Montanha realiza primeira construção participativa de política municipal no norte do Estado A primeira construção participativa de uma Política Municipal de Agroecologia e Produção orgânica no norte do Espírito Santo será efetivamente lançada em Montanha na próxima quinta-feira (10), com a realização do I Seminário Municipal de Agroecologia, no campus local do Instituto Federal do Estado (Ifes). O seminário é uma realização das Articulações Nacional e Capixaba de Agroecologia (ANA e ACA), por meio da iniciativa Agroecologia nos Municípios, que nas eleições de 2020 mobilizou a adesão de diversos candidatos às prefeituras e câmaras do país, que assinaram a Carta de Compromisso com a Agroecologia. O prefeito de Montanha, André dos Santos Sampaio (PSB), é um dos 47 signatários eleitos para o poder executivo. O município também elegeu um dos vereadores “amigos da Agroecologia”, Zenildo Pereira Xavier (PSB). “A lei tem que ter a cara do povo, tem que contemplar os anseios do povo, das pessoas que vivem e trabalham a agroecologia no seu dia a dia”, conclama o camponês Matheus Pancieri. Ex-estudante da Escola Família Agrícola (EFA) Vinhático e acadêmico de Agronomia no Ifes, Matheus é consultor estadual da ANA e responsável pela “incidência política e mobilização dos principais atores agroecológicos” dentro no âmbito da Agroecologia nos Municípios. Entre esses atores, elenca, estão agricultores familiares, alunos ex-alunos e professores da EFA Vinhático, comunidade quilombola e assentamentos da reforma agrária. Com encerramento previsto para o próximo dia 22, o projeto precisa deixar um produto final que tenha vida longa nas mãos da sociedade de Montanha. “Percebemos que o anseio da maioria das pessoas era a construção de um projeto de lei para a Agroecologia e Produção Orgânica no município, porque uma vez tendo o PL, depois de concluída a iniciativa, podemos continuar trabalhando a temática, exigindo verba pública, aprimoramento dos programas de feiras livres, Centro de Comercialização da Agricultura Familiar, ticket-feira e outros”, relata o consultor. Apoiam o encontro o Ifes, o Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), o Programa de Desenvolvimento Territorial do Bando do Nordeste (Prodeter/BNE) e o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Montanha. Todas, instituições e organizações sociais que têm atuado em conjunto pelo fortalecimento da produção saudável e comercialização justa de alimentos pela agricultura familiar e que agora se reúnem para criar uma ferramenta efetiva. O objetivo é garantir a incidência de maior investimento de recursos públicos – humanos, técnicos e financeiros – em ações e programas que facilitem o acesso das famílias que já trabalham ou desejam trabalhar de forma agroecológica a linhas de crédito, assistência técnica e outras políticas hoje majoritariamente devotadas ao sistema convencional de produção agrícola, ligado ao agronegócio e seu pacote de venenos. Comitê gestor Grande entusiasta e incentivadora da Agroecologia no norte capixaba, Sonia Lúcia de Oliveira Santos, agente de desenvolvimento do Banco do Nordeste no Espírito Santo, também ressalta o diferencial participativo do trabalho que está sendo feito em Montanha e atribui o embrião dessa mobilização ao comitê gestor local territorial da Agroecologia do Prodeter/BNE. “Vamos fortalecer o Comitê. O prefeito se comprometeu a apoiar, alguns vereadores também. O comitê vai reunir as propostas feitas pelas entidades durante o seminário e elaborar um projeto de lei inspirado na Política Estadual e coerente com a realidade do município, que será encaminhado pelo Executivo para a Câmara”, explica. Em seguida, complementa, “vamos trabalhar num Plano de ação de Agroecologia, criar um orçamento, ter um fundo público para financiar a Agroecologia”. Até o momento, observa, “não existe um orçamento, nem municipal, nem estadual. Existem apenas projetos e editais”, aponta, incluindo as ações do Banco do Nordeste como “o oásis em meio ao deserto”, entre elas, um conjunto de projetos que totalizam R$ 800 mil para a implementação, sob coordenação do Incaper, de 15 unidades demonstrativas, envolvendo produção de caldas agroecológicas, sementes crioulas, sistema silvo-pastoril, Sistema Agroflorestal (SAF) e captação de água de chuva. Já financiamento bancário, afirma, em 2021 alcançou R$ 1 milhão em financiamentos. “Os pacotes que os outros bancos exigem para conceder financiamento é um grande obstáculo para os agricultores familiares”, aponta, citando ainda a falta de assistência técnica, nessas instituições financeiras, para elaborar os projetos agroecológicos que buscam financiamento. Exceção, destaca, é o Pronaf Floresta, para quem trabalha com Agroecologia, pois “não exige garantias e disponibiliza até R$ 60 mil”. Em paralelo à elaboração participativa da política municipal de Montanha, muitos dos atores locais também estão envolvidos na construção de Plano de Desenvolvimento da Agroecologia, iniciada logo após a aprovação da Lei Estadual. Política estadual A lei que institui no Espírito Santo a Política Estadual de Produção Agroecológica e Orgânica (Peapo) foi sancionada em 2018, tendo como ponto inicial um documento conhecido como “Carta de Santa Teresa”, que estabeleceu diretrizes para o desenvolvimento da agroecologia do Espírito Santo, com objetivo de contribuir para o desenvolvimento da qualidade de vida das pessoas com o uso sustentável dos recursos naturais e a oferta de alimentos saudáveis. A proposta foi elaborada por um grupo de trabalho composto por membros de diversas instituições, entre elas, governo do Estado, Ministério da Agricultura (Mapa), Assembleia Legislativa, Ifes e Banco do Nordeste. Todas as etapas para a elaboração do Projeto foram discutidas na Comissão de Produção Orgânica do Estado (Ceporg). Mas somente com o Plano de Desenvolvimento, a Politica Estadual poderá ser colocada em prática, prevendo orçamento e diretrizes mais objetivas de ação. Em Montanha, a pretensão é não deixar um intervalo de tempo tão longo entre os dois. Serviço I Seminário Municipal de Agroecologia Quando: 10 de fevereiro (quinta-feira) Onde: Ifes – campus de Montanha Palestras 1: “O