Trabalhadores só retornarão às atividades após empresas dialogarem sobre pautas travadas Sindilimpe-ES O Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Asseio, Conservação, Limpeza Pública e Serviços Similares no Espírito Santo (Sindilimpe-ES) anunciou a paralisação dos serviços de limpeza pública em Vitória e Serra, na região metropolitana, e em Cachoeiro de Itapemirim, sul do Estado. Sem diálogo com as empresas, a categoria cobra que pautas urgentes, como alimentos servidos em más condições, sejam atendidas. “Dignidade ou greve”, diz nota publicada nas redes sociais. Nos municípios de Vitória e Serra, as reivindicações envolvem temas como o pagamento do adicional de periculosidade para jardineiros, operadores de roçadeira, e profissionais que atuam na capina e poda de árvores. Também está em pauta o pagamento do tíquete-alimentação em caso de afastamento pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e o direito a um plano de saúde integral com cirurgia e internação para os funcionários. Em Vitória, a paralisação é feita por trabalhadores das empresas Vital e Emec. Na Serra, por funcionários da Emec, Agrovix e Corpus, que também é alvo das reivindicações em Cachoeiro de Itapemirim. As atividades, segundo os trabalhadores, só serão retomadas quando as empresas se propuserem a conversar. “O que a gente quer é dialogar”, aponta a secretária de assuntos jurídicos do Sindilimpe, Madalena Garcia.Ela afirma que o sindicato já havia tentado apresentar as reivindicações às empresas, mas não houve diálogo, mesmo com o vencimento da data-base em janeiro. “Os trabalhadores já não aguentam mais. A gente vem tentando reunião com o sindicato patronal e não consegue. São poucas as empresas que conseguimos dialogar”, aponta. Em Cachoeiro de Itapemirim, além das pautas já citadas, os trabalhadores cobram equiparação salarial com a Grande Vitória. “A mesma empresa que está lá, está aqui. Os mesmos trabalhadores, as mesmas funções. Não tem diferença. Então por que ficar nessa situação de não pagar o que é justo?”, questiona. Outro ponto problemático é o café da manhã dos trabalhadores. De acordo com a convenção coletiva, o pagamento poderia ser feito por meio do repasse do valor do lanche no tíquete, ou pela entrega dos alimentos in natura, como é feito até então. No entanto, funcionários têm denunciado a distribuição de alimentos em más condições. O sindicato cobra que o café da manhã seja pago diretamente no tíquete, no valor de R$ 7 por dia. “O que eles recebem agora é pão velho, margarina da pior espécie, fruta que por dentro está estragada. Pegar um lanche desse é uma falta de respeito. Economiza de um lado e estraga a saúde do trabalhador de outro”, enfatiza Madalena. Em Vitória e Cachoeiro de Itapemirim, desde a manhã desta segunda-feira (21), todos os serviços como coleta de lixo, jardinagem e poda estão paralisados, com exceção da coleta de lixo hospitalar. Já na Serra, parte dos serviços de limpeza urbana foi mantido. Paralisação na Vale Em dezembro, o Sindilimpe-ES também realizou manifestações para garantir direitos de trabalhadores em asseio e conservação que atuam na Vale. Entre as pautas, estavam a manutenção do transporte fornecido pelas empresas, sem custo aos trabalhadores, o pagamento de tíquete alimentação durante o gozo das férias e o pagamento do 13ª tíquete-alimentação. Após uma semana de manifestações na portaria da empresa, o ato foi suspenso para aguardar uma nova mediação no Ministério Público do Trabalho (MPT).
Especulação financeira impõe ‘privataria’ da orla de Vitória e exclui pobres
Professor Arlindo Vilaschi afirma que “enobrecimento” de áreas da Capital é parte de um processo de “limpeza” As transformações urbanas impostas pela especulação financeira em Vitória colocam como irrelevantes o interesse público e social, em um processo de “limpeza” por meio de ações excludentes, que atingem a população mais pobre, principalmente com a “privataria” da orla da cidade, modelo usado para mudar o sistema de gestão dos quiosques da Curva da Jurema e de Camburi, os exemplos mais recentes. O entendimento é do economista e professor aposentado da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Arlindo Vilaschi. Em entrevista a Século Diário, o professor aponta um processo singular de especulação, diferente do modelo tradicional, com ênfase na gentrificação, modelo que promove a “limpeza” de áreas de interesse do capital financeiro, que atualmente atinge não somente a região conhecida como Enseada do Suá, mas toda a cidade de Vitória. “Não interessa ao grupo financeiro que está por trás do que chamo de ‘privataria’ da orla fazer aquilo para os pobres, para o “farofeiro”, analisa. Confira os principais trechos, a partir do primeiro questionamento sobre as características desse novo processo: Arquivo Século Diário Arlindo Vilaschi – O que nós temos agora é um processo muito singular, porque ele é determinado pela acumulação financeira, quase que exclusivamente. Esse é um processo especulativo muito recente na história da humanidade. Porque tem a especulação como parte do comércio, mas quem compra e vende imóvel, quem compra e vende obra de arte, também especula. Seja na Grande Vitória, no Brasil, em Nova Iorque. Só que, neste momento, é um processo muito singular, que é uma especulação em cima de dígitos. Então quando você olha, por exemplo, o que está acontecendo no entorno da Enseada do Suá, consegue identificar uma especulação que não é mais especulação. Não é uma especulação do tipo da empresa Comércio, Indústria de Engenharia Capixaba (Ciec) e de outros incorporadores das décadas de 60/70 do século passado. Nós estamos nos referindo agora a um processo de especulação que traz dinheiro da China, de Nova Iorque, de Londres. É um processo muito menos enraizado e muito mais determinista do que há 50 anos. E aí, tudo é feito em cima da singularidade desse processo especulativo. Então, vejo o processo