Ana Cecília Mangaravite diz que a insatisfação é generalizada na área de segurança pública do Estado “Por que nós fomos alijados do processo?”. O questionamento é da presidente do Sindicato dos Delegados da Polícia Civil no Espírito Santo (Sindepes), Ana Cecília Mangaravite, ao criticar o silêncio do governo do Estado, que ainda não se pronunciou sobre o reajuste salarial da categoria, passados três meses que foi enviado um ofício à gestão estadual, em dezembro de 2021. Os servidores da área reivindicam 16% de recomposição, acima do concedido pelo governo do Estado este ano, que soma 10%. A decisão de divulgar o documento, assinado por 136 delegados e que era mantido em sigilo pela entidade, foi adotada nesta segunda-feira (28), mesmo dia em que os deputados estaduais aprovaram aumento salariais para algumas categorias de servidores públicos. “O governo virou as costas e deixou de promover qualquer ação afirmativa para atender às nossas solicitações”, diz a delegada. No ofício, é citada a “Carta dos coronéis da PM”, manifestação na qual um grupo de oficiais expõe a insatisfação com a falta de diálogo, enfatizando que esse é o mesmo sentimento da categoria, que se sente desvalorizada pelo governo. “A bem da verdade, a situação narrada na ‘Carta dos Coronéis da PMES’ em pouco ou nada se difere daquela vivenciada pelos delegados da PCES [Polícia Civil], razão pela qual corroboramos o sentimento de insatisfação presente naquele documento, cujo teor merece atenção e respeito, na medida em que expõe o inconformismo das categorias da segurança pública neste Estado, tristemente desvalorizadas”. Os delegados argumentam que o “Estado tem remunerado a carreira dos delegados de Polícia Civil de forma desproporcional, quando comparada a outros entes, o que gera desmotivação generalizada, além de evasão de quadros qualificados e instabilidade funcional frequente”. Para eles, o salário deixou de ser atrativo para ser um dos mais baixos do país. A delegada Ana Cecília pergunta: “Por que o nosso não foi contemplado, como os outros, qual a razão de termos sido alijados do processo?”. Ela mesma responde: “Falta vontade política”. Para ela, a divulgação dessa situação é necessária, a fim de que a sociedade tome conhecimento do que, realmente, se passa nos bastidores. “Não existem quadros suficientes para as demandas da sociedade”, acrescenta.
Presos fazem greve de fome em protesto à comida servida em unidade de VV
Denúncias sobre problemas relacionados à qualidade da alimentação são recorrentes no sistema prisional do Estado CNJ Internos da Penitenciária Estadual de Vila Velha 3 (PEVV3) realizam, desde domingo (27), uma greve de fome em protesto às refeições servidas na unidade. A Frente pelo Desencarceramento do Espírito Santo (Desencarcera-ES) aponta que os presos denunciam as péssimas condições da alimentação, problema recorrente no sistema capixaba. O contrato da PEVV3 é com a Alimentares Refeições LTDA. “A Frente Estadual Pelo Desencarceramento vem, há tempo, denunciando essas empresas pela falta de compromisso com a alimentação dos internos. Essa já era uma tragédia anunciada e, até a presente data, nada havia sido feito, então os próprios internos resolveram tomar essa atitude, até que alguma providência seja tomada”, relata Eliana Valadares, uma das articuladoras do movimento Desencarcera-ES. Ela informa que os internos mandaram um pedido de ajuda aos familiares, relatando que estavam doentes devido à má qualidade da alimentação. De acordo com Eliana, vários internos, tanto da PEVV3, como da Penitenciária Semiaberta de Vila Velha (PSVV), apresentaram quadro de infecção intestinal, com sintomas de diarreia e vômito. “Quase todos os dias, a empresa entrega a comida cedo demais e, quando a refeição é passada para os internos, já está tudo azedo devido ao tempo muito quente. Essas comidas são manuseadas cedo. Quando vai para as mãos dos internos, já está em estado avançado, de tão azeda, aí muitos acabam, para não morrer de fome, consumindo esse alimento assim mesmo”, aponta. Por enquanto, o protesto dos internos ainda não tem prazo para terminar. “Depende das providências que serão tomadas pela Secretaria de Justiça para resolver, de uma vez por todas, essa situação da alimentação dentro dos presídios capixabas”, diz Eliana. Os problemas na alimentação servida nos presídios tem sido uma denúncia recorrente da Frente Desencarcera-ES. No início de março, um ofício enviado a entidades da sociedade civil apontava irregularidades de duas empresas [Alimentares e a Serv-Food Alimentação] contratadas pelo Governo do Estado para fazer o serviço, enquanto um relatório da seção capixaba da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-ES) mostrava o baixo custo das refeições, aproximadamente R$ 18 por dia para cada detento. “Temos recebido denúncias a respeito da má alimentação no sistema prisional desde a própria fundação deste coletivo, ou seja, no início de 2020. No ano de 2021 as denúncias explodiram, denotando que a situação grave havia piorado para calamitosa e que, portanto, necessitaríamos incidir de forma mais contundente junto aos órgãos estatais para que a garantia dos princípios do mínimo existencial e da dignidade da pessoa humana fossem respeitados”, dizia um trecho do ofício enviado pela Frente Desencarcera na época. Procurada por Século Diário, a Sejus confirmou que alguns internos da PEVV3 negaram a comida oferecida, mas descartou uma rebelião na unidade. “A equipe de Operações Táticas está no local para compreender as reivindicações e acompanha a manifestação, a fim de garantir a segurança no ambiente prisional”, informou.