presente e o futuro da Agroecologia capixaba”, com Andressa Alves, coordenadora técnica de Agroecologia do Incaper; e Luciano Macal Fasolo, coordenador de Agroecologia e Produção Orgânica da Secretaria de Estado da Agricultura (Seag) Palestra 2: “Empoderamento das organizações sociais x Políticas Públicas”, com Valmir Noventa, membro da coordenação estadual do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) Projetos capixabas integram mapa de políticas para agroecologia https://www.seculodiario.com.br/meio-ambiente/projetos-capixabas-integram-mapa-de-politicas-para-agroecologia Carta da agroecologia já tem 31 candidatos assinantes no Estado – Século Diário https://www.seculodiario.com.br/meio-ambiente/candidatos-assinaram-carta-compromisso-com-agroecologia-no-estado Banco do Nordeste quadruplica financiamento para Agroecologia em 2019 – Século Diário https://www.seculodiario.com.br/meio-ambiente/banco-do-nordeste-quadruplica-financiamento-para-agroecologia-em-2019
Eu moro pertinho de um palácio
Quando é que as coisas deixaram de ser do outro jeito? Um dia fui bela e trigueira, tive amores, vivi meus melhores anos como pude, indiferente às costeletas que a pobreza vai distribuindo pela estrada. Pra ir à praia tinha que me espremer hora e meia no lotação lotado – daí o nome. Biquíni menor que consciência de político. Duas horas na volta, que todo mundo termina não sei o quê na mesma hora. Pra enganar a mardita, escondia um sanduiche na sacola, lá onde as mimadas dos edifícios da orla guardam o batom e o protetor solar. Se tivesse batom, comia, sem preconceito de cor. * Água da bica de tirar areia do pé: Vem quente no solão do meio-dia, mas num deixa de ser água – purifica por dentro e por fora. Essas garrafinha de água mineral é gol de pobre – quem não possui não polui. Todo mundo fala em poluição porque tá na moda, ninguém incorpora o RRR – Reusa, Reduza, Recicla. Diz que reciclar gasta mais do que fazer outro igual. Eu nessa escassez emocional, num reuso porque não tenho o que usar, num reduzo porque num inventaram o menor que nada, não reciclo porque num sobrou nadinha de antes. * Hoje ando por aí catando papel pra me reciclar – tem nenhum dando esmola mais não, moça. Se a cachola não fica esperta, a panaceia não cura nem recupera. Pobre anda a pé pra economizar o asfalto. Ah, mas teve um tempo…era de dar gosto olhar no espelho das vitrina, euzinha garbosa repetida lá no meio daquela gente de plástico vestindo roupa de rico. Pensa que me chateava? Tem gente que implica com tudo mesmo. Eu me lambuzava de alegria, olhando, rindo de dar gosto, cabelão no vento. Pra ter roupa nova, mesmo usada, tinha que ir lá pro fundo da loja, deixar o turco bolinar um pouco. * Aí ganhava um vestido, teve vez que foi um sapato…essas coisa que fica empoeirando nos cabide, ninguém compra – me cabia direitinho. Tinha muito jeito pra agradar os outro, O corpo empinado que nem artista de televisão, me engalanava de vento, ria que nem menino no recreio. Quando é que as coisa deixaram de ser do outro jeito? Quando ainda era bonita num ficava vigiando defeito – e de repente a gente pega um susto. Na mesma vitrina de todo dia tem outra pessoa passando, num sou mais eu. * De uma hora pra outra, o que era doce acabou-se – a cara murcha que nem ameixa, a perna sem força pra subir a escadaria do palácio na correria de antes. O palácio parece que ficou mais alto, mais longe. Num sei porque chama palácio se ali num mora rei nem rainha. A moça bonita que catava papel pra defender uns torresmos no estômago vira a velha que cata papel. Parada no entorno da escadaria que já não pode subir, de costas pro palácio que já não pode admirar.
Mano Feijó lança novo single: ‘Tô na febre’
Na coluna: rapper responde sobre abordagem policial, Film Comission no ES, Sarau em André Carloni, grupos de estudos culturais MÚSICA Em nova música, Feijó responde sobre a abuso policial Na mesma semana em que foi vítima de uma abordagem policial abusiva pela recém-criada Guarda Municipal de Cariacica, o artista Mano Feijó lançou seu novo single, Tô na febre. No clipe da nova canção, gravado antes do fato, o artista canta tendo como fundo vários letreiros com títulos de reportagens justamente sobre a violência policial. Que todas pessoas negras e periféricas possam caminhar tranquilamente pelas ruas neste país ainda tão racista. E que artistas como Feijó sejam notícia por seu trabalho nas páginas de cultura, não na seção policial por esse tipo de abuso tão cotidiano no Brasil. O refrão de Tô na febre diz: “É bala perdida para todo lado quem tá no poder está despreparado a polícia só mata quem é favelado eu quero meu povo alfabetizado” O artista comentou o caso ocorrido em Cariacica no Instagram. Palestra online aborda música do Espírito Santo Daniella Spadeto O jornalista e escritor José Roberto Santos Neves realiza, na próxima quarta-feira (9), uma palestra online sobre discografia da música popular no Espírito Santo, que inclui abordagem historiográfica desde o período colonial até a atualidade, com destaque para as últimas sete décadas, quando a indústria fonográfica se desenvolveu e permitiu gravação dos registros sonoros com maior frequência e qualidade. A atividade terá duração de 50 minutos e transmissão pelo YouTube da Editora Cândida, pela qual foi lançado o livro de José Roberto chamado Os Sons da Memória – Uma leitura crítica de 40 discos que marcaram época na música do Espírito Santo. Como relatou o autor em entrevista ao Século Diário, infelizmente, muitas dessas obras importantes para a música capixaba estão inacessíveis para o público. LITERATURA Sarau em feira livre de André Carloni Divulgação A Caravana Combiousa, realizada pela Kombi literária da Editora Cousa, realiza uma nova expedição no próximo dia 13, desta vez com destino ao município da Serra, mais especialmente no bairro André Carloni. No melhor estilo “lugar de poesia é na calçada”, como cantava Sérgio Sampaio, o projeto vai realizar um sarau na feira livre do bairro, a partir das 9h30. Além disso, no dia 14 haverá um bate-papo sobre literatura na Escola Estadual Dom João Batista, no mesmo bairro, às 19h. Participam das ações um time de peso, composto pela atriz