhado aos órgãos cita ainda o registro de uma denúncia contra o mesmo Renato Siman, de 2018, na Vara de Violência Contra Mulher, “Convertido (a) o(a) Julgamento em Diligência Segredo de Justiça e remetido para 2ª Vara da Infância e da Juventude de Vitória”. Rosely avalia que o caso é mais um exemplo da negativa recorrente da universidade, não só a capixaba, em reconhecer os crimes de assédio e outras violências. “É uma briga constante entre a universidade e a Justiça. A lei diz que é crime, mas a universidade age como se não fosse. A Ufes não pode continuar com esse e outros casos engavetados. Se esse professor tivesse sido punido na primeira vez, não teria feito outras três vítimas”. A postura negacionista e revitimizadora, pontua a coordenadora do Fordan, se repete, via de regra, nas universidades brasileiras. A necessidade de mudar isso tem sido o motor a mobilizar diversos pesquisadores do Espírito Santo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia e outros estados, em torno da criação de uma diretriz que oriente quais procedimentos devem ser adotados em casos de violência como esse. “Não há um protocolo que oriente os gestores, os professores e os servidores sobre como agir nessas situações, para acolher a vítima e responsabilizar o agressor. Não é só mandar para a delegacia, a universidade tem que tomar providências também”. O Fordan publicou, nessa quinta-feira (13), a edição nº 2 do Boletim Jurídico Nacional “Violências nas universidades: o acolhimento às vítimas e enfrentamentos às violências de gênero e raça”, resultado de um segundo simpósio nacional sobre o assunto, realizado no último mês de março, em parceria com o Fórum Nacional de Mulheres Negras (FNMN), a União das Negras e Negros (Unegro-ES), a Revista Direito e Feminismos e o Instituto Baiano de Direito e Feminismos (IBADFEM). O boletim reúne 13 textos de juristas e pesquisadores da área de diversos estados, sendo alguns transcrições de suas participações no simpósio, além de uma matéria publicada em Século Diário por ocasião do primeiro simpósio, realizado em abril de 2022. Em sua fala, a defensora pública Maria Gabriela Agapito, coordenadora de Promoção e Defesa dos Direitos das Mulheres na DPES, cita dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública referentes à quarta edição da pesquisa “Visível e Invisível: a Vitimização de Mulheres no Brasil”, com dados inéditos sobre diferentes formas de violência física, sexual e psicológica sofridas por mulheres com 16 anos ou mais no ano de 2022. Segundo o Fórum, “45% das mulheres entrevistadas, indagadas sobre a atitude tomada em relação à agressão mais grave sofrida nos últimos 12 meses, responderam que nada fizeram. Isso se deu, em regra, pela ausência de confiança nas instituições no sentido de acolhimento e de providências efetivas para fazer cessar as agressões”, relata a defensora. “Essas violências podem ser praticadas nos mais diversos ambientes, inclusive nas universidades. As instituições de ensino superior reproduzem um microcosmo da sociedade brasileira, extremamente patriarcal, hierarquizada, homofóbica, racista e misógina. As pessoas que se tornam vítimas de assédio e de discriminação encontram uma grande dificuldade de furar esta bolha para denunciar quem as violentaram, se sentindo incapazes e descrentes nos mecanismos de proteção”, aponta. “Existe, nas universidades e nas instituições
Papo de Repórter: gentrificação na Grande Vitória
Professora da Ufes, Clara Miranda comenta Assunto da Semana. Programa ainda tem Giro de Notícias e o bloco De Rolê Para discutir o Assunto da Semana, a convidada é Clara Miranda, professora de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Estado (Ufes), repercutindo a destruição de um dos edifícios da Vila Rubim pela Prefeitura de Vitória. Com apresentação de Vitor Taveira, o programa ainda conta com o Giro de Notícias, trazendo os principais acontecimentos na semana sob as lentes da imprensa alternativa capixaba, e a seção De Rolê, com dicas culturais e viagem. O Papo de Repórter vai ao ar toda sexta-feira cedinho, trazendo um resumo crítico dos últimos acontecimentos no Espírito Santo. —- * Inscreva-se no canal do Século Diário no YouTube e ative o sininho para acompanhar as novidades. ** Se quiser ouvir este e outros programas em podcast, siga os canais do Século Diário no Spotify e Google Podcasts.