Projeto restaura obras de um dos pioneiros do cinema capixaba
Filmes de Ramon Alvarado serão exibidos no Cine Sesc Glória e disponibilizados por 30 dias na internet pelo Acervo Capixaba Pierre Alram Nascido em Pernambuco mas radicado no Espírito Santo desde os oito anos de idade, o cineasta Ramon Alvarado é parte importante da história do cinema capixaba, tendo participado ativamente da produção do primeiro ciclo de curtas-metragens do Estado, na década de 1960. Uma mostra realizada na próxima quinta-feira (31), às 19h, no Cine Sesc Glória, em Vitória, exibe parte dos filmes em que atuou como diretor e diretor de fotografia Sete de suas obras foram restauradas e digitalizadas pelo projeto Acervo Capixaba – Ramon Alvarado, realizado pela Pique-Bandeira Filmes com recursos do Fundo de Cultura do Espírito Santo (Funcultura). O próprio cineasta participou ativamente do projeto, coordenador por Vitor Graize, e considerou-o como “providencial”, pois corria risco de se deteriorar definitivamente. “A minha relação com o projeto foi de irrestrita colaboração, acompanhando passo a passo o seu desenvolvimento, o que muitas vezes exigiu de mim esforço rememorativo, como também elucidativo de questões cinematográficas, mas que compensou ao final, por ver levado a bom termo o trabalho. Isto sempre é gratificante!”, disse Ramon Alvarado sobre o projeto, que também contou com participação da pesquisadora Luana Cabral. Quem comparecer ao Cine Sesc Glória para o lançamento poderá assistir em primeira mão às versões restauradas dos filmes “Cirurgia do Coração no Espírito Santo” (1967), “O Mastro do Bino Santo” (1971), “A Escola Nova” (1975), “Floresta da Tijuca” (1980), “O espaço da liberdade — Vilma Nöel” (1987), “Brincadeira dos Velhos Tempos?” (1977) e “Almas” (1980), produzidos no Espírito Santo e no Rio de Janeiro, onde ele viveu parte de sua vida e desenvolveu sua carreira profissional. A sessão será seguida de debate com a equipe do projeto e convidados. Imagem de “O Mastro do Bino Santo”, de 1971 Após o lançamento oficial, as obras ficarão disponíveis por 30 dias no site Acervo Capixaba (www.acervocapixaba.com.br), que também será lançado no evento, incluindo ainda ensaios, filmografia, fotografias, textos, correspondências, certificados e outros itens do acervo de Ramon Alvarado. Para realizar o projeto, foram realizados contatos com diversos profissionais e instituições em busca de encontrar materiais relacionados com a obra do cineasta, além de contar com cópias e documentos guardados pelo próprio Ramon. Os filmes restaurados estiveram praticamente fora de circulação por décadas, acessíveis apenas por cópias de baixa qualidade na internet ou em DVDs. O cineasta começou a carreira em 1966 com “Indecisão”, possivelmente o primeiro curta-metragem de ficção filmado em Vitória, segundo os pesquisadores. Porém, por não contar com originais nem cópias conhecidas no momento, não consta no projeto de restauração. Outras de suas obras nesta época foram “O Cristo e o Cristo” (1966), “Cirurgia do Coração no Espírito Santo” (1967) e “O Pêndulo” (1967), além de ter atuado como diretor de fotografia de filmes de Paulo Torre Antonio Carlos Neves e Luiz Eduardo Lages. Ele mudou-se para o Rio de Janeiro em 1968, e a partir do início da década de 1970, dedicou-se mais fortemente no gênero documentário em torno de temas como cultura popular, tradições e patrimônio brasileiro. Produziu por exemplo, “O Mastro do Bino Santo” (1971), no qual acompanha a tradicional festa da puxada e fincada do mastro de São Benedito, realizada no município de Serra, e “Os Votos de Frei Palácios” (1980), sobre a vida do religioso fundador do Convento da Penha, em Vila Velha, além do já mencionado “O Cristo e o Cristo”, que fala da Festa da Penha no Espírito Santo, tendo assim registrados imagens históricas de manifestações populares capixabas. AGENDA CULTURAL Sessão especial de lançamento do projeto Acervo Capixaba – Ramon Alvarado Quando: 31 de março de 2022, às 19h Onde: Cine Sesc Glória (Sala de Cinema Cariê Lindenberg, Centro Cultural Sesc Glória, Vitória) Entrada franca Sobre os filmes: Cirurgia do Coração no Espírito Santo, de Ramon Alvarado (16mm, 1967, cor, 7′) Sinopse: Documentário científico que registra a primeira cirurgia de coração realizada no Espírito Santo. O Mastro do Bino Santo, de Ramon Alvarado (35mm, 1971, cor, 11′) Sinopse: Documentário sobre a festa da puxada e fincada do mastro de São Benedito, que é realizada anualmente na cidade da Serra. A Escola Nova, de Ramon Alvarado (35mm, 1975, cor, 7′) Sinopse: Filme sobre a reforma do ensino realizado para a Campanha Nacional de Escolas da Comunidade. Gravado no Centro Educacional Capitão Lemos Cunha, no Rio de Janeiro. Brincadeira dos Velhos Tempos?, de Ramon Alvarado (35mm, 1977, cor, 11′) Sinopse: Apesar da Selva de Pedra, da rede de fios elétricos e de uma lei que proíbe soltar pipas no Rio de Janeiro, a brincadeira secular não desapareceu na cidade, pelo contrário, manifesta-se profusamente, como necessidade de poesia para o carioca e resistência popular à massificação. Floresta da Tijuca, de Ramon Alvarado (35mm, 1980, cor, 9′) Sinopse: Estudo sobre a permanente ameaça à natureza. A devastação e a recuperação da Floresta da Tijuca, durante o Segundo Império. Almas, de Ramon Alvarado (35mm, 1980, cor, 5′) Sinopse: Estudo sobre a crise da nossa sociedade, pela ótica antropológica. O culto votivo às almas, pelo acendimento de velas, às segundas-feiras, em logradouros do Rio de Janeiro. O espaço da liberdade – Vilma Nöel, de Ramon Alvarado (35mm, 1987, cor, 9′) Sinopse: Documentário sobre a artista plástica Vilma Nöel.