e escritora Suely Bispo, pelo premiado escritor Caê Guimarães, pelo poeta serrano Jânio Silva (foto), e pelo rapper Jean Luca, morador de André Carloni. A atividade é promovida pela produtora Conjunto Criativo, sediada no mesmo bairro. POLÍTICA CULTURAL Espírito Santo prepara criação de Film Comission Secult Órgão com objetivo de atrair e incentivar realização de filmes e produções audiovisuais em seu território de ação, a criação de uma Film Comission no Espírito Santos é uma das metas do convênio ES+Criativo, lançado nesta semana pela Secretaria Estadual de Cultura do Espírito Santo (Secult) em parceria com o Sebrae, em evento que contou com presença do governador Renato Casagrande na última segunda-feira (31). O anúncio chegou a surpreender os produtores audiovisuais do Estado, que se interessam pelo projeto, mas há preocupação sobre se os filmes locais terão os mesmos incentivos que filmes de fora. O convênio vai incluir palestras, cursos, meetups e ações de consultoria. Além desta iniciativa, foram anunciadas outras sete ações do ES+Criativo: Oficinas de Capacitação “Territórios Criativos – Pré Incubação; Estudo de Territórios Criativos Metodologia de Intervenção Estruturada; Encontros Imersões da Cultura; Curso de Desenvolvimento da Música no ES; Agenda coletiva Construção da Rota Estratégica Economia Criativa; Capacitação do segmento de Design no ES; e Workshop de Capacitação Segmento de Games no ES. Mais informações aqui. OPORTUNIDADES Espaço cultural faz cadastro de artistas e expositores A Guava Lab, espaço de produção artística e eventos culturais em Jardim Camburi, Vitória, realiza cadastro de artistas e expositores que se interessem em participar de atividades promovidas no local, que tem como foco a produção autoral. São dois formulários simples e online que servem para avaliação dos produtores para convite a pessoas e projetos que tenham a ver com a proposta do espaço. Além de artistas da música, carro-chefe dos eventos, também são chamados artistas de áreas como desenhos, colagens, artes digitais e afins. DEBATE Grupo de estudos debate desafios da pandemia Depois de um recesso, o Grupo de Estudos de Políticas Culturais (Gepcult) retorna às atividades em 2022, com um debate online com o tema “Os desafios do setor cultural em uma nova onda de Covid-19”. O convidados para participar são Sandra Oliveira, do bloco capixaba Afro Kizomba; Jader Moraes, jornalista do Rio de Janeiro; Israel Dias, do Grupo Tambores da Lua, da Paraíba; Daniela Patrícia do Mais Carnaval, de São Paulo; e Raphael Homem, da Escola de Samba Lins Imperial, do Rio de Janeiro. A atividade acontece dia 7 de fevereiro, às 19h30, na plataforma Jitsi Meet. “O objetivo é refletir, debater e construir caminhos para a retomada, considerando que novas restrições podem ocorrer”, diz o chamado do evento. Para participar é preciso se inscrever neste link. Outro grupo de estudos que estreia neste ano é a Roda de Estudo do Cineclube Jece Valadão, que vai de fevereiro a abril, com dois encontros por mês que vão incluir leituras, exibição e debate de filmes, com início no próximo dia 10 e formato online e gratuito. Para participar, é preciso fazer uma pré-inscrição aqui.
‘Imposição de consumação mínima em quiosques é prática abusiva’
Exigência praticada na Curva da Jurema fere o Código de Defesa do Consumidor, afirma diretor-presidente do Procon/ES A imposição de consumação mínima em quiosques e estabelecimentos similares, como vem acontecendo na praia da Curva da Jurema, em Vitória, trata-se de uma “prática abusiva”, conforme afirma o diretor-presidente do Instituto Estadual de Proteção e Defesa do Consumidor (Procon/ES), Rogério Athayde. A medida fere o artigo 39, inciso 1, do Código de Defesa do Consumidor, que veda práticas como “condicionar o fornecimento de produto ou de serviço ao fornecimento de outro produto ou serviço, bem como, sem justa causa, a limites quantitativos”. Procon/ES Na Curva da Jurema, em algumas tendas localizadas dentro do cercado com corda ao redor dos quiosques, e também as que são disponibilizadas fora dele, ambas em parte da faixa de areia, é exigida consumação mínima de R$ 200,00 em dias de semana e de R$ 300,00 aos sábados e domingos, podendo, inclusive, fazer reserva. Outra opção são as mesas de madeira, com guarda-sol, consideradas mais simples e cujo valor é de R$ 100,00, em qualquer dia da semana. Elaine Dal Gobbo “O comerciante que faz isso age de má-fé, pois há tempos estamos realizando trabalho orientativo”, pontua Rogério. Ele afirma que, embora seja uma prática de difícil detecção, a imposição da consumação mínima é fiscalizada rotineiramente pelo Procon Estadual. A dificuldade, conforme relata, é devido ao fato de que não é algo explícito, pois o consumidor tem ciência da imposição somente quando adentra o estabelecimento e procura informações sobre o serviço pelo qual está buscando. O presidente do Procon destaca que, diante disso, é necessário que os consumidores denunciem. Ao se deparar com essa situação, explica, o cliente deve exigir que o estabelecimento lhe forneça o Código de Defesa do Consumidor, cuja disponibilização é obrigatória, para mostrar o artigo 39, inciso 1, que veda a prática da consumação mínima. Não conseguindo resolver a questão com base no diálogo, é possível registrar Boletim de Ocorrência (BO) na Polícia Militar (PM). Com o BO, é possível, ainda, procurar órgãos de defesa do consumidor, entretanto, o registro do Boletim não é uma obrigatoriedade para que esses órgãos sejam acionados. Rogério também informa que, além do Código de Defesa do Consumidor, o estabelecimento tem obrigação de fornecer os contatos do Procon Estadual e Municipal. Além disso, é possível, em alguns casos, procurar o judiciário e entrar com danos morais ou materiais. Em caso de autuação do Procon, é dado um prazo para defesa do estabelecimento, que pode receber uma multa. O valor depende do grau da infração e da capacidade econômica do empreendimento. Um dos canais para fazer denúncias para o Procon Estadual e tirar dúvidas é o WhatsApp (27) 3323.6237, que funciona de segunda a sexta, das 8h às 18h. Mensagens enviadas aos sábados, domingos e feriados são respondidas em até 