da gentrificação não só da Curva da Jurema, mas de toda a orla do município de Vitória. De que forma e quando esse processo se inicia? Começa com um processo de privataria dos quiosques, que eram operados por pessoas da iniciativa privada, e você podia identificar pelo nome cada um dos operadores dos quiosques da Curva da Jurema e de Camburi. Tinha o JB, o Eltinho, e outros. O que o município de Vitória fez? Privatizou isso e transferiu todos esses quiosques para uma gestão unificada. Ali entregou todo o pacote. Para quê? Obviamente, aí entra o processo de gentrificação. Porque não interessa ao grupo financeiro que está por trás do que eu chamo de privataria da orla, fazer aquilo para os pobres, para ‘farofeiro’. Não interessa continuar permitindo o vendedor ambulante. Nesse processo, a primeira coisa a ser feita é limpar a área de qualquer vestígio de pobre. E isso começou com relação a moradoras e moradores de rua: o primeiro processo foi esse. Depois, vem outro em nome da segurança. Então, o que se tem: quiosques que se transformam num shopping a céu aberto, que não tem nada a ver com o usuário tradicional da Curva da Jurema. A entrada da classe média como usuária da Curva é muito recente, a partir do estabelecimento daquela Guarderia, que ‘enobreceu’ a área. Esse processo de gentrificação que estamos falando aí, é para atender, majoritariamente, um processo oposto de especulação que começou com o loteamento da Enseada do Suá, na década de 70. Aquela área do shopping foi praticamente cedida, pelo preço tão irrisório, ao grupo Civita, para construir ali um grande hotel 4 Rodas, da Editora Abril, de São Paulo. Ali começou o processo com uma âncora importantíssima, o Shopping Vitória, que, num processo crescente de especulação, resolveu usar a área para fazer especulação imobiliária, que está em gestação há mais de15 anos. Já na administração do então prefeito Luiz Paulo [Vellozo Lucas, PSDB – 1997 a 2004], foi feito o primeiro movimento de dividir a área toda em glebas; depois vieram com propostas de construir prédios, na administração de João [Coser, PT – 2005 a 2013] na qual quase que aprovaram uma indecência, e na atual administração [Lorenzo Pazolini – Republicanos] passaram o projeto que está ali. Um projeto de habitação que não quer conviver nem visualmente com a classe de renda mais baixa. Como agentes públicos, políticos em destaque, contribuem para a consolidação desse processo de gentrificação? Não é à toa que a gentrificação é paralela ao processo de convencimento da prefeitura para aprovar o projeto que lá está, convencimento da prefeitura e de moradores da região. O projeto foi apresentado como um enobrecimento da área que vai trazer ganhos imobiliários para todo mundo. Se você comparar o valor de imóveis, por exemplo, da Ilha do Boi, há cinco anos com os de agora, vai ver que tem um crescimento. Por quê? Ora, agora tem um grande empreendimento com apartamento a preços muito altos. O processo de gentrificação é vendido em nome da segurança, porque todo mundo ficava constrangido, com medo dos pobres que ficavam ali. Então agora não tem mais. Arquivo Século Diário Esse cenário, ao seu ver, é uma comprovação do crescimento do controle total do mercado especulativo sobre a máquina pública e os agentes políticos, a impedir que o Estado desenvolva um projeto visando a sociedade como um todo? Ao contrário, direcionados pelo dinheiro, utilizam um discurso único que até convence as pessoas? É isso, e é importante a gente entender que o capital, de um modo geral, sempre foi presente nas decisões dos poderes, seja ele local, estadual, nacional ou mundial. Com uma diferença: agora, já se faz irreversível, como se fosse irrelevante o interesse público e o interesse
‘Judiciário atua de forma muito restritiva em relação à Lei Maria da Penha’
Promotora compõe grupo nacional de especialistas que irá acompanhar julgamento do agressor de Rosemery Casoli Um julgamento emblemático para o Judiciário capixaba em relação ao combate à violência contra a mulher. Nesta segunda-feira (21), o agressor e ex-marido de Rosemery Casoli, Geraldo Cassimiro, será julgado na 10ª Vara Criminal do Espírito Santo pelos crimes denunciados no processo pelas duas vítimas. A filha do ex-casal, Bruna Casoli Cassimiro, também denunciou agressões do pai e integra o processo. “Enfim o agressor será levado a julgamento”, celebra o Fordan, projeto de extensão da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) que acompanha o processo. O projeto atua nesse e outros casos no Estado, mobilizando uma rede multinstitucional de apoio às vítimas de violência doméstica, grande parte delas revitimizadas pelos órgãos jurídicos, policiais e de outras instâncias, expondo-as a mais violência e maior risco de morte. A professora, artista e pesquisadora Rosemery Casoli é uma das vítimas do machismo institucional e jurídico no Estado. Foto: Arquivo pessoal Em ofício encaminhado na última semana, o Fordan reforça a rede de apoio, convidando as entidades a acompanharem o julgamento. “Contamos com o acompanhamento de todas as entidades que têm se empenhado para que Rosemery Casoli não se transforme em mais um número na estatística de feminicídio”. Entre essas instituições, estão os conselhos nacional e estadual de Direitos Humanos, (CNDH e CEDH), Ministério Público do Estado (MPES), Defensoria Pública Estadual (DPES), Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-ES), além do Fórum de Mulheres (Fomes) e lideranças políticas ligadas à causa feminista e de direitos humanos. “A vítima precisa de justiça, mas também, o movimento de luta contra a violência às mulheres precisa desta vitória, para não perdermos a fé nas instituições públicas”, salienta o Fordan, acrescentando que o caso alcançou repercussão nacional, “devido à complexidade em relação à aplicação da Lei Maria da Penha na sua integralidade”. No Ministério Público, um dos braços fortes nesse trabalho