Ao longo desta semana, coletivos realizam diversas atividades em municípios do Espírito Santo O Núcleo Estadual de Mulheres Negras divulgou um manifesto em que denuncia o racismo e deixa claro o que as mulheres negras querem para o seu “bem viver”. O documento foi divulgado em alusão ao Dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha, celebrado nesta segunda-feira (25). O lançamento do manifesto é o pontapé inicial de uma programação que termina no próximo sábado (30), com o Ato pela Vida das Mulheres Negras, na praça Costa Pereira, no Centro de Vitória, das 9h às 13h. A programação é realizada por coletivos de todo o Espírito Santo, com atividades como ensaios de bloco, oficinas, rodas de conversa, saraus, exibição de filmes, apresentações musicais, homenagens e feiras. Conforme consta no manifesto, entre os estados do Sudeste, o Espírito Santo é o de maior expansão populacional. Dos 3,5 milhões de habitantes, 1,78 milhões são mulheres. Em meio aos capixabas, de acordo com o Núcleo, com base nos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a quantidade de pessoas que se declaram negras é de 56,94%, sendo 48,62% pardos e 8,32% pretos. O Núcleo denuncia “a falta de suporte de serviços presenciais, a taxa de desemprego nas alturas, a falta de auxílios socioassistenciais e a fome”, que “são elementos que atingem principalmente as mulheres e, mais ainda, as mulheres negras”. O documento prossegue destacando que “a pandemia tornou muitas cativas de seus lares, da vida doméstica e de seus agressores. O racismo não está só na estrutura do estado. Temos o racismo institucional nas políticas públicas, mais particularmente, na ausência delas para a população negra e em especial, para as mulheres negras”. O Núcleo reivindica trabalho digno e “respeito a nossa humanidade; às práticas religiosas de matriz afro, que contam a história do negro e da negra nesse país”. Também luta para que “todas as mulheres e meninas pretas neurodiversas, com algum tipo de deficiência, tenham acesso digno à escola, à saúde e ao acompanhamento em serviços públicos de modo adequado e orientado”; e pela “construção de uma agenda que combata o feminicídio sem considerar os agressores apenas em sua perspectiva individual, mas sim reconhecendo o machismo como pilar estruturante desta sociedade em que vivemos”. Por meio do documento, as mulheres negras defendem ainda o direito a “territórios quilombolas reconhecidos e titulados, para que nossas companheiras negras possam viver e criar como legítimas cidadãs brasileiras”; e que o município de Vitória, “que criou uma das leis mais antigas de captação de recursos do Brasil: a Lei Rubem Braga, volte a respeitar os trabalhadores da cultura e pare de perseguir as manifestações culturais negras desta cidade”. No que diz respeito a essa reivindicação, a coordenadora estadual do Círculo Palmarino, Ana Paula Rocha, destaca que existe uma “criminalização da cultura preta e periférica”, com atitudes como policiamento da Ronda Ostensiva Municipal (Romu), “com armas de cano longo e abordagem violenta à juventude negra”; a apreensão do som do Bar da Zilda na terça-feira de carnaval; e a multa aplicada ao bloco AfroKizomba em abril de 2022, na descida da Rua Sete, no Centro de Vitória. “O bloco fez todo o trâmite necessário para ir às ruas, mas a prefeitura negou, porém, a gente manteve, pois a rua é do povo”, ressalta. O documento finaliza a parte das reivindicações destacando a necessidade da “presença do estado nas comunidades periféricas, não essa que tem ceifado a vida dos nossos filhos e nossa sanidade mental”; “um país que caiba em nossos sonhos de igualdade, sabedoria e respeito”; “a inclusão dos acervos de metodologia afrocentrada e periférica nas escolas e universidades e uma maior representatividade no corpo docente”; “a ampliação da democracia, ocupar espaços de poder e o fim da violência política de gênero”. Tereza de Benguela No manifesto, as mulheres negras relembram a memória de Tereza de Benguela, líder negra que viveu na região onde atualmente está localizado o estado do Mato Grosso. Ela lutou com sua comunidade de negros e indígenas por 20 anos antes de seu quilombo ser atacado e destruído pelas forças do Estado. “Os registros históricos sobre o período são imprecisos, ainda assim a memória atualiza o que a história não nos permite atestar”, aponta o documento. Programação Em referência ao Dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha, serão realizadas em todo o Estado diversas atividades. Ainda nesta segunda-feira (25), o bloco AfroKizomba realiza um ensaio aberto, às 19h, no Museu Capixaba do Negro (Mucane), Centro de Vitória; e o Coletivo FEPNES + Diversidade Núcleo de Cachoeiro de Itapemirim promove uma homenagem às mulheres negras e oficina de turbante e tranças. Nesta terça-feira (26), às 18h, acontece o Cine Debate, com o filme Identidade – Serviço Social e Questão Racial, no auditório Biblioteca da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). A programação desta quinta-feira (28) conta com uma roda de conversa sobre o Dia da Mulher Negra Latino Caribenha, organizada pelo Coletivo Dona Astrogilda, no Teatro Municipal de Aracruz, às 19h; e outra sobre Mulheres Negras, História que nos Negaram, às 19h, na Associação dos Docentes da Ufes (Adufes). Nesta sexta-feira (29), será a vez da Feira Artística e Cultural Dia da Mulher Negra Latino Caribenha, organizada pelo PET de Serviço Social, às 8h; da homenagem às Mulheres Negras, feita pelo Coletivo FEPNES + Diversidade Núcleo de Alegre; e do show da Naomhi, às 19h30, na Thelema, Centro de Vitória. Além do Ato pela Vida das Mulheres Negras, na Praça Costa Pereira, a partir das 9h, no sábado (30) acontece o Somos Terezas, às 11h, no Bar da Zilda, com oficinas, feira preta e roda de conversa; e Homenagem às Mulheres Negras, feita pelo Coletivo FEPNES + Diversidade Núcleo de Marataízes. Apesar do racismo e machismo, mulheres negras se destacam na história do ES Mulheres negras em todo o Espírito Santo deram e ainda dão contribuições importantes em diversas áreas https://www.seculodiario.com.br/direitos/existe-muita-historia-a-ser-relatada-sobre-mulheres-negras-desbravadoras
Mães pedem mudança na portaria que regula entrega de fórmula nutricional