48h. Notificação Recomendatória Rogério afirma que, até a próxima segunda-feira (7), o Procon Estadual irá enviar para entidades como o Sindicato dos Restaurantes, Bares e Similares do Espírito Santo (Sindbares) uma Notificação Recomendatória informando sobre as vedações. O envio foi, inclusive, informado em uma reunião realizada em 27 de janeiro, com os Procons municipais, cuja pauta foi a questão da consumação mínima e a necessidade de fiscalização, que, afirma Rogério, também tem sido feita pelos municípios. Curva da Jurema Após repercussão nas redes sociais sobre o processo de gentrificação da Curva da Jurema, Século Diário foi ao local averiguar. É perceptível, por exemplo, que os quiosques, outrora mais simples, deram lugar a outros, mais sofisticados, e, consequentemente, mais caros. Agora já não se encontra com tanta facilidade grupos de banhistas que se divertem com a bola ou outros objetos trazidos de casa, mas é visível, em espaços grandes da faixa de areia, quadras de beach tennis e bases de canoas havaianas, atividades pagas. Academia, café, lojas de roupa, tudo isso agora faz parte do cenário. Leonardo Sá Em um quiosque que a repórter visitou, uma senhora, acompanhada de um rapaz, pediu o cardápio, mas foi informada de que não poderia comer ali porque não é autorizado consumir no local portando uma caixa de isopor. A dela, escrito “vende-se chup-chup”, foi motivo para que, independentemente de pedir o cardápio como uma cliente qualquer, não pudesse usufruir dos serviços. O advogado André Moreira não descarta a possibilidade de o ocorrido com a vendedora de chup-chup poder ser enquadrado na Lei 7.716/1989, que “define os crimes resultantes de raça ou de cor”, e que em seu artigo 8º prevê reclusão de um a três anos em caso de “impedir o acesso ou recusar atendimento em restaurantes, bares, confeitarias, ou locais semelhantes abertos ao público”. “Que não pode entrar com caixa térmica para consumir no quiosque o que trouxe de casa a gente até entende, mas uma trabalhadora ambulante que resolveu parar para comer não poder entrar com a caixa térmica? A gente tem que fazer alguns questionamentos. Quem é que está com a caixa térmica? Há algum impedimento real ou essa pessoa é identificada com alguma etnia? Quem sai de caixa térmica são os mais populares, ela é a marca de uma classe de maioria negra. Nessas situações, é uma violação do direito da pessoa ao serviço, é discriminação”, aponta. Frequentadores da praia queixam-se das mudanças ocorridas. A jornalista Mônica Oliveira morou em Vitória, no bairro São Pedro, durante 15 anos, e sempre frequentou a praia. Agora reside em Brasília e, sempre que visita o Espírito Santo, a Curva da Jurema é parada obrigatória. “Eu morava na periferia, e a praia mais próxima dos bairros da periferia em Vitória é a Curva da Jurema. É a praia que a população de São Pedro frequenta. Sempre que estou aqui, vou até lá. É uma referência para mim, referência de afetos, de lembranças da cidade”, lembra. Entretanto, Mônica lamenta que na última vez que esteve no Estado, em dezembro último, percebeu que a praia não é mais tão acolhedora como antes. “Vi umas tendas e quis sentar para tirar uma foto, mas um funcionário do quiosque disse que não podia. Agora, nem todo espaço é meu, tem espaços que não
Ex-reitor da Ufes contesta criação de entidade paralela de bolsonaristas
Reinaldo Centoducatte afirma que iniciativa é mais um ataque do bolsonarismo às universidades Ufes Ex-reitor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) por dois mandatos, o professor Reinaldo Centoducatte condenou nessa sexta-feira (4) a criação de uma entidade paralela de reitores, composta por nomeados em 2021 pelo presidente Jair Bolsonaro (PL), para fazer frente à tradicional Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes). “É mais um ataque do bolsonarismo às universidades”, acentuou Centoducatte, que também foi presidente da Andifes. A nova entidade, Associação dos Reitores das Universidades do Brasil (Afebras), sem passar pelas eleições internas nas comunidades acadêmicas, conta com seis instituições com representação no Ministério da Educação (MEC), ao contrário da Andifes, que reúne 69 universidades federais, dois Centros Federais de Educação Tecnológica (Cefets) e dois Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia (Ifets). Em postagem divulgada em rede social, o ex-reitor afirma: “Estamos falando de um grupo de reitores nomeados por um governo autoritário, com ausência de projetos e legitimidade. É um ataque direto à autonomia”. Em conversa com Século Diário, ele ressalta, no entanto, que a entidade paralela terá vida curta, já projetando a mudança de governo nas eleições de outubro, possibilitando o começo de uma “vida normal no País”. “Esse ataque é parte do projeto principal deles [governo Bolsonaro] – preconizado desde a campanha – de desconstruir as instituições, que estariam contaminadas, na visão deles”, explica Centroducatte. “Eles não entendem que a universidade é um espaço multifacetado, onde convivem opiniões e ideologias diferentes, e não um instrumento de movimentos de esquerda”, complementa. As instituições representadas pela Afebras são as universidades federais Rural do Semi-Árido (Ufersa), do Ceará (UFC), do Vale do São Francisco (Univasf), de Itajubá (Unifei) dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) e Rural da Amazônia (Ufra). A entidade é presidida por José Candido Lustosa Bittencourt de Albuquerque, reitor da Universidade Federal do Ceará (UFC). Na elaboração da lista tríplice pelo Conselho Universitário, Albuquerque foi o que recebeu menos votos. Para Reinaldo Centoducatte, “a Andifes é a legítima representante dos dirigentes escolhidos democraticamente, com as referências nos estudantes, servidores docentes e técnicos-administrativos”. O ex-reitor, que é apontado como pré-candidato ao Senado pelo PT nas eleições de outubro, confirma que seu nome está colocado e trabalha para obter a confirmação do partido, que tem ainda a também professora Célia Tavares como pretendente à vaga. No entanto, ressalta, essa decisão ficará por conta da federação partidária, cuja criação está em andamento com o PSB, PCdoB e PV.