de apoio às mulheres agredidas que buscam a justiça, é o Núcleo de Enfrentamento à Violência de Gênero em Defesa dos Direitos das Mulheres (Nevid/MPES). O Núcleo atua principalmente no “fomento e acompanhamento das políticas públicas de enfrentamento à violência de gênero contra as mulheres e no assessoramento técnico e jurídico dos membros do Ministério Público”, explica a promotora de Justiça Cristiane Esteves Soares, coordenadora do Nevid. Judiciário limitado “Não atuamos em processos. Trabalhamos em projetos de maneira global para a instituição”, diz a promotora, citando, entre os projetos, o Mapa de Mortes Violentas de Mulheres no ES de A a Z e capacitações para os servidores das diversas instituições que compõem a rede de apoio às mulheres e envolve, além do Judiciário, as polícias civil e militar, guardas municipais e secretarias municipais de saúde, educação e de assistência social. Somente para policiais civis e militares, as formações do Nevid envolveram 1,2 mil pessoas em 2021. A promotora de Justiça Cristiane Esteves Soares coordena o Nevid. Foto: MPES “O primeiro momento que a mulher tem contato com essa rede é com as polícias. Esses policiais têm que ter esse cuidado e não focar somente na questão criminal. A própria lei estabelece, no artigo 12, que cabe à autoridade policial fazer os encaminhamentos na rede. E, na saúde, por exemplo, muitas vezes a mulher chega com transtornos mentais, como compulsão e depressão, e as secretarias precisam conseguir identificar isso, que uma doença psicossomática surgiu em razão da violência”, descreve Cristiane. “Há várias subnotificações da violência doméstica”, enfatiza. Esse trabalho de apoio e formação, aponta a promotora, visa corrigir uma falha que persiste nesses espaços, inclusive no Judiciário. “A atuação do Judiciário é muito restritiva em relação à Lei Maria da Penha. Não só decisões de magistrados, mas tribunais superiores também. Vemos isso quando eles entendem que alguns casos não são de violência contra a mulher, enquanto para nós, que estudamos a lei de maneira mais profunda, está muito claro que se trata de violência doméstica”, afirma. “No Espírito Santo e em outros estados, as varas especializadas estão muito sobrecarregadas”, diz, apontando uma das possíveis explicações para repetidos julgamentos que revitimizam as vítimas de violência, mesmo por magistrados que a princípio estão à frente das varas que deveriam se destacar na aplicação plena da Lei Maria da Penha, como ocorreu com a professora, artista plástica e pesquisadora da Ufes Rosemery Casoli. Medidas protetivas Foi somente depois que o caso saiu da vara especializada e passou a tramitar na vara comum, que o julgamento do agressor foi finalmente marcado. Os últimos pedidos de medida protetiva feitos pela professora foram negados pela juíza Brunella Faustini Baglioli, da Vara da Mulher de Vitória. Na última negativa, em setembro passado, a magistrada reafirmou que “não há contornos de gênero. Não há opressão, submissão ou subjugação do masculino sobre o feminino”, e declinou do processo. No mesmo dia, no entanto, na Vara Criminal, a juíza Raquel de Almeida Valinho decidia pela prisão de José Cassimiro, irmão e advogado do ex-marido de Rosemery, em função das agressões que o ex-cunhado deferiu contra a professora e que estão sendo investigadas também pela OAB-ES. A magistrada em seguida autorizou a liberação de José, mediante o cumprimento de medidas cautelares, semelhantes às estabelecidas na medida protetiva estabelecida na Lei Maria da Penha, como manter distância mínima de 500m e proibição de fazer contato com a vítimas, mesmo que por meios eletrônicos. A partir do enquadramento de José, o processo de Geraldo, que acabava de chegar à vara geral da Justiça, acabou tendo tramitação acelerada, com marcação do julgamento para esta segunda-feira (21). “Temos acompanhado os pedidos de medida protetiva no Judiciário. Os indeferimentos são consideráveis”, alerta a coordenadora do Nevid/MPES, informando que somente em janeiro de 2022, dos 1.170 pedidos feitos, apenas 776 foram deferidos. Atendimento acolhedor Cristiane Esteves Soares acredita que a essência da mudança de mentalidade que precisa acontecer, para a plena aplicação da Lei Maria da Penha, é adotar uma “perspectiva de gênero” no tratamento dos casos de violência. “Entender que a mulher que sofre violência é uma vítima”, e não o contrário, como acontece tantas vezes, em
PT lança pré-candidatura de Contarato ao governo nesta segunda-feira
Senador vem se comportando como pré-candidato desde sua filiação ao partido, em janeiro O Partido dos Trabalhadores (PT) lança nesta segunda-feira (21) a pré-candidatura do senador Fabiano Contarato ao governo do Estado, em mais uma sinalização de que crescem as barreiras para uma federação partidária com o PSB, partido do governador Renato Casagrande, uma das vozes contrárias à formação desse alinhamento. A decisão foi tomada pelo Diretório Estadual em reunião nesse sábado (19), encerrada à noite, ampliada com a presença de lideranças e coordenadores setoriais, segundo comunicado divulgado nas redes sociais. O ato acontece no vácuo da visita ao Estado do presidenciável Sergio Moro (Podemos), que foi recebido por Casagrande, no momento em que se debatia a formação de uma federação. Na sexta-feira, durante a visita a Vitória do presidente nacional do Psol, Juliano Medeiros, o assunto esteve na pauta de conversa que ele manteve com lideranças petistas e com o senador Contarato, que desde sua filiação, no mês passado, tem se comportado como pré-candidato ao governo. O ato de lançamento será realizado em horário e local a serem definidos, segundo o PT, com todos os cuidados sanitários. No evento serão apontadas as diretrizes para o programa de governo, de uma política pública de segurança cidadã, e outros pontos que serão debatidos com os movimentos sociais, universidade e demais setores da sociedade.