Guerra judicial de meio bilhão ameaça unidade de conservação em Jacarenema
Empresas, Estado, Município e MP divergem sobre implementação da reserva estadual e do parque municipal O interesse público e o meio ambiente devem prevalecer em detrimento do interesse privado. Mas na guerra judicial instalada sobre a implementação do parque municipal (Decreto Municipal nº 033/03) e da reserva estadual (Lei Estadual nº 5.427/97) de Jacarenema, em Vila Velha, o Judiciário capixaba tem tomado decisões que, mais do que atrasar, causam verdadeira ameaça ao processo de proteção da área, que abriga um dos principais remanescentes de restinga da cidade, além do manguezal da foz do rio Jucu. Cerca de duas dezenas de ações de indenização por desapropriação de terreno tramitam no Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES), totalizando meio bilhão de reais. Entre eles, dois que somam R$ 400 milhões, requeridos pelas empresas Itaparica Ltda e M.N. Santos Ltda, da família Oliveira Santos, como indenizações relativas a áreas dentro da reserva. Conforme demonstram os autos dos processos, disponíveis para consulta pública no TJES, a Prefeitura já fez os depósitos em juízo relativos a áreas do parque, mas os desembargadores não permitem a imissão de posse do município, sob a justificativa de que há discordância dos expropriados sobre os valores pagos. A postura demonstra que os membros da Corte têm priorizado o aspecto econômico da disputa, ao invés da proteção legal e efetiva de Jacarenema. Há margem jurídica para inverter a prioridade. A discussão sobre os valores finais de indenização pode se dar no transcorrer do processo sem prejudicar a titulação das glebas em favor do município. A posse regular dos terrenos é pré-condição para que as ações de implementação da unidade de conservação possam avançar. Acordo A Prefeitura de Vila Velha está disposta a assinar um acordo com o Ministério Público Estadual (MPES) – ação civil pública nº 0001834 – 75.2016.8.08.0035, em curso na Quarta Câmara Cível do Tribunal – que estabelece as diretrizes de uso e ocupação da Zona de Amortecimento (ZA) e as fontes de recursos financeiros necessários para a construção das estruturas físicas (centro de educação ambiental e posto de fiscalização) do parque. Arquivo SD A reunião em que a proposta foi aceita, ainda informalmente, pelo município, aconteceu em setembro passado, na presença dos promotores de Justiça Nícia Regina Sampaio e Gustavo Senna Miranda, dos secretários municipais de Governo, de Desenvolvimento Urbano e de Meio Ambiente de Vila Velha, Maria do Carmo Neves Novaes, Milena Ferrari e Ricardo Klippel Borgo, respectivamente; do procurador-geral do município, Vitor Soares Silvares; e de representantes do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Espírito Santo (Sinduscon-ES). O acordo fixa que 60% dos recursos obtidos no licenciamento ambiental de empreendimentos localizados na zona de amortecimento (ZA) do parque sejam destinados à implantação, manutenção e administração da unidade de conservação, cabendo ao Sinduscon e à Associação das Empresas do Mercado Imobiliário do Espírito Santo (Ademi-ES) a tarefa de dar “plena cientificação aos seus associados” sobre o percentual destinado ao parque. As estruturas estão previstas para ocupar seis lotes situados no bairro Santa Paula, cujas desapropriações judiciais já foram pagas em juízo, porém, cassadas pelo TJES. E, sem a imissão de posse do município, o acordo não pode ser implementado, pois os empreendimentos instalados na zona de amortecimento do parque não podem ser regularizados, o que por sua vez, impede a provisão dos recursos necessários ao financiamento das estruturas de implementação da unidade de conservação. A corrida por regularização tem inclusive apoio dos empreendimentos já regulares, principalmente no bairro da Barra do Jucu. Mosaico de UCs Todo esse imbróglio judicial, conduzido pela Corte sem a devida priorização do bem comum e ambiental, tem o agravante de ações paralelas movidas, tanto pela família Oliveira Santos – que além da indenização milionária ao Estado, referente à Reserva Estadual, também requerendo a extinção do parque municipal – quanto pelo governo do Estado. O executivo estadual também foi convidado pelo órgão ministerial para assinar um acordo semelhante ao aceito pela prefeitura, referente à Reserva Ecológica Estadual, no âmbito de uma segunda ação civil pública, impetrada simultaneamente pelo MPES em 2016. Em abril de 2017, o juiz da Vara da Fazenda Pública Estadual, Registros Públicos e Meio Ambiente de Vila Velha, Aldary Nunes Junior, emitiu as sentenças, determinado que o Estado do Espírito Santo e o Município de Vila Velha promovessem, em conjunto, a implantação efetiva das unidades de conservação. PMVV Em seu despacho, o magistrado afirma que a reserva estadual não se confunde com o parque municipal e que, juntos, os dois formam “um conjunto de unidades de conservação em parte sobrepostas e em parte justapostas, de categorias distintas”. Aldary Nunes Junior propôs que o conjunto pudesse compor um mosaico de unidades de conservação. Assim, além das obrigações relacionadas às suas respectivas unidades de conservação, Estado e município deveriam apresentar proposta ao Ministério do Meio Ambiente (MMA) para reconhecimento