Coletivo MESN defende inclusão da seletividade alimentar severa entre critérios aceitos na Farmácia Cidadã Arquivo pessoal A seletividade alimentar severa precisa ser incluída entre os critérios aceitos pela Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) para a dispensação de fórmulas nutricionais pela Farmácia Cidadã. O pleito é do Coletivo Mães Eficientes Somos Nós (MESN), que luta para que as crianças com esse problema, geralmente autistas, tenham acesso às fórmulas enquanto realizam terapias de médio e longo prazo que possam resultar em melhorias significativas na sua dieta cotidiana. “São muitos casos, crianças que só comem uma única coisa, só purê de batata, só o biscoito tal…e ficam sem comer na escola, às vezes passam dias sem comer nada nem em casa, chegando a ser internadas, de tão fracas”, relata Lucia Mara Martins, coordenadora-geral do Coletivo. É o caso de Irani Rodrigues do Nascimento, moradora do bairro Estrelinha, em Vitória, que tem dois filhos autistas, de nove e seis anos, com seletividade alimentar severa. A fórmula nutricional que ela prepara para os dois vem de latas doadas e do pouco que ela mesma consegue comprar. A demanda mensal em casa, para atender a todas as refeições, é em torno de 15 latas. Dependendo da marca – PediaSure e Nutrem são as mais conhecidas -, o valor de cada lata varia entre R$ 60 e R$ 105. “Tenho laudo da nutricionista e da nutróloga pedindo a fórmula, mas meu pedido foi negado duas vezes. Entrei na Defensoria Pública, dia 28 vai ter audiência. Falam que se meu filho ficar só com a fórmula, pode ter vários problemas de desenvolvimento daqui a cinco anos. Mas se ele estiver vivo daqui a cinco anos, eu já vou estar feliz”, roga Irani. Em paralelo, Irani, Lucia e diversas outras mães têm pautado o assunto nas reuniões realizadas com o governador Renato Casagrande (PSB). A desta segunda-feira (25) será a quarta da série, que teve início em fevereiro, depois que as mães acamparam por cinco dias no Palácio Anchieta com seus filhos, pleiteando um encontro como chefe de Estado e os secretários de Saúde (Nésio Fernandes) e Educação (Vitor de Angelo). “Já tratamos disso nas últimas três reuniões com o governador, mas nada mudou. Da parte da Sesa, também não. Eles dizem que a criança não pode ficar dependente dessa fórmula, que precisa aceitar outros alimentos, que essa não pode ser a primeira opção. Meu filho tem seis anos e essa não foi a minha primeira opção. Minha primeira opção foi um prato de arroz com feijão, carne, verduras, folhas. Eu tenho um filho de 19 anos que come de tudo e fui eu que o ensinei a comer. Eu já ensinei três crianças a comer, que foi meu filho e meus dois sobrinhos, eles comem de tudo. A mesma educação alimentar que eu tive, eu consegui transmitir para eles, mas eu sou frustrada porque não consegui passar para os meus dois filhos caçulas. Tudo o que a gente queria, é que nossos filhos comessem bem”, desabafa Irani. O pleito que vai ser reforçado é a mudança na Portaria 098-R/2021, que estabelece os critérios para aprovar pedidos de dispensação das fórmulas nutricionais. “Pela portaria, meus filhos não têm direito. Independente que eles não se alimentam. Querem esperar chegar ao ponto deles precisarem de sonda para se alimentar. Hoje funciona desse jeito”, lamenta. Irani conta que a filha tem conseguido alguns avanços com a terapia e já consegue se aproximar das frutas, brincar com algumas, cheirar. “Acredito que daqui a um período vou conseguir dar fruta para a Ster comer. O Nicolas que ainda não melhorou nada, ele faz vômito quando vê fruta ou qualquer coisa verde, sai correndo de perto do prato”. Arquivo pessoal Atualmente, os únicos alimentos que o menino aceita são achocolatado (de apenas uma marca específica), que ele toma antes de ir para a escola e no lanche da tarde, e um pouco de arroz e feijão, que às vezes aceita no almoço e na janta. “Ele comia coxinha de galinha de uma padaria aqui perto, mas começaram a colocar cheiro verde e ele nunca mais comeu, faz ânsia de vômito”. Acontece que às vezes nem o arroz e feijão é aceito, e já houve várias ocasiões em que o Nicolas ficou dias seguidos sem comer. “Quando ele fica muitos dias sem comer nada, eu faço o macarrão do miojo. Ele já chegou a comer três pratos de macarrão. Depois, desmaia e dorme um tempão. Bate aquela fraqueza, do corpo muito tempo sem comer, e onde ele está, ele cai e dorme”. Arquivo pessoal Irani lembra que os filhos já chegaram a comer frutas e verduras, mas à medida que o autismo se manifestou com mais força e o diagnóstico foi confirmado, a seletividade também se agravou, até chegar a esse ponto. A história é semelhante à de Thatiane Ribeiro Guimarães de Carvalho, que mora em Jacaraípe. O filho, Benjamin, de cinco anos, também já foi de comer frutas e sucos naturais. Mamou até os quatro anos, mas nunca aceitou leite nem derivados, nem carne ou pão. A seletividade começou a aparecer durante a introdução de alimentos salgados. “Ele tomava caldinho de feijão, batatinha, mas abandonou as frutas. Ficou comendo comidinha de sal normal, com legumes e tudo, mas nunca mais comeu frutas e sucos”. Durante a pandemia, ela conta que o quadro se agravou. “Ele passou um período três meses só comendo aquelas batatas de potinho, industrializadas, biscoito de maisena do pacote vermelho e refrigerante coca-cola. Não aceitava mais nada, nem batata frita natural, nada. Perdeu peso, passou mal na escola, porque não aceita nada”. Arquivo pessoal As vitaminas e suplementos, Thatiane só consegue fazer o filho tomar se for junto com o refrigerante. “Na água ele não toma remédio. As pessoas me criticam muito, sofro muito preconceito por causa do refrigerante. Mas as pessoas não sabem da saga que eu passei pra chegar nesse recurso. Ele teve que tomar vitamina B12 na veia. Qualquer medicação hoje dele é no refrigerante, não consigo na água e o suco ele não toma”. Desde que iniciou uma nova terapia,
‘Poder público tem que coibir crimes na Lagoa Encantada’, cobram voluntários