Agricultores iniciam entregas em domicílio em processo de transição agroecológica
Trabalhadores rurais de Cariacica buscam vender seus produtos sem intermédio de atravessadores A Associação de Produtores Rurais de Cachoeirinha e Sabão (Aprucas), em Cariacica, deu início, neste mês de fevereiro, à entrega de cestas em domicílio, inicialmente em Cariacica, Vila Velha e Vitória. A iniciativa, que faz parte de um processo de transição agroecológica, é uma forma de vender os produtos sem o intermédio de atravessadores, uma vez que os trabalhadores rurais da região vendem principalmente para os grandes mercados, que normalmente compram os produtos por um valor reduzido e comercializam por um bem maior. “Assim, eles acabam sendo escravos do modelo capitalista, servindo de mão de obra barata para os mercados”, diz o técnico agropecuário Moyses Galvão Veiga, que assessora o grupo por meio do Instituto Kairós, uma entidade da sociedade civil que fomenta práticas de produção, distribuição, comercialização e consumo responsáveis. O link para encomenda das cestas é disponibilizado todo sábado, sendo possível fazer pedidos até a quinta-feira, para recebê-las no sábado seguinte. Uma opção é adquirir a cesta já pronta. A outra, é montar a sua própria cesta escolhendo os produtos desejados entre as diversas ofertas de frutas, legumes, verduras, temperos, ervas, proteínas e artesanais, como bolo. Para divulgar o trabalho feito, foram criados perfis no Instagram e no Facebook, além de ser compartilhado no whatsapp. Em cada cidade é traçado um trajeto que contempla determinados bairros. A ideia, caso haja demanda em comunidades que não estão no itinerário, é criar pontos de entrega nessas localidades. Também não está descartada a possibilidade de expandir a atuação para outros municípios. Moyses Galvão Veiga Entretanto, para dar início a essa alternativa de comercialização, cuja ideia surgiu em um curso promovido pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), foi feito todo um processo de mudanças que, segundo Moysés, teve como objetivo empoderar as famílias em um sistema no qual a sustentabilidade é aplicada como um todo, desde a concepção do espaço agrícola até a comercialização, passando pelo modelo de agrícola de produção, ou seja, um processo de transição agroecológica. O primeiro passo foi fazer um diagnóstico da comunidade, no qual se percebeu que a renda dos trabalhadores rurais vinha quase que 100% da produção de banana, detectando-se a necessidade de diversificação da produção. Para isso, uma ação foi a realização de um curso de agrofloresta de horta, ensinando, por exemplo, como montar horta com floresta. Entretanto, essa diversificação, afirma Moyses, é um processo, uma vez que os agricultores da região se concentram no cultivo da banana há cerca de 100 anos, uma atividade que passa de geração em geração. Moyses Galvão Veiga O técnico agrícola informa que, depois da banana, a maior produção na região é de manga, que não era aproveitada pelos agricultores. Ele explica que essa realidade é uma prova de que “o sistema aliena os trabalhadores das possibilidades”, pois enxergam nas grandes monoculturas de soja dos latifúndios, por exemplo, um parâmetro de vida para eles, entretanto, é uma realidade que não se aplica à agricultura familiar. Moysés destaca que quando o agricultor familiar vende um produto em grande quantidade, como no caso da banana, acaba comercializando por um preço menor, devido à grande oferta. Com o processo de diversificação iniciado, as famílias que fazem parte da Associação já estão produzindo hortaliças em geral, frutas cítricas e outros produtos agrícolas, que compõem a cesta. Além disso, a iniciativa busca também agregar valor ao Grupo 7M, formado por mulheres e que comercializa produtos feitos à base de banana, tendo como carro chefe a banana passa. Um dos próximos passos do Grupo 7M é produzir a manga passa. Moyses Galvão Veiga Saúde Durante o processo de transição agroecológica não poderia faltar o esclarecimento sobre a saúde do produtor, do consumidor, e do planeta. Segundo Moyses, alguns agricultores usavam o Roundup, herbicida da Bayer, sendo necessário esclarecer, por exemplo, que esse produto, com o passar do tempo, pode causar câncer em quem o utiliza. “O câncer é apenas uma das doenças”, diz, destacando, inclusive, que isso traz impacto no Sistema Único de Saúde (SUS). Outro esclarecimento foi sobre as consequências da utilização de adubos químicos, “que matam a vida do solo”. “Não utilizá-los é uma forma de não contaminar o solo, o ar, a água, lençóis freáticos”, relata Moyses. Para o presidente da Aprucas, Luciano Sarmento Pereira, há motivos para comemorar diante de todo esse processo de transição agroecológica. “Estamos plantando coisas que a gente não tinha conhecimento técnico para cultivar. A gente quer produzir sem matar. É qualidade de vida de quem produz e de quem come”, diz. Péssimas condições de estrada prejudicam agricultores em Cariacica Trecho que liga Areinha a Duas Bocas é essencial para o transporte da produção, principalmente da banana https://www.seculodiario.com.br/cidades/pessimas-condicoes-de-estrada-dificultam-escoamento-de-producao-agricola-em-cariacica
Depois da meia-noite
Não havia o que roubar nem muito que fazer depois das nove… Alegre: antiga estação ferroviária Quando criança, na casa situada no finalzinho da Avenida Rodrigues Alves, número 51 – a penúltima da rua – as luzes se apagavam às nove horas, seguindo os rígidos princípios de então. Não havia apelo ou rebeldia que mudasse esse ritual – a casa afundava em trevas e mistérios, mesmo se dormíamos com as janelas escancaradas. Isso em casa baixa, um só piso. Não havia o que roubar nem muito que fazer depois das nove – televisão a gente só conhecia dos filmes de domingo, a novela do rádio acabava às 8h. A luz era mínima: tomate pendurado no poste. * Pra quê iluminação feérica se ninguém se aventurava nas ruas depois das nove? O ônibus da Itapemirim passava às cinco rumo a Guaçuí. O bar do Manuel fechava às oito. A partir daí, só mesmo o médico atendendo um derrame; a parteira aparando um bebê que errou a data; a polícia apartando briga de casal; o padre indo prestar Extrema Unção. Como o nome indica, em sendo extrema, só podia ser concedida quando o doente estava nas últimas. Recebendo, não podia sarar. Nenhum desses profissionais da fé, da ordem e da saúde tinha o direito de ignorar o chamado – Não vou porque já passa das nove, a luz tá muito fraca… * Sabemos que o último trem para Jaçanã partia às onze, mas em Alegre as luzes se apagavam às nove, e o resto era medo. O escuro era um buraco sem fundo e à meia-noite as assombrações arrastavam correntes pelas ruas. “Dorme menina, que a bruxa já vem. Papai foi à caça, mamãe logo vem”, cantava a babá. O pai que ia caçar era resíduo da nossa herança cultural europeia. Quem, em Alegre ou no resto do Brasil, passava o dia caçando? A menina dormia com a cabeça metida em baixo das cobertas. A função das babás era trazer saci, alma-penada, bicho-papão e mula-sem-cabeça para o folclore familiar noturno. Dorme, menina… * A meia-noite me intrigava, e nem mesmo era o meio da noite. Se a gente ia pra cama às nove e acordava às sete, o meio da noite seria lá pelas duas da madruga. No entanto, esse era um horário inócuo: se nada lhe acontecesse quando o cuco ecoava as 12 badaladas, pode dormir em paz que nada mais vai acontecer. Raciocínio lógico mas pouco convincente – os monstros se escondiam em baixo da cama; mulas-sem-cabeça rondavam os cômodos: os ancestrais desciam das fotos na parede e perambulavam pela casa; as bruxas batiam nas janelas, pedindo orações. Se alguém nas vizinhanças morresse, então…Dorme, menina! * Muitos anos depois a menina aprendeu que o barulho de passos no meio da noite não era casa mal-assombrada: lavado de dia, o assoalho de madeira secava devagar, estalando e rangendo durante a noite. As bruxas não batiam nas janelas querendo entrar: o vento entortava os galhos da mangueira, fazendo-os arranhar as vidraças. As lascas de madeira esquecidas no fogão de barro chiavam, consumindo seu lume devagar. Dia seguinte a cinza já estava fria – o sol brilhava, a casa era boa, o mundo era feliz – Acorda, menina!