Certificação é resultado de anos de trabalho pela afirmação camponesa
Agricultores agroecológicos iniciam adequação das propriedades para certificação orgânica por auditoria A certificação orgânica das famílias camponesas do Espírito Santo dá um passo importante nesse início de 2022, por meio de um trabalho pioneiro que visa expandir as possibilidades de comercialização dos produtos agroecológicos atualmente restritos à venda direta. Em reunião realizada nessa sexta-feira (4) com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), agricultores agroecológicos de São Gabriel da Palha, no noroeste do Estado, beneficiadas pelo projeto “Promoção da soberania alimentar de famílias de pequenos agricultores do Estado do Espírito Santo através de métodos de agroecologia, certificação orgânica, marketing e advocacia”, iniciaram o processo de adequação de unidades produtivas, necessário à certificação. O projeto é desenvolvido pelo Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) no norte e noroeste do Espírito Santo, por meio da Associação dos Pequenos Agricultores do Estado do Espírito Santo (Apagees), com apoio da organização alemã Welthaus Bielefeld. A reunião aconteceu na sede da Cooperativa Camponesa (São Gabriel da Palha), que é parceira da Rede Bem Viver do MPA. A atuação do Sebrae integra o programa SebraeTec, que fornece subsídio aos agricultores no acesso à consultoria para a certificação orgânica auditada e que, mais recentemente, passou a disponibilizar também subsídio de consultoria especializada para o procedimento de adequação da unidade de produção às exigências da certificação, seja a de auditoria, seja a participativa. “As famílias que iniciaram esse processo de certificação auditada também estarão na certificação participativa”, salienta Dorizete Cosme, membro da coordenação estadual do MPA no Espírito Santo. Opac O duplo reconhecimento decorre do fato de que as famílias integrantes da Rede Bem Viver/MPA atendidas na iniciativa com o Sebrae também trabalham, em paralelo, na construção de uma entidade camponesa que tende a ser o primeiro Organismo Participativo de Avaliação da Conformidade (Opac) capixaba. Esse tipo de entidade, já existente em outros estados do Brasil, principalmente na região sul, é a única, segundo a legislação brasileira, capaz de fornecer certificação orgânica por meio de processo participativo, dentro do Sistema Participativo de Garantia (SPG). No Espírito Santo, a venda indireta hoje é certificada apenas por auditoria, dentro do Sistema Brasileiro de Avaliação de Conformidade Orgânica (SisOrg), um processo mais caro e inacessível para algumas famílias. Sem essa certificação, a venda dos produtos orgânicos só é permitida de forma direta ao consumidor, em feiras e entregas em domicílio, a partir de uma declaração do Ministério da Agricultura (Mapa) que reconhece o trabalho orgânico feito por um grupo de agricultores organizados por meio de um Organismo de Controle Social (OCS). Há vários OCSs no Estado e os pontos de venda direta se multiplicaram nos últimos anos, para benefício dos agricultores e dos consumidores, que podem acessar um produto saudável e com preço justo. “Ainda não dá para ‘fugir’ da auditada”, ironiza o líder camponês, ressaltando que “a atenção maior [do MPA e da Rede Bem Viver] é pela certificação participativa”. A afinidade maior com a certificação participativa se deve ao seu caráter mais “democrático” e de maior “empoderamento das famílias”, acrescenta. O contexto mercadológico atual, explica, exige adaptação ao processo auditado, para que produtos consolidados da agricultura e agroindústria camponesa –café, pimenta-do-reino, cachaça, cacau – possam ser comercializados em escala nacional e internacional. Enquanto a Opac é criada, as famílias conduzem o avanço da agroecologia expandindo suas possibilidades de comercialização, já estando prontas para quando o sistema participativo brasileiro tiver reconhecimento de novos países no continente americano e para além dele. Douglas Alvaristo, articulador da Rede Bem Viver, acentua que as iniciativas empreendidas pelo povo camponês e outros movimentos sociais, no território capixaba e de outros estados, são basicamente os únicos programas voltados a enfrentar “o contexto de empobrecimento das populações rurais desde o ano de 2016”. O caminho para agroecologia, afirma, “é coletivo, de cooperação e ajuda mútua”. Ação afirmativa Para Clóvis Conte, assessorado pelo projeto, a ação lançada nessa sexta-feira “marca a história, reflete em uma ação, anos de trabalho e luta pela afirmação camponesa, que vem num primeiro momento como uma denúncia ao sistema de produção convencional e, num segundo momento, como uma ação afirmativa”. Ação afirmativa que está intimamente alinhada com os conceitos e práticas identificadas com a Agroecologia, que conectam os agricultores familiares despertos para a necessidade de romper as amarras aos ciclos viciosos e degradantes do agronegócio e realizar a transição agroecológica. “Ser camponês é um modo de viver no campo, trabalhar no campo, e se relacionar com a natureza de uma forma mais harmoniosa possível e sempre preservando os costumes da culinária e da cultura local, e num contexto de trabalho familiar”, pondera Dorizete Cosme. Originalmente, o campesinato é agroecológico, assim como toda agricultura familiar. A Revolução Verde, a partir da década de 1960, recorda Dorizete, “seduziu” muitas famílias, que se viam ainda amarradas a regras bancárias e orçamentos públicos cada vez mais comprometidos com o grande latifúndio e sua sede de venenos. Após duas décadas de expansão sem freio do uso de defensivos agrícolas, polos de resistência e produção de um conhecimento novo foram surgindo, ancorados nas tradições ecológicas do mundo pré-Revolução Verde e modernizado pelas descobertas científicas em múltiplas disciplinas do saber. O futuro é agroecológico O futuro é agroecológico. Quanto antes incorporar-se a ele, mais rápido serão alcançadas as benesses de uma economia e uma vida livre de venenos e nutrida por amor, verdade, respeito e prosperidade. União, luta e amor fortalecem a Agroecologia no norte do Estado Nova loja de alimentos orgânicos em Nova Venécia celebra uma década de trabalho e parcerias https://www.seculodiario.com.br/meio-ambiente/uniao-luta-e-amor-fortalecem-a-agroecologia-no-norte-do-estado De camponês a camponês: assistência técnica fomenta agroecologia – Século Diário https://www.seculodiario.com.br/meio-ambiente/de-campones-a-campones-assistencia-tecnica-fomenta-agroecologia
