Na História da lenda, a magia gera o amor, e Tristão e Isolda bebem uma poção Divulgação Tristão e Isolda vem da lenda celta do Século IX. Um relato que se passa durante o reinado do Rei Marcos, um escocês, de 780 a 785. Não existe uma fonte comum para esta narrativa, sua origem é difusa, não há consenso se veio de fatos reais, em certa medida, ou se é mesmo pura lenda. Sua ancestralidade remonta ao Século XII, com versões diferentes surgindo, com as mais antigas vindas justamente da cultura popular celta, no norte da França. Os textos mais populares da lenda, neste primeiro período, vieram dos poetas Tomás da Inglaterra e Béroul. Maria da França tinha uma habilidade em transcrever romances de cavalaria, e auxiliou bem na propagação da lenda de Tristão e Isolda, que vinha da tradição oral. Esta lenda, usualmente, se passava na Cornualha, península da Grã-Bretanha. Tristão é retratado como um bravo guerreiro e bom harpista, aí vem uma trama de envenenamento por duelo e peripécias que o levam a caminhos até Isolda e ao Rei Marcos, que era seu tio, e que acaba se casando com Isolda. A lenda segue com a poção mágica tomada pelos amantes Tristão e Isolda e todas as consequências e acontecimentos que decorrem de suas movimentações. Tristão conhece Isolda já nas costas da Irlanda e a lenda ali se desenvolve, com idas e vindas. Os amantes são flagrados ao fim da lenda, e Tristão é envenenado depois de fugir. Isolda também morre ao beijá-lo, por sorver parte deste veneno, e seus corpos são encontrados abraçados e entrelaçados. Aqui há um desfile de versões de honra, amor e traição, com relatos irlandeses, italianos, holandeses, espanhóis, persas e outros. Esta lenda é ligada por muitos ao ciclo arturiano, depois do Século XIII, em que ocorreu o triângulo amoroso entre o cavaleiro Lancelote, o rei Arthur e sua esposa Guinevere. A grande peça romântica e trágica de Shakespeare, Romeu e Julieta, bebeu muito dos versos do poeta Arthur Brooke, lançados em 1562, que, por sua vez, tiveram influência das narrativas e lendas sobre Tristão e Isolda. Por fim, na narrativa de Tristão e Isolda há questões como a do amor cortês, da religiosidade, da natureza, do mar, e da busca pela imortalidade ou eternidade. O mar é que orienta o destino de Tristão, de um lado ao outro do mundo celta, entre Cornualha, Irlanda e a Pequena-Bretanha. Dos autores modernos da lenda, pode-se citar o escritor que escreveu O Romance de Tristão e Isolda, uma lenda céltica sobre o amor trágico que une um cavalheiro e uma princesa irlandesa, que veio mais fortemente do Século XII em sua formação cultural de tradição de lenda e que ganhou versões na literatura mais moderna. Este escritor é Adolphe Joseph Bédier, que foi um estudioso e historiador da França medieval. Tem também, além das versões antigas de Béroul e de Thomas da Inglaterra, diversas versões sem autores conhecidos sobre a lenda de Tristão e Isolda. Na lenda, a magia gera o amor, Tristão e Isolda bebem uma poção, e daí em diante enfrentam diversas provações, citando Bédier: “Os amantes não podiam viver nem morrer um sem o outro. Separados, não era a vida, nem a morte, mas vida e a morte ao mesmo tempo”. Esta história de amor é fonte de dores e maldições, em que os jovens se veem obrigados a ocultarem o que sentiam, tendo trechos da lenda em que Tristão tem que se disfarçar para encontrar Isolda secretamente, enquanto os dois tentavam enganar e ludibriar o Rei Marcos. Tal lenda nos remete à Alta Idade Média, e tem uma narrativa bem rica em acontecimentos. É uma trama bem movimentada, com muitas reviravoltas e fatos que conduzem bruscamente para vários lados, criando uma narrativa de ação, muito mais do que de aprofundamento e análise de personagens, o que, muitas vezes, ao menos na versão que eu li – uma edição da editora Francisco Alves, vigésima edição, de 2007, com tradução de Maria do Anjo Braamcamp Figueiredo -, torne os diálogos e as relações de causa e efeito do que se lê bem pueris e superficiais. Richard Wagner, compositor alemão, avançou com sua arte total e inovou na ópera, com uma intensidade que revolucionou a experiência operística, com um envolvimento total deste artista na confecção e montagem destas óperas, o que nem Wolfgang Amadeus Mozart ou Giuseppe Verdi tinham feito. Wagner escrevia os libretos, buscava os cantores, regia e até criou um teatro de ópera. Wagner chega a escrever um ensaio chamado A obra de arte do futuro, em que articula a sua ideia de ópera como expressão do que ele vai chamar de “obra de arte total”. O drama musical aparece aqui como algo capaz de conjugar, simultaneamente, diferentes formas de expressão artística, indo da poesia à música, e passando por aspectos cênicos. E na sua busca que explora a poesia germânica e nórdica, há a produção de um material operístico que tenta traduzir ideias místicas sobre o amor e a identidade alemã. Quando Wagner já havia concluído em 1852 o libreto do ciclo de quatro óperas de O Anel dos Nibelungos, e composto em 1857 as duas primeiras óperas de O Ouro do Reno e A Valquíria, além da terceira parte de Siegfried, esse ano de 1857 foi quando, também, se apaixonou por uma mulher casada, a poetisa alemã Mathilde Wesendonck (1828-1902), que virou a sua musa inspiradora de Tristão e Isolda, a sua versão operística da lenda de origens celtas. Uma ópera que coloca em prática o leitmotiv, quebrando os limites da tonalidade, invadindo tudo com a sua intensidade sonora, e todo o amor trágico de Tristão e Isolda é sentido nesta obra de arte total, com ricas texturas harmônicas que se expandem, e esta expansão sonora testa os limites da tonalidade, ficando aberto o caminho para as futuras óperas atonais modernas. Wagner foi a experiência que esgotou todos os limites do romantismo musical, que dali em diante foi implodido e veio a modernidade. Era o fim da harmonia convencional e da tonalidade. Gustavo Bastos, filósofo e escritor. Blog: http://poesiaeconhecimento.blogspot.com
Coletoras de dendê, cipó e taboa denunciam fechamento de estradas pela Suzano