Grupo reivindica fiscalização e agilidade na criação do parque. Incêndio nesse sábado foi criminoso, acreditam Reprodução/Redes sociais “O poder público precisa coibir os crimes dentro da Lagoa Encantada”. A súplica vem do grupo de voluntários que se dedicam a cuidar do local, uma das poucas áreas selvagens dentro da zona urbana de Vila Velha, nos arredores do bairro Vale Encantado, que impressiona a pesquisadores, ambientalistas e a população local, devido à beleza, biodiversidade e função de regulação de cheias das lagoas e alagados da região. Antigo, o pleito voltou a ser reforçado nesse final de semana, em função de mais um incêndio. Na manhã deste sábado (23), o fogo se alastrou pela vegetação na área onde um casal de lontras, espécie ameaçada de extinção, foi visto recentemente. Nas redes sociais, o grupo pediu providências enérgicas da prefeitura. “Incêndio criminoso com muitos focos em várias partes da Lagoa Encantada, com o claro objetivo de queimar o máximo possível de vegetação, aproveitando a seca que assola nossa região”, informou a legenda dos vídeos postados no perfil APP Lagoa Encantada no Instagram. “Pedimos ao prefeito, à Guarda Municipal ambiental e ao secretário de Meio Ambiente que investiguem e punam o responsável, pedimos também mais fiscalização na área da Lagoa Encantada para coibir estes meliantes, e por fim, aguardamos ansiosamente a criação do Parque Natural da Lagoa Encantada, para que efetivamente possamos proteger animais como o casal de Lontras e tantos outros que resistem e sobrevivem na Lagoa Encantada. Pedimos aos amigos da Lagoa Encantada que fiscalizem, qualquer atitude suspeita denunciem, filmem! Não podemos deixar atitudes como estas impunes!”, clamaram os voluntários, na postagem. Membro do Fórum de Desenvolvimento Social, Econômico e Ambiental do Grande Vale Encantado (Desea), outro coletivo que luta pela criação de uma unidade de conservação nos alagados e lagoas da região, Wilerman da Silva Lucio reforça o pleito e a indignação. “Estamos tentando pressionar para coibir esse tipo de crime. O poder público deveria estar mais atuante nesse sentido. Está deixando muito a desejar. Faltam investigações sobre os incêndios que ocorrem lá, e já foram tantos nos últimos anos! Falta também fiscalização preventiva. Se pelo menos uma vez por mês um fiscal passasse lá e divulgasse essa ação rotineira, a sensação de impunidade seria menor e certamente diminuiria esse tipo de crime. Já pedimos câmeras de segurança também, e nada. E quanto mais tempo demora, mais destruição ocorre na área”. Parque natural A demanda pela criação de uma unidade de conservação para proteger o patrimônio natural da região chegou até a Prefeitura de Vila Velha em 2016, por meio de uma ação civil pública impetrada pelo Ministério Público Estadual (MPES). Depois de realizados os estudos técnicos necessários, entre 2017 e 2019, a consulta pública à proposta elaborada pela Secretaria foi feita no último mês de maio. A minuta do projeto de lei que visa efetivamente criar a unidade de conservação, segunda informou a prefeitura em nota, está pronta e aguarda os vereadores voltarem no recesso para ser encaminhada para apreciação e votação da Câmara Municipal. Causa desconhecida Na nota, a Secretaria de Meio Ambiente também informa que sua Coordenação de Fiscalização de Ecossistemas e Atividades Poluidoras (Cofeap) “tem intensificado as atividades de fiscalização e cumprido a lei para coibir o avanço irregular nas áreas ambientalmente protegidas”. Quanto ao incêndio da Lagoa Encantada, “a PMVV informa que identificou e adotou as medidas de combate ao incêndio e acionou o Corpo de Bombeiros, auxiliando-os nos trabalhos de campo”. Já o Corpo de Bombeiros, também por nota, informou que, ao ser acionado para atuar no incêndio no sábado, “constatou que o fogo se concentrava em uma área alagadiça, com vegetação do tipo taboal. O terreno era bastante extenso e de difícil atuação, distante de residências, empresas ou outras edificações. A guarnição fez um preventivo para eliminar o perigo de propagação”. Disse também que “não foi possível identificar a causa do incêndio” e que “não localizamos acionamento para incêndio nesta região na data de hoje”. Os Bombeiros informam que o acionamento para combate a incêndios deve ser feito pelo 193 e a prefeitura indicou a Ouvidoria Municipal, através do telefone 162 ou clicando no link da Ouvidoria no site da Prefeitura. Ameaçadas de extinção, lontras são fotografadas na Lagoa Encantada Presença da espécie, aparentemente em comportamento reprodutivo, reforça importância da criação de um parque natural https://www.seculodiario.com.br/meio-ambiente/ameacadas-de-extincao-lontras-sao-fotografadas-na-lagoa-encantada
Mapeamento irá impulsionar criação de rede de benzedeiras do Espírito Santo
Ideia é também realizar um encontro estadual, além da produção de um documentário e um livro Foi dada a largada para uma verdadeira caça às benzedeiras, mas ao contrário do que é praticado por pessoas motivadas principalmente pela intolerância religiosa, essa “caça” não tem como objetivo exterminar o benzimento, mas sim, estimular sua prática. A iniciativa partiu da benzedeira Yasmin Ferreira, conhecida como Veia do Patuá, e de Ione Duarte, pesquisadora de plantas alimentícias tradicionais e integrante da Rede Urbana Capixaba de Agroecologia (Ruca), que estão fazendo um mapeamento das benzedeiras do Espírito Santo. Para auxiliá-las nessa tarefa, baste preencher um formulário, registrando o maior número de informações possíveis sobre a benzedeira que a pessoa conhece. O mapeamento é o ponto de partida para a criação de uma rede de benzedeiras. “Isso surgiu da necessidade de manter os saberes. Somos mulheres pretas, muitos dos saberes dos nossos mais velhos passam pela oralidade e vão morrendo, inclusive, vários dos nossos mais velhos faleceram de Covid-19. Queremos promover a comunhão, a concretização de uma rede”, diz Ione. Ela informa que redes semelhantes a que ela e Veia do Patuá querem criar já existem em estados como Minas Gerais e Florianópolis. “Temos necessidade de saber quem as benzedeiras são, quantas são, o que podemos desenvolver em conjunto”, afirma. O mapeamento será feito de forma contínua, não tendo prazo para ser finalizado. Quando já tiver uma quantidade considerada relevante, o próximo passo será entrar em contato com as benzedeiras que foram mapeadas. Leonardo Sá Entretanto, para dar início a esse contato, será necessário auxílio financeiro. Algumas das alternativas destacadas por Veia do Patuá