Triplica o número de municípios capixabas em Risco Moderado para Covid
A capital Vitória é uma das cidades que saiu da classificação de Risco Baixo O número de municípios capixabas em Risco Moderado (amarelo) para Covid-19 subiu de sete para 21, conforme aponta o 93º Mapa de Risco, divulgado nesta sexta-feira (4). As cidades classificadas como de Risco Baixo (verde) totalizam 57. Não há nenhuma em Risco Alto (vermelho). O atual Mapa começa a vigorar na segunda-feira (7) e tem vigência até o próximo domingo (13). No último Mapa, os municípios em Risco Moderado eram Alfredo Chaves, Anchieta, Cariacica, Piúma, Serra, Vila Velha e Montanha, sendo que este último aparece, agora, como de Risco Baixo. Somaram-se a essas cidades, Atílio Vivácqua, Cachoeiro de Itapemirim, Colatina, Conceição do Castelo, Ecoporanga, Guarapari, Ibatiba, Iconha, Jerônimo Monteiro, Linhares, Mimoso do Sul, Pinheiros, São Mateus, Viana e Vitória. Os municípios em Risco Baixo são Afonso Cláudio, Água Doce do Norte, Águia Branca, Alegre, Alto Rio Novo, Apiacá, Aracruz, Baixo Guandu, Barra de São Francisco, Boa Esperança, Bom Jesus do Norte, Brejetuba, Castelo, Conceição da Barra, Divino de São Lourenço, Domingos Martins, Dores do Rio Preto, Fundão, Governador Lindenberg, Guaçuí, Ibiraçu, Ibitirama, Irupi, Itaguaçu, Itapemirim, Itarana, Iúna, Jaguaré, João Neiva, Laranja da Terra, Mantenópolis, Marataízes, Marechal Floriano, Marilândia, Montanha, Mucurici, Muniz Freire, Muqui, Nova Venécia, Pancas, Pedro Canário, Ponto Belo, Presidente Kennedy, Rio Bananal, Rio Novo do Sul, Santa Leopoldina, Santa Maria de Jetibá, Santa Teresa, São Domingos do Norte, São Gabriel da Palha, São José do Calçado, São Roque do Canaã, Sooretama, Vargem Alta, Venda Nova do Imigrante, Vila Pavão e Vila Valério. Painel Covid-19 O Painel Covid-19 registra nesta sexta-feira 913 mil casos de Covid-19 confirmados durante a pandemia no Espírito Santo, além de 13,6 mil óbitos. Nas últimas 24h, 29 pessoas morreram em virtude da doença. No Estado, atualmente existem 403 leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) disponíveis para pacientes infectados pelo coronavírus, sendo que 336 estão ocupados. Dos 367 leitos de enfermaria, 307 não estão disponíveis. Matriz de Risco A Matriz de Risco de Convivência considera no eixo de ameaça: o coeficiente de casos ativos por município dos últimos 28 dias, além da quantidade de testes realizados por grupo de mil habitantes e a média móvel de óbitos dos últimos 14 dias. Já o eixo de vulnerabilidade considera a taxa de ocupação de leitos potenciais de UTI exclusivos para tratamento da Covid-19, isto é, a disponibilidade máxima de leitos para tratamento da doença. As decisões seguem as orientações dos boletins epidemiológicos do Ministério da Saúde e recomendações da equipe de especialistas do Centro de Comando e Controle (CCC) Covid-19 no Espírito Santo, que é composto pelo Corpo de Bombeiros Militar, Defesa Civil, Secretaria da Saúde (Sesa), Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN) e Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).
Nelson Rodrigues e seu folhetim definitivo Asfalto Selvagem
A convenção social é dinamitada com o desvelamento da hipocrisia Divulgação Nelson Rodrigues escreveu o romance Asfalto Selvagem como folhetim publicado periodicamente em jornal. Uma tragédia em moldes herdados do romance dostoievskiano, que aqui ganha os matizes das tramas folhetinescas. Asfalto Selvagem transita entre o popular e o sofisticado. Um dos subtítulos é Engraçadinha, seus amores e pecados, que até virou série na Globo nos anos 1990. O romance folhetinesco Asfalto Selvagem possui uma estrutura dupla, dividido em dois livros diferentes, com uma primeira parte de uma linha narrativa principal, que se relaciona com a tragédia grega, e uma segunda parte que tem a dimensão própria de um romance, aqui tendo uma divisão entre tramas paralelas que se enredam e, por fim, que forma uma crônica do cotidiano. O Livro I, intitulado Dos doze aos dezoito, começa com a narrativa sobre Dr.Arnaldo, em que aparece seu enterro, e que se trata de um pai suicida. Há um boato sobre incesto entre o pai e Engraçadinha, e que resulta numa gravidez. Aqui, há uma confissão que acontece desta com seu irmão Fidélis. O enredo tem um núcleo principal, que não é o incesto entre pai e filha, mas, entre irmã e irmão. O destino cego envolve o incesto, um tabu em que o crime é cometido na mutilação e revelação, o crime expiado do pai, e toda uma trama incestuosa se desenvolve. A hipocrisia tem parentesco com peças como Álbum de Família, também de autoria de Nelson Rodrigues. O Livro I termina, por fim, num aspecto trágico. O Livro II, Depois dos Trinta, tem um caráter cômico, Dr. Odorico como uma encarnação do próprio poder Judiciário, e que está asfixiado em meio a uma luta por redenção. Na narração, Engraçadinha, Durval e Luís Cláudio têm o aspecto de um triângulo amoroso, em que se dá, mais uma vez, o incesto. A cena clássica da compra da geladeira por Dr.Odorico, ao cortejar Engraçadinha, em meio aos filhos dela, Silene, Leleco e Janet, culminando no assassinato de Cadelão, é uma tragicomédia que passa, ao fim, ao largo de Ésquilo e Dostoiévski. Leleco é um Raskólnikov folhetinesco, que mata Cadelão, e passa por dramas que alimentam o enredo típico de um folhetim. Os clichês cômicos também são o combustível de Asfalto Selvagem. Nelson Rodrigues atua como o mestre do clichê e da frase feita, em que tais atributos se elevam a um gênero literário. Ele maneja tais atributos se tornando, com isto, um mestre do melodrama e do folhetim. Os acontecimentos são alimentados por escândalos, elevando os tons de cores quentes do folhetim e do melodrama. As reviravoltas são exageradas para gerar o efeito do ridículo, em que o folhetim tem um enredo que sempre depende de acontecimentos extravagantes, com atores sociais