Museu Homero Massena é reaberto em Vila Velha
Na coluna: o edital da polêmica em Vitória; café e literatura; arte drag; lançamentos de Aliado Jota; e MiQ e Naomhi POLÍTICA CULTURAL Restaurado, museu reabre para visita na Prainha PMVV Depois de uma série de obras de restauração, foi reaberto na noite dessa sexta-feira (18), o Museu Ateliê Homero Massena, localizado na Prainha, em Vila Velha. O imóvel foi local de residência e trabalho de um dos mais importantes pintores do Espírito Santo, Homero Massena, e reúne obras do mesmo, e ainda móveis, utensílios, cartas, livros, diplomas e outros materiais. As reformas, além de restaurar pinturas internas e externas do próprio artista nas paredes, também melhoraram a acessibilidade, impermeabilização e outros aspectos. As visitas podem ser feitas gratuitamente, de 10h às 16h, sempre das terças-feiras aos sábados, na Rua Antônio Ferreira Queiroz, 281. ‘Guerra de comentários’ em página de secretário de cultura Como publicado aqui em Século Diário, a Associação de Moradores do Centro de Vitória divulgou uma nota em que reclama da falta de diálogo do projeto Cores que Acolhem, que foi contemplado como edital de Artes Visuais pela Lei Aldir Blanc, com os moradores do bairro. O secretário municipal de Cultura, Luciano Gagno, visitou as obras e postou fotos ajudando nas pinturas em seu Instagram, que foi seguida de uma enxurrada de comentários negativos sobre o conceito e qualidade da obra na Rua Graciano Neves. Segundo alguns, ele chegou a apagar comentários, mas aí é que se intensificaram as críticas. Entre as centenas de comentários, houve quem aparecesse também em defesa do projeto. Houve ‘canetada’ do secretário no edital? A indignação não é só pela questão artística. Explica-se: no resultado preliminar, o edital teve outro grupo vencedor, com cerca de 40 artistas envolvidos. O segundo colocado entrou com recurso, que foi negado pela banca avaliadora. Então, o secretário Luciano Gagno usou critérios próprios para alterar as notas dos jurados, o que resultou na mudança do resultado final do edital, infringindo o que dizia o próprio texto do certame. Um gestor modificar o resultado de uma banca avaliadora – que era composta por servidores da mesma secretaria – é algo, no mínimo, estranho e preocupante. O secretário alegou inicialmente respaldo em um artigo da Lei de Licitações, embora esta aparentemente não incida sobre esse tipo edital emergencial. Seria um caso de improbidade administrativa? Isso precisa ser respondido pela Justiça. A pergunta é: cadê o Ministério Público? Enquanto isso, como a internet não perdoa, a “canetada” virou até meme, por meio de uma montagem. MÚSICA MiQ e Naomhi juntos em novo clipe Projeto da Act Group Art, o clipe da música Miqueísmo, do artista cariaciquense MiQ, conta com participação de Naomhi, outra talentosa artista da nova geração capixaba. No vídeo, eles interpretaram curandeiros. O Act está produzindo uma série de videoclipes contratados na modalidade consórcio, em que os artistas vão contribuindo em parcelas até chegar seu momento de produzir. Outro lançamento é o pop folk da cantora, compositora e guitarrista Renata Portella, de 18 anos, que lança seu segundo single, chamado Foi você, que pode ser ouvido ou assistido por aqui. Aliado Jota retorna: ‘Tô no game’ Um dos grandes nomes das origens do rap no Espírito Santo, Aliado Jota voltou à cena com o trap Tô no game, com beat feito por Skeeter, que já produziu para nomes como Emicida, Rachid e Tássia Reis. Além de disponível nas plataformas de áudio, a música também ganhou um videoclipe. Aliás, já que estamos falando em novidades na música do Espírito Santo, a coluna indica também o site o Melhor da Música Capixaba (@ommc), que divulga regularmente novidades relacionadas com o trabalho de artistas diversos da cena local. OPORTUNIDADES Festival abre inscrições para compositores capixabas Divulgação A segunda edição do ExFest acontece nos dias 13, 14 e 15 de maio e será transmitida pelo canal Explicanção no YouTube, diretamente do Palácio da Música Sônia Cabral, no Centro de Vitória. O evento, que busca valorizar os artistas compositores do Espírito Santo, já tem confirmado nomes como Budah, Bella Nogueira (foto), Izar, Cainã e a Vizinhança do Espelho e o convidado Leo Cavalcanti, paulista radicado na Bahia, para promover o intercâmbio com os capixabas. Além deles, o festival abre inscrições para seleção de outras sete atrações para shows de 40 minutos, com cachê de R$ 2,5 mil. As inscrições vão de 21 de fevereiro a 21 de março, por meio de formulário online que será disponibilizado no Instagram do Explicanção. Editora realiza concurso de literatura e café O Prêmio Café de Poesia é uma iniciativa da Editora Cousa que vai selecionar e publicar em um livro 20 obras poéticas que tragam como tema a cultura do café. “O café sempre foi importante para a literatura. Seja como bebida consumida por leitoras e leitores, escritores e escritoras, seja como espaço para debate, conversa, tertúlias”, justifica o chamado da editora, que é especializada em ambos, já que além das publicações que já renderam prêmios importantes, também administrou cafeterias culturais em Vitória. As inscrições para o prêmio, que podem ser feitas por escritores de todo Brasil, vão até 14 de março, por meios deste edital. Mais informações: (27) 99958-9142. EVENTOS Fabio Carvalho realiza show com campanha solidária Divulgação “Pra Dona Zora com amor” é o nome do show beneficente que acontece na próxima quarta-feira (23) em apoio à mãe do artista Fabio Carvalho, Dona Zora, que precisa de uma série de tratamentos médicos por conta de sequelas irreversíveis deixadas pela Covid-19. Para ajudar a cobrir os custos, o músico convidou alguns de seus amigos e parceiros, como Renato Casanova, Fredy Nery, Anderson Chocolate, Monique Rocha, Manfredo, Nano Viana e Rabujah, para apresentação que acontece a partir das 19h no quiosque Canto da Praia, em Jardim Camburi, Vitória. Além de seu show “Quintal”, Fabio e os colegas vão tocar algumas das canções favoritas de Dona Zora, de artistas como Dalva de Oliveira, Wando, Marina Lima e Zeca Pagodinho. Além disso, serão leiloadas obras de 23 artistas radicados no Espírito Santo, cujos recursos serão doados para apoio à campanha. Quem não puder comprar ou comparecer ao evento,