do mosaico e consequente “efetivação de uma gestão integrada e participativa do conjunto”. Evasões de responsabilidade Passados mais de quatro anos sem medidas efetivas de cumprimento das sentenças, a proposta de acordo surge como solução para o caso. Diferentemente da Prefeitura, no entanto, o Estado se manifestou contrariamente à proposta e ainda impetrou uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) extinguindo a reserva, alegando ter sido criada pelo Poder Legislativo, o que é inconstitucional. Nos autos dos processos em curso, a ADI aparenta chegar como uma resposta da PGE às ações de indenização milionárias impetradas pelos Oliveira Santos e acatadas pelo TJES. O que se vê é que, ao invés de se somar aos esforços municipais de defesa fundiária do território de Jacarenema, o Estado decide por tentar eximir-se de qualquer responsabilidade sobre a questão, segundo uma evasão sutil da União, que declinou de afirmar os terrenos de Marinha em processos de desapropriação, atitude que poderia imediatamente reduzir os valores possíveis de reivindicação pelos entes privados. Enquanto isso, Jacarenema segue ameaçada. Ecossistemas frágeis e fundamentais para a saúde ambiental da região, especialmente dos bairros adjacentes, continuam vulneráveis a invasões, ocupações irregulares, lançamento de lixo, queimadas e caças. Simbolismo A região costeira ao
Jornalismo e cultura capixaba perdem uma de suas principais referências
Jeanne Bilich morreu neste domingo, aos 73 anos, três meses após descobrir um câncer no pulmão Ufes Três meses após descobrir um câncer no pulmão, em estágio avançado, morreu na manhã deste domingo (27), aos 73 anos, a jornalista e escritora Jeanne Bilich. Conhecida como a “dama do jornalismo capixaba” e uma das principais referências da área, ela recebia cuidados paliativos na própria casa, em Vitória. Jeanne era integrante da Academia Espírito-Santense de Letras e autora de livro, com importantes contribuições também para a cultura do Estado. Jeanne participou do início de Século Diário, fundado pelos jornalistas Rogério Medeiros e Stenka do Amaral Calado (falecido), marcando junto sua estreia na mídia eletrônica. Atuou nesse período como colunista do jornal e repórter da extinta Revista Século. Ela também era advogada, radialista e mestre em História Social das Relações Políticas pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Desde 2004, era assessora da Fundação Ceciliano Abel de Almeida. Em nota, a Academia Espírito-santense de Letras comunicou “com pesar e consternação” o falecimento de Jeanne Bilich e ressaltou sua “nobre contribuição para a cultura do Espírito Santo, com a certeza de que a acadêmica deixou um legado valioso para a compreensão da literatura e da comunicação do nosso tempo”. A Prefeitura de Vitória decretou luto oficial de três dias. Nas redes sociais, amigos, familiares e lideranças políticas destacam a trajetória de Jeanne e lamentam sua partida. “Muito triste com a partida da jornalista Jeanne Bilich. Como apresentadora em diversos canais de televisão, Jeanne marcou a história do jornalismo capixaba com inteligência, leveza e aquele sorriso constante. Aos familiares e amigos, meus sentimentos”, publicou o governador Renato Casagrande. O velório de Jeanne Bilich ocorre na tarde deste domingo, no Cemitério Parque da Paz, na Ponta da Fruta, em Vila Velha. O corpo será cremado. Trajetória Nascida em 12 de outubro de 1948, no Rio de Janeiro, Jeanne radicou-se no Espírito Santo no início da década de 60 e iniciou a carreira jornalística em 1974, no jornal A Gazeta e, em 1982, passou a atuar como advogada (OAB-3202), conjugando as atividades de jornalista com o exercício da advocacia. Com a inauguração da TV Gazeta em 1976, estreou no veículo televisão apresentando o jornal Hoje, edição local. Produziu e apresentou diversos programas na TV Educativa e TV Vitória. Nessa última emissora, comandou a revista jornalística Espaço Local por 10 anos consecutivos (1989 – 1999) e, a seguir, estreou como âncora no Jornal da TV Vitória, onde também atuou depois como editora-chefe. Em 2000, foi colunista e repórter do jornal Século Diário e Revista Século. Jeanne estreou no rádio, em 1978, apresentando os noticiosos da Rádio Espírito Santo e, nos anos 80, atuou na Rádio Gazeta AM e, mais tarde, na Rádio CBN. Ao longo da carreira jornalística recebeu inúmeras premiações, entre elas o título de Cidadão Vitoriense, concedido pela Câmara Municipal de Vitória, Comenda João Santos Filho, Prêmio Capixaba de Jornalismo – 8 ª edição e Medalha Eugênio Pacheco de Queiroz. Possui artigos e ensaios publicados em diversas coletâneas: Virando o XXI – Ed. Multiplicidade (1999); Escritos do Espírito Santo – Ed. Secretaria de Estado da Cultura (2006); Escritos de Vitória 24 – Rádio, org. Francisco A. Ribeiro, Ed. Academia Espírito-Santense de Letras; Secretaria Municipal de Cultura; Ed. Formar (2007); além de assinar a biografia de Amylton de Almeida no livro A Múltipla Presença – vida e obra de Amylton de Almeida, org. de Deny Gomes, edição da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo (1996). Em 2005, sua tese de Mestrado foi publicada em livro com o título As Múltiplas trincheiras de Amylton de Almeida: o Cinema como Mundo, a Arte como Universo, editora GSA.