Coordenação Quilombola pede ação do MPF. “Invadiram nossa terra ilegalmente”, suplicam comunidades “A empresa papeleira (Suzano) vem há dias fazendo fechamento de estradas que as comunidades do território do Sapê do Norte usam para ter acesso às matas e brejos”. A súplica vem do território quilombola localizado entre São Mateus e Conceição da Barra, no norte do Estado, e já é de conhecimento do Ministério Público Federal (MPF). Redes sociais Assinada pela Associação Quilombola de Produtores de Mudas Nativas e Agricultura Orgânica do Angelim II e pela Comissão Quilombola do Sapê do Norte, a denúncia ressalta o cerceamento do direito de ir e vir das comunidades. “Entendemos que temos direito de ir e vir sem interferência, somos livres e temos de ter livre acesso ao território dentro das normalidades”. E, para além disso, os prejuízos ao trabalho de artesanato de subsistência e comercialização. “A maior parte da comunidade vive de extrativismo de cipó, dendê, taboa, etc.”, sublinham as entidades. Uma das comunidades prejudicadas é Angelim II, próximo a Sayonara, em Conceição da Barra. “Temos que andar quatro, cinco quilômetros com cipó na cabeça, dendê…Só passa a pé, não passa carro, moto, nem burro passa”, relata Flávia dos Santos. Arquivo pessoal Segundo a moradora, a Suzano alega que os fechamentos visam impedir a invasão dos eucaliptais da empresa. “O eucalipto é dela, ela tem direito de proteger. Mas tem que impedir as invasões de outra forma”, reivindica. Até porque, prossegue, quem tem intenção de invadir o eucaliptal não se sente intimidado com esses bloqueios de cimento. “Isso só está prejudicando as comunidades. Nós temos direito de circular no território”, posiciona. “Eles invadiram nossa terra ilegalmente”, afirma a quilombola, citando os resultados apresentados pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Aracruz Celulose (atual Suzano), realizada pela Assembleia Legislativa em 2002. Resultados que, uma década depois, embasaram uma ação civil pública impetrada pelo MPF, pedindo a anulação dos títulos de propriedades adquiridos a partir da década de 1970 pela então Aracruz Celulose de forma ilegal (grilagem), e a subsequente titulação das terras às comunidades quilombolas que lá vivem tradicionalmente. Em outubro passado, a ACP recebeu uma primeira sentença favorável e a papeleira recorreu. Para além dos aspectos legais e judiciais, Flávia invoca a alardeada “responsabilidade social” da empresa e exige respeito e diálogo de verdade com as comunidades que vivem e recriam oásis em meio ao deserto verde de eucaliptais da multinacional, líder mundial do setor. Na comunidade de São Jorge, em São Mateus, a intenção de fechamento de estradas foi apresentada pela empresa no final de abril e teve resposta negativa pelas lideranças locais. “A comunidade de São Jorge diz não”, relata o presidente da Associação Pequenos Agricultores e Produtores Rurais e Descendentes de Quilombolas e Sapê do Norte da Comunidade São Jorge (APARDEQUISJ), José Genminiano Francisco, o Zé do Leite. Diante dos rumores de que algumas comunidades estariam aceitando o bloqueio em acordos individuais com a empresa, e outras, como o Angelim II, já estavam sendo prejudicadas pela ação, Zé do Leite é incisivo. “Precisamos discutir isso juntos, todas as comunidades”, afirma. Invasão O fechamento das estradas só agrava um problema que vem sendo discutido de forma mais eloquente desde meados de 2021, quando a Suzano adentrou de forma violenta na comunidade de Angelim II para cortar eucaliptos maduros. Denunciada, a empresa “se desculpou” publicamente. O fato suscitou uma nova rodada de negociações, em que as comunidades foram acompanhadas pelo Ministério e Defensoria Pública. A empresa chegou a sugerir que as negociações passassem a ser feitas sem a presença dos órgãos de Justiça, o que foi repudiado pelas comunidades. Na ocasião, as lideranças quilombolas voltaram a pleitear ao governo do Estado o cumprimento da Lei 5.623/1998, que determina ao Estado a titulação das terras devolutas ocupadas tradicionalmente pelas comunidades quilombolas, mesmo que posteriormente tenham passado para a posse de outros, como a indústria de celulose. Divulgação Diante da dupla inércia, do Estado e da empresa, a comunidade vizinha de Angelim 1 decidiu fazer uma nova retomada de terra. Um mês depois, o governo do Estado anunciou abruptamente a suspensão, por 120 dias, da Mesa de Resolução de Conflitos Fundiários, que funciona sob coordenação da Secretaria de Estado de Direitos Humanos (SEDH). A justificativa foi o pedido, pela Suzano, de realização de um estudo no território, sem a participação da secretaria coordenadora, tampouco dos órgãos de Justiça e das entidades que representam as comunidades quilombolas, sem terra e indígenas. Restabelecida em março, a Mesa não apresentou os resultados do alegado estudo. Nesse meio tempo, tramita uma tentativa de acordo de paz entre as comunidades quilombolas e a papeleira. Da parte quilombola, o pedido é pelo recuo dos eucaliptais de dentro das áreas já reconhecidas como tradicionalmente quilombolas pela Fundação Cultural Palmares. “Retirar os eucaliptos e não plantar mais”, resume Flávia dos Santos. Cumprida essa reivindicação, as comunidades se comprometem a não fazer mais retomadas e participar da “oficina de escuta” que a empresa quer fazer, com o argumento de que quer ouvir as comunidades e saber suas necessidades. “Eles já sabem o que a gente precisa. Já fizemos inúmeras pesquisas, está tudo lá, os relatórios, vários estudos e levantamentos. Vamos de novo ficar respondendo tudo de novo? Precisamos de terra e de recuperar a água que secou por causa dos eucaliptos”. Como resposta, no entanto, a Suzano devolveu o documento com ajustes de seu interesse e não recuou. “O acordo deles é até engraçado: ‘a terra é nossa, vocês não podem fazer retomada’…Isso não é diálogo”, repudia. “O advogado da Suzano disse que não pode recuar os eucaliptos porque ‘tem uma fábrica pra sustentar’. Então nós falamos que não tem acordo e que só iríamos deixar plantar mais eucalipto sobre o cadáver da gente. Aí a empresa fala que a gente está sendo truculento. E eles são o quê? As nossas retomadas não estão em negociação. É o único enfrentamento que dá resultado. No Sapê não tem nenhum território reconquistado que não foi por retomada”, explica. A próxima reunião da Mesa de Resolução de Conflitos, a segunda
‘Eu não vou deixar de existir’, diz professor perseguido por usar saia na escola