Por que é problemática a ‘militarização’ das Guardas Municipais?
Entenda como prefeitos vêm criando grupos táticos aos moldes da PM, desvirtuando as funções legais atribuídas às guardas Vídeos feitos por populares na madrugada de 13 de fevereiro mostram uma cena não muito estranha, especialmente para quem mora nas periferias brasileiras. Uma polícia fortemente armada, alguns com rosto semicoberto, jovens negros com mãos e braços estendidos de frente para o muro, um deles colocado no chão e sendo algemado. O que impressionou alguns é que a ação não era da Polícia Militar, mas da Guarda Municipal de Vitória, com seu novo grupo tático, a Ronda Ostensiva Municipal, a Romu, que tem cores, armamentos e ações que podem levar o cidadão que observa de longe a confundi-la com a PM, ou até mesmo com o exército. Não é mero acaso, e sim fruto de uma estratégia que cresce no Espírito Santo mas faz parte de um fenômeno nacional, que causa polêmica. Cada vez mais os prefeitos vêm utilizando as guardas municipais, que são civis e atendem a uma legislação específica, para um uso que perigosamente transita nos limites de sua atuação legal. Ao invés do caráter comunitário, vêm ganhando destaque as ações repressivas, geralmente cercadas de fotografias de prisões e apreensões e um discurso de tolerância zero com o crime, em busca de capitalizar a nível municipal esse sentimento que tem um grande apoio popular. Criada na gestão de Lorenzo Pazolini (Republicanos), a Romu formou sua primeira turma em julho de 2021, com 21 policiais no grupamento tático, que possui viaturas caracterizadas, uniforme diferenciado, carabinas, espingardas, armamento não-letal e cães treinados. A Serra terminou em dezembro passado o primeiro curso de operações táticas de sua Romu, que desde então ganha destaque nas páginas oficiais da guarda nas redes digitais com suas ações e apreensões. Em Vila Velha, a Romu completou um ano de existência, tendo sido criada logo no início da gestão de Arnaldinho Borgo (Podemos), que tem dado bastante destaque à mesma. Em Cariacica, no primeiro mês de ação da Guarda Municipal recém-criada, uma abordagem truculenta ao cantor Mano Feijó, no bairro Vasco da Gama, provocou denúncia do artista e críticas de organizações sociais. Arnaldinho Borgo posa com guardas na apresentação dos novos uniformes da Romu, em tom verde camuflado, diferente do azul marinho recomendado por lei nacional “A questão é que as políticas de segurança pública têm sido pautadas na repressão e apenas em operações policiais nas periferias, estando a Guarda Municipal excessivamente incorporada a essa lógica, especialmente depois da criação de grupos táticos, de treinando nos moldes das polícias, assim como sua atuação em situações que envolvem atribuições que são específicas do policiamento”, analisa Luizane Guedes, professora do departamento de Psicologia da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e pesquisadora no campo da violência, segurança pública e relações étnico-raciais. Não se trata apenas de uma desvirtuação do sentido de criação das guardas, pautado no patrulhamento comunitário e preventivo, mas também de descumprimento legal de suas funções, segundo Pablo Lira, professor do mestrado em Segurança Pública da Universidade de Vila Velha (UVV). “Em vários municípios brasileiros as guardas municipais vêm seguindo uma estruturação bem próxima das unidades especializadas das polícias militares. Isso é um movimento que se distancia da essência do Artigo 144 da Constituição Federal”, aponta. Este artigo delimita as ações dos diferentes órgãos de segurança pública: polícia federal; polícia rodoviária federal; polícia ferroviária federal; polícias civis; polícias militares e corpos de bombeiros militares; e polícias penais federal, estaduais e distrital. No inciso 8º acrescenta: “Os municípios poderão constituir guardas municipais destinadas à proteção de seus bens, serviços e instalações, conforme dispuser a lei”. É só com a Lei 13.022, de 2014, que se dispõe sobre o Estatuto Geral das Guardas Municipais, válido para todas guardas do país. “Incumbe às guardas municipais, instituições de caráter civil, uniformizadas e armadas conforme previsto em lei, a função de proteção municipal preventiva, ressalvadas as competências da União, dos Estados e do Distrito Federal”, aponta o artigo 2º da lei. “Cada órgão tem seu propósito e sua função. A gente não consegue resolver com somente um tipo de ação o problema da insegurança pública, e sim por meio da integração de ações de prevenção e de repressão qualificada”, explica Pablo Lira. Nesse sentido, ele cita três tipos de medidas de prevenção contra a violência. As primárias se baseiam em políticas básicas, de saúde, educação, assistência social, habitação e planejamento urbano. Em nível