Portuário pedala de Aracruz até o RJ para provar aptidão física
Sindicalista, Herval Nogueira acredita que negativa ao seu pedido de emprego pela Ogmo é fruto de perseguição política O trabalhador portuário e sindicalista Herval Nogueira Junior, de 59 anos, pedalou 641 km para mostrar aptidão física para o trabalho e denunciar a perseguição política que, acredita, seja o motivo da negativa que recebeu ao seu pedido de emprego. Foram quatro dias de viagem desde Barra do Riacho, litoral de Aracruz, no norte do Estado, onde reside, até a cidade do Rio de Janeiro. Sindicato dos Portuários RJ A inusitada manifestação e protesto é acompanhada de um laudo médico afirmando a aptidão para o trabalho pleiteado, graças à excelente recuperação alcançada após duas cirurgias para substituição das rótulas naturais de ambos os joelhos. “Uma pessoa que pedala 640 km em quatro dias não está apta para trabalhar? Os médicos que atendem ao Ogmo [Órgãos de Gestão de Mão de Obra do Trabalho Portuário Avulso] estão desatualizados. Primeiro agradeço a Deus e, abaixo, ao médico que me operou [Gustavo Ribeiro], que me orientou na minha recuperação física, e o que atestou minha aptidão para o trabalho [Marcos Robson Alves]”, declara. Herval conta que deu entrada no pedido de emprego ao Ogmo em janeiro. Durante realização dos exames exigidos, a coordenadora do Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional (PCMSO) solicitou consultas com otorrinolaringologista e cardiologista, que não eram cobertas pelo Ogmo, e, após os laudos positivos de ambos, requereu também um laudo de ortopedista. Mas, nesse caso, seria com médico indicado pelo Ogmo. “Como demorou muito pra marcar a consulta com o médico deles, eu marquei com um particular, que me deu laudo positivo. Quando finalmente consegui marcar com o do Ogmo, fiz questão de ir de bicicleta, porque já tinha um laudo positivo, não tinha porque ter um negativo depois”, conta o portuário. A viagem somou 184 km entre Barra do Riacho e Vila Velha, na região metropolitana, endereço do consultório. “O médico me disse que eu sou um ‘ponto fora curva’ e que ficou impressionado com a minha recuperação”, relata o sindicalista, explicando que a maioria das pessoas que passa pelas cirurgias que ele faz geralmente não consegue flexionar os joelhos a ponto de conseguir pedalar sentado. “Não passa de 45º, geralmente. Mas eu consigo, pedalo, fico de cócoras. Porque fiz o fortalecimento da musculatura da coxa e da panturrilha, como o meu médico me recomendou”, conta, ressaltando uma dica importante, que é não deixar o joelho subir mais que o quadril, quando sentado no selim. Depois de ter tido o seu caso clínico classificado como um “ponto fora da curva”, Herval se surpreendeu com a negativa da coordenadora do Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional. “Ele disse isso para mim dentro do consultório, mas não pude ler o que ele escreveu no laudo, ele fez no computador e mandou direto pra ela, eu não pude ler. Mas como é que ele fala tudo isso pra mim e a médica do Ogmo me diz que sou inapto?”, questiona. Herval é recebido pelos colegas fluminense ao completar sua aventura de 641 km. Foto: Facebook O portuário e sindicalista se diz revoltado. “O grande problema é que eu não tenho culpa de ainda existir médico arcaico, que precisa de modernizar (reciclar) para acompanhar as novas tecnologias e não cometer erros com as evoluções ortopédicas, que proporcionam resultados magníficos no ser humano”, argumenta, quando compara as duas visões médicas distintas que testemunhou: o ortopedista que realizou suas cirurgias e lhe deu o laudo e os médicos que trabalham para o Ogmo. “Os ortopedistas convencionais dizem que pode colocar a prótese da rótula com mais de 65 anos de idade. Mas eu, precocemente, comecei a ter perda da cartilagem, já tinha perdido os dois meniscos, então estava ‘osso no osso’, as pernas ficando arcadas. Eu não tinha condições nem de dormir direito. Então ele me recomendou a cirurgia precoce. Disse que se não eu não teria qualidade de vida, ficaria numa cama, o que poderia provocar outros problemas. Eu já tenho hipertensão e pré-disposição pra diabetes. Acreditei nele, apostei. E deu certo”, relata. A primeira cirurgia foi feita aos 54 anos de idade e a segunda aos 56. “Em 72 horas ele pediu pra andar, para começar a reaprender a andar. E fui fazendo o que ele recomendava: hidroginástica, bicicleta. No começo, não conseguia pedalar, mas fui melhorando rápido. Comprei uma bicicleta aro 29 e logo comecei a andar quilômetros”, prossegue. Em 2019, Herval conta que pedalou 324 km até Campos dos Goytacazes, em três dias. Em 2021, foram 222 km um dia só, ida e volta. E agora em 2022, os 640 km em quatro dias. Sindicato dos Portuários do RJ “Em pleno século XXI, um médico dizer que o ser humano não era para andar ereto e sim de quatro patas, pois aí não teria problema de coluna?”, indigna-se, citando uma ironia repetida entre os colegas portuários a partir de uma fala atribuída a um médico com vasto histórico de prestação de serviços à Portocel e ao Ogmo. Sobre o viés político, é incisivo. “Fui militante sindical por 19 anos e retornei no ano passado à diretoria do Sindicato Unificado da Orla Portuária do Espírito Santo [Suport-ES]. Tenho uma história de luta por direitos dos portuários e defesa do porto do Espírito Santo. E continuo na luta contra a privatização. Junto com outros companheiros, temos denunciado o absurdo do edital de privatização da Companhia Docas do Espírito Santo (Codesa), que vai colocar em risco o movimento no porto, ameaçar a estabilidade dos concursados, o futuro dos aposentados e prejudicar toda a sociedade”, afirma. Herval tem 35 anos de carreira nos portos capixabas, boa parte deles participando da direção Suport-ES. ‘O patrimônio que existe da Codesa foi construído com o sangue dos trabalhadores’ Em manifestações e audiência pública, portuários respondem à tentativa do governo federal de depreciar a categoria https://www.seculodiario.com.br/direitos/o-patrimonio-que-existe-da-codesa-foi-construido-com-o-sangue-dos-trabalhadores
Banda Tēgwa fortalece raízes no reggae capixaba