representando verdadeiros clichês. Temos um desfile de pessoas clichês com apelidos clichês. A convenção social é dinamitada com o desvelamento da hipocrisia, uma prática usual das peças e romances de Nelson Rodrigues, e a fixidez dos papéis sociais, nestes folhetins e melodramas, vai pelos ares em ações cada vez mais intrincadas e extravagantes. Os clichês e máximas são repetidos para revelar ideias insólitas e absurdas. O ridículo dos paradoxos esgarça e rompe com a lógica. Mas, o medo do ridículo, na trama rodriguiana, é reservado exclusivamente aos imbecis. Nelson Rodrigues, ele mesmo o paradoxo entre o reacionário transgressor e o anjo pornográfico, usa todos os clichês possíveis a seu favor. No seu teatro desagradável, usa a máscara de tarado, e se dedica às crônicas a partir da década de 1960, em que ganha o papel de polemista. A provocação do leitor é a arte de Nelson Rodrigues, que tem este trânsito em que vira mestre do melodrama e do folhetim e das crônicas jornalísticas. Asfalto Selvagem foi publicado em 1959, e já é uma inflexão no trabalho de Nelson Rodrigues, que cria a síntese entre suas duas frentes que representavam o teatro do desagradável e a provocação do leitor. As características naturalistas, românticas, reunindo o popular e o erudito, são o caráter literário principal da trama rodriguiana, e aqui registra-se a tensão que se dá entre o conservadorismo e a transgressão, o moral e o imoral, estes no mesmo ambiente de hipocrisia. No título, Asfalto Selvagem, a evocação de uma trama extrema, em que os limites são testados à exaustão. Gustavo Bastos, filósofo e escritor.Blog: http://poesiaeconhecimento.blogspot.com
Vacinação de crianças atingiu apenas 17% do público-alvo no Estado
Secretário de Saúde cobra adesão dos pais e responsáveis. Meta é vacinar 90% até o dia 15 de março Tomaz Silva/Agência Brasil Até esta sexta-feira (4), apenas 17% das 393 mil crianças com idade entre 5 e 11 anos, aptas a tomar vacinas contra a Covid-19 no Espírito Santo, receberam a primeira dose. Com estoque de doses da Coronavac e da Pfizer para vacinar todas as crianças da faixa etária, a Secretaria de Saúde cobra a adesão dos pais e responsáveis, já que, para alcançar a meta de imunização, o número de doses diárias aplicadas precisa aumentar. Ao todo, 70,2 mil crianças receberam a primeira dose de algum imunizante contra o coronavírus. Em uma publicação nas redes sociais nesta sexta, o secretário de Saúde, Nésio Fernandes, informou que a meta é vacinar 90% das crianças com primeira dose até o dia 15 de março. “As medidas para garantir a oferta estão sendo tomadas, precisamos da adesão de pais e responsáveis”, afirmou. Para alcançar a meta no próximo mês, uma média de sete mil crianças precisa ser vacinada diariamente no Estado. De acordo com a Sesa, no momento, a média de aplicações é de cinco mil por dia. “Os municípios serão os responsáveis por desenvolver as estratégias (…) Outras estão sendo adotadas, como o mutirão realizado no último final de semana, e os municípios estão sendo orientados a ampliar o acesso das famílias à vacinação através de horários estendidos e atendimentos nos fins de semana nos serviços de vacinação.”, informou. Em Vitória, os índices da cobertura vacinal estão um pouco melhores. De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde (Semus), das 31,3 mil crianças de 5 a 11 anos aptas a receber a vacina na Capital, 7,9 mil foram vacinadas, o que representa uma cobertura vacinal de 25%. A expectativa é que o número aumente com a retomada das aulas. “O retorno das aulas representará a melhor oportunidade de vacinação rápida das nossas crianças/adolescentes e para manter atualizado o esquema vacinal dos nossos trabalhadores”, apontou Nésio. Dados da vacinação em todo Brasil mostram que a adesão também está baixa a nível nacional. Uma reportagem do jornal Estadão levantou que apenas 10% do grupo de 5 a 11 anos recebeu a primeira dose da vacina contra a Covid-19 no país. Com 20 dias de campanha, especialistas atribuem a lentidão à desinformação, que tem desencorajado pais e responsáveis, e à falta de doses enviadas pelo Ministério da Saúde para alguns estados. Além da demora de um mês para efetivar o início da vacinação infantil no Brasil, a pasta tem apostado em campanhas ambíguas. Em uma delas, publicada há uma semana nas redes sociais, afirma apenas que a imunização “é uma decisão dos pais ou responsáveis e é necessária autorização”, sem elencar os benefícios da imunização, já comprovados cientificamente e aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). 20 dias de campanha No Espírito Santo, a vacinação infantil contra a Covid-19 foi iniciada no dia 15 de janeiro, em uma cerimônia simbólica no Palácio Anchieta, em Vitória. Na ocasião, o secretário Estadual de Saúde, Nésio Fernandes, afirmou que a expectativa era completar a imunização de crianças até a metade do ano. “A vacinação das crianças deve seguir até o mês de junho para aplicação das duas doses. Queremos vacinar rapidamente todas as crianças para protegê-las o mais rápido possível desse vírus. A vacina traz proteção para as crianças e é um ato de responsabilidade dos pais para com seus filhos”, disse o secretário. No Estado, a vacinação de crianças de 5 a 11 anos começou pelos públicos prioritários como as crianças com comorbidades; crianças indígenas e quilombolas; e crianças com deficiência permanente. No caso das crianças sem comorbidades, a vacinação estava aberta apenas entre aquelas com idade de 9 e 10 anos. Na última semana, o Governo do Estado decidiu ampliar para todas as faixas etárias de 5 a 11 anos. A pasta enviou um ofício aos municípios capixabas recomendando que as gestões priorizassem a utilização da vacina Coronavac nas idades autorizadas, possibilitando o alcance de mais crianças, já que o estoque de doses pediátricas da Pfizer é reduzido. De acordo com o secretário Nésio Fernandes, a ampliação só foi possível porque o Estado dispõe de estoque de doses da Coronavac. O Espírito Santo também não exige a prescrição médica para imunização desse público, porém, os indivíduos que se enquadram no grupo de comorbidade, devem apresentar laudo que comprove a sua situação específica no ato da imunização.