secundário estão policiamento ostensivo, circuitos de videomonitoramento e outras ações. A prevenção terciária se daria no sistema penal, atuando com medidas de punição e ressocialização de pessoas envolvidas com delinquência. Prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini, com a primeira turma formada para atuar na Romu, grupo criado por ele na Guarda Municipal “Não é necessário ter investimento maciço nas guardas municipais nesse sentido, se já existem estruturas das polícias civil e militar voltadas para a atuação contra essas organizações criminosas para reprimir de maneira qualificada”, aponta Pablo Lira, sobre os investimentos em armamentos pesados e nas unidades táticas. Isso não impede que a guarda e as polícias atuem conjuntamente, como já ocorre e é desejável, quando uma necessita do apoio da outra, mas cada uma dentro de suas funções. Outra questão é sobre os recursos financeiros e humanos investidos nesses grupos táticos municipais. “Até que ponto essa guarda não está se distanciando e desmobilizando estruturas e pessoas que poderiam estar mais voltadas para o policiamento comunitário?”, pergunta o professor. Ele ainda questiona sobre o uso do dinheiro público mobilizando grupos como o Romu, de custo mais elevado, para operações como a que ocorreu no Centro de Vitória no dia 13, que era uma ação do Disque-Silêncio junto a fiscais de posturas com apoio da Guarda Municipal. Segundo alegou a prefeitura à imprensa, durante a operação os guardas teriam recebido uma denúncia de tráfico de drogas, feito abordagens e prendido um jovem com entorpecentes e dinheiro. O relato de um jovem que estava presente no local e foi ouvido pela reportagem, porém, contradiz a versão oficial. “É uma festa frequentada por jovens, minas, negros, negras, população LGBT. Chegaram de seis a oito viaturas
‘Nunca disse não para ninguém, mas quem faz as coisas é a divindade’
Com destaque na luta pelos direitos humanos, Mãe Néia comemora 40 anos de atuação no Espírito Santo Quem vai para o Bairro de Fátima, na Serra, mais precisamente para Nzo Musambu ria Kukuetu, ou simplesmente, Barracão de Mãe Néia, chega lá e se depara com plantas diversas. Enquanto aguarda, escuta o canto dos pássaros. Quando chega Mãe Neia, é a vez de ouvir as divindades. Essa acolhida acontece há exatos 40 anos, já que em fevereiro de 1982, Mãe Néia veio de Santos, em São Paulo, adotando o Espírito Santo como sua terra. Leonardo Sá Aqui ela se tornou uma das referências no combate à intolerância religiosa e na defesa dos direitos humanos. “Nunca disse não para ninguém, mas quem faz as coisas é a divindade. Os guias nos dão intuição, caminho, conhecimento. Todo mundo tem santo, tem Deus presente, mas não é todo mundo que acredita na força divina. Eu acredito até hoje”, ressalta. A mais nova empreitada de Mãe Néia no combate à intolerância religiosa e na defesa dos direitos humanos é a presidência do Centro Nacional de Africanidades e Resistência Afro-Brasileira no Espírito Santo (Cenarab-ES), lançado em outubro passado. Um dos objetivos do Centro, que já existe em 23 estados brasileiros, é fortalecer as comunidades tradicionais, impulsionando sua organização. Leonardo Sá O Cenarab-ES conta com assessoria jurídica para orientar o povo de terreiro em relação a seus direitos, além de cobrar políticas públicas e, também, fortalecer candidaturas de representantes das religiões de matriz africana. “A intolerância religiosa eu vivo não somente aqui no Espírito Santo, mas desde que me iniciei no Candomblé, pois é uma religião de negros. Nós somos tidos como malfeitores, Diabo, cada um dá um nome, mas isso não nos atinge. Ao contrário do que muitos dizem, respeitamos a natureza, sabemos que se a pessoa planta o mal ela colhe o mal, se planta o bem, colhe o bem. O mal está dentro de você, não é dentro do Candomblé, de uma casa de santo. Tem gente que diz que estou no caminho errado. Me prova que estou no caminho errado? Eu deito e durmo com minha consciência limpa”, diz. Mãe Néia também classifica como intolerância “o jeito como o ser humano vive a ostentação, o capitalismo, a destruição ambiental”, e esclarece para aqueles que acreditam que os que professam o Candomblé estão distantes de Deus: “os últimos serão os primeiros, o povo mais sofrido está mais perto de Deus”. Também na defesa dos “últimos”, do “povo mais sofrido”, Mãe Néia já atuou no Fórum Chico Prego, uma das organizações que lutaram pela restauração das ruínas da Igreja de São José de Queimado, na Serra, inaugurada depois de mais de 20 anos de lutas, em agosto de 2020. “Já briguei muito dentro da Câmara da Serra pela preservação da memória daquele espaço. Ali sofreu muita gente, muitos negros foram massacrados”, recorda. Parte interna da Igreja de Queimado. Foto: Vitor Taveira Ao falar dos quilombolas, Mãe Néia brinca dizendo que acha que foi uma em outra encarnação. “Muitos desprezam os quilombolas, acho que já fui quilombola, pois tenho uma defesa por eles, por negros”, afirma a mãe de santo, que, por diversas vezes, já abriu as portas do Barracão para distribuir alimentos para os quilombolas quando eles precisavam estar na Grande Vitória para fazer mobilizações em defesa de suas terras. Assim como eles já foram até a casa dela, Mãe Néia já foi até eles. Ela recorda quando, junto com outras mães e pais de santo, visitou o Sapê do Norte, formado pelos municípios de São Mateus e Conceição da Barra, para participar de manifestações quando os dendezeiros, cujo cultivo mantém a tradição feminina de produção de um azeite utilizado, por