Mensagem política e pan-africanista marcam trajetória do grupo que lança primeiro show online nesta segunda-feira Pan-africanismo, afrofuturismo e rastafari são algumas das influências que compõem o som do Tēgwa, banda de reggae raiz capixaba que apresenta seu show Acutipuru em versão online nesta segunda-feira (28), às 19h30, em suas redes sociais e canal no YouTube. O grupo foi criado em 2018 com o reencontro do vocalista Fabiano Jesus e do instrumentista Patrick Ericson, que haviam sido parceiros na década de 2000 no Guerreiros, uma das bandas que marcou a cena do reggae local. Divulgação Rearranjando músicas do antigo grupo e produzindo novos sons, o Tēgwa busca “resgatar e manter viva toda sabedoria e tradições da cultura afrobrasileira e indígena ao qual tivemos acesso desde a infância e que são importantes como ferramentas mantenedoras da identidade de povos tradicionais dentro da sociedade brasileira”, conta Fabiano, que define o reggae raiz, estilo preconizado pela banda, como música e origens e tradições africanas, tendo sua base estrutural, política e espiritual na Jamaica. O país caribenho é formado predominantemente por povos como os fanti e ashanti, fontes importantes para manter a identidade africana dos que viveram a “diáspora negra” nas Américas, forçada pela colonização europeia e sua sociedade escravocrata. “A música afro é criadora de tendências por natureza e o Reggae Raiz é a junção de estilos e ritmos afroamericano e caribenhos, como o mento, o calipso, tambores etíopes (Nyabinghi), blues, jazz, funk e soul”, resume. As letras da banda, assim como de muitas outras do gênero, trazem cunho político que denuncia as mazelas e explorações dos países do chamado Primeiro Mundo. Assim como o blues, diz o líder do grupo, o reggae raiz também traz algo de lamento, ao mesmo tempo em que serve como espécie de mantra espiritual voltado ao Rastafarianismo. Fabiano Jesus, vocalista do Tegwa. Foto: Divulgação Além de Fabiano (vocal) e Patrick (baixo), compõem o grupo Jhonson Sudré (percussionista e produtor); Gabriel Coelho (baterista), Carlos Eduardo Araújo (guitarra), Diego Oliveira (trombonista), Ildebrando (trompetista) e Daniel Mattos (tecladista). O grupo não esquece a cena da Terça Reggae, que ocorria na Curva da Jurema no final dos anos 90 e início dos 2000 e provocou um boom do gênero no Estado. “A cena reggae cresceu muito. Nesta época se contavam 36 bandas ativas em toda Grande Vitória. Com o apoio de programas de rádio, muitas bandas locais tiveram oportunidades de ascensão estadual e nacional. O cenário se fortaleceu porque na época Vitória tinha festivais e eventos importantes acontecendo durante todo o ano”, lembra o vocalista. Seguiram-se depois anos de enfraquecimento da cena, ainda mais agravado pela pandemia. Agora, Fabiano Jesus enxerga um novo fortalecimento do gênero, que encontrava novo momento de encontro às terças-feiras na Praça do Papa, onde várias bandas que estiveram paradas estão voltando a tocar a cada semana, como foi o caso do Tēgwa, que se apresentou no final de fevereiro no evento Viva Praça do Papa. Apresentação do Tēgwa na Praça do Papa. Foto: Vitor Taveira “Ainda estamos na pandemia e o setor artístico e cultural ainda não se normalizou, ainda não tem tantos eventos pras bandas se apresentarem, porém tem muitos editais que estão proporcionando uma outra forma de ocupar os espaços usando a internet e acompanhando desenvolvimento desta nova década através de uma forma diferente de produzir cultura”, diz. Além da pesquisa e resgate cultural afro e também indígena, o grupo está produzindo e desenvolvendo eventos e ações culturais e sociais em comunidades de periferia da Serra e de outros municípios da Grande Vitória, levando sua mensagem também a comunidades quilombolas, indígenas e espaços do movimento negro e de religiões de matriz africana. “São projetos relacionados à divulgação e afirmação do pan-africanismo como resposta e proposta de inclusão do afrodescendente em todos os espaços políticos, econômicos e sociais”.
A velha que roubava biscoitos
Em casa de ladrão, quem mais rouba é rei No tempo da terra parada e do sol girando, tinha uma menina que roubava livros, tinha ladrão que roubava ladrão. Roubaram até o trem pagador, se é que trem paga alguma coisa a alguém. E tinha uma velha que roubava biscoitos. Mais de 90 anos bem ou mal vividos, que essa conta a gente acerta com Deus no final da linha. Os dentes, coitada, já tinham sumido ainda antes dos 60. Quando os biscoitos começaram a desaparecer na calada da noite, não foi preciso contratar um sherlock para investigar o delito – Só pode ser a Vó Virada, decidiram todos. * Assim a chamavam: Vó porque era velha, não era avó de ninguém. Virada porque o nome era Viana, e andava de há muito com a cabeça mais pra lá do que pra cá. Só comia biscoito molhado no leite, quando tinha leite. Caldinho de feijão, quando sobrava feijão. Julgada e condenada sem direito a defesa, embora em casa de ladrão quem mais rouba é rei. Pois não estavam lhe roubando a parca aposentadoria? Nem sabia mais o nome do banco onde o benefício era depositado todo mês. Vó Virada, assina aqui nessa linha. Que linha? Assina em qualquer lugar. * Que coisa! diria o falecido, se vivo fosse. Já lhe roubaram o colchão, e tinha que dormir na esteira, no quarto da empregada. Não sabe porque tem esse nome se é a dona da casa. Não sabe nem quem são essas pessoas que moram com ela, ocupando os dois quartos, comandando a cozinha, dominando o fogão e a geladeira. Vó, seu jantar. Biscoito outra vez? Num tem uma sopinha? Um caldo de galinha? As risadas: Xi, a velha caducou de vez. Banho sem sabonete? * Ladrão é o que rouba pouco. Excelência é o que manuseia gordas verbas, superfatura, confisca bilhões em causa imprópria. Quem dá aos pobres empresta a Deus. E quem tira dos pobres? O roubo é inerente ao cargo público, benefício oculto e indeterminado – Que existe, existe, mas de onde vem e para onde vai? Assumiu e já vai investigando onde estão as brechas do sistema. Nem todos, mas precisamos da lanterna de Diógenes para detectar um honesto no meio da seara. Agulha no palheiro. * O bancário Josué das Mercedes levou anos confiscando um mísero centavo da conta de cada cliente do Banco Bondoso – Um centavo não faz falta a ninguém, diz o provérbio. Não compra nem um grão de feijão, ele justificou quando foi descoberto. Tarde demais: já estava rico, tomando banho de mar numa ilha do Caribe. Vó Virada, sozinha no mundo, sem ninguém que cuide de seus exíguos interesses, roubava biscoitos porque passava fome. Eles pararam de comprar biscoito. * A velha não estava tão virada assim. Aguentava tudo calada, mas quando faltou biscoito, saiu de mansinho, madrugadinha chegando. Andou, andou, chegou na delegacia de polícia. O doutor delegado era uma dessas raras pessoas que ocupam cargo público e não roubam de ninguém. E tem o bom hábito de ouvir as queixas dos pobres.