são a possibilidade de criação de um financiamento coletivo, de elaboração de projeto para edital e de contar com o suporte de pessoas que queiram auxiliar nessa tarefa, por exemplo, disponibilizando automóvel para as viagens a serem feitas, já que a ideia é contatar benzedeiras de todo o Espírito Santo. “Através do mapeamento, conseguiremos saber quais os custos e iremos ligar para as benzedeiras cadastradas para saber se têm interesse em receber a gente. Com certeza teremos que visitá-las mais de uma vez para poder criar laços”, diz Veia do Patuá. Ela destaca que, antigamente, as benzedeiras conheciam umas às outras, mas hoje “está cada uma no seu canto”. “Há preconceito, racismo. A maioria delas é negra, de comunidades, são tachadas de feiticeiras, macumbeiras, por causa disso muitas nem se dizem mais benzedeiras”, lamenta. O mapeamento, conforme proposto por Ione e Veia do Patuá, irá culminar não somente na criação de uma rede, mas também na realização de um Encontro Estadual das Benzedeiras do Espírito Santo, “um resgate afetivo, escuta afetiva e o poder da oralidade”. Outras ideias são a elaboração de um documentário sobre as benzedeiras do Espírito Santo e a publicação de um livro sobre o mesmo tema. “O benzimento é uma prática muito ancestral e muito sagrada. Queremos conhecer a história dessas mulheres, fazer com que sejam reconhecidas”, resssalta Veia do Patuá. Perpetuar a tradição Outro mapeamento é feito por um grupo de mulheres que não querem deixa o benzimento morrer no Espírito Santo. Elas têm realizado encontros mensais, nos quais relatam suas experiências na convivência com benzedeiras e também na atuação dessa atividade, já que o grupo é aberto a quem já se dedica ao benzimento. A ideia é que o mapeamento seja feito inicialmente na Grande Vitória, para que esse coletivo recém-criado aumente e seja possível traçar ações conjuntas de despertar desse dom. A aposentada e pesquisadora em desenvolvimento humano e processos educacionais, Helena Rosa de Oliveira, que teve a iniciativa de criar o grupo, afirma que a ciência é fundamental, mas não precisa atuar sozinha. Para ela, quando se trata das energias, se enxerga o ser humano de maneira integral. “Por isso queremos resgatar o benzer, as curas, rezas, imposição de mãos. Articular esses saberes, ver onde estão, descobrindo a força do benzo e ajudando pessoas que estão doentes de forma geral, não somente fisicamente. Estamos em uma situação de pandemia, degradação governamental, empobrecimento, fome, de um desgoverno que inverte a ordem do bem viver. A população adoece, fica com o coração sofrido, está faltando generosidade e fraternidade nas relações humanas”, enfatiza. Helena Rosa criou o grupo pensando “no que há de mais simples, de mais humano, de mais chão, no resgate da troca, de gente que benze com amor, que reproduz a doação que herdou dos ancestrais”. Trata-se, ainda, de uma forma de “harmonização com o seu ambiente, a sua casa, a casa comum, que é a Terra. Não estamos falando de doutrina, de religiões”, pontua. Grupo de mulheres troca experiências para preservar prática do benzer Grupo também quer fazer um mapeamento das benzedeiras e promover o despertar de dons https://www.seculodiario.com.br/cultura/grupo-de-mulheres-troca-experiencias-sobre-benzer-para-preservacao-dessa-pratica Com apenas 26 anos, benzedeira quer estimular outros jovens à prática Véia do Patuá elabora https://www.seculodiario.com.br/cidades/com-apenas-26-anos-benzedeira-quer-estimular-outros-jovens-na-pratica-do-bendizer
Do outro lado do rio
Muita água correu embaixo dessa ponte, mas naqueles idos não havia pontes O rio corre há alguns bilhões de anos, inquieto, constante, emoldurado por dois mundos opostos. De um lado a vida agitada do chamado Século XXI, embora muitos outros séculos tenham transcorrido. Inquietos animais motorizados seguem por trilhas sinuosas, poluindo o ar ao redor. Estranhas ocas alinhadas ao longo dessas vias abrigam tribos exóticas, gente preocupadas com o salário sempre menor que o desejado, a hora marcada para algum compromisso importante, uma pandemia inesperada: tudo muda, tudo passa, o rio continua. * Na outra margem um matagal verdejante persiste, refletido nas águas que correm em busca do mar, eterno e inconstante. E me permito filosofar: essa é a mesma paisagem que os tupiniquins viam, há mais de 500 anos. Nessas águas riscadas por suas canoas rústicas eles se banhavam, brincavam, morriam – o mundo era do tamanho de suas caminhadas. A única certeza era o retorno diário dos deuses que lhes permitiam viver: o sol e sua esposa, a lua, que um castigo divino separou. Nessa sociedade primitiva, a maior preocupação era achar a alimentação diária. * Hoje uma velha ponte liga esses dois lados distintos, agredindo essa paisagem quase intocada. Muita água correu embaixo dessa ponte, mas naqueles idos não havia pontes. Os tupiniquins não construíram cidades, templos, palácios. Viver se resumia em nascer, ter filhos, morrer, e não conheciam outro jeito de ser. Com todos os avanços da sociedade moderna, com toda a sofisticação da tecnologia e das ciências, viver ainda se resume em nascer, procriar, morrer. * Não é preciso muita imaginação para reconstruir a grande virada na vida desses primeiros habitantes da terra brasilis, onde plantando tudo cresce – fome, corrupção, ganância, obesidade. Para nada disto seus pagés conheciam antídotos. De repente, do mar chega a estranha nave de muitos braços, largas narinas que se estufam com o vento. O monstro avança implacável, poderoso, ameaçador. De suas entranhas saem deuses falando línguas confusas, seus corpos envoltos em escamas como os peixes, plumas como os pássaros. * Quem são eles? Generosos, trazendo farturas? Destruidores, espalhando doenças? Os índios não têm como saber nesse primeiro encontro. São ingênuos, e os tratam com cortesia. Mil e quinhentos anos depois, pouco resta dos donos das terras que usurpamos sem pedir licença e sem recompensas, como pouco resta dessa paisagem. O matagal já não faz parte de uma floresta, é apenas uma estreita faixa de mato resistindo teimosamente aos ataques das imobiliárias. Poluído e ameaçado, o rio ainda corre – até quando?
Dá para ser amigo do clima sem ameaçar a soberania alimentar e a biodiversidade?