exemplo, na preparação do acarajé, estavam sendo envenenados. “Tentam exterminar os quilombolas, suas tradições, mas isso nunca vai terminar. Vão pintar e bordar, mas não exterminam os quilombolas, o Candomblé. O Candomblé tem um poder, que é Deus que dá. A gente tem uma essência e essa essência nunca vai morrer”, acredita. Trajetória no Candomblé Sergipana, ainda na infância Mãe Néia foi para Santos em busca de tratamento, pois não se alimentava, caia, e muitos achavam que se tratava de epilepsia. Entretanto, por meio de um homem que viria se tornar seu pai de santo, descobriu que sua doença não era física, e sim espiritual, o que a fez se iniciar no Candomblé, fazendo com que os problemas de saúde cessassem. “Ele está no mundo da verdade hoje, tem alguns anos que partiu para outro plano. Abaixo de Deus, foi ele que me deu minha saúde. Foi difícil, pois meus pais não aceitavam, eram católicos, mas passei a me dedicar totalmente ao Candomblé”, lembra Mãe Néia. Prestes a fazer 77 anos, a maior parte de sua atuação religiosa no Candomblé foi no Espírito Santo. Assim que chegou, passou a cuidar das pessoas por meio de banhos e outros afazeres. “Ou eu assumia isso ou desencarnava, pois me curei através de um juramento perante a Deus, que como me cuidei, teria que cuidar dos outros. Assumi essa responsabilidade”, reforça. Inicialmente, tudo era feito na própria residência de Mãe Néia, também em Bairro de Fátima. Porém, somente no final da década de 80, ela teve sua primeira filha de santo, quando viu sua história se repetir em uma moça de João Monlevade, Minas Gerais. “Em 1989, não tive escapatória, veio uma menina de João Monlevade, com problemas de saúde, assim como eu tinha, e também não era algo da medicina, era espiritual. Raspei a cabeça dela, fiquei um ano cuidando dela dentro de casa”, rememora. Hoje, Mãe Néia tem 59 filhos de santo, mas o segundo foi somente sete anos depois da primeira. “Levei sete anos para pegar outra. Não é uma brincadeira, é sério. Sempre levei minhas coisas a sério, com respeito a mim mesma e com as pessoas que me procuram. Hoje não tenho vida própria, não tenho horário, me dou de coração. Não faço por fazer, levo com muito carinho, com muito amor”, afirma. Filhos de santo trabalhando no Barracão. Foto: Leonardo Sá Por causa de sua doação, com o passar
Mulheres capixabas fora das margens
“Mais Elas”, novo núcleo da Cufa-ES, vai oferecer capacitação para mulheres das favelas do Estado Redes sociais A Central Única das Favelas do Espírito Santo (Cufa-ES), que diariamente atende famílias em vulnerabilidade social, vai criar um núcleo de atividades totalmente voltado para mulheres. Com previsão de lançamento em março, o projeto “Mais Elas” pretende consolidar uma rede de apoio, que envolve capacitação profissional e combate às discriminações vivenciadas por mulheres das favelas capixabas. A ideia é promover encontros, palestras e cursos, com o objetivo de desenvolver as potencialidades das participantes. As discussões no núcleo também abordarão as discriminações de gênero, raça, etnia e orientação sexual. “O objetivo é fazer com que as mulheres, principalmente as periféricas e negras, entendam que são capazes de ocupar qualquer lugar sem medo, pois são potência! Em todos os sentidos”, afirma a advogada Hellen Tiburcio, uma das organizadoras do projeto. Também organizadora, Rosana Pereira explica que o projeto quer fazer com que essas mulheres, que por vezes se desdobram para garantir o prato na mesa, sejam vistas como protagonistas de suas vidas. “Muitas mulheres hoje trabalham, sustentam seus lares, e ainda ganham menos do que o homem em algumas funções. Então a gente busca trazer a mulher de favela para o centro da sociedade e não viver à margem, como ainda acontece”, aponta. A Cufa-ES já desenvolve ações com mulheres há mais de dois anos, por meio de projetos como o “Mães de Favela”, mas havia uma demanda por um núcleo específico com esse recorte. O projeto é baseado no fomento ao conhecimento e à arte. Por isso, as participantes também terão acesso a iniciativas como o curso de trancista e empreendedorismo feminino. Empreendedorismo que, na maior parte dos casos, é feito por necessidade. Uma pesquisa do Global Entrepreneurship Monitor 2016 (GEM), que realiza o monitoramento de empreendedorismo global, mostrou que 48% das mulheres iniciam a atividade empresarial para complementar a renda ou porque buscam recolocação no mercado de trabalho. Entre os homens, esse número cai para 37%. Quando se trata da população preta, essa realidade é ainda mais marcante. Em janeiro, a presidente do coletivo Mulheres Unidas do Caratoira (Muca), Winy Fabiano, enfatizou que o empreendedorismo preto e periférico, na verdade, é uma forma de sobrevivência. “A maioria dos empreendedores tem capital de giro, nós empreendedores negros e afro empreendedores, começamos do zero. Empreendemos por necessidade, por sobrevivência. Hoje é até perigoso falar de empreendedorismo para a população negra, porque ela não empreende, sobrevive”, disse em recente entrevista ao Século Diário. Cufa-ES O projeto “Mais Elas” parte da Cufa-ES, que tem realizado um trabalho intenso de apoio a pessoas em vulnerabilidade durante a pandemia. Só em 2021, mais de 45 mil famílias capixabas foram atendidas pela organização. No ano passado, a Cufa-ES também realizou ações em 17 municípios do Estado, atendendo mais de 140 favelas, principalmente com a entrega de cestas básicas. Mais informações sobre o novo projeto serão lançadas nas redes sociais do núcleo: @maiselasoficial.