Vítimas da greve da PM, pretos e pobres entram na ‘política do esquecimento’
Movimento de fevereiro de 2017 provocou a maior crise da segurança pública do Estado “Pelo direito humano à memória, verdade, justiça, reparação e responsabilização!”. A frase abre a nota de protesto divulgada pelo Fórum Capixaba de Lutas Sociais e o Movimento Nacional de Direitos Humanos, nesta sexta-feira (4), data que marca os cinco anos da greve da Polícia Militar, em 2017, quando ocorreu o “assassinato de mais de 300 pessoas pelo braço amado do Estado”, que atinge mais as pessoas pobres e pretas. “Os familiares das vítimas ainda não sabem o que aconteceu, porque existe uma política de esquecimento, sem reparação das perdas dos familiares das mais de 300 vítimas e a ampliação das ações de extermínio da população preta e pobre”, denuncia a psicóloga Ana Heckert, integrante do fórum, que destaca a prática adotada pelas forças de segurança, que consiste em matar, encarcerar e depois investigar. A nota aponta que “a política de “segurança” de Hartung [Paulo] e de Casagrande [Renato] se vale de medidas arbitrárias, punitivistas, que fixam um estereótipo de inimigo supostamente comum da sociedade, reprime, seleciona, encarcera em massa e mata – é a perversidade de Estado que atinge, sobretudo, os jovens negros e pobres”. No mesmo tom, o ativista Isaías Rocha, do Movimento Negro e pai do militante social Lula Rocha, falecido em 2021, aponta a prática de violência contra pobres e pretos, para denunciar o “racimo estrutural e institucionalizado”, acobertado no falso argumento de combate ao tráfico de drogas. “Os crimes durante a greve, inclusive assassinatos, não foram investigados como deveriam e ninguém foi punido”, afirmou, destacando que a população pobre foi a mais a mais atingida. Ambos, Ana e Isaías, lembram que essa situação se mantém e citam a agressão de que foi vítima o educador social Feijó, no último dia 2, no bairro Vasco da Gama, em Cariacica, depois de ser abordado por integrantes da guarda municipal. Negro, foi levado a uma delegacia acusado por desacato a autoridade. E ressaltam o clima racista no país, onde a cada dia ocorrem agressões e assassinatos de pretos. “Os traficantes famosos não moram nos morros”, diz Isaías, para criticar, da mesma forma que Ana Heckert, a forma violenta empregada pelas forças policiais em ações realizadas em locais considerados periféricos. Entram sem mandado e praticam todo tipo de violência. Durante a greve, esse contexto foi exposto sem que houvesse qualquer política de reparação. A greve da Polícia Militar explodiu em 4 de fevereiro de 2017, com duração de 21 dias, resultante da falta de diálogo e do arrocho fiscal imposto pela política neoliberal do então governador Paulo Hartung, que sucateou as forças de segurança e gerou perdas a outros segmentos sociais, entre eles o restante do funcionalismo público. O movimento tomou força com mulheres e familiares dos policiais militares realizando bloqueios nos batalhões da corporação na Grande Vitória e em cidades como Linhares, Aracruz, Colatina e Piúma, impedindo a saída de viaturas e de policiais em serviço. A crise aumentava e motivou o governo do Estado a requisitar a Força Nacional de Segurança. Protesto Sem atividades presenciais, por conta da Covid 19, o protesto assinado pelo Fórum Capixaba de Lutas Sociais e o Movimento Nacional de Direitos Humanos se resume a uma nota, divulgada por meio de redes sociais e encaminhada a lideranças políticas. “As entidades signatárias desta nota, no seu compromisso ético-político de denunciar todas as formas de manifestação da violência, sobretudo aquelas cometidas pelo Estado, por ação, omissão, negligência e/ou cumplicidade, vêm a público resgatar a memória do período de sangue, dor e lágrimas, que jamais poderá ser esquecido: a greve da PM, em 2017”. A nota prossegue e afirma que a “greve da Polícia Militar do ES é consequência de escolhas políticas equivocadas que insistiram e insistem no modelo anacrônico de segurança pública, patrimonial, punitivista, repressor, orientado pelo austeridade fiscal, base de um projeto político que vitima e mata pela condição social, cor da pele e local de moradia”. Em outro trecho aponta diretamente o então governador Paulo Hartung, ao afirmar que “o governo de Hartung apertou ainda mais o cerco aos jovens pobres, pretos, instalando aqui a Força Nacional de Segurança (FNS), que serviu como resposta ainda mais violenta, ao invés da necessária construção de políticas públicas para encarar as profundas desigualdades sociais e todas as formas de privação e desamparo que produzem a violência”. As entidades acrescentam que “o ambiente gerador da greve da PM teve início muito antes de sua deflagração”. A paralisação começou no dia 4 de fevereiro de 2017 e finalizou-se no dia 25, com aproximadamente 300 assassinatos, na sua maioria negros, homens da periferia com idade até 29 anos, informam. “A violência sem precedente se estendeu ainda mais, quando o prefeito de Cariacica, Juninho (PPS), firmou convênio com a Força Nacional de Segurança, sob a tutela do então ministro da Justiça Sergio Moro. No cômputo geral, estima-se que os assassinatos originados na greve de 2017, perpetrados ou autorizados pelo governo e prefeituras, foram cerca de 400 ao longo do período que sucedeu à greve”. E enfatiza: “Famílias inteiras dilaceradas pelo sangue, dor e lágrimas, ante a perda precoce e violenta de seus entes queridos, que jamais tiveram do Estado o reconhecimento da dor, seu luto e tampouco reparação. Pelo contrário, o então governador Paulo Hartung apressou-se em compor força-tarefa para dar resposta rápida sobre os patrimônios lesados e não às famílias das quais vidas foram ceifadas”. As entidades exigem a apuração, “com rigor investigativo e legalidade; imputação dos responsáveis e reparação às famílias das vítimas. Tanto Hartung, quanto o atual governador Casagrande, cuja administração é uma continuidade das práticas de seu antecessor no campo da dita segurança pública, assumiram uma postura verticalizada e indiferente às demandas populares”, criticam. A nota aponta que nos “períodos posteriores à greve da PM, o Espírito Santo testemunhou com assombro os mandados de prisão coletiva nas comunidades periferizadas, como se ser pobre fosse um crime. Naturalizou-se ainda mais a criminalização da pobreza e a desresponsabilização do poder público”. “Foi Casagrande que, como Hartung, não só deixou de se pronunciar perante as famílias, sem investigar um caso