Contrato dos colegas que o apoiavam não foram renovados em 2022. Caso tramita na Corregedoria da Sedu Tramita na Corregedoria da Secretaria de Estado da Educação (Sedu), a denúncia feita pelo professor de História Joatan Nunes Machado Junior, a respeito da discriminação e perseguição sofrida na Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio (EEEFM) Oscar de Almeida Gama, em Araraí, zona rural de Alegre, na região do Caparaó, em março de 2021, motivada pela vestimenta adotada pelo professor: o uso de saias longas para trabalhar. O professor prestou depoimento em audiência no início deste mês e aguarda a finalização da investigação, que deve ouvir também o acusado, o diretor, Paulo Eduardo Frinhani. Enquanto a investigação caminha, Joatan trabalha em outra escola. Redes sociais “Meu contrato vencia em dezembro, eu não poderia mesmo renovar. Mas poderia ter tentado um novo contrato, porque estou bem avaliado como DT [Designação Temporária], mas o diretor dificultou essa possibilidade, ampliando a carga horária de uma professora de outra disciplina, que assumiu as aulas de História”, conta. A manobra, reconhece, é legal, mas, dentro de um conjunto de fatos de perseguição ocorridos ao longo de todo o ano de 2021, soa como mais uma face da postura preconceituosa do gestor. Mais grave, no entanto, foi a atitude do diretor em relação aos colegas mais próximos de Joatan, professores e coordenadora da escola, que não tiveram seus contratos renovados, apesar de estarem igualmente bem avaliados. “Nós saímos da escola sem resposta plausível por parte do diretor. Não havia motivo para não prorrogar os contratos. Toda a equipe teve nota 100 na avaliação, a melhor”, conta a ex-coordenadora da escola, a pedagoga Ligia Machado. “Para mim, ele só comunicou que não iria renovar meu contrato no dia 22 de dezembro. Falou que a escola não tinha quantitativo de alunos para ter uma coordenadora. Mas a gente sabe que não é isso. Desde que eu assumi em 2021, não tinha quantitativo. Ele entrou em muitas contradições quando meu advogado questionou os motivos”, relata. “Todo mundo que era próximo ao Joatan foi prejudicado. Ele deu a entender que simplesmente não queria mais ter na escola, este ano, todas as pessoas que eram próximas dele, que eram amigas dele, que o apoiavam. E sem motivo. Joatan tinha excelente relação com a comunidade e, na escola, o trabalho dele não tinha qualquer reclamação ou ressalva, foi também muito bem avaliado, nota 100”, descreve a pedagoga. “Hoje estou até melhor, trabalhando em uma escola mais perto da minha casa. Mas ele me negou direito de escolha”, pondera. ‘De homem pra homem’ No boletim de ocorrência unificado registrado logo após o ocorrido (BU nº 44475916), Joatan conta que estava na sala de professores para pegar seu material da aula do dia quando foi interpelado pelo diretor, avisando-o da existência de um pai de aluno que estava incomodado com suas saias e que iria fazer um motim para retirá-lo da escola. Questionado sobre quem seria esse pai, o diretor respondeu não lhe falaria, “pois era um assunto de ‘homem pra homem’”, e ainda alertou Joatan sobre um fato semelhante ocorrido anteriormente, em que um pai chegou armado na escola ameaçando um professor. Redes sociais No depoimento do diretor na delegacia, segundo o BU, Paulo Eduardo disse que a reclamação na verdade havia partido de uma mãe e que disse para Joatan que era um pai, porque é uma forma genérica de dizer “pais de alunos”. O gestor também afirmou ao delegado, Carlos Vitor de Almeida Silva, que teria respondido à suposta mãe que “o professor tem a opção sexual dele e não existe nada na lei que proíba o homossexual de se vestir como tal, ou seja, como um homem ou como uma mulher”. E confirmou o relato da ameaça feita por um pai anteriormente. “Realmente eu disse a ele que em 2019, quando os alunos estavam tendo aula de educação física na quadra, distante cerca de 300 metros da escola, um pai chegou nervoso e foi tirar satisfação com o professor e o ameaçou”, mas disse que “apenas citou isso como exemplo para evitar conflito com os pais e responsáveis”, diante do pedido de Joatan para conversar diretamente com o pai que reclamava da sua vestimenta. OAB O caso também foi denunciado pela Comissão de Diversidade Sexual e Gênero da Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Espírito Santo (OAB-ES), por meio do presidente, Hiago Rocha de Oliveira, e da vice-presidente, Yasmin Garcia Piovezzan Leite. Em ofício encaminhado a Marina Bernabé e Viviana Corrêa, respectivamente, presidentes do Conselho Estadual LGBT+ES e da Câmara Técnica de Combate à Violência LGBTfóbica do CELGBT+ES, os advogados pedem que sejam pensadas “estratégias de preservação dos direitos fundamentais desse professor que foi ameaçado e corre o risco de perseguição por motivação homofóbica”. ‘Eu não vou deixar de existir’ Eu suas redes sociais, Joatan registrou, na época, seu temor e indignação. “Eu sou gay, nunca escondi isso de ninguém. E eu gosto de usar as minhas saias. E eu vou continuar usando, porque elas fazem parte de mim. Sou eu, Joatan, assim. Gostem ou não, esse sou eu”, afirmou, em vídeo onde se dizia muito nervoso diante das ameaças. “Mas o que mais me incomodou, foi o pai se incomodar com a minha vestimenta, mas, em nenhum momento, querer saber da escola, se o filho está aprendendo ou não, se está satisfeito com a merenda escolar…”, pontuou. Redes sociais Sobre a ameaça velada do diretor, Joatan ressaltou que “pessoas LGBTs morrem todos os dias apenas por existir. Elas não podem existir do jeito que elas são. Mas eu digo: eu não vou deixar de existir. Eu vou continuar existindo, dentro da minha individualidade e subjetividade. Eu vou continuar existindo do jeito que eu quero existir. E ninguém vai me tolher disso, porque se não eu serei infeliz. E eu não quero ser infeliz”. Ao final, o professor pede para o pai, então apontado pelo diretor da escola como reclamante, “para colocar a mão na consciência” e entender que “é na escola onde o filho dele vai
Política indigenista de Aracruz pode ser ampliada para todo o Estado
Deputada Iriny Lopes e vereador Jaguareté dialogam para tentar emplacar projeto na Assembleia Legislativa Leonardo Sá A política indigenista, que tramita nas comissões da Câmara de Aracruz, norte do Estado, pode ser ampliada para todo o Espírito Santo. Essa é a intenção da deputada estadual Iriny Lopes (PT) e do vereador e ex-cacique Vilson Jaguareté (PT), que propôs o texto no município e agora apoia discussões na Assembleia Legislativa. Discutida desde abril de 2021, a política, inédita, cria um arcabouço jurídico para garantia de direitos e proteção dos povos tradicionais em diversas áreas como Saúde, Educação, Segurança Pública e Infraestrutura. A proposta de ampliação da legislação que tramita em Aracruz partiu da deputada Iriny Lopes. A ideia é que o texto estadual complemente a legislação municipal e federal em campos como a segurança pública, que é de competência do Estado. Vilson Jaguareté adianta que uma consulta pública deve ser realizada já no mês de maio, com o objetivo de discutir o assunto. “Vamos tentar marcar com a deputada Iriny Lopes uma consulta pública no próximo mês. Essa ampliação seria fundamental, porque o Estado tem competências e prerrogativas diferentes do município, pode ter uma abrangência maior, superando as restrições municipais”, explica Jaguareté. Em Aracruz, a política