Casagrande é o segundo governador a sancionar lei que ratifica protocolo para criar Consórcio Brasil Verde Hélio Filho/Secom O protagonismo do Espírito Santo sob gestão de Renato Casagrande (PSB) nos acordos climáticos em escala nacional e global deu mais um passo na última sexta-feira (22), com a sanção, pelo governador capixaba, da Lei Ordinária n° 11.668, que ratifica o protocolo de intenções para a criação do Consórcio Interestadual Brasil Verde, cujo objetivo é promover o enfrentamento aos efeitos adversos das mudanças climáticas, em conjunto com os demais estados brasileiros. A proposta de uma coalização de governadores pelo clima foi liderada por Casagrande durante a 26° Conferência das Nações Unidas para a Mudança Climática (COP-26), em Glasgow/Suécia, em novembro passado, onde, inclusive, ele foi eleito por unanimidade para a presidência do Consórcio. Para que seja efetivamente criado, é preciso que os chefes do Executivo de ao menos outros 19 estados sancionem leis semelhantes, a exemplo do que fizeram o Espírito Santo e o Mato Grosso do Sul. Giovani Pagotto/GovES A finalidade primordial é gerir aportes internacionais de recursos públicos e privados, com destaque para o governo dos Estados Unidos e empresas multinacionais. A dica foi dada em Glasgow pelo governador, ao comentar a pauta da reunião feita com o emissário americano Jonathan Pershing, representante do enviado especial dos Estados Unidos para questões climáticas, John Kerry. “Falamos sobre a importância de países ricos e entidades investirem no Brasil para atingirmos as metas. Contudo, nosso grande problema no Brasil, é aprovar financiamentos externos que, em alguns casos, chegam a durar até quatro anos. Por meio de doações, os recursos podem ser repassados de forma direta, superando assim a burocracia”. Já a pista para a conveniência da realização das tais doações por parte de multinacionais do agronegócio, como a Suzano Papel e Celulose (ex-Fibria, ex-Aracruz Celulose), vem da sua assídua presença em iniciativas ligadas ao mercado capixaba de sequestro de carbono. Umexemplo é o Plano de Agricultura de Baixo Carbono (Plano ABC) do Espírito Santo, cuja primeira versão (2014-2020) traz a papeleira como “parceira no alcance de resultados e ações”. O “Resultado 1” projetado é “Ampliação da Cobertura Florestal” e se subdivide em dois indicadores: “Florestas nativas recuperadas” (15 mil hectares) e “Florestas Plantadas Recuperadas” (12 mil hectares de SAFs de seringueira e cacau e 30 mil de eucaliptais). Para atingir esse resultado, cinco ações foram estabelecidas: a primeira, plantio de 100 milhões de mudas de “café, seringueira, eucalipto, cacau etc.” O Atlas da Mata Atlântica do Espírito Santo, publicado em 2018, indica que, especificamente em relação à eucaliptocultura, a meta deve ter sido alcançada. Reunindo o monitoramento das mudanças na cobertura vegetal em todo o território capixaba ocorridas entre 2007/2008 e 2014/2015, a publicação mostra que os monocultivos de eucalipto foram o uso do solo que mais cresceu no período, subindo de 5,8% para 6,8%, um aumento de 45,3 mil hectares. A quinta ação do Plano ABC referente ao Resultado 1 é a contratação de 21 mil hectares de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), meta que também foi atingida, pois, os resultados oficiais do Programa Reflorestar, para o período de 2015 a 2019, exibem a realização de 3,79 mil contratos de PSA, que, juntos, somam 20,1 mil hectares de áreas que foram alvo ou de recuperação ou de reconhecimento de florestas em pé. O investimento no período foi de R$ 73,3 milhões. Florestas e ‘florestas’ O cruzamento desses diferentes estudos e planos mostra como o deserto verde continua tendo prioridade em relação à floresta nativa. O termo floresta, aliás, é usado para se referir aos monocultivos comerciais de ciclo curto que abastecem as fábricas de celulose da Suzano, mesmo sendo os mesmos fontes de aplicações periódicas de agrotóxicos, causadores de escassez hídrica e violação de direitos de povos e comunidades tradicionais, globalmente conhecidos como protetores das verdadeiras florestas, com sua biodiversidade e serviços ecossistêmicos característicos, que vão muito além do sequestro de carbono. A tendência, segundo a gerência do próprio Reflorestar, é que a próxima edição do Atlas aponte a mesma dinâmica: eucalipto liderando a expansão, seguido do café; mata nativa com cobertura estável (porém perdendo em complexidade e biodiversidade, com mata jovens substituindo florestas maduras); e pecuária encolhendo, apesar de continuar ocupando a maior área (39,2% em 2015). A prometida nova fábrica da multinacional em Aracruz, anunciada para começar a operar em 2024, quando irá gerar 200 empregos, entre diretos e indiretos, vai exigir mais terra coberta com monocultivos exóticos. O investimento para erguer a fábrica é de R$ 600 milhões, obtido pela empresa por meio de isenções fiscais concedidas pelo governo do Estado. Extrema pobreza Curiosamente, é o montante similar indicado, em 2019 pelo Instituto Jones dos Santos Neves, como necessário para retirar todas as pessoas que viviam na condição de extrema pobreza no Espírito Santo antes da pandemia. Em 2021, no entanto, o valor aportado pelo Palácio Anchieta nessa tarefa foi de R$ 136,52 milhões, um orçamento oito vezes maior que o de 2018, porém, ainda assim, equivalente a apenas 22,7% do que recebeu a papeleira. Outro estudo do IJSN, relativo à pobreza no Espírito Santo, no âmbito do Projeto de Desenvolvimento Regional Sustentável (DRS), traz a extrema pobreza como características do “indigente”, “aquele indivíduo cuja renda familiar per capita não é suficiente nem para cobrir os gastos com alimentação”. A degradação ambiental e humana são duas faces da mesma moeda, por isso a importância do pleito histórico empreendido por organizações sociais do campo, como o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), que tem, entre suas prioridades, a realização de iniciativas que são amigas do clima sem serem inimigas da soberania alimentar e da sociobiodiversidade. São projetos que visam a recuperação ambiental, produção e conservação da água, por meio da produção de alimentos saudáveis, baseados na Agroecologia e nos Sistemas Agroflorestais (SAFs). “A gente vem colocando isso para o governo do Estado em vários momentos, mas ainda se investe pouco nessa área. Existe o Programa Reflorestar, mas ele é muito limitado e não atende às regiões que estão mais degradadas, como na divisa
Apesar do racismo e machismo, mulheres negras se destacam na história do ES