Jovens formam chapa coletiva, condenam coalizão e defendem luta de classe
Ivo Lopes, Iona Açucena e Manu Kisse, os três universitários com projetos para mudar a estrutura política do país Arquivo Pessoal Eles sabem como será difícil, mas estão dispostos a encarar os desafios e lançam a primeira chapa coletiva para concorrer à Câmara Federal nas eleições deste ano. São três jovens, filiados ao Partido dos Trabalhadores (PT), alunos da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), militantes do Movimento Kizomba e Enegrecer, articulados com a política com o foco na luta de classes como elemento transformador da sociedade, e condenam a coalizão com partidos de direita. Manu Kisse, 22 anos, estudante de Ciências Sociais, vice-presidente da União Nacional dos Estudantes (Une) no Estado; lona Açucena, 22, aluna de Enfermagem, vice-presidente do Conselho Municipal de Saúde de Cariacica, militante do Movimento Negro Unificado (MNU); e Ivo Lopes, 27, estudante de Direito e secretário estadual da Juventude do PT, conversaram com Século Diário e, como diz Manu, enfática, “chegou a hora da gente revidar”, para explicar que a candidatura nasceu do entendimento de que “já estamos há muito tempo resistindo”, uma referência à juventude e aos movimentos negro de mulheres, núcleo da militância do grupo. “Chegou a hora da gente ocupar os espaços políticos e construímos uma candidatura que não se sustente em uma única figura, ressaltam, para explicar o porquê ainda não definiram o CNPJ que vai puxar a candidatura”, exigido pelas normas da Justiça Eleitoral. Essas conversas estão em andamento e serão levadas à discussão do partido, que, em julho, consolidará o nome a ser usado na eleição. Como irá se consolidar essa candidatura, com três nomes, para atender às regras eleitorais? Manu: A candidatura puxa muito a partir do entendimento de que estamos há muito tempo resistindo, a juventude, o movimento negro, de mulheres. Somos três figuras, jovens, negros, e que temos os mesmos envolvimentos políticos, e a gente acha que está na hora de ocuparmos esse espaço de representação política. Então o entendimento é que a nossa candidatura seja uma expressão coletiva, plural, com as nossas trajetórias políticas e, também, com as ações dos movimentos sociais e do Partido dos Trabalhadores, traduzindo a coletividade que nós construímos. Ivo: Eu queria destacar que não tem um nome que vai ser deputado, são três deputados disputando dentro dessa coletiva. Portanto, quando as pessoas perguntam a questão do nome, do CNPJ, na questão da urna, é para cumprir a burocracia da legislação. Internamente iremos atuar em conjunto. Nessa linha partidária, o PT está na condução dessa chapa, e fechando uma federação, muito bem encaminhada, com o PCdoB e PV, e nós estamos na construção interna com o partido para nos colocar dentro da federação. É uma nova estrutura política, de jovens, pretos de periferia, que se colocam nesse processo, tanto em disputas internas do partido quanto para a sociedade. E como está esse encaminhamento no PT? Ivo: Existe um processo em construção dentro do partido. Eu, por exemplo, hoje, estou como secretario de Juventude do PT, e isso nos coloca dentro do espaço. Não é uma coisa que surgiu apenas no momento eleitoral. Uma coisa que a gente coloca, é que somos a única candidatura jovem para deputado federal dentro do PT. Iona Açucena explica que a candidatura coletiva surge a partir das duas últimas eleições, sobretudo nos partidos de esquerda, abrindo caminho para mudanças na legislação: “Não mais essa representação de uma única figura”, diz. Para reforçar seu argumento, lembra que em dezembro de 2021, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) abriu canais para candidaturas desse tipo. Trata-se da possibilidade de os partidos políticos disputarem as eleições como uma federação, como se fossem uma só legenda. “Não só nós três como candidatos, para que todos os movimentos sociais de onde a gente se origina tenham voz e representatividade, de base mesmo”. Sobre as bandeiras de luta, os três afirmam que a campanha será a partir do questionamento “dessa institucionalidade vigente”, que só pensa no programa político e, muitas vezes, no partido. “O que nós queremos, destaca Iona Açucena, é que as pessoas olhem para gente e vejam a expressão coletiva de um programa que se dá também de forma coletiva. Temos diretrizes que vão organizar nosso projeto político e isso é fundamental, porque nós queremos um poder compartilhado”. Ioana cita a luta feminista, antirracista, contra o extermínio da juventude negra, e por um novo modelo de segurança pública. Além disso, destaca a “a luta contra a lgbtfobia, contra a precarização do ensino público e a luta dos trabalhadores; queremos revogar a reforma da Previdência; e também a Trabalhista. “Vamos lutar por isso na Câmara dos Deputados”, afirma, condenando ainda mecanismos que barram investimentos na educação, na saúde. “Queremos um SUS robusto, que atenda a todas as camadas da sociedade”. No campo político-eleitoral, como vocês se posicionam? Nesta semana foi consolidado o nome de Geraldo Alckmin como vice de Lula e aqui no Estado a candidatura do senador Fabiano Contarato está indefinida. Qual a posição de vocês? Ivo: O principal objetivo atual é derrotar o bolsonarismo e reconstruir o Brasil, e nossa candidatura alinhada ao PT, que é o nosso partido político. É preciso dizer essa candidatura coletiva, de jovens, tem um programa e uma visão de mundo que vai contra algumas posturas de direita. Acreditamos que o caminho para uma construção democrática, popular e de massa, são com os partidos de esquerda. Manu: Queremos um vice de esquerda, porque entendemos que a sustentação ao governo de Lula será dada pela reconstrução radical do nosso país. Não aceitamos em Alckmin como vice, essa é a nossa posição, mas é preciso destacar que essa discussão anda nem começou. Sobre o cenário estadual, apontam que o Espírito Santo vivencia há 20 anos os objetivos de setores empresariais e defendem a candidatura de Contarato, para eles um projeto alternativo, desenvolvido junto com os movimentos sociais. “Contarato já vem colocando um novo rumo político”, asseguram, e defendem um processo aberto de luta de classes, contrário à coalizão com setores do campo da direita.