Justiça libera R$ 37,5 milhões da Fundação Renova para obras na ES-010
Intervenções irão beneficiar moradores de Regência e Povoação, impactados pelo crime da Samarco/Vale-BHP A Justiça Federal de Belo Horizonte liberou R$ 37,5 milhões da Fundação Renova para execução de obras de infraestrutura rodoviária na ES-010, que beneficiarão os distritos Regência e Povoação, na região da Foz do Rio Doce, norte do Estado, impactada pelo crime da Samarco/Vale-BHP. Os recursos são resultado de um acordo firmado em 2021, como forma de compensar os danos do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), em 2005, considerado o maior crime socioambiental do Brasil e um dos maiores do mundo. Os repasses somarão, no Espírito Santo, R$ 365 milhões, para obras também na ES-440 (entre a BR-101 e Regência) e ES-248 (entre a ES-358 e Povoação). Outras intervenções em infraestrutura e saúde envolvem ainda os municípios atingidos de toda bacia do Rio Doce, chegando ao valor de R$ 600 milhões. O valor da obra entre Vila do Riacho (Aracruz) e Regência (Linhares) foi liberado após manifestação favorável do Ministério Público Federal (MPF) a pedido do governo capixaba. O trecho que será executado pelo Departamento de Edificações e de Rodovias (DER-ES) tem 34 quilômetros e será contemplado, segundo o governo, com pista simples, tratamento de segurança com sinalização, travessia de pedestres e redutores de velocidade nas localidades urbanas, faixa multiuso e construção de baias e abrigos para pontos de ônibus. A obra inclui também a construção de três pontes sobre o Rio Comboios, Córrego Quartel e afluente do Córrego Quartel. O edital foi autorizado pelo governo em fevereiro de 2021, com anúncio de investimentos superiores a R$ 90 milhões. Com a construção da estrada, as comunidades de Regência e Povoação terão garantia de acesso aos grandes centros e, consequentemente, a serviços de saúde, transporte e educação. Além disso, dará apoio ao fortalecimento do turismo e da economia regional na região da Foz do Rio Doce, severamente afetada pelo crime, facilitando o acesso de turistas e a serviços. Na mesma decisão, a Justiça Federal acolheu requerimentos formulados pelo MPF e determinou ao governo que faça ajustes e preste uma série de informações apontados por perícia judicial acerca da execução do acordo. Os valores são liberados a pedido do Estado, após perícia judicial e manifestação do MPF. No último dia 31, o juiz federal Michael Procópio Ribeiro Alves Avelar, da 4ª Vara de Belo Horizonte, também determinou à Vale e à BHP Billiton o depósito em juízo da quantia de R$ 10,3 bilhões, para garantir a execução, em dezenas de comunidades do litoral norte capixaba, dos programas de reparação e compensação dos danos referentes ao rompimento da barragem. A decisão atendeu à ação impetrada pelo governo capixaba, as Defensorias Públicas e os Ministérios Públicos federais e estaduais do Espírito Santo e Minas Gerais. Na petição, é pedido que a Fundação Renova, que executa os programas de reparação e compensação, cumpra a Deliberação nº 58/2017 do Comitê Interfederativo (CIF) – instância que fiscaliza a execução das ações da Renova , em que são listadas como atingidas “as áreas estuarinas, costeiras e marinhas nas comunidades localizadas a partir de Nova Almeida até Conceição da Barra”. A Fundação vem atuando apenas em comunidades de Linhares, descumprindo há quase seis anos a deliberação e agravando ainda mais os impactos do crime nessas localidades. Vale e BHP sofrem bloqueio judicial de R$ 10,3 bilhões para reparar danos no ES – Século Diário https://www.seculodiario.com.br/meio-ambiente/vale-e-bhp-sofrem-bloqueio-judicial-de-r-10-3-bilhoes-para-reparar-danos-no-es
Visita de Lula à China abre canais para mais negócios com o Estado