Mulheres negras em todo o Espírito Santo deram e ainda dão contribuições importantes em diversas áreas O Espírito Santo conta com várias mulheres negras que marcaram sua história. No entanto, muitas foram invisibilizadas devido ao machismo e racismo, fazendo com que suas contribuições em diversos âmbitos não fossem conhecidas e reconhecidas. O Dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha, celebrado nesta segunda-feira (25), é convidativo não somente para se debater essa questão, mas também para trazer à tona nomes que se destacaram por suas contribuições sociais, culturais e na luta contra as opressões no Espírito Santo. Algumas dessas mulheres são a líder quilombola Zacimba Gaba; a catadora de papel Dona Domingas; a servidora pública estadual Ilma Viana; a médica Maria Verônica da Paz; a quituteira Maria Saraiva; e Zilda Antônia de Aquino, proprietária do tradicional Bar da Zilda, no Centro de Vitória. A historiadora e integrante do Círculo Palmarino, Lavínia Coutinho Cardoso, destaca que, para os homens negros, também foi dada a invisibilidade ou o branqueamento, como aconteceu com o escritor Machado de Assis, retratado como um branco, mas para as mulheres negras, foi ainda pior. “Os homens se apoiam em uma expressão de poder, que é o machismo, um sistema de opressão. Portanto, as mulheres negras, nessa pirâmide, estão lá na base”, ressalta. Lavínia Coutinho Cardoso. Foto: Zélia Siqueira Lavínia afirma que existe muita história a ser relatada sobre mulheres desbravadoras, “mas elas, dentro do cânone tradicional da Academia, fazem parte de uma história que não foi contada”. Entretanto, acredita, embora as redes sociais sejam muito utilizadas, por exemplo, para disseminar fake news, por outro lado, têm sido espaço de voz para as mulheres negras, que passam a contar suas histórias, seus processos de violência e também outros, como os intelectuais. “Não passamos somente por processos de violência, também estamos na Academia, mas não com a expressividade que precisamos”, enfatiza. Ilma Viana Uma das mulheres destacadas por Lavínia é a servidora pública estadual Ilma Viana. Falecida em 2017, ela nasceu em Domingos Martins, região serra do Estado, foi criada em Castelo, mas aos 19 anos se mudou para Vitória para trabalhar como empregada doméstica. A historiadora recorda que Ilma foi uma das fundadoras do Círculo Palmarino no Espírito Santo, e, portanto, no Brasil, já que a entidade surgiu no Estado. Redes sociais Lavínia também se refere à militante do Movimento Negro como uma “mulher de axé”, já que era Ekedi de Candomblé. Na Capital, além do Círculo Palmarino, Ilma participou de vários movimentos organizados e instituições em defesa do povo negro, entre eles o movimento de mulheres Dandara e o Instituto Elimu. Participou da primeira Marcha Mundial das Mulheres em 2000 e também da primeira Marcha das Mulheres Negras em 2015. Esteve presente no Congresso de Mulheres Afro-Latinas-Americanas e Afro-Caribenhas em 1992, no qual foi instituído o dia 25 de julho como o Dia Mulher Afro-latino-americana e Caribenha. Quando faleceu, aos 49 anos, estava no segundo mandato do Conselho Gestor do Museu Capixaba do Negro (Mucane), representando o Elimu. Apaixonada pelo carnaval, morreu dias antes da realização dessa festa, sendo homenageada pela Escola de Samba Unidos da Piedade no Sambão do Povo. Atualmente ela dá nome ao mandato da vereadora de Vitória, Camila Valadão (Psol), primeira mulher negra a assumir esse cargo na Capital. Maria Verônica da Paz Psiquiatra, filha de pai ferroviário, Maria Verônica da Paz foi uma das primeiras mulheres negras a se formar em Medicina. Em 1988, conforme recorda Lavínia, idealizou o Museu Capixaba do Negro (Mucane), localizado no Centro de Vitória. A ideia surgiu por ocasião de um seminário sobre o centenário da abolição da escravidão, realizado na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), quando ela era sub-reitora comunitária da instituição de ensino. PMV O Museu foi criado no governo Albuíno de Azeredo, primeiro governador negro do Brasil, dando início à luta para seu funcionamento de fato. “Em um Estado dos mais conservadores, dominado por descendentes de imigrantes, como portugueses, italianos e alemães, não é interessante dar espaço e visibilidade para uma comunidade que não seja a branca”, diz Lavínia. A historiadora conviveu com Maria Verônica da Paz e rememora alguns sonhos partilhados pela médica em conversas entre ambas. “Lembro dela dizendo, ‘bicho’, eu quero um espaço onde os negros possam se reunir, onde a gente não precise batalhar para conseguir um auditório, fazer nossos eventos”. Lavínia afirma que Maria Verônica da Paz, que hoje dá nome ao Mucane, não viu o espaço ser finalmente concretizado, o que aconteceu na gestão do então prefeito de Vitória, João Coser (PT), quando o prédio passou para a gestão municipal. “Ela não viu o museu acontecer e se tornar um espaço de aquilombamento. É lá que as organizações do Movimento Negro fazem eventos, reuniões, que tem ensaio do AfroKizomba, é de lá que o AfroKizomba sai para o cortejo negro no Centro de Vitória”, ressalta. A historiadora afirma que “o museu hoje é tudo aquilo que Verônica sonhou e desejou como espaço para a população negra”. Dona Domingas “Domingas, a catadora de papel, hoje tem na escadaria a sua estátua, que está vendo lá do céu”. Essa frase é um trecho do samba Tipos Populares de Vitória, da Escola de samba Pega no Samba, de 1986, mas reeditado em 2007. Foi por meio dessa música, que a historiadora e coordenadora estadual do Círculo Palmarino, Ana Paula Rocha, tomou conhecimento de Dona Domingas, homenageada com uma estátua na escadaria Bárbara Lindemberg, que dá acesso ao Palácio Anchieta, no Centro de Vitória. Leonardo Sá Questionada sobre quem foi Dona Domingas, Ana Paula afirma que a reposta “vai variar de acordo com quem pergunta e responde”. “Aparece muito forte a imagem da catadora, colocando essa mulher no lugar de mendicância. Várias crônicas se reportam a ela como a mendiga, sem sonhos, desdentada, sisuda. É importante mudar esse olhar”, alerta Ana Paula. A historiadora destaca que resolveu “fazer uma busca mais atenta” sobre Dona Domingas, que nasceu no início do século XX. Essa busca veio da “necessidade de recuperar a história do povo negro com o olhar não colonizado”. Nessa pesquisa, Ana Paula encontrou parentes e outras
Histórias de agricultoras capixabas viram filme
“Ecos da Terra”, de Ursula Dart, aborda a agroecologia a partir de oito mulheres de norte a sul do Espírito Santo Oito mulheres e suas histórias de cuidado com a terra. Com lançamento online nesta segunda-feira (25), Dia Internacional da Agricultura Familiar, o documentário Ecos da Terra percorre 2 mil quilômetros pelo Espírito Santo para ouvir vozes femininas de quem constrói a agroecologia. Para assistir, é necessário preencher um formulário com suas informações, incluindo um e-mail para onde será enviado o acesso ao filme. A obra mostra o cotidiano e os motivos que as levaram a optar pela produção de forma natural, sem uso de agrotóxicos. Trata-se de um retrato diverso, de mulheres de várias regiões do Estado, incluindo quilombola, pomerana, sem-terra e agricultoras familiares. Participaram as agricultoras capixabas Ana Flavia Luck, Erenilda Luzia Schuina Ferreira Guio, Flavia dos Santos, Maria José Gonçalves Luck, Joselma Maria Pereira, Josiane de Abreu Machado, Marijane Luck e Selene Hammer Tesch. No início, a ideia era trabalhar com agricultores orgânicos de modo geral, mas ao longo da pesquisa para preparar o filme, a equipe acabou vendo a necessidade de ampliar o olhar para a agroecologia e, a partir daí, focar na atuação das mulheres. “É importante colocar as mulheres na cena. A agroecologia está muito nas mãos das mulheres, porque realmente é uma relação de cuidado com a terra, totalmente inversa da ideia do monocultivo. Envolve diálogo, conversa, conhecer a terra, trocar informações, sementes, cuidados diários”, diz