Estudantes trans e a jornada para inclusão do nome social no registro escolar
Escolas das redes estadual e municipais da Grande Vitória violam lei que garante o direito a pessoas trans e travestis Agência Brasil A vereadora de Vitória Camila Valadão (Psol) chamou atenção, nesta semana, para problemas relacionados ao uso do nome social em escolas municipais. Ela enviou um requerimento de informação à prefeitura, após denúncias de que estudantes enfrentam dificuldades para ter esse direito garantido, mesmo com uma lei municipal sobre o tema. Entidades que atuam na defesa da comunidade LGBTQIA+ no Estado afirmam que as violações são recorrentes em escolas de toda a Grande Vitória, sejam municipais ou estaduais. “Não é um caso por ano. São casos que acontecem em Vitória, Serra, Cariacica e Vila Velha. E isso é subnotificado, porque quando aparece para a Associação Gold, quase todos foram por sensibilidade dos professores à pauta da pessoa trans e que conhecem a associação e pedem para encaminhar”, relata Deborah Sabará, coordenadora de ações e projetos Grupo Orgulho, Liberdade e Dignidade (Associação Gold). No caso de Vitória, a vereadora Camila Valadão conta que recebeu as denúncias pelos canais de comunicação do gabinete. “Recebemos relatos de que essas pessoas não estão tendo direito ao nome social no ato da matrícula. Consequentemente, nas pautas, essas pessoas vêm sendo tratadas pelo nome do registro civil e não pelo nome social, o que, na nossa avaliação, fere a dignidade humana, os direitos humanos, e inclusive uma lei que existe no município de Vitória”, relata. Trata-se da Lei Municipal N° 8.585, de 2013. A legislação, sancionada durante a gestão de Luciano Rezende (Cidadania), determina que as escolas do município devem incluir o nome social de travestis e transexuais nos registros escolares, como diários de classe, listas de divulgação pública, crachás e outros registros parecidos. No requerimento, Camila destaca que as posturas denunciadas em Vitória também ferem a resolução nº 1, de 19 de janeiro de 2018, do Conselho Nacional de Educação, que confere a estudantes travestis e transexuais o direito de solicitar o uso do nome social nos registros escolares da educação básica. “Essas pessoas estão sendo submetidas a constrangimentos em Vitória. A gente quer saber como isso vem sendo feito dentro da prefeitura e, se não vem sendo feito, vamos tomar as medidas cabíveis, denunciando aos órgãos competentes, para que a gente tenha esse direito garantido”, ressalta Valadão. Divulgação Ao longo do documento, a vereadora questiona quantos alunos e alunas transsexuais ou travestis estão matriculados atualmente na Rede Municipal de Ensino de Vitória; quantos desses já solicitaram a inclusão de nome social nos registros escolares; quantos pedidos foram atendidos e negados; e as justificativas para isso. O documento também requer explicações sobre os protocolos adotados pela Secretaria Municipal de Educação (Seme) quando um aluno ou aluna solicita a inclusão do nome social nos registros escolares; além de questionar quais medidas têm sido adotadas pela pasta para garantir que os estudantes sejam informados dos meios para usufruir de seus direitos. “Esse direito que não vem sendo garantido em Vitória fere completamente a dignidade humana, provoca constrangimento, sofrimento, e tudo isso por parte do Poder Público. Na nossa avaliação, é um completo desrespeito e, por isso, a gente vai cobrar que esse direito seja assegurado na nossa cidade”, conclui. Conflitos familiares e a evasão escolar A negação do direito ao próprio nome faz com que a escola, que deveria ser um local de acolhimento, se torne um espaço de constrangimento. Deborah Sabará explica que, quando os alunos são menores de idade, os conflitos começam dentro de casa, já que, nesses casos, é necessário ter autorização dos pais e responsáveis para a inclusão do nome social no registro escolar. “Isso é uma outra problemática. Até que ponto, como adolescente, eu tenho o direito de escolher e tomar minha decisão? Eu já me defino como uma pessoa trans, mas quem me define pelo nome são os meus pais. Se os pais não estiverem preparados, não estiverem cientes, não forem sensíveis à luta dos seus filhos, eles vão negar esse direito”, enfatiza. Sabará afirma que, este ano, a Associação Gold já recebeu denúncias relacionadas ao nome social nas escolas. Para ela, uma das consequências do problema é a evasão escolar desses alunos. “Nenhuma pessoa que transitou vai aguentar e suportar ser tratada pelo nome de registro, estando em outro gênero”, pontua. Divulgação A psicóloga Iasmyn Cerutti, que atua na Clínica Aconchego, dentro da Associação Gold, explica qual é o protocolo adotado pela instituição após o recebimento das denúncias. “Quando isso chega para nós, fazemos todo esse movimento de entrar em contato com a escola e mandar a portaria que obriga a mudança de nome na chamada. Geralmente, quando a gente faz esse encaminhamento, e mostra que existe essa lei, as escolas mudam”, explica. Outra medida adotada pela Gold é se colocar à disposição da escola, caso a diretoria queira promover uma conversa sobre temas como diversidade de gênero e orientação sexual. “Essa denúncias só acontecem quando os professores são sensíveis, quando os pedagogos são sensíveis. Eles buscam alternativas para ajudar porque sabem que, se ajudar a pessoa trans, ajuda automaticamente nos estudos, ajuda automaticamente na saúde e no convívio dentro de casa. É a construção de uma rede mesmo, para funcionar”, enfatiza Sabará.