indigenista ainda tramita em comissões da Câmara Municipal. O projeto de lei foi protocolado em março deste ano, mas já é discutido desde abril de 2021, em uma comissão especial criada com o objetivo de elaborar a matéria. Até agora, o texto já passou pela Procuradoria e Comissão de Constituição e Justiça e está agora na de Economia e Finanças. A política foi desenvolvida com o objetivo de garantir direitos básicos aos povos indígenas, servindo como um instrumento transversal para elaboração de qualquer plano ou política municipal na cidade, em qualquer área temática. Todos terão que garantir que os objetivos descritos na lei e, consequentemente, os direitos das comunidades tradicionais, sejam respeitados. Por isso, o projeto conta com diretrizes relacionadas a diversos temas. No campo da Educação, uma das medidas é a nucleação de escolas da educação infantil e ensino fundamental nas respectivas comunidades indígenas. O texto também prevê a promoção de ações para reduzir as disparidades na educação entre os povos indígenas e não-indígenas. Já na Saúde, a política prevê a garantia da atenção básica de qualidade para as populações indígenas de Aracruz, com ações que promovam a integração do atendimento em todos os níveis de assistência, respeitando as especificidades das comunidades. O texto também aborda a garantia dos critérios especiais de acesso e acolhimento dos povos tradicionais, principalmente considerando a avaliação de risco clínico e vulnerabilidade sociocultural. O texto final foi construído a várias mãos. Ao longo do processo, a comissão especial consultou órgãos como a Fundação Nacional do Índio (Funai), o Ministério Público e as próprias comunidades indígenas de Aracruz, diretamente impactadas com as propostas. No ano passado, o projeto chegou a ser elogiado por representantes da Funai. Isso porque, caso seja aprovada, a política possibilitará que o município assuma a responsabilidade sobre determinadas políticas públicas voltadas para os povos indígenas, prerrogativa que, até o momento, é do governo federal. Ou seja, em um contexto local, esses povos originários poderão contar com uma legislação que garanta direitos básicos, sem uma transferência da responsabilidade apenas para a instância federal. “O município pode e deve interagir com as comunidades indígenas em temas como saúde, educação e estrutura escolar, esportiva e de transportes, de modo que os indígenas tenham seus direitos respeitados também como munícipes e cidadãos”, disse, na ocasião, o coordenador da Regional Minas Gerais e Espírito Santo da Funai, André Leandro Sucupira.
Servidores e munícipes denunciam precarização das políticas públicas em Vitória
Manifestação na orla de Camburi apontou descaso em diversas áreas e falta de diálogo da gestão municipal Leonardo Sá A manifestação realizada na manhã deste sábado (30) na orla de Camburi, em Vitória, foi organizada por servidores públicos municipais, mas em meio à multidão, também se encontravam pessoas que não fazem parte do quadro de funcionários da Prefeitura de Vitória. Afinal, se o servidor trabalha em condições precárias, isso se reflete na qualidade dos serviços prestados, afetando, inclusive, a qualidade de vida dos moradores da Capital. A pequena Janaína (nome fictício), de apenas 11 anos, é um desses cidadãos para quem a precarização do serviço público tem trazido a negação de direitos, como o acesso à educação e à saúde. Leonardo Sá O uso de um nome fictício se deu para não expor sua imagem, além do que, mais importante do que saber seu nome, é conhecer sua história. Janaína é autista, aluna da Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Maria Stella de Novaes, no bairro Grande Vitória. Sem professor e nem ao menos estagiário para os alunos especiais que estimulem seu aprendizado e a interação com demais estudantes, ela fica isolada no colégio, o que já a levou a tentativas de suicídio. “Solidão, exclusão, ninguém fala com ela”, relata a mãe, Maria (nome fictício), sobre como a filha se sente na escola. Na primeira vez que externou a vontade de se matar, Janaína expressou isso em uma carta onde dizia que “não aguenta este mundo”. Na segunda, pegou uma faca e disse que iria cortar o pescoço. “Eu tomei a faca, guardei e hoje escondo todas as facas com medo dela se matar”, conta Maria. A falta de uma educação de qualidade, portanto, compromete ainda mais sua saúde, área na qual ela também está desassistida. “O pedido de encaminhamento de psiquiatra dela o posto devolveu, dizendo que ela tem que ir para o CAPS [Centro de Atenção Psicossocial], mas o CAPS não tem médico”, denuncia a mãe. Leonardo Sá A manifestação que apontou o desmonte do serviço público municipal teve concentração na Praça dos Namorados e seguiu rumo à orla de Camburi. Organizada pela Associação dos Servidores Pensionistas e Aposentados do Município de Vitória (Assim), grupo Professores Associados pela Democracia de Vitória (PAD-Vix), Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Vitória (Sindismuvi) e Sindicato dos Odontologistas do Estado (Sinodonto), reuniu pessoas de todas as idades, desde crianças até idosos, estes últimos questionando principalmente o aumento de 11% para 14% na alíquota da Previdência. Leonardo Sá A servidora Andressa de Souza Nascimento levou seus filhos, pois para ela, é uma forma de crescerem “reivindicando melhores condições de vida”. Durante o ato, foi distribuída uma carta aberta na qual os trabalhadores denunciam que o prefeito Lorenzo Pazolini (Republicanos) “não se despiu do cargo de delegado e usa do autoritarismo, que não busca diálogo, não responde ofícios, não dialoga com movimentos sociais, e é extremamente voltado para o marketing positivo de sua imagem pessoal, para iludir a população através das redes sociais”. Na educação, os servidores denunciam problemas como a implantação de novas disciplinas sem preparo dos professores e falta de profissionais para cobrir todos postos de trabalho. Leonardo Sá Na Saúde, a carta aponta “uma clara tentativa de desmonte e descaracterização do SUS com a contratação de Organizações Sociais [OS]; falta de material de consumo; falta de manutenção de equipamentos; desativação do Centro de Especialidades Odontológicas [CEO] de São Pedro; falta de profissionais, sobrecarregando os já existentes”. Além disso, os trabalhadores denunciam as perdas inflacionárias acumuladas superiores a 30%, bem como a não realização de concurso público, não nomeação de aprovados nos certames que têm validade, e a busca por “acabar com o direito de a população ser atendida com qualidade!”. Esta aí a jovem Janaina, como prova da afirmação exaltada pelos servidores.