Ursula Dart, diretora da obra, realizada com recursos do Fundo Estadual de Cultura. Para a cineasta, algo em comum entre elas é a relação de respeito que têm em relação à terra. Além disso, a obra revela não só sobre essas mulheres, mas também sobre o Espírito Santo, que é percorrido em longas distâncias para realização do documentário. “É sempre interessante perceber onde estão essas propriedades. Muitas vezes estão situadas em lugares cercados de pastos e monocultivos. É um retrato do Espírito Santo que não é diferente de outros estados brasileiros”. Outro fator evidenciado na obra é o desmonte das políticas públicas para a agroecologia nos últimos anos, especialmente por parte do governo federal, que acabam impactando diretamente no trabalho e na vida dessas mulheres e de alguma maneira na de todos nós, desde os que produzem alimentos até os que consomem em diversos territórios. Aliás, foi justamente a preocupação sobre a alimentação de seu filho que impulsionou Ursula Dart a iniciar as pesquisas que daria origem ao documentário, que possui 50 minutos de duração e foi produzido tendo como foco principal de exibição a televisão. O filme ainda possui uma trilha sonora original homônima, composta por Marcus Neves e interpretada pelas cantoras Claudia Zanetti e Dyo Arruda, com batidas de André Akira. Família Luck – Divulgação/ Ecos da Terra Selene Tesch – Divulgação/ Ecos da Terra Erenilda Guio – Divulgação/ Ecos da Terra Maria José Luck – Divulgação/ Ecos da Terra Joselma Pereira – Flávia dos Santos – Divulgação/ Ecos da Terra Josiane de Abreu – Divulgação/ Ecos da Terra Sobre as mulheres de Ecos da Terra Selene Hammer Tesch | Santa Maria de Jetibá – “Não matarás”, dizia o sexto mandamento. Foi assim que Selene, há mais de 30 anos, decidiu banir o uso dos agrotóxicos e começou a plantar comida de verdade. Hoje, a barraca da Selene na feira é cheia de flores e ervas medicinais. Esse é o carro chefe do sítio dela, inclusive, com mais de 400 espécies de ervas medicinais catalogadas. Dentre os títulos que coleciona, a capixaba, em 2017, foi embaixadora da ONU na campanha “#MulheresRurais, mulheres com direitos”, representando o sudeste brasileiro. Erenilda Luzia Schuina Ferreira Guio | Iconha – Presente nas feiras orgânicas da Grande Vitória, a Vero Sapore se une a outras famílias para estar presente em todas elas. Nas barracas, diversas frutas e itens da agroindústria, como pães, bolos e biscoitos. Essa parceria entre as famílias funciona há mais de 20 anos, sempre com uma busca para entender a necessidade do consumidor. Na lavoura, lá em Iconha, apenas práticas sem agrotóxicos ou insumos artificiais. Família Luck – Ana Flávia, Maria José, Marijane | Vila Valério – Numa região cercada pelas monoculturas do café e do pasto, o sítio Boa Sorte forma uma ilha verde com o cultivo de hortaliças sem agrotóxicos. Esse recinto verde surgiu quando anos atrás, em contato com o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), Dona Zezé decidiu arrancar todos os pés de café da propriedade e plantar comida de verdade. Joselma Maria Pereira | Santa Teresa – Mesmo numa região considerada seca, devido às montanhas da região que impedem a chegada da umidade, o assentamento Vale da Esperança do MST mostra que é possível produzir comida de verdade. Nossa personagem, Joselma, formou-se assistente social e atuou em outros campos da luta política pela terra antes de optar pela agricultura junto ao marido, produzindo comida de verdade e sem veneno. Flavia dos Santos | São Mateus – O território quilombola Sapê do Norte com mais de trinta famílias luta contra a monocultura do eucalipto para se manter em suas terras e produzir alimentos de qualidade. Enfrentando as dificuldades trazidas pelo deserto verde e resgatando essa ligação ancestral com a terra – de mais de 300 anos de história, Flavia produz alimentos orgânicos para entregar em escolas e “planta água” para manter as nascentes da região. Josiane de Abreu Machado | Alegre – Na comunidade Feliz Lembrança, no Caparaó capixaba, um grupo de pequenos agricultores agroecológicos conseguiu fazer o caminho inverso e, ao invés do êxodo rural, tem trazido os jovens de volta para o campo, com a proposta de produzir frutas, verduras, café, mel e uma agroindústria coletiva de doces, geleias e outras delícias saudáveis.
Mulheres negras formam quarteto de música clássica
Na coluna: Prêmio da Música Capixaba vem aí; artistas negros em destaque também no cinema e literatura MÚSICA Quarteto Zuri prepara novas apresentações Dois concertos no Centro Cultural Sesi, em Vitória, deram início à temporada de atividades do Quarteto Zuri, grupo formado por quatro mulheres negras que interpretam grandes obras desde a música erudita até a popular. A formação é composta por Jacqueline Lima (violino 1), Emily Cristina (violino 2), Dayse Sales (viola) e Jéssica Vianna (violoncello). O quarteto de cordas se apresentou no final do ano passado no Encontro das Pretas e agora se prepara para a realização de novos concerto. Um minidocumentário (veja abaixo) conta um pouco da história e proposta do projeto. No canal do grupo, há também uma versão de A Mulher do Fim do Mundo, gravado em homenagem a Elza Soares, que entrou no repertório da última semana junto a homenagens à compositora mexicana Guadalupe Olmedo e ao vienense Joseph Haydn. A próxima apresentação, que deve ser anunciada na semana que vem, trará interpretação de canções de compositores negros. Mais informações serão divulgadas no Instagram do Quarteto Zuri. Prêmio da Música Capixaba será realizado em agosto Em sua primeira edição, o Prêmio da Música Capixaba já tem data para a cerimônia que vai revelar os vencedores. Vai ser no dia 3 de agosto, às 19h, no Centro Cultural Sesc Glória, com transmissão ao vivo pelo YouTube. São 17 categorias que contam com 4 finalistas concorrentes em cada, escolhidos por um júri técnico e pela votação popular. Para ver os concorrentes e mais informação, acesse o site do evento: https://www.premiodamusicacapixaba.com.br. Homenageado e recordista de indicações Divulgação O líder de indicações do prêmio é César MC, que já despontou no cenário nacional, que concorre ao troféu em quatro categorias. André Prando e Budah possuem três indicações. O Prêmio da Música Capixaba também pretende homenagear a cada edição uma pessoa que tenha uma trajetória importante na música capixaba. O escolhido nesta primeira edição é Flávio Vezzoni (foto), compositor, vocalista e líder do Moxuara, em atividade desde o início da década de 1990. Samba Itinerante comemora cinco anos de existência Movimento importante de fortalecimento do samba de rua nas comunidades, o Samba Itinerante realiza evento especial de comemoração de cinco anos do projeto. O local é especial: o mercado da Vila Rubim, que recebe a atividade a partir do meio-dia de domingo (24). Ao longo desses anos, incluindo as paralisações da pandemia, foram 30 edições realizadas em diversos bairros da Grande Vitória, no formato clássico de roda de samba. O evento é gratuito, mas pede ao público que tenha condições que leve doação de alimentos não perecíveis, que serão destinados às comunidades parceiras do projeto. Festa das Ciatas acontece online Fazendo referência ao Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, a