Presidente da Câmara de Comércio Brasil-China, Carlos Eiras, destaca relações em áreas como tecnologia e energia limpa A visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à China, nesta semana, contribui para incrementar mais negócios com empresários do Espírito Santo e setores do governo, segundo o presidente da Câmara de Comércio Brasil-China, Carlos Eiras. Ele destaca as relações comerciais do Estado com o país asiático nas áreas de tecnologia, geração de energia limpa, transportes e commodities, como café, celulose e minério.“A visita do presidente à China habilita ainda mais o estreitamento dessas relações, que já duram mais de 15 anos”, comemora Eiras, que organiza para julho ou agosto deste ano, a visita ao Estado da cônsul da China, Tian Min, para manter contatos com autoridades e empresários, visando ampliar as relações e formalizar novos negócios e projetos de cooperação. Os chineses têm interesse em apresentar placas de energia solar, ônibus elétricos e formalizar negócios com frigoríficos capixabas. Arquivo Pessoal Durante a visita, poderá ser reativada a Frente Parlamentar Brasil-Espírito Santo-China da Assembleia Legislativa, instalada em setembro de 2021, quando foi assinado um termo de cooperação com o Instituto Sociocultural Brasil-China (Ibrachina), visando às relações comerciais entre os dois países. O termo de cooperação de interesse mútuo prevê a colaboração e assessoria com o objetivo de ajudar a frente parlamentar. Visita O presidente Lula encontrou-se com o presidente Xi Jinping, no Palácio do Povo, em Pequim, nesta sexta-feira (14), no segundo dia da visita oficial da delegação brasileira ao país asiático. Os dois mandatários assinaram uma série de acordos para ampliar parcerias em áreas como comércio, telecomunicações, ciência e tecnologia, transição energética e combate às mudanças climáticas. Durante o encontro, ambos fizeram breves pronunciamentos exaltando a importância da relação comercial e estratégica entre os maiores países da Ásia e da América do Sul, que completa 50 anos em 2023. Uma parceria que pode ser ampliada, segundo Lula. Na sequência, houve uma reunião mais restrita, entre os dois líderes e os ministros de relações exteriores dos dois países. “Queremos que a relação Brasil-China transcenda a questão comercial, queremos ter uma relação profunda na ciência e tecnologia, parcerias entre as universidades para ter mais alunos brasileiros na China e mais alunos chineses no Brasil. Contamos com a China na nossa luta pela preservação do planeta Terra, defendendo uma política climática mais saudável. Por isso, é extremamente importante uma transição energética para que a gente possa produzir energia mais limpa, sobretudo energia eólica, solar e biomassa”, destacou Lula. Ricardo Stuckert O presidente também mencionou metas no campo da preservação ambiental, aliadas ao desenvolvimento agrário para ampliar a produção de alimentos. “O Brasil está comprometido a alcançar, até 2030, o desmatamento zero na Amazônia e a dar nossa contribuição à preservação do planeta. Estamos convencidos de que o desenvolvimento da agricultura brasileira não precisa fazer desmatamento irresponsável e muito menos queimadas. O Brasil pode praticamente dobrar sua produção agrícola recuperando terras degradadas, sem precisar derrubar nenhuma árvore”, afirmou. Por sua vez, o presidente chinês Xi Jinping se disse “feliz” ao ver o presidente Lula logo após ter se recuperado de um problema de saúde que adiou a visita, inicialmente marcada para o mês passado. Ele também falou sobre a parceria de longa data entre os dois países. “A China tem uma relação estratégica e de longo alcance com o Brasil, que tem um lugar prioritário nas nossas relações exteriores. O senhor é nosso amigo de longa data. O relacionamento Brasil e China, em desenvolvimento saudável e estável, desempenhará um papel importante para a paz, a estabilidade e o desenvolvimento próprio para os dois países e para o mundo”, afirmou.