‘Perseguições trazem consequências danosas e dolorosas’
Maria Helena Cota, do Policiais Antifascismo, criticou na Assembleia processos contra PMs progressistas abertos no Estado “Paz sem voz é medo” foi o título da audiência pública realizada nessa sexta-feira (29) na Assembleia Legislativa, que debateu a perseguição a membros do grupo Policiais Antifascismo (PAF). O debate contou com a participação de um dos líderes nacionais do movimento, o delegado carioca Orlando Zaccone, e de dois policiais capixabas que respondem a processos disciplinares por manifestarem suas opiniões políticas, Vinícius Querzone e Vinícius Sousa. Audiência pública da Comissão de Defesa da Cidadania e dos Direitos Humanos foi comandada pela deputada Iriny Lopes (PT). Foto: Ana Salles/Ales Também integrante do PAF, Maria Helena Cota Vasconcelos, escrivã aposentada da Polícia Civil do Espírito Santo, considera que sempre houve policiais antifascismo, porém, recentemente houve a percepção em torno da necessidade de unificar suas lutas diante da conjuntura adversa que se apresenta. A reação a essa organização são as perseguições sucessivas a agentes, que ocorrem não só no Estado mas por todo Brasil. “Essas perseguições trazem consequências danosas e dolorosas tanto para as instituições policiais como para aqueles que estão sendo investigados. Há casos de depressão e suicídio. Punições como repreensão, prisão e exoneração dos cargos. Alguns desistem da carreira para sobreviver. Policiais brilhantes e valorosos que preferem se afastar das instituições”, declarou. Ela observou, porém, que só são investigados aqueles que se colocam a favor das políticas públicas, contra a militarização da vida, o encarceramento em massa, o crescimento das medidas punitivas, entre outras medidas. “Aqueles que defendem políticas de armamento, de criminalização de movimentos sociais, são premiados pelo atual governo e muitos dentro das corporação”, relatou. “Embora pensem em nos calar, nós não vamos nos calar”, concluiu a escrivã. A advogada Juliana Vieira dos Santos, coordenadora da Rede Liberdade, que tem atuado em casos emblemáticos de violações de direitos humanos, entre eles os que envolvem processos a policiais antifascismo, pontua a violência e o autoritarismo como marcas profundas da sociedade brasileira, que persistem até hoje, tendo nas instituições militares uma das mais significativas representações no país. Ela chamou de “vigilantismo” processos levados a cabo por instituições contra servidores em represália, por considerar que representam ameaças ao atual governo ou gestão, não só no caso de policiais mas também de defensores ambientais, da causa indígena e outros. Advogada Juliana Vieira dos Santos, da Rede Liberdade, criticou processos contra policiais. Foto: Ana Salles/Ales No caso dos policiais militares, ela contabiliza processos administrativos ocorrendo em pelo menos 10 estados diferentes, com base no que considera uma “clara perseguição de policiais alinhados ou simpatizantes do movimento Policiais Antifascismo”. Juliana chama atenção para a origem dos processos, muitos deles a partir do monitoramento “absolutamente ilegal” das redes sociais, incluindo postagens feitas fora do horário de trabalho como supostas provas. “Isso é uma medida de polícia política, é uma grave lesão de preceitos fundamentais. É absolutamente inconstitucional, mas dão origem a processos administrativos”. Nesses casos, revela a advogada, são pinçadas fotos, frases soltas e uma sequência de materiais que não tem lógica entre si, que são relacionados e enquadrados dentro de algum artigo do Código de Ética da Polícia Militar (PM), geralmente acusando de conspurcar a imagem da corporação, ou confundido como atividade partidária, que é proibida a militares, a participação em manifestações ou em reuniões de movimentos sociais, o que é permitido aos policiais, que têm direitos como liberdade de expressão e de livre associação garantidos pela Constituição. Ela classifica os processos que vêm sendo conduzidos como “uma excrescência, um absurdo”, como “algo absolutamente surreal”, que não conectam ato com pena e que refletem comportamento incompatíveis com processos democráticos no estado de direito. Em sua fala, Orlando Zaccone prestou sua solidariedade aos policiais perseguidos que sofrem processo abusivos e falou da necessidade de enfrentar esses acontecimentos com uma estratégia nacional, entendendo que não são casos isolados, mas que fazem parte de uma estrutura que precisa ser modificada. O delegado destacou a necessidade de se construir a imagem do policial como trabalhador, especialmente em relação à Polícia Militar, onde seus agentes são tratados como “subcidadãos”, tendo proibidos seu direito de greve, de filiação partidária e de sindicalização, e cerceada sua livre manifestação do pensamento. Isso tem origem na relação umbilical da PM com o exército brasileiro. Delegado Orlando Zaccone defendeu a construção do policial como trabalhador. Foto: Ana Salles/Ales Zaccone fez referência a escritos do professor Luiz Eduardo Soares, que apontam que policiais nada têm a ver com exércitos, pois são instituições que, no marco da legalidade escrita, são destinadas a garantir direitos e liberdade dos cidadãos. A desmilitarização da PM seria então um passo importante nessa construção do entendimento do policial como trabalhador, de modo a devolver a cidadania plena a esses trabalhadores. Entretanto, é preciso desmistificar algumas coisas quando se fala em desmilitarização, considera o líder do PAF. Desmilitarizar não significa unificar. É possível ter duas polícias ou até várias operando ao mesmo tempo. “O problema é que a nossa é força auxiliar de reserva do Exército. Basta cortar o cordão umbilical e devolver a Polícia Militar ao comando do governador, porque hoje batem cabeça para dois senhores”, disse. Isso porque, de acordo com a legislação, embora seja controlado em tese pelos governadores, quem teria a decisão em último caso é o Exército, que pode inclusive não aceitar o comandante geral escolhido para a PM por um governador, o que até hoje não ocorreu desde o restabelecimento do regime democrático, mas que ainda é permitido pela lei e chocaria a sociedade se for adotada em algum momento. “Precisamos ir a fundo no debate sobre a desmilitarização, precisamente no sentido de devolver a cidadania ao trabalhador da Polícia Militar”, resumiu.
Atraso em editais da Secult prejudica festa tradicional quilombola
Raiar da Liberdade, realizada desde 1888 em Monte Alegre, sul do Estado, terá formato reduzido este ano Bate Flecha, Folia de Reis, Charola de São Sebastião, Quadrilha, Capoeira, Caxambu e Jongo. Quem participa do Raiar da Liberdade na comunidade quilombola de Monte Alegre, em Cachoeiro do Itapemirim, sul do Estado, fica encantado com a diversidade de manifestações culturais. Entretanto, este ano será diferente. Sem recursos dos Editais 2021 da Secretaria Estadual de Cultura (Secult), a festa contará somente com o Caxambu Santa Cruz, da própria comunidade. Luan Volpato A festividade, realizada desde 1888 no dia 13 de maio, data da abolição da escravatura, tradicionalmente conta com a distribuição gratuita de feijoada para cerca de 1 mil pessoas, quantidade que, segundo o membro da Associação de Salvaguarda do Patrimônio Imaterial Cachoeirense, Genildo Coelho, este ano será reduzida para cerca de 80. Os editais de 2021 da Secult foram abertos somente no final do ano, com inscrições até meados de janeiro de 2022, havendo, depois, prorrogação até dois de fevereiro. De acordo com os novos prazos, o resultado deveria ter sido divulgado em 22 de abril deste ano, o que não aconteceu. O atraso na publicação do edital bem como de seu cronograma impossibilitaram a obtenção do recurso para a festa do próximo 13 de maio. Luan Volpato Genildo relata que, desde que os editais foram lançados, a festa é contemplada com recursos, mas defende que o evento não pode depender disso. “Não acho certo uma festa de mais de 130 anos ter que esperar edital. Deveria ter um recurso disponível anualmente, o Estado tem que reconhecer a festa como patrimônio imaterial e investir, assim como em outras festividades, a exemplo da Folia de Reis de Muqui (sul) e a Festa do Caboclo Bernardo, em Regência (norte). São festas muito tradicionais e que todo ano mendigam recursos”, critica. Ele afirma que o Raiar da Liberdade não é uma festa cara, sendo pleiteado anualmente o valor de R$ 20 mil, que, apesar de ser um valor pequeno para a grandiosidade da festa, gera renda para os moradores de Monte Alegre. O dinheiro é utilizado para pagar o transporte dos grupos folclóricos que se apresentam no evento, pagar as cozinheiras que fazem a feijoada e comprar os ingredientes, já que muitos deles são produzidos na própria comunidade. Além disso, pessoas de diversos lugares, que participam da festa, consomem o artesanato feito na região. Cerca de 15 grupos folclóricos se apresentam anualmente no Raiar da Liberdade, em uma relação chamada de “compadrio”, pois eles marcam presença na festa uns dos outros, se visitam. Os grupos não se restringem aos de Cachoeiro de Itapemirim, abarcando também outros municípios do sul capixaba, como Muqui, Itapemirim, Presidente Kennedy, Alegre, Jerônimo Monteiro e Atílio Vivácqua. ‘Revolução que começou no chão da senzala’ Genildo, que é pesquisador da área do patrimônio imaterial, afirma que o Raiar da Liberdade é uma festa que lembra o processo de luta do povo negro. “A gente comemora a vitória de uma revolução que começou no chão da senzala, é uma festa que acontece em uma comunidade onde foi formado um quilombo, organizado por negros que fugiram de fazendas da região”, conta. Luan Volpato Ele narra que, em 13 de maio de 1888, a notícia da abolição foi recebida via telégrafo, comunicada pelos fazendeiros aos escravos, que no mesmo dia foram para a praça da cidade, onde começaram a fazer seus batuques em frente à Câmara Municipal. O presidente da Casa de Leis tentou se apropriar da comemoração, tirar o protagonismo dos negros, distribuindo comida e bebida. Dias depois, sem emprego, comida, moradia e outros direitos, os negros voltaram para as fazendas, permanecendo no regime de escravidão. A festa, então, passou a ser comemorada anualmente nas comunidades da região, mas hoje acontece somente em Monte Alegre e Vargem Alegre, também em Cachoeiro. Nesta última será no sábado (7), com início às 16h30, com missa afro; seguida da abertura oficial e da apresentação de grupos de Caxambu, Capoeira, Bate Flechas e Folia de Reis. A de Monte Alegre no dia 13 de maio, a partir das 18h. Em Monte Alegre, a comemoração é liderada por Maria Laurinda Adão, desde 1961, quando ela tinha 18 anos. Trata-se de um compromisso que passa de geração em geração. Seu trisavô, Negro Adão, que fundou a comunidade quilombola, foi quem deu prosseguimento à festa, ainda no Século XIX, passando depois para os bisavós, avós e pais de Maria Laurinda, que destaca-se nacionalmente e internacionalmente como defensora da cultura negra e quilombola. Luan Volpato Além de ativista, Maria Laurinda é mestra de Caxambu, parteira, coveira e líder espiritual. Ela recebeu em 2008 o título de “Patrimônio Cultural do Brasil”, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Sua história também foi eternizada no documentário Todas as faces de Maria, em 2011.
Instituição cultural de Cariacica pede apoio para continuar existindo
Na coluna: Instituto Aprender Cultura; festival reúne artistas trans; diário de infarto de um rockeiro, cinema no quilombo Divulgação Com nove anos de atuação na região de Flexal II, em Cariacica, o Instituto Aprender Cultura (IAC) postou em suas redes um apelo pedindo apoio de doações para manter sua sede funcionando. É lá que ocorrem oficinas, palestras, cursos e desenvolvimento de projetos ligados à cultura, educação, esporte e qualificação profissional. Integrantes do projeto gravaram um vídeo falando sobre o IAC e seu trabalho. Só de aluguel e energia são cerca de R$ 1,3 mil mensais, que o instituto está tendo dificuldade de pagar nos últimos meses, por isso, o pedido de solidariedade. As doações em qualquer valor podem ser feitas para o Pix 41.273.288/0001-55 (CNPJ) ou pelo Picpay @iacflex. A entidade disponibiliza relatórios de transparência com os recursos em seu site. DIVERSIDADE Festival reúne artistas trans em Vitória Em sua primeira edição, o Festival Transversos acontece neste sábado (30), a partir das 17h, no espaço Thelema, Centro de Vitória, tendo como atrações diversos artistas homens e mulheres trans, travestis e pessoas não binárias, como Letícia Chaves, Uriel, Maria Helena, Amande Coelho, Myrella Queen, Reyan, entre outres. A iniciativa é do coletivo Transversos, que é “multiartístico, interestadual e transcentrado”, criado para construir este evento, mas que promete a partir daí trazer outras propostas. MÚSICA Manfredo apresenta cinco músicas em novo EP O cantor capixaba Manfredo apresentou nessa sexta-feira (29) seu EP chamado Nova Versões de Canções Nunca Ouvidas Antes, cujo título se resume com a hastag #NVCNOA. Caracterizado como um ” indie folk melancólico”, o álbum, produzido por Henrique Paoli, traz cinco canções inéditas. Uma delas, a música Coragem, ganhou um lyric clip no YouTube, que você pode assistir abaixo. O álbum completo está disponível em plataformas digitais de música, que você pode encontrar aqui. Chico Alves apresenta seu samba em Vitória Quem se apresenta na sexta-feira, 6 de maio, na Casa da Música Sônia Cabral, é o cantor e compositor capixaba Chico Alves, radicado no Rio de Janeiro e autor de músicas gravadas por artistas como Leila Pinheiro, Quarteto em Cy, Casuarina, Toninho Geraes, Moacyr Luz e parceiras com Fagner, Paulinho Pedra Azul e Xande De Pilares. Além de trazer um apanhado de sua obra, ele apresentará canções de seu último álbum, Paranauê. A apresentação contará com participações de convidados especiais como Lajota e Cláudia Zanetti. Ingressos estão à venda pelo site Sympla. Divulgação Diário de infarto de um rockeiro Alessandro Chakal, vocalista da banda The Windows, cover de The Doors, sofreu um infarto em fevereiro passado enquanto se apresentava no palco de um pub de Vitória. Sobreviveu, passa bem, e resolveu lidar com o evento da melhor forma possível, narrando de forma divertida todas as peripécias envolvidas nesse processo pessoal, que acontece sem estar alheio a uma guerra na Ucrânia e todos escândalos do governo Bolsonaro. Inicialmente publicado como uma série de textos, ele resolveu transformá-los em capítulos de uma série de podcasts. O primeiro já está no ar aqui. Vale o registro: o The Windows completa neste ano 28 anos, superando assim o tempo de vida de Jim Morrison, vocalista e líder do Doors. Grande feito. CINEMA Filme capixaba será exibido em festival em Miami Produção dirigida por Rodrigo de Oliveira, o filme ficcional Os Primeiros Soldados, que aborda o início da epidemia de Aids em Vitória no início da década de 1980, segue em circulação por diversos festivais. Neste fim de semana, a obra circula por diferentes latitudes. Primeiro, foi apresentada ao público do Outshine LGBTQ Film Festival, em Miami, em sua primeira exibição nos Estados Unidos. No domingo, será a vez de ir ao Norte do Brasil, com sessão no Transamazônico – Festival Internacional de Cinema LGBTQIA+, em Rio Branco, capital do Acre. “Muito feliz que plateias tão distantes entre si, e distantes de mim aqui, estarão reunidas pelo filme”, manifestou o diretor em suas redes sociais. Divulgação Cinema nos quilombos Projeto do Instituto Marlin Azul com apoio da Coordenação Nacional de Articulações das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) e patrocínio do Fundo Estadual de Cultura (Funcultura), o projeto Cine Quilombola teve início com exibição de filmes na comunidade quilombola de Pedra Branca, em Vargem Alta. Depois de rodas de conversa, os moradores participam de oficinas em que foram estimulados a captar e editar imagens e sons de seu entorno, com orientação de profissionais de cinema, buscando registrar e narrar histórias locais. O projeto ainda passará pelas comunidades de Cacimbinhas e de Boa Esperança, em Presidente Kennedy, no início de maio, e posteriormente por outras duas comunidades quilombolas do sul do Estado. Numa segunda etapa, depois de finalizados os vídeos, estes serão exibidos nas próprias localidades, junto a produções de cinema feitas em outros quilombos do Brasil. LITERATURA Lilian Menenguci lança novo livro infantojuvenil Divulgação O Mistério da Bolinha de Gude é o nome do quarto livro infantojuvenil da escritora Lilian Menenguci, que conta com ilustrações de Arthur Mask, com lançamento no sábado (30), de 14h às 17h, no Parque da Pedra da Cebola, em Vitória, em evento com contação de histórias e outras atrações. A brincadeira infantil presente no título da obra é o fio condutor da narrativa da publicação, que marca a estreia do selo Marolinha, da editora capixaba Maré, dedicado a publicações com foco no público infantojuvenil. Com nove anos de carreira com textos para o público infantojuventil, Lilian já vendeu quase dez mil livros de suas publicações anteriores, adotados por várias escolas municipais e da rede privada de ensino no Espírito Santo. Associação de moradores instala ‘Geloteca’ em Atlântica Ville Divulgação Uma geladeira antiga reaproveitada e transformada numa biblioteca móvel, disponibilizando livros gratuitamente. Talvez você já tenha visto alguma iniciativa do tipo por aí. A mais nova delas, com instalação na área de lazer de Atlântica Ville, em Vitória, terá como foco livros infanto-juvenis, para promover o acesso aos livros para crianças e jovens do local. A proposta da “Geloteca”, criada pela Associação de Amigos e Moradores do Residencial Atlântica Ville (Amarav), propõe a circulação dos livros, que sejam lidos e retornados, e também a
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As Melhores Famílias é um filme importante para entender a atual política do Peru As Melhores Famílias é um filme importante para entender o momento atual da política peruana. É ambientando em meio aos protestos de 2020, após a destituição do presidente Martin Vizcarra. Neste ano, o Peru vive nova onda de protestos, desta vez contra o presidente Pedro Castillo que já recebeu dois pedidos de impeachtment em apenas oito meses de governo> A principal reclamação é o aumento do combustível. Os movimentos populares ganharam mais força depois que o presidente decretou um toque de recolher. Os revoltosos estão insatisfeitos com o aumento de preços e com o pouco poder de comprar do trabalhador médio. O cenário não é muito diferente neste filme. Uma família da elite limenha prepara-se para chegada da Europa do filho com sua noiva. A notícia deixa todos surpreendidos, porque até há pouco tempo, todos imaginavam que o filho era gay. A família trata os protestos que acontecem por toda cidade com indiferença, entre os convidados, alguns fingem se engajar. No esperado reencontro, a família fica calada, ninguém aprovou a noiva Marcha, existe algo estranho com ela que os incomoda e a família demonstra nas expressões corporais, sem dizer, no entanto, o que é. Marcha é diferente do esperado e guarda ainda uma história antiga por debaixo dos panos com um deles e também com os empregados, que todos tinham esquecido. A proposta do filme lembra Perfeitos Desconhecidos de 2007 e, assim como no filme Italiano, os segredos mais absurdos vão se revelando no decorrer da trama, especialmente no final, e tanto amigos como familiares percebem que não se conheciam tão bem assim.
Judiciário é demanda pura
Efetiva implantação do processo eletrônico no Estado proporcionará aceleração da Justiça Apesar dos violentos torpedos lançados pelo bolsonarismo, que podem dizer muita coisa, paralelamente, a ministra Carmem Lúcia, do STF, acerta na mosca quando diz que em nenhum outro momento da História, o Judiciário foi tão demandado e esteve em posição tão central da vida brasileira. Desvenda ponto-chave do desafio brasileiro no campo judicial: “Somos uma democracia em que há antidemocratas ainda”. Recentemente, ao despachar um processo com uma juíza da Vara Cível, ela pediu desculpas pela pressa com que me atendeu, “pois estou com mais de 6 mil processos para despachar e conto somente com uma analista”. A demora da Justiça amplia o flanco para esses torpedos antidemocráticos. Por outro lado, em busca de concretizar suas promessas, o presidente do Tribunal de Justiça, desembargador Fabio Clem de Oliveira, e o corregedor geral da Justiça, desembargador Carlos Simões Fonseca, em boa hora, assinaram ato solene que, a rigor, dá poderes ao Comitê de Governança de Tecnologia da Informação e Comunicação do TJES, sob a presidência do desembargador Pedro Valls Feu Rosa, para definição de cronograma do trabalho de conversão dos processos em digitais. A presunção é que cerca de 845 mil processos que fazem parte do acervo do Judiciário Estadual serão digitalizados por meio de mão de obra própria, mão de obra decorrente de convênios, de empresa terceirizada contratada para tal fim, contando com a parceria de entidades organizacionais parceiras, como OAB-ES, Ministério Público, Defensorias Públicas Estadual e Municipais, Procuradoria-Geral do Estado e Procuradorias dos Municípios. A partir do dia 15 de abril, “poderão ser virtualizados os processos físicos ativos em tramitação cuja unidade judiciária esteja apta a receber um processo idêntico de mesma classe, natureza e competência em sua forma inicial eletrônica junto ao sistema PJe”. O presidente da OAB, José Carlos Rizk, falando em nome dos advogados, revela que “a nossa meta em nível estadual é o aprimoramento do processo eletrônico, já que no Espírito Santo a digitalização ainda não é uma realidade.” Pontua que a OAB-ES se uniu ao Tribunal de Justiça para enfrentar o problema. Atualmente, o sistema local é híbrido: o juizado especial é eletrônico, a execução fiscal também, mas a maioria dos processos estaduais é física. Aspecto curioso é que a realidade do processo eletrônico, a partir de uma efetiva implantação, proporcionará, sem dúvida, aceleração do Judiciário, mas, em termos de atos processuais, é de repetir, com muita cautela deverão ser analisadas as questões. Nesse aspecto, e essa é uma preocupação geral, a OAB necessariamente terá papel fundamental nos grandes desafios a serem enfrentados, zelando por sua eficiência. E essa é uma boa pauta para OAB discutir com os advogados. Exatamente para saber o que eles enfrentam e enfrentarão no dia a dia. Os advogados possuem medos e receios, embora todos favoráveis com a nova forma de viver o processo. Ora, inegável que há receios procedentes e inegáveis, por exemplo, quanto à instrumentalidade das formas, porque a tendência moderna de se aproveitarem ao máximo os atos processuais, em matéria eletrônica, poderá ser muito perigosa. O que pretendo dizer, em síntese e de forma apenas simplificada e fácil, é que, dentre outras observações, além da assinatura digital, outros conceitos relacionados à informática jurídica precisam ser compreendidos pelos operadores do direito a fim de que a automação processual não se torne um entrave ao acesso à justiça, mas, sim, uma forma mais célere de alcançá-la. O presidente Fábio Clem é homem aberto, sensato e de diálogo fácil e traz segurança aos advogados. E o presidente Rizk possui trânsito. Claro que se esperava que o governo federal apoiasse esse projeto de justiça mais ágil. Exatamente porque, como dito, ações da Justiça por meio do Processo Judicial Eletrônico, têm tramitação mais rápida se comparadas a processos impressos em papel. Estudo realizado pela FGV (Fundação Getúlio Vargas), encomendado pelo CNJ (Conselho Nacional de Justiça), mostra que menos de 25% dos processos eletrônicos duram mais de 4 anos. Entre os processos impressos, 50% ultrapassam o mesmo período. Mas, como acentua o jornalista Elio Gaspari, o presidente Jair Bolsonaro prefere alimentar conflitos com o Supremo Tribunal Federal e com a Justiça Eleitoral. Para quê? Afora a vontade de permanecer no governo, não se conhece seu projeto para reduzir o desemprego ou a inflação. Ou mesmo acelerar a justiça. Pelo contrário.