Festa das Ciatas, realizada pelo coletivo Afoxé, terá sua terceira edição no próximo 25 de julho, em formato online, pelo canal do evento no YouTube. A partir das 9h, o público poderá assistir a atividade com participação de Iamara Nascimento, Denilson Denal, Julian Barcelos, Bruna Medeiros, Lia da Silva, Sarah Bichara, Elaine Vieira, Zilda Aquino, Verônica Inácio, Micheli Montalvão e Edson Norberto. EVENTOS Banca de livros é excluída de evento cultural Redes sociais Nos preparativos para a Esquina da Cultura, atividade cultural promovida pela prefeitura para movimentar o inverno de Guarapari, uma cena curiosa chamou a atenção de moradores e frequentadores do município e internautas. A Banca da Lua, um sebo tradicional na região, foi removida do perímetro onde ocorrerá o evento. As emblemáticas fotos do proprietário retirando os livros e logo de um caminhão levando a banca explicitaram a contradição do fato acontecer justamente num evento cujo nome remete à cultura e ocupação da rua, exatamente o que o sebo promove durante todo o ano, há cerca de três décadas. Durante as duas semanas em que se realiza a Esquina da Cultura, a banca ficará nas proximidades do Radium Hotel. A prefeitura alega que poderá funcionar normalmente, mas o proprietário alega que no local o movimento é baixo e não compensaria a abertura. Após o evento, a banca voltaria a seu local original. Esquina da Cultura vai até próximo final de semana Em sua quarta edição com shows gratuitos, quatro palcos e praça de alimentação, a Esquina da Cultura tem programação por dois fins de semana, às sextas-feiras e sábados. A estreia desta edição foi na sexta (22), com destaque para apresentação de Oswaldo Montenegro. No próximo final de semana tem Família Lima, Ana Cañas, Zizi Possi e outras atrações. A programação completa está disponível aqui. CINEMA Filme capixaba estreia na Todesplay O longa-metragem Entreturnos, dirigido por Edson Ferreira, estreou dia 20 de julho na Todesplay, uma plataforma de streaming de filmes gerida pela Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro (Apan), que visa a promover e difundir um cinema mais diverso. Edson foi a primeira pessoa negra a dirigir um longa no Espírito Santo. O filme conta a história de Beto, um cobrador de ônibus que deseja ter um filho com Glória, sua esposa, mas acaba se envolvendo num relacionamento que envolve a própria esposa, a dona de um bar e o melhor amigo dela. Divulgação LITERATURA Moqueca Editorial lança chamado para coletânea Editora independente e especializada na publicação de zines, a Moqueca Editorial lançou chamado para a antologia Texturas Poéticas da Cidade, focada em contos, microcontos, poesias e textos curtos, de até 20 linhas. As inscrições vão até dia 7 de agosto e as informações completas sobre o chamado estão disponíveis aqui. O lançamento do zine já tem até hora marcada: será no dia 6 de outubro, em edição do Sarau da Barão, no Centro de Vitória. Dúvidas podem ser tiradas no e-mail moqueca_editorial@hotmail.com ou pelo Instagram @moquecaeditorial. Academia de Letras de Vila Velha elege primeira imortal negra Seis novos imortais foram eleitos no mês de julho para ocupar cadeiras da Academia de Letras de Vila Velha (ALVV). Um dos destaques é a professora aposentada e escritora Advanir Rosa da Silva Souza, que vai ocupar a cadeiras 7, que tem como patrono José Maria Paranhos.
Base do PT tenta sair do isolamento e mantém candidaturas ao Senado
Célia Tavares e Reinaldo Centoducatte são os nomes do partido que disputam a indicação para compor chapa Leonardo Sá/Ales Célia Tavares e Reinaldo Centoducatte são os pré-candidatos do PT do Espírito Santo ao Senado nas eleições deste ano. A decisão, confirmada a Século Diário, encontra respaldo entre a militância do partido e será o tema principal da reunião plenária ampliada, marcada para o próximo dia 30, convocada pelos movimentos populares, em Vitória. A movimentação da base da legenda tomou mais impulso depois da retirada da pré-candidatura do senador Fabiano Contarato ao governo. A medida, apesar de esperada, por conta da aliança com o PSB, sigla do govenador Renato Casagrande, candidato à reeleição, gerou isolamento do PT nas articulações para a formação de chapas, excluído, também, os nomes de Célia e Reinaldo do campo liderado por Casagrande, que anunciou o senador Ricardo Ferraço (PSDB) como vice e sinalizou apoio à reeleição da senadora Rose de Freitas (MDB). “Vendo a chapa, com o anúncio do vice, ficou muito pesada. Todos nós sabemos que o Ricardo Ferraço perdeu sua reeleição de senador por conta do mandato dele. Ele era o relator, o articulador da reforma Trabalhista, que retirou muitos direitos. Se compreendeu naquela época, agora mais ainda, porque se prometia gerar emprego, e nós estamos vendo o que aconteceu”, aponta Célia Tavares, reafirmando sua pré-candidatura. Para ela, o PT pode sair do isolamento se “entender de lançar candidatura avulsa, e é por isso que eu mantenho o meu nome e defendo que a gente tenha alternativas para o Senado, porque dos nomes que estão colocados hoje, a classe trabalhadora não tem nenhum representante, exceto, obviamente, que tenho que fazer o registro das candidaturas do Psol e de outros partidos de esquerda, que já foram testados”, destaca, citando as pesquisas. “Minha performance é boa, a gente sai com um patamar de 6%, e tem candidatura com mandato, cargo, que está rodando, e sequer nós do PT definimos qual o nome. É por isso que as pesquisas não mostraram durante muito tempo uma candidatura do PT, por conta de ainda não mostrarmos uma definição. No momento em que colocar, teremos uma boa performance”, acentua Célia. Já Reinaldo Centoducatte, o outro nome do PT para concorrer ao Senado, depois de confirmar que mantém a candidatura, comenta: “Acreditamos ser importante uma candidatura majoritária tanto para construir o palanque de Lula no Espírito Santo, como para o PT se apresentar de forma mais eficaz para a sociedade capixaba. O PT precisa querer ser protagonista e não coadjuvante”. Sobre a escolha do ex-senador Ricardo Ferraço como candidato a vice-governador, o ex-reitor da Universidade Federal do Estado (Ufes) afirma: “Está dentro da opção que o governador constrói sua coligação, preferencialmente, para satisfazer as classes dominantes do Estado, nada melhor do que inserir na sua chapa um representante do empresariado capixaba”. Reinaldo enfatiza que, “nesse processo e com essas alianças, junto a Casagrande, as esquerdas terão papel secundário. O interesse de Casagrande, neste momento, é surfar na onda da candidatura e prestígio do presidente Lula, sem qualquer compromisso com um programa que atenda o povo pobre do nosso Estado”, aponta. A reunião plenária para debater o assunto, convocada pela rede de comitês populares do PT, será realizada no Espaço Vitória, na avenida Leitão da Silva, no bairro Itararé, em Vitória, a partir das 9h30 do próximo dia 30. Da pauta, se destacam uma moção de acolhimento ao senador Contarato, escolha de nomes para disputar o Senado, e estratégias de campanha do ex-presidente Lula. Em vídeo, Lula sinaliza candidatura de Contarato ao governo em 2026 – Século Diário https://www.seculodiario.com.br/politica/em-video-lula-sinaliza-candidaturade-